"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



quarta-feira, 25 de março de 2020

“Paz e Segurança”

“Paz e Segurança”
Em paz me deito e logo pego no sono, porque, SENHOR, só tu me fazes repousar seguro” (Sl 4.8).

Amados irmãos, temos neste salmo um precioso exemplo deixado pelo rei Davi, quando premido pela adversidade, envolvido em profunda aflição, considerou firmemente as promessas de Deus, nas quais a esperança de salvação é demonstrada, de modo que, usando este escudo em sua defesa, eliminou a angústia que o assolava.

Confiando e descansando na proteção divina, Davi desfrutou de paz e segurança. Viver livre de todo temor, e do tormento e inquietação que a preocupação nos traz é uma bênção que deveria ser desejada acima de todas as demais coisas. Com razão o salmista prefere a harmonia produzida pelo Espírito de Deus do que toda sorte de bênção material; pois a paz interior do espírito certamente excede a todas as bênçãos das quais possamos formular alguma concepção.

Portanto, aprendamos com este admirável testemunho a render a Deus esta honra, a saber: crer que, embora pareça não haver da parte dos homens recursos ou qualquer socorro, todavia, sob a mão do nosso poderoso Deus somente, é que somos guardados em paz e em segurança, como se estivéssemos defendidos por todos os exércitos da terra.

Lembremo-nos do que disse Cristo Jesus, o “Príncipe da Paz”: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize” (Jo 14.27). 

Deus nos abençoe!

Pr. José Rodrigues Filho

*Visite a Igreja Presbiteriana Silva Jardim - Curitiba/PR.
Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário.
(41)3242-8375

domingo, 22 de março de 2020

“E sereis filhos do Altíssimo”.

“E sereis filhos do Altíssimo”.
“Ó SENHOR, meu Deus, se sou culpado de fazer esta coisa, se há iniquidade em minhas mãos, se paguei com o mal a quem estava em paz comigo, e não libertei aquele que me perseguia sem causa: então que o inimigo persiga minha alma e a alcance; espezinhe no chão minha vida e arraste no pó minha glória” (Sl 7.3-5).

Notamos nesta oração que o salmista Davi menciona duas particularidades em sua defesa. A primeira é que ele não havia cometido erro algum contra alguém; e a segunda é que havia se esforçado em fazer o bem em favor de seus inimigos, por quem, não obstante, havia sido injuriado sem nenhuma justa causa. Ele declara que havia sido amigo, não só em relação aos bons, mas também em relação aos maus; e não só se refreara de toda e qualquer vingança, mas que até mesmo socorrera seus inimigos, por quem fora cruelmente perseguido.

Certamente não seria uma virtude muito louvável amar os bons e pacíficos, a não ser que haja uma associação entre essa autonomia e a docilidade em suportar pacientemente os maus. Mas quando uma pessoa se guarda não só de vingar as injúrias que haja recebido, mas também se esforça por vencer o mal pela prática do bem, ela está a manifestar uma das graças da natureza renovada e santificada, e com isso prova a si mesma pertencer ao rol dos filhos de Deus; pois tal mansidão só pode proceder do Espírito de adoção.

Palavra do Senhor Jesus: “Digo-vos, porém, a vós outros que me ouvis: amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam; bendizei aos que vos maldizem, orai pelos que vos caluniam. Se amais os que vos amam, qual é a vossa recompensa? Porque até os pecadores amam aos que os amam. Se fizerdes o bem aos que vos fazem o bem, qual é a vossa recompensa? Até os pecadores fazem isso. Amai, porém, os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai, sem esperar nenhuma paga; será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo. Pois ele é benigno até para com os ingratos e maus. Sede misericordiosos, como também é misericordioso vosso Pai” (Lc 6.27-36).

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Comentário do Livro dos Salmos, Edições Paracletos.

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sexta-feira, 20 de março de 2020

“O SENHOR julgará as nações

“O SENHOR julgará as nações”
O SENHOR julgará os povos [ou nações]; julga-me, ó SENHOR, segundo minha justiça e segundo a integridade que há em mim” (Sl 7.8).

O SENHOR julgará as nações. Esta cláusula está estreitamente conectada ao versículo precedente. Davi orou a Deus para que ele se revelasse como juiz das nações; e agora ele assume como uma verdade insofismável e admitida que julgar as nações é o ofício peculiar de Deus; pois o verbo conjugado no tempo futuro, e traduzido, julgará, denota, aqui, uma ação contínua; e tal é o significado do tempo futuro nas cláusulas gerais. Além disso, ele aqui não fala de apenas uma nação, senão que compreende todas as nações. Ao reconhecer a Deus como o Juiz do mundo inteiro, ele conclui logo depois disto que Deus manterá sua causa e seu direito. Mui frequentemente parece que somos esquecidos e oprimidos, e quando isso acontece, devemos evocar esta verdade à nossa lembrança, ou seja: já que Deus é o governante do mundo, é tão absolutamente impossível que ele se abdique de seu ofício quanto é impossível que ele negue a si próprio. De tal fonte fluirá um manancial contínuo de conforto, ainda que uma longa sucessão de calamidades nos comprima; pois à luz dessa verdade podemos seguramente concluir que ele cuidará de defender nossa inocência. Seria contrário a todos os princípios de são raciocínio supor que aquele que governa muitas nações negligencie ainda que seja uma única pessoa. O que sucede com respeito aos juízes deste mundo jamais sucederá com respeito a Deus; ele não pode, como sucede com os juízes da terra, estar tão ocupado com os negócios grandes e públicos que venha a negligenciar os problemas individuais, por uma questão de incapacidade em atendê-los.

Davi uma vez mais introduz a visão de sua integridade, ou seja, que ele não podia, segundo o exemplo dos hipócritas, fazer do nome de Deus um mero pretexto para melhor promover seus próprios propósitos. Visto que Deus não se deixa influenciar pelo respeito humano, não podemos esperar que ele esteja do nosso lado, e a nosso favor, se porventura nossa causa não for boa. Pergunta-se, porém, como é possível que Davi, aqui, se gabe de sua própria integridade diante de Deus, quando em outros passos ele suplica a Deus que entre em juízo com ele. A resposta é fácil, e é esta: O tema aqui desenvolvido não é como Davi podia responder se Deus demandaria dele que desse conta de toda sua vida, mas que, ao comparar-se com seus inimigos, ele mantém, e não sem razão, que em relação a eles ele era justo. Mas quando cada santo é passado em revista pelo juízo divino, e seu próprio caráter é testado por seus próprios méritos, a questão é muito diferente, porque, em tal conjuntura, o único santuário ao qual pode ele recorrer em busca de segurança é a misericórdia de Deus.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Comentário do Livro dos Salmos, Edições Paracletos.

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terça-feira, 17 de março de 2020

“Salva-me por tua Graça”

“Salva-me por tua Graça”
“Meus gemidos me têm levado à exaustão; todas as noites faço nadar meu leito; com minhas lágrimas o alago” (Sl 6.6).

Essas formas de expressão são hiperbólicas, porém não se deve imaginar Davi, à moda dos poetas, exagerando seu sofrimento; ele, porém, declara real e simplesmente quão severo e amargo o sentia. Deve ter-se sempre em mente que sua aflição não procedia tanto de ter ele sido severamente ferido com fadiga física; considerando, porém, o quanto Deus estava desgostoso com ele, viu, por assim dizer, o inferno escancarado para recebê-lo; e a fadiga mental que isso produz excede a todos os demais sofrimentos. Aliás, quanto mais sinceramente é um homem devotado a Deus, muitíssimo mais severamente perturbado é ele pelo senso da ira divina; e é por isso que as pessoas santas, que de outra forma são dotadas de inusitada fortaleza, têm revelado neste aspecto muito mais debilidade e necessidade de determinação. E nada nos impede, nestes dias atuais, de experimentar em nós pessoalmente o que Davi descreve concernente a si, senão a estupidez de nossa carne. Os que têm experimentado, mesmo em grau moderado, o que significa lutar contra o temor da morte eterna, se sentirão satisfeitos com o fato de que nada há de extravagante nestas palavras. Portanto, saibamos que aqui Davi nos é apresentado como alguém que é afligido com os terrores de sua consciência e sentindo em seu íntimo tormentos, não de uma espécie ordinária, mas de uma espécie tal que quase o levou ao total desfalecimento; e, não obstante, em todo tempo nunca cessou de orar a Deus.

SENHOR, não me repreendas na tua ira, nem me castigues no teu furor. Tem compaixão de mim, SENHOR, porque eu me sinto debilitado; sara-me, SENHOR, porque os meus ossos estão abalados. Também a minha alma está profundamente perturbada; mas tu, SENHOR, até quando? Volta-te, SENHOR, e livra a minha alma; salva-me por tua graça” (Sl 6.1-4).

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Comentário do Livro dos Salmos, Edições Paracletos.

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sexta-feira, 13 de março de 2020

SENHOR, até quando?

SENHOR, até quando?
Tem compaixão de mim, SENHOR, porque eu me sinto debilitado; sara-me, SENHOR, porque os meus ossos estão abalados. Também a minha alma está profundamente perturbada; mas tu, SENHOR, até quando? Volta-te, SENHOR, e livra minha alma; salva-me em consideração por tua misericórdia (Sl 6.2-4).

Mas tu, SENHOR, até quando? Há quem, para completar esta sentença, a complemente com as palavras: me afligirás? ou: continuarás a castigar-me? Outros leem: Até quando adiarás tua misericórdia? Mas o que está declarado no versículo seguinte mostra que este segundo sentido é o mais provável, pois ali Davi ora para que o Senhor o considerasse com olhos de graça e compaixão. Ele, pois, se queixa de Deus se haver esquecido dele, ou que não tinha por ele nenhuma consideração, assim como aparentemente Deus se mantém afastado de nós sempre que sua assistência ou graça realmente não se manifesta em nosso favor. Deus, em sua compaixão para conosco, permite que oremos para que se apresse em socorrer-nos; mas quando nos queixamos abertamente de sua muita delonga, visando a que nossas orações ou nosso sofrimento, por essa conta, não vão além dos limites, devemos submeter nosso caso inteiramente à sua vontade, e não querer que ele se apresse mais do que lhe apraz.

Volta-te, SENHOR. O salmista deplorou a ausência de Deus; e agora ele ansiosamente solicita as indicações de sua presença; pois nossa felicidade consiste nisto: que somos alvos da consideração divina, porém cremos que ele se encontra alienado de nós caso não nos apresente alguma evidência substancial de seu cuidado por nós. Que Davi, naquele tempo, enfrentava risco máximo, deduzimos dessas palavras, nas quais ele ora tanto pelo livramento de sua alma, por assim dizer, das guelras da morte, quanto por sua restauração a um estado de segurança. Todavia, não se faz qualquer menção de alguma enfermidade física; e, portanto, não faço ideia alguma sobre a natureza de sua aflição. Davi, uma vez mais, confirma o que só tocara no segundo versículo concernente à misericórdia de Deus, isto é, que este é o único refúgio donde espera vir seu livramento, a saber: salva-me em consideração por tua misericórdia. Os homens jamais encontrarão um antídoto para suas misérias, enquanto, esquecendo-se de seus próprios méritos, diante do fato de que são os únicos a enganar a si próprios, não aprenderem a recorrer à misericórdia gratuita de Deus.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Comentário do Livro dos Salmos, Edições Paracletos.

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quinta-feira, 12 de março de 2020

“No sepulcro, quem te dará louvor?”

“No sepulcro, quem te dará louvor?”
Pois, na morte, não há recordação de ti; no sepulcro, quem te dará louvor?” (Sl 6.5).

Quando Davi diz: “Pois, na morte, não há recordação de Deus, nem no sepulcro qualquer celebração de seu louvor". Eis sua intenção: se, pela graça de Deus, ele fosse libertado da morte, lhe seria agradecido e guardaria isso na memória. E lamenta que, se fosse retirado do mundo, ficaria privado do poder e da oportunidade de manifestar sua gratidão, visto que, nesse caso, ele não mais estaria presente na sociedade dos homens para ali enaltecer ou celebrar o Nome de Deus. À luz desta passagem, alguns concluem que os mortos não têm emoção alguma e que esta é completamente extinta neles. Essa, porém, é uma inferência precipitada e injustificada, pois de nada se trata aqui senão da celebração mútua da graça de Deus, na qual os homens se engajam enquanto caminham na terra dos viventes. Sabemos que somos postos sobre a terra para louvar a Deus com uma só mente e uma só boca, e que esse é propósito de nossa vida. A morte, é verdade, põe um fim a esses louvores; mas não se deduz desse fato que as almas dos fiéis, quando despida de seus corpos, são privadas de entendimento ou não são sensibilizadas por qualquer afeição para com Deus. Deve considerar-se também que, na presente ocasião, Davi temia o juízo de Deus se a morte lhe sobreviesse, e isso o fez mudo para não cantar os louvores de Deus. E unicamente a benevolência de Deus, sensivelmente experimentada por nós, que abre nossos lábios para a celebração de seu louvor; e, portanto, sempre que a alegria e o bem-estar se esvaem, os louvores, naturalmente, também se esvaem. Não é de admirar, pois, se a ira de Deus, que nos subjuga com aquele medo de destruição eterna, extingue em nós os louvores de Deus.

Volta-te, SENHOR, e livra a minha alma; salva-me por tua graça. Pois, na morte, não há recordação de ti; no sepulcro, quem te dará louvor? Estou cansado de tanto gemer; todas as noites faço nadar o meu leito, de minhas lágrimas o alago” (Sl 6.4-6).

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Comentário do Livro dos Salmos, Edições Paracletos.

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segunda-feira, 9 de março de 2020

“Pois tu, SENHOR, abençoas o justo”

Pois tu, SENHOR, abençoas o justo
Mas regozijem-se todos os que confiam em ti; folguem de júbilo para sempre, porque tu os defendes; e em ti se gloriem os que amam o teu nome. Pois tu, SENHOR, abençoas o justo e, como escudo, o cercas da tua benevolência” (Sl 5.11,12). 

“Pois tu, SENHOR, abençoas o justo e, como escudo, o cercas da tua benevolência”. Davi confirma neste ponto a sentença conclusiva do versículo precedente, isto é, que todos os servos de Deus em geral buscarão apoio para sua fé com base no que ele experimentou, pois ele, partindo de um só exemplo, poderia moldar nosso juízo sobre a imutabilidade e perpetuidade da graça divina para com todos os santos. Também, por esse meio ele nos ensina que não existe alegria genuína e eficaz senão aquela que nasce do senso do amor paternal de Deus.

A palavra abençoar, quando falamos dela como um ato humano, significa desejar felicidade e prosperidade a alguém e orar por ele; quando, porém, é expressa como um ato divino, significa o mesmo que fazer uma pessoa prosperar, ou enriquecê-la abundantemente com todas as coisas boas; porque, visto que o favor de Deus é eficaz, sua bênção, por natureza, produz em abundância tudo quanto é bom.

O título justo não se restringe a uma pessoa em particular, mas significa todos os servos de Deus em geral. Aqueles, contudo, que na Escritura são chamados justos, não são assim chamados em razão do mérito de seus feitos, mas porque têm fome e sede de justiça; pois, como Deus os tem recebido em seu favor, não lhes imputando seus pecados, ele aceita seus sinceros esforços como perfeita justiça.

O que se segue tem a mesma importância que a cláusula precedente: Tu os premiarás com teu gracioso favor, ou, melhor, como com um escudo. O que Davi quer dizer é o seguinte: o fiel será completamente defendido de todos os lados, visto que Deus, de forma alguma, os privará de sua graça, a qual é para eles uma fortaleza inexpugnável, e a mantém em perfeita segurança. O verbo premiar, que o salmista emprega, às vezes denota ornamento ou glória, mas, visto que aí se adiciona a similitude de um escudo, não tenho dúvida de que ele o usa metaforicamente no sentido de fortificar ou cercar. O significado, pois, é que, por maiores e variados sejam os perigos que cercam os justos, não obstante eles escaparão e se salvarão, porque Deus lhes é favorável.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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sexta-feira, 6 de março de 2020

“Ó SENHOR, Guia-me em Tua Justiça”

“Ó SENHOR, Guia-me em Tua Justiça”
Ó SENHOR, guia-me em tua justiça, por causa de meus adversários; endireita teu caminho diante de minha face” (Sl 5.8).

Há quem explique essas palavras da seguinte forma: Mostra-me o que é certo e faz-me totalmente devotado à prática daquela justiça que adorna teu caráter; e faze assim por causa de meus adversários; pois os santos, impelidos pela perversa prática e fraudulentas artes dos ímpios, correm o risco de desviar-se do caminho reto.

Esse significado é inquestionavelmente piedoso e proveitoso. A outra interpretação, porém, é mais adequada, a qual visualiza as palavras como uma oração para que Deus guie seu servo em segurança por entre as armadilhas de seus inimigos e lhe abra uma via de escape, mesmo quando parecesse a todos que fora apanhado e cercado de todos os lados. A justiça de Deus, portanto, nesta passagem, como em muitas outras, deve ser entendida como sendo sua fidelidade e misericórdia demonstradas na defesa e preservação de seu povo.

Davi, aspirando ter a Deus como guia de seus passos, se anima na esperança de obter o que pedira, uma vez que Deus é justo; como se dissesse: Senhor, já que és justo, defende-me com teu auxílio, para que eu escape das ímpias tramas de meus inimigos. Da mesma importância é a última cláusula do versículo, onde ele ora para que o caminho de Deus fosse endireitado diante de seu rosto, em outras palavras, para que fosse libertado pelo poder de Deus dos infortúnios com que se via completamente cercado, e dos quais, segundo o juízo da carne, ele jamais esperava encontrar uma via de escape. E assim ele reconhece quão impossível lhe era evitar cair nas malhas de seus inimigos, a menos que Deus lhe desse sabedoria e lhe abrisse uma via por onde não existia passagem. Cabe-nos, à luz de seu exemplo, fazer o mesmo; de modo que, desconfiando de nós mesmos quando os conselhos fracassam e prevalecem a malícia e a perversidade de nossos inimigos, recorramos imediatamente a Deus, em cujas mãos estão os escapes da morte.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“O Vingador da Perversidade”

“O Vingador da Perversidade”
“Pois tu não és Deus que tem prazer na iniquidade, e contigo não habita o mal. Os insensatos não permanecerão em tua presença; tu odeias a tantos quantos cometem iniquidade. Tu destróis os que falam falsidade; o SENHOR abominará o sanguinário e o fraudulento”(Sl 5.4-6).

Aqui, Davi toma a malícia e a perversidade de seus inimigos como argumento para corroborar sua oração na qual busca o favor divino para sua proteção. A linguagem é deveras abrupta, como os santos em oração às vezes gaguejam; mas tal gagueira é mais aceitável aos olhos de Deus do que todas as figuras de retórica, embora sejam por demais refinadas e brilhantes. Além disso, o grande propósito que Davi tem em vista é mostrar que, embora a crueldade e traição de seus inimigos houvera alcançado seu ponto máximo, era impossível que Deus não os detivesse logo em seu caminho. Sua ponderação tem por base a natureza de Deus. Já que a justiça e o comportamento reto são o seu prazer, Davi, à luz desse fato, conclui que Deus tomará vingança de todos os injustos e perversos. E como seria possível que escapassem de suas mãos impunemente sendo ele o Juiz do mundo? Esta passagem é digna de nossa mais especial atenção. Pois temos experiência de quão intensamente somos desencorajados pela desmedida insolência dos perversos. Se Deus não a refreasse imediatamente, ou éramos entorpecidos e desanimados, ou lançados em total desespero. Davi, porém, à luz desse fato, antes encontra razão para ânimo e confiança. Quanto maior era a ilegalidade com que seus inimigos agiam contra ele, mais intensamente ele suplica pela preservação provinda de Deus, cuja função é destruir todos os perversos, porquanto ele odeia toda e qualquer perversidade.

Que todos os santos, pois, aprendam quão amiúde têm que combater a violência, a fraude, a injustiça, elevando seus pensamentos a Deus a fim de se animarem com a inabalável esperança de livramento, segundo também Paulo os exorta em 2Tessalonicenses 1.5: “sinal evidente”, diz ele, “do reto juízo de Deus, para que sejais considerados dignos do reino de Deus, pelo qual, com efeito, estais sofrendo”. E seguramente não seria ele o juiz do mundo se não houvera guardado consigo em depósito uma retribuição destinada a todos os ímpios. O único uso, pois, que se pode fazer desta doutrina é o seguinte: ao vermos os perversos entregando-se às suas luxúrias, e, consequentemente, ao duvidarmos secretamente em nossas mentes se é verdade que Deus cuida de nós, aprendamos a satisfazer-nos com a consideração de que Deus, que odeia e abomina toda iniquidade, não permitirá que eles escapem à punição; e embora os tolere por algum tempo, finalmente se assentará em seu tribunal e revelará sua vingança e que ele é o protetor e defensor de seu povo. Ainda podemos inferir desta passagem a doutrina comum de que Deus, embora opere pela instrumentalidade de Satanás e dos ímpios, e faz uso da malícia deles para a execução de seus juízos, nem por isso é ele Autor do pecado, nem tem nele prazer, porquanto o fim que ele propõe é sempre justo; e com razão condena e pune aos que, por sua misteriosa providência, são dirigidos por onde quer que lhe apraz.

No quarto versículo, Davi declara que não há acordo entre Deus e a injustiça. Imediatamente a seguir ele prossegue falando dos próprios homens, dizendo: os insensatos não permanecerão em tua presença; e esta é uma inferência muito justa, ou seja, que a iniquidade é algo odioso a Deus, e que, portanto, ele executará justo castigo sobre todos os perversos. Ele os chama de insensatos, segundo um uso frequente do termo na Escritura, os quais, impelidos por cega paixão, mergulham de cabeça no pecado. Nada é mais insensato do que para o ímpio rejeitar o temor de Deus e nutrir o desejo de fazer da injúria seu princípio diretor; sim, não há pior loucura do que desprezar a Deus sem a influência de quem os homens pervertem todo o direito. Davi põe esta verdade diante de seus olhos para seu próprio conforto; nós, porém, podemos também extrair dela doutrina muito útil para exercitar-nos no temor de Deus; pois o Espírito Santo, ao declarar Deus como o vingador da perversidade, nos põe um freio para reprimir-nos de vivermos em pecado, na vã esperança de escaparmos impunemente.

João Calvino (1509-1564).

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