“DEUS MEU, DEUS MEU, POR QUE ME DESAMPARASTE?”
“Deus meu, Deus
meu, por que me desamparaste? Por que estás afastado de me auxiliar, e das
palavras do meu bramido?” (Sl 22.1)
O primeiro
versículo contém duas notáveis expressões que, embora aparentemente contrárias
uma à outra, no entanto vão sucessivamente penetrando cada vez mais o coração
dos santos. Quando o salmista afirma sentir-se abandonado e destituído da
presença de Deus, esta aparenta ser a queixa de um homem em profundo desespero.
Pois é possível que permaneça em alguém pelo menos uma única fagulha de fé,
quando crê que não há em Deus socorro algum para ele? E, no entanto, ao chamar
a Deus, por duas vezes, de Deus meu, e ao depositar no seio divino seus
gemidos, ele faz uma confissão mui distinta de sua fé. Com esse conflito
íntimo, o crente piedoso necessariamente será exercitado toda vez que Deus
retraia dele os emblemas de seu favor; de modo que, em toda e qualquer direção
que volva seus olhos, nada vê senão a densa escuridão da noite. Digo que o povo
de Deus, ao contender consigo mesmo, por um lado descobre as debilidades da
carne, e por outro demonstra evidência de sua fé. Com respeito aos réprobos,
visto que nutrem em seus corações desconfiança para com Deus, sua perplexidade
mental os abate, e assim os incapacita a aspirarem a graça de Deus pela fé. Que
Davi resistia os assaltos da tentação, sem se deixar esmagar, ou sem se deixar
tragar por ela, pode facilmente deduzir-se de suas palavras. Ele fora
profundamente oprimido pela dor; não obstante isso, prorrompe em linguagem de
certeza: Deus meu! Deus meu! - o que não poderia ter feito sem resistir
vigorosamente a apreensão contrária de que Deus o abandonara. Não existe um
sequer dentre todos os santos que não experimente em seu ser, um dia ou outro,
a mesma coisa. Segundo os juízos da carne, Davi imaginava que havia sido
ignorado e abandonado por Deus, enquanto que, pela fé, apreende a graça de
Deus, a qual se acha oculta aos olhos dos sentidos e da razão. E assim sucede
que as afeições contrárias são misturadas e entrelaçadas com as orações dos
fiéis. Os sentidos e a razão carnais não podem fazer outra coisa senão formar
de Deus a concepção de ser ele ou favorável ou hostil, segundo as atuais
condições dos fatos como se lhes apresentam. Quando, pois, ele nos mantém
sofrendo por muito tempo, como se quisesse nos consumir de desgosto,
inevitavelmente iremos sentir, segundo a sensação da carne, como se ele tivesse
nos esquecido completamente. Quando tal sensação de perplexidade toma total
posse da mente de uma pessoa, ela é mergulhada em profunda descrença, e não
mais busca e de forma alguma espera encontrar o remédio. Se a fé, porém, lhe
vem em seu socorro, reprimindo uma tentação de tal natureza, a mesma pessoa
que, julgando segundo a aparência externa dos fatos, considerava Deus como que
enraivecido contra ela, ou como que a tendo abandonado, mira no espelho da
promessa a graça de Deus que se acha oculta e distante. Entre essas duas
emoções contrárias, os fiéis são agitados e, por assim dizer, se veem
flutuantes quando Satanás, de um lado, pondo diante de seus olhos os sinais da
ira divina, os impele ao desespero, e tudo faz para destroçar completamente sua
fé; enquanto que a fé, por outro lado, trazendo-lhes à lembrança as promessas
[divinas], os ensina a esperar pacientemente e a confiar em Deus, até que uma
vez mais ele lhes revele seu semblante paternal.
Deus nos abençoe!
João Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.

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