"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

“DEUS MEU, DEUS MEU, POR QUE ME DESAMPARASTE?”


“DEUS MEU, DEUS MEU, POR QUE ME DESAMPARASTE?”

“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Por que estás afastado de me auxiliar, e das palavras do meu bramido?” (Sl 22.1)

O primeiro versículo contém duas notáveis expressões que, embora aparentemente contrárias uma à outra, no entanto vão sucessivamente penetrando cada vez mais o coração dos santos. Quando o salmista afirma sentir-se abandonado e destituído da presença de Deus, esta aparenta ser a queixa de um homem em profundo desespero. Pois é possível que permaneça em alguém pelo menos uma única fagulha de fé, quando crê que não há em Deus socorro algum para ele? E, no entanto, ao chamar a Deus, por duas vezes, de Deus meu, e ao depositar no seio divino seus gemidos, ele faz uma confissão mui distinta de sua fé. Com esse conflito íntimo, o crente piedoso necessariamente será exercitado toda vez que Deus retraia dele os emblemas de seu favor; de modo que, em toda e qualquer direção que volva seus olhos, nada vê senão a densa escuridão da noite. Digo que o povo de Deus, ao contender consigo mesmo, por um lado descobre as debilidades da carne, e por outro demonstra evidência de sua fé. Com respeito aos réprobos, visto que nutrem em seus corações desconfiança para com Deus, sua perplexidade mental os abate, e assim os incapacita a aspirarem a graça de Deus pela fé. Que Davi resistia os assaltos da tentação, sem se deixar esmagar, ou sem se deixar tragar por ela, pode facilmente deduzir-se de suas palavras. Ele fora profundamente oprimido pela dor; não obstante isso, prorrompe em linguagem de certeza: Deus meu! Deus meu! - o que não poderia ter feito sem resistir vigorosamente a apreensão contrária de que Deus o abandonara. Não existe um sequer dentre todos os santos que não experimente em seu ser, um dia ou outro, a mesma coisa. Segundo os juízos da carne, Davi imaginava que havia sido ignorado e abandonado por Deus, enquanto que, pela fé, apreende a graça de Deus, a qual se acha oculta aos olhos dos sentidos e da razão. E assim sucede que as afeições contrárias são misturadas e entrelaçadas com as orações dos fiéis. Os sentidos e a razão carnais não podem fazer outra coisa senão formar de Deus a concepção de ser ele ou favorável ou hostil, segundo as atuais condições dos fatos como se lhes apresentam. Quando, pois, ele nos mantém sofrendo por muito tempo, como se quisesse nos consumir de desgosto, inevitavelmente iremos sentir, segundo a sensação da carne, como se ele tivesse nos esquecido completamente. Quando tal sensação de perplexidade toma total posse da mente de uma pessoa, ela é mergulhada em profunda descrença, e não mais busca e de forma alguma espera encontrar o remédio. Se a fé, porém, lhe vem em seu socorro, reprimindo uma tentação de tal natureza, a mesma pessoa que, julgando segundo a aparência externa dos fatos, considerava Deus como que enraivecido contra ela, ou como que a tendo abandonado, mira no espelho da promessa a graça de Deus que se acha oculta e distante. Entre essas duas emoções contrárias, os fiéis são agitados e, por assim dizer, se veem flutuantes quando Satanás, de um lado, pondo diante de seus olhos os sinais da ira divina, os impele ao desespero, e tudo faz para destroçar completamente sua fé; enquanto que a fé, por outro lado, trazendo-lhes à lembrança as promessas [divinas], os ensina a esperar pacientemente e a confiar em Deus, até que uma vez mais ele lhes revele seu semblante paternal.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.

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