"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



sexta-feira, 3 de julho de 2026

“SANTIFICA-OS NA VERDADE; A TUA PALAVRA É A VERDADE”


“SANTIFICA-OS NA VERDADE; A TUA PALAVRA É A VERDADE”

“Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17:17).

Santifica-os na verdade. Esta santificação inclui o reino de Deus e sua justiça; ou seja, quando Deus nos renova por seu Espírito, ele confirma em nós a graça da regeneração e a leva até o fim. Portanto, ele pede em primeiro lugar que o Pai santifique os seus discípulos, ou, em outros termos, que os consagre inteiramente a si e os defenda como sua herança sacra. Em seguida, ele realça os meios de santificação, e não sem razão; pois há fanáticos que se dedicam a tagarelar sobre a santificação com infantilidade tão inútil, porém negligenciam a verdade de Deus, pela qual nos consagra a si. Além disso, como há outros que também tagarelam tolamente sobre a verdade, e, contudo não levam em conta a palavra, Cristo expressamente afirma que a verdade, pela qual Deus santifica a seus filhos, não se encontra em qualquer outro lugar senão na palavra.

Tua palavra é a verdade. Por palavra, aqui, Cristo denota a doutrina do evangelho, a qual os apóstolos já tinham ouvido dos lábios de seu Mestre e a qual mais tarde iriam pregar a outros. Neste sentido, Paulo diz que a Igreja foi purificada com a lavagem de água pela palavra [Ef 5.26]. Aliás, é somente Deus que santifica; mas como o evangelho é o poder de Deus para salvação de todo o que crê [Rm 1.16], quem se aparta do evangelho como o instrumento, torna-se mais e mais sujo e contaminado.

A verdade é aqui tomada, à guisa de eminência, pela luz da sabedoria celestial, na qual Deus se manifesta a nós, para que nos forme a sua imagem. É verdade que a pregação externa da palavra por si mesma não realiza isso, pois essa pregação é impiamente profanada pelos réprobos; lembremo-nos, porém, de que Cristo fala dos eleitos, a quem o Espirito Santo eficazmente regenera por meio da palavra. Ora, como os apóstolos não estavam totalmente destituídos desta graça, devemos inferir das palavras de Cristo que a santificação não é instantaneamente completada em nós no primeiro dia, mas que fazemos progresso nela ao longo de todo curso de nossa vida, até que, por fim, Deus havendo despido de nós as vestimentas da carne, nos encha com sua justiça.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

quinta-feira, 2 de julho de 2026

“A FIM DE QUE TODOS SEJAM UM”


“A FIM DE QUE TODOS SEJAM UM”

“A fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17:21).

O nosso Senhor Jesus uma vez mais estabelece que o propósito de nossa felicidade consiste na unidade, e com razão; pois a ruína da raça humana consiste em que, havendo a mesma alienado de Deus, ela é também por si mesma esfacelada e dispersa. Portanto, a restauração dela, ao contrário, consiste em ser ela propriamente unida em um só corpo, como Paulo declara que a perfeição da Igreja consiste em que: “Esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz. E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo... que é a cabeça. De quem todo o corpo, bem-ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor” [Ef 4.3,11-16]. Por essa razão, sempre que Cristo falar sobre unidade, lembremo-nos quão humilhante e dolorosamente, quando separado dele, o mundo se acha disperso; e, em seguida, aprendamos que o começo de uma vida bem-aventurada está em que sejamos todos governados e que todos vivamos, unicamente pelo Espírito de Cristo.

Além disso, deve-se entender que, em cada exemplo no qual Cristo declara, neste capítulo, que ele é um com o Pai, ele não fala simplesmente de sua essência divina, mas que ele é denominado um com respeito a seu ofício medianeiro, e no que respeita ser ele nossa Cabeça. Muitos dos pais, sem dúvida, interpretaram essas palavras no sentido em que, absolutamente, Cristo é um com Pai, porque ele é o Deus eterno. Mas em suas disputas com os arianos foram levados a tomar passagens isoladas e a torcer seu sentido natural a fim de empregá-las contra seus antagonistas. Ora, o desígnio de Cristo era amplamente distinto daquele que surgiu na mente deles, em sua mera especulação sobre sua Deidade secreta; pois ele arrazoa com o fim de mostrar que devemos ser um, do contrário a unidade que ele tem com o Pai seria infrutífera e sem valor para nós. Para compreender corretamente o que se pretendia com a expressão de que Cristo e o Pai são um, devemos tomar cuidado para não privar a Cristo de seu ofício como Mediador, mas, antes, devemos vê-lo no caráter de a Cabeça da Igreja e unido a seus membros. E assim a cadeia de pensamento será preservada, e a fim de evitar que a unidade do Filho com o Pai seja infrutífera e sem valor, o poder dessa unidade deve ser difundido através de toda a corporação dos crentes. Daí também inferirmos que somos um com o Filho de Deus; não porque ele nos transmita sua substância, mas porque, pelo poder de seu Espírito, ele nos comunica sua vida e todas as bênçãos que ele recebeu do Pai.

Para que o mundo creia. Alguns explicam a palavra mundo significando os eleitos, os quais, naquele tempo, estavam ainda dispersos; visto, porém, que a palavra mundo, ao longo de todo este capítulo, denota os réprobos, sinto-me mais inclinado a adotar uma opinião distinta. Ocorre que, imediatamente depois, ele traça uma distinção entre todo seu povo e o mesmo mundo de que ele agora faz menção.

O verbo crer tem sido usado inexatamente em lugar do verbo saber, isto é, quando os incrédulos, convencidos por sua própria experiência, percebem a glória celestial e divina de Cristo. A consequência é que crendo, não creem, porque tal convicção não penetra o sentimento íntimo do coração. E uma vingança justa de Deus é que o esplendor da glória divina ofusque os olhos dos réprobos, porque não merecem ter uma clara e pura visão dela.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

“QUEM OS CONDENARÁ?”


“QUEM OS CONDENARÁ?”

“Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós” (Rm 8.34).

Visto que ninguém terá êxito em sua acusação diante da absolvição do juiz, assim também qualquer condenação não prevalecerá quando as leis são satisfeitas e a dívida, quitada. Cristo é aquele Único que sofreu o castigo que era nosso, e por isso declarou que tomou o nosso lugar a fim de pôr-nos em liberdade. Portanto, qualquer um que quiser condenar-nos terá que matar o próprio Cristo novamente. Porém, ele não só já morreu, mas também ressurgiu como vencedor da morte, e assim triunfou sobre o seu poder mediante sua ressurreição.

O apóstolo Paulo adiciona algo mais, ou seja: Cristo, declara ele, está agora assentado à mão direita do Pai. Este fato o fez dominador do céu e da terra, e com autoridade plenária governa todas as coisas, de acordo com sua afirmação em Efésios 1.20. Finalmente, ele nos ensina que Cristo está assim entronizado com o fim de ser o eterno Advogado e Intercessor em prol de nossa salvação. Segue-se disto que, se alguém desejar condenar-nos terá não só que invalidar a morte de Cristo, como terá também que lutar contra o incomparável poder com o qual o Pai honrou ao Filho e com o qual conferiu-lhe soberana autoridade. Esta sólida segurança que ousa triunfar sobre o Diabo, a morte, o pecado e as portas do inferno deve estar profundamente implantada no coração de todos os santos, porquanto nossa fé não seria nada, se porventura não nos persuadisse com plena certeza de que Cristo é nosso, e que o Pai se nos fez propício em seu Filho. Portanto, para longe toda concepção perniciosa ou destrutiva com a qual os dogmas escolásticos minam a certeza de nossa [inabalável] salvação.

E também intercede por nós. O apóstolo insistiu em fazer esta adição explícita com o fim de evitar que a divina Majestade de Cristo viesse a terrificar-nos. Portanto, ainda que Cristo mantenha todas as coisas em sujeição sob a planta de seus pés, assentado em seu trono de soberania, Paulo o apresenta como Mediador, cuja presença seria simplesmente absurda caso nos aterrasse, visto que não só nos convida para ele com gesto benevolente, mas também comparece diante do Pai por nós no exercício de Intercessor infalível. Não temos como medir essa intercessão pelo nosso critério carnal, pois não podemos pensar do Intercessor como humilde suplicante diante do Pai, com os joelhos genuflexos e com as mãos estendidas. Cristo, contudo, com razão intercede por nós, visto que comparece continuamente diante do Pai, como morto e ressurreto, que assume a posição de eterno Intercessor, defendendo-nos com eficácia e vívida oração para reconciliar-nos com o Pai e levá-lo a ouvir-nos com prontidão.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

“QUEM INTENTARÁ ACUSAÇÃO CONTRA OS ELEITOS DE DEUS?”


“QUEM INTENTARÁ ACUSAÇÃO CONTRA OS ELEITOS DE DEUS?”

“Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica” (Rm 8.33).

A primeira e principal consolação dos santos, nas adversidades, é serem eles persuadidos da munificência paternal de Deus. Daqui procede tanto a certeza da salvação quanto a tranquila segurança da alma, pelas quais as adversidades são suavizadas, ou, pelo menos, a crueza da dor é mitigada. Portanto, dificilmente existe uma exortação à paciência mais apropriada do que quando entendemos que Deus nos é propício. E é por isso que o apóstolo Paulo faz dessa confiança o princípio da consolação, por meio do qual os crentes devem ser fortalecidos contra todos os males. Visto que a salvação do homem é assaltada, primeiramente por meio de acusações, e em seguida destruída por meio de condenação. Paulo antes remove o perigo que a acusação traz, pois só existe um Deus perante cujo tribunal devemos nos pôr. Portanto, visto que é ele quem nos justifica, então não há lugar para acusação. Aparentemente, as cláusulas contrastadas não se acham dispostas com exatidão. As duas partes que Paulo deveria contrastar são: “Quem acusará?” e “é Cristo quem intercede”. Ele deveria, pois, ter adicionado as outras duas cláusulas: “Quem nos condenará? É Deus quem justifica”. À absolvição divina corresponde a condenação, e à defesa de Cristo corresponde a acusação. Mas Paulo tinha razão para fazer tal transposição, visto que queria armar os filhos de Deus com aquela sólida confiança que é capaz de guardá-los de quaisquer ansiedades e temores. Sua conclusão, pois, de que os filhos de Deus não estão sujeitos a acusações, visto que é Deus quem os justifica, é muito mais enfática do que se dissera que Cristo é o nosso Advogado; pois, ao proceder assim, ele expressa mais claramente que a via de acesso para o julgamento é completamente obstruída quando o juiz pronuncia estar o prisioneiro completamente isento de culpa, diante dos acusadores que exultariam em vê-lo definitivamente condenado.

O mesmo argumento se aplica igualmente à segunda cláusula. Paulo nos mostra que os crentes não mais estão sob o risco de sofrer condenação, visto que Cristo, ao expiar seus pecados, antecipa o julgamento divino; e, através de sua intercessão, não só aboliu a morte, mais também lançou nossos pecados ao esquecimento, de modo que não mais são levados em conta [contra o crente].

A substância do argumento consiste em que somos não só isentos do terror mediante a disponibilidade de antídotos, ao chegarmos diante do tribunal divino, mas que Deus mesmo vem antecipadamente em nosso socorro, a fim de poder munir-nos com uma confiança muito mais sólida.

Entretanto, é preciso notar aqui o que temos afirmado sempre, ou seja: que, segundo Paulo, ser justificado significa ser considerado justo mediante a absolvição da sentença divina. Não é difícil provar isto na passagem em apreço, na qual Paulo argui com base em uma só proposição com o fim de anular a proposição oposta. Absolver e acusar são opostos entre si. Portanto, Deus não permitirá qualquer acusação que se levante contra nós, visto que já nos absolveu de toda culpa. O Diabo, certamente, vive a acusar todos os santos [Ap 12.10]; e a lei de Deus, por sua própria natureza, bem como a própria consciência humana, igualmente nos reprovam. Todavia, nenhum destes elementos tem qualquer influência sobre o Juiz que nos justifica. Nenhum adversário, pois, pode abalar, muito menos destruir, nossa salvação.

Paulo igualmente faz referência a eles como eleitos, de maneira tal que remove qualquer dúvida de fazer ele parte de seu número. Ele não possuía tal conhecimento com base – como caluniam os sofistas – em uma salvação especial, e, sim, com base naquela percepção comum a todos os santos. Portanto, a afirmação, aqui, com referência ao eleito pode, segundo o exemplo de Paulo, ser aplicada por todos os santos a si mesmos. Outrossim, tivesse ele sepultado a eleição no secreto conselho de Deus, e seria ela uma doutrina não apenas carente de calor, mas também sem vida. Porém, visto que Paulo, aqui, está deliberadamente introduzindo algo que todos os santos devem aplicar a si próprios, não há dúvida de que todos nós somos levados a examinar nossa vocação, a fim de podermos determinar se de fato somos filhos de Deus.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

sábado, 27 de junho de 2026

“APÓSTATAS - É IMPOSSÍVEL OUTRA VEZ RENOVÁ-LOS PARA ARREPENDIMENTO” - Parte 3


“APÓSTATAS - É IMPOSSÍVEL OUTRA VEZ RENOVÁ-LOS PARA ARREPENDIMENTO” - Parte 3

“É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia” (Hb 6:4-6).

Sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento. Ainda que isso pareça duro, não há razão para acusar-se a Deus de crueldade quando alguém sofre de tal penalidade unicamente em virtude de sua rebelião. Esse fato não é inconsistente com outras passagens bíblicas, onde a misericórdia de Deus é oferecida aos pecadores tão logo suspirem por ela [Ez 18.27]. Nelas requer-se aquele arrependimento pelo qual aquele que uma vez apostata completamente do evangelho jamais é realmente atingido. Tais pessoas são merecidamente privadas do Espírito de Deus e são entregues a uma mentalidade reprovável de modo que são entregues ao diabo e caminham para a destruição. Assim sucede que não cessam de acrescentar pecado sobre pecado, até que, completamente endurecidos, desprezam a Deus ou, à semelhança daqueles que caem em desespero, o fulminam com seu furioso ódio. Todos aqueles que apostatam vêm para este clímax: ou são atingidos por profunda insensibilidade e ausência de temor, ou amaldiçoam a Deus, que é seu Juiz, por não conseguirem escapar dele.

Sintetizando, o apóstolo está nos afirmando que o arrependimento não está no poder do homem. Ele é conferido por Deus somente àqueles que não apostataram da fé completamente. Eis aqui uma advertência que nos é em extremo saudável, para não suceder que, com o constante adiar para amanhã, nos tornemos mais e mais distantes de Deus. Os ímpios se enganam com tais sentimentos, como se lhes bastasse arrepender-se de sua vida ímpia no momento da morte. Mas quando chegam a esse momento extremo, torturados com medonhos tormentos em sua consciência, então se convencem de que a conversão do pecador não é um acontecimento comum. Portanto, quando o Senhor promete perdão a nenhum outro senão àquele que se arrepende de seus pecados, então não é de admirar que pereçam aqueles que, seja pelo desespero seja pelo menosprezo, se fizeram empedernidos em sua obstinação até à morte. Mas se alguém se ergue novamente de sua queda, podemos concluir que, por mais gravemente tenha ele pecado, o mesmo não é culpado de apostasia.

Visto que de novo, estão crucificando para si mesmos. O apóstolo adiciona esta frase para justificar a severidade de Deus contra a difamação humana. Seria em extremo vexatório para Deus expor seu Filho ao ridículo, perdoando aqueles que se rebelam contra ele. Portanto, tais pessoas são indignas de obter misericórdia. Seu propósito em dizer que Cristo é outra vez crucificado consiste no fato de que morremos com ele precisamente com o propósito de finalmente entrarmos na nova vida. Portanto, aqueles que se voltam para a morte necessitam de um segundo sacrifício. Crucificar para si mesmos significa até onde isso depende deles. Seria como se Cristo fosse um prisioneiro numa procissão triunfal, permitindo que os homens voltem para ele depois de o haverem negado.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

sexta-feira, 26 de junho de 2026

“APÓSTATAS - É IMPOSSÍVEL OUTRA VEZ RENOVÁ-LOS PARA ARREPENDIMENTO” - Parte 2


“APÓSTATAS - É IMPOSSÍVEL OUTRA VEZ RENOVÁ-LOS PARA ARREPENDIMENTO” - Parte 2

“É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia” (Hb 6:4-6).

Devemos notar de passagem os termos pelos quais o escritor denota conhecimento do evangelho. Ele denomina de iluminação. Disso segue-se que os homens são cegos até que Cristo, que é luz do mundo, brilhe sobre eles. Ele o denomina de a degustação do dom celestial. Por isso ele quer dizer que os dons que nos são conferidos em Cristo estão acima do mundo natural, e são degustados pela fé. Ele o denomina de participação do Espírito Santo, porque é ele que os distribui a cada um, segundo seu beneplácito, a luz e o entendimento que nos são indispensáveis. Pois sem ele nenhuma pessoa tem condição de chamar Jesus de Senhor [1Co 12.3]. Ele nos abre os olhos de nossa mente e nos revela as coisas ocultas de Deus. Ele o denomina de a degustação da boa palavra de Deus, significando que a benevolência divina não nos é revelada de uma forma qualquer, mas de uma forma tal que a mesma nos traz aprazimento. Essa descrição adicional denota a diferença existente entre a lei e o evangelho. Aquela nada contém senão severidade e juízo, enquanto que este é uma agradável evidência do amor divino e da paternal benevolência para conosco. Finalmente, ele o denomina de a experiência dos poderes vindouro. Por essa expressão ele quer dizer que pela fé somos admitidos no reino dos céus, de modo que vemos no Espírito aquela bem-aventurada imortalidade que se acha oculta de nossos sentidos. Devemos reconhecer, pois, que o evangelho não pode ser adequadamente conhecido a não ser através da iluminação do Espírito; e, conhecendo-o dessa forma, somos afastados deste mundo e elevados até ao céu; e ao percebermos a benevolência de Deus, descansamos em sua Palavra.

Ora, desse fato vem a lume um novo questionamento, a saber: como é possível que alguém que uma vez alcançou tal altitude venha depois a apostatar? Na verdade, o Senhor chama eficazmente só os eleitos, e Paulo testifica [Rm 8.14] que os que são guiados pelo Espírito de Deus são verdadeiramente seus filhos, e nos ensina que é um seguro penhor da adoção quando Cristo torna alguém participante de seu Espírito. Por conseguinte, os eleitos se acham fora do perigo de apostasia final, porquanto o Pai que lhes deu Cristo, seu Filho, para que sejam por ele preservados, é maior do que todos, e Cristo promete [Jo 17.12] que cuidará de todos eles, a fim de que nenhum deles venha perecer.

Minha resposta consiste nisto: Deus certamente confere seu Espírito de regeneração somente aos eleitos, e que eles se distinguem dos réprobos no fato de que são transformados na imagem de Deus, e recebem o penhor do Espírito na esperança de uma herança por vir, e pelo mesmo Espírito o evangelho é selado em seus corações. Em tudo isso, porém, não vejo razão por que Deus não toque os réprobos com o sabor de sua graça, ou não ilumine suas mentes com algumas centelhas de sua luz, ou não os afete com algum senso de sua benevolência, ou em alguma medida não grave sua Palavra em seus corações. De outro modo, onde estaria aquela fé temporária que Marcos menciona [Mc 4.17]. Portanto, há no réprobo certo conhecimento, o qual mais tarde se desvanece, seja porque ele estende suas raízes com menos profundidade do que se espera, ou porque, ao crescer, é sufocado e murcha.

Ao fazer uso desse freio, o Senhor nos conserva em temor e humildade. E assim vemos com toda clareza tão inclinada é a natureza humana à displicência e estulta confiança. Ao mesmo tempo, nossa solicitude deve ser tal que não perturbe a paz de nossa consciência. O Senhor prontamente e ao mesmo tempo encoraja nossa fé e subjuga nossa carne. Ele deseja que nossa fé permaneça serena e repouse como se estivesse em segurança num sólido abrigo. Ele exercita nossa carne com várias provas a fim de que ela não se precipite na indolência.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

“APÓSTATAS - É IMPOSSÍVEL OUTRA VEZ RENOVÁ-LOS PARA ARREPENDIMENTO” – Parte 1


“APÓSTATAS - É IMPOSSÍVEL OUTRA VEZ RENOVÁ-LOS PARA ARREPENDIMENTO” - Parte 1

“É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia” (Hb 6:4-6).

Esta passagem deu a muitos a oportunidade de rejeitar esta Epístola, especialmente quando os novacianos [século III] encontraram aqui munição para negar o perdão para aqueles que caem. Os pais do ocidente, portanto preferiram negar a genuinidade da Epístola, uma vez que os defensores da seita de Novato eram seus inimigos, e não eram fortes bastante no domínio da doutrina que pudessem refutar seus argumentos. Mas uma vez que a intenção do apóstolo é posta a descoberto, logo se faz plenamente evidente que não há nada aqui que apoie um equívoco tão estapafúrdio. Há outros para quem a autoridade da Epístola é sagrada, e que tentam refutar tal absurdo, mas que passam o tempo todo buscando refúgio em idiotices. Alguns tornam impossível no sentido de “incomum” ou “difícil”, o que é totalmente estranho ao real sentido do termo. Outros (a maioria) restringem o seu significado ao arrependimento, por meio do qual os catecúmenos, na Igreja primitiva, costumavam ser preparados para o batismo, assim como os apóstolos prescreviam o jejum e outras coisas àqueles que estavam para ser batizados. Que grande coisa, porém, estaria o apóstolo dizendo ao afirmar que o arrependimento, que é o adjunto do batismo, não poderia repetir-se? Ele ameaça com a mais severa vingança divina contra todos os que desprezam a graça que uma vez receberam. Que força esta sentença teria exercido, instilando temor aos descuidados e nos vacilantes, se os houvera advertido que não mais havia lugar para o primeiro arrependimento? Isso deve aplicar-se a todo gênero de ofensa. Então, o que diremos? Visto que Deus oferece esperança de misericórdia a todos, sem exceção, é absurdo que alguém, por qualquer motivo, seja excluído.

O centro do problema está no termo caíram. Qualquer um que entenda sua força se esquivará facilmente de todas e quaisquer dificuldades. É indispensável que notemos que existe uma dupla queda: uma é particular; a outra é geral. Qualquer um que tenha ofendido [a Deus], de uma forma ou de outra caiu de seu status como cristão. Portanto, quantos são os pecados, tantos são as quedas. O apóstolo, porém, não está falando aqui de furto, nem de perjúrio, nem de assassinato, nem de embriaguez, nem de adultério. Sua referência é a uma completa apostasia do evangelho, não apenas em alguma coisa isolada pela qual o pecador haja ofendido a Deus, mas no fato de ter ele renunciado completamente sua graça.

 Para que se entenda isso mais claramente, tracemos um contraste entre tal queda e a graça de Deus, a qual o autor tem descrito. A pessoa que apostata é alguém que renuncia a Palavra de Deus, que extingue sua luz, que se nega a provar o dom celestial e que desiste de participar do Espírito. Ora, isso significa uma total renúncia de Deus. Agora podemos entender quem é excluído da esperança ou do perdão. São os apóstatas que se fizeram estranhos ao evangelho de Cristo, o qual previamente abraçaram, bem como estranhos à graça de Deus. Tal coisa não acontece a qualquer um, exceto àquele que peca contra o Espírito Santo. Aquele que viola a segunda tábua da lei, ou que, por ignorância, transgredir a primeira, não é culpado dessa rebelião; e certamente Deus jamais exclui ou priva alguém de sua graça, exceto aquele que se torna totalmente réprobo. Para tal pessoa nada é deixado.

Se alguém porventura perguntar por que o apóstolo faz menção desse gênero de apostasia, quando está a dirigir-se a crentes que longe estão de perfídia tão pecaminosa, minha resposta é a seguinte: ele lhes está ministrando, em tempo hábil, uma advertência do perigo que os ameaça, a fim de que se pusessem em guarda contra o mesmo. Tal fato é digno de nota. Quando nos extraviamos do reto caminho, não só justificamos nossos vícios diante de outras pessoas, mas também enganamos a nós mesmos. Satanás, furtivamente, se move sobre nós e gradualmente nos alicia por meio de artifícios, de modo tal que quando chegamos a extraviar-nos, não nos apercebemos de como o fizemos. Escorregamo-nos gradualmente, até finalmente nos precipitarmos na ruína. Tal fato pode ser constatado todos os dias num sem fim de casos. Portanto, o apóstolo com muita razão alerta a todos os seguidores de Cristo a tomarem cuidado em seu próprio favor, enquanto é tempo. A constante inatividade leva quase sempre a uma letargia que é seguida de alienação mental.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

sexta-feira, 19 de junho de 2026

“ULTRAJOU O ESPÍRITO DA GRAÇA”


“ULTRAJOU O ESPÍRITO DA GRAÇA”

“De quanto mais severo castigo julgais vós será considerado digno aquele que calcou aos pés o Filho de Deus, e profanou o sangue da aliança com o qual foi santificado, e ultrajou o Espírito da graça?” (Hb 10:29).

Aquele que calcou aos pés o Filho de Deus. Há uma semelhança entre os apóstatas da lei e os apóstatas do evangelho – ambos perecerão sem misericórdia; o gênero de morte, porém, é diferente. Pois aos que desprezam a Cristo o apóstolo ameaça não só com morte corporal, mas também com destruição eterna. Portanto, ele afirma que para os tais resta ainda uma punição muito pior. Ele expressa essa deserção do cristianismo sob três formas de linguagem. Diz que dessa forma o Filho de Deus e calcado aos pés; que seu sangue é profanado; e que o Espírito da graça é desprezado. Esmagar com os pés é pior do que lançar fora; e a dignidade de Cristo é muito mais distinta que a de Moisés. Acrescente-se a esse fato que ele não traça simplesmente um contraste entre evangelho e lei, mas também entre a pessoa de Cristo e o Espírito Santo, e a pessoa de Moisés.

O sangue da aliança. O apóstolo intensifica a ingratidão, confrontando-a com os benefícios. É algo muitíssimo indigno profanar o sangue de Cristo, o qual é o agente de nossa santificação; e é precisamente o que fazem aqueles que se desviam da fé. Nossa fé não é simplesmente uma questão de doutrina, mas do sangue pelo qual nossa salvação foi ratificada. O autor o chama de sangue da aliança, porque as promessas nos foram confirmadas quando esse penhor foi adicionado. Ele chama a atenção para a forma dessa confirmação, dizendo que fomos santificados por ela, pois o sangue derramado não nos serviria para nada, a menos que fôssemos aspergidos com ele através do Espírito Santo. É daí que provêm nossa expiação e santificação. O apóstolo está, ao mesmo tempo, se referindo ao antigo rito de aspersão, a qual não era eficaz para a genuína santificação, mas era sua sombra ou tipo.

O Espírito da Graça. O apóstolo o chama o Espírito da graça pelos efeitos que ele produz, porque é através dele e pelo seu poder que recebemos a graça que nos é oferecida em Cristo. É ele que ilumina nossas mentes com fé; que sela em nossos corações a adoção divina; que nos regenera para uma nova vida; e que nos enxerta no corpo de Cristo, para que ele viva em nós e nós nele. O Espírito da graça, portanto é assim corretamente chamado, visto que é através dele que Cristo, com seus benefícios, se tornam nossos. Tratar com desprezo, aquele através de quem somos dotados com tão grandes bênçãos, é o mais perverso de todos os crimes. Apreendamos desse fato que todos aqueles que voluntariamente tornam a graça inútil, depois de desfrutarem seu favor, estão expondo o Espírito de Deus ao desprezo. Portanto, não é de estranhar que Deus se vingue de uma blasfêmia desse gênero, de forma tão severa; e não é de estranhar que ele se mostre inexorável para com aqueles que pisam sob a planta de seus pés a Cristo o Mediador, o único que intercede por nós; e não é de estranhar que ele obstrua o caminho da salvação àqueles que rejeitam o Espírito Santo, como seu único e verdadeiro Guia.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

“SEM MISERICÓRDIA MORRE”


“SEM MISERICÓRDIA MORRE”

“Sem misericórdia morre pelo depoimento de duas ou três testemunhas quem tiver rejeitado a lei de Moisés” (Hb 10:28).

Quem tiver rejeitado a lei de Moisés. Este é um argumento do menor para o maior. Porque, se violar a lei de Moisés era ofensa capital, como não há de merecer um castigo mais severo aquele que rejeitar o evangelho, sendo que semelhante ato de profanação envolve perversidade tão nefanda? Essa forma de argumentar era muito eficaz para demover os judeus. Porque esse castigo tão severo aplicado aos apóstatas sob o regime da lei não era novo para eles, nem poderia parecer-lhes injusto. É possível que tenham reconhecido como uma punição justa, ainda que severa, por meio da qual Deus, hoje, sanciona a majestade de seu evangelho.

Isso confirma o que me referi anteriormente, ou seja: que o apóstolo não está argumentando sobre pecados específicos, e, sim, sobre uma negação geral de Cristo. A lei não punia com a morte qualquer tipo de transgressão, senão somente a apostasia, quando alguém se afastava irrevogavelmente de sua religião. O apóstolo fez referência à passagem de Deuteronômio 17.2-5, a qual declara que, se alguém transgredir o pacto de seu Deus para servir a outros deuses, então deveria ser levado para fora do portão e apedrejado até à morte.

Ainda que a lei fora promulgada por Deus, e Moisés não fosse seu autor, mas seu ministro, o apóstolo a denomina de lei de Moisés, visto que ela fora entregue por ele. E isso foi dito com o fim de elevar ainda mais a sublimidade do evangelho, o qual nos foi comunicado pelo próprio Filho de Deus.

Pelo depoimento de duas ou três testemunhas. Essa cláusula não é relevante para a presente passagem, mas é parte da constituição civil de Moisés, visto que duas ou três testemunhas eram requeridas para provar a culpabilidade de um acusado. Contudo, daqui podemos deduzir o gênero de crime que o apóstolo queria enfatizar, pois se esse acréscimo não fosse feito, haveria deixado margem para muitas e falsas conjecturas. Agora, porém, fica provado de maneira indubitável que se tratava de apostasia. Ao mesmo tempo, devemos ter em mente o sentido de justiça que quase todos os estadistas têm observado, ou seja: que ninguém seja condenado sem que sua culpabilidade seja provada pelo testemunho de duas ou três testemunhas.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

“EXPECTAÇÃO HORRÍVEL DE JUÍZO”


“EXPECTAÇÃO HORRÍVEL DE JUÍZO”

“Porque, se vivermos deliberadamente em pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados; pelo contrário, certa expectação horrível de juízo e fogo vingador prestes a consumir os adversários” (Hb 10:26,27).

O autor da Epístola aos Hebreus quer dizer com isso aquela tortura de uma má consciência que é curtida pelo ímpio, não só aquele que jamais provou a graça, mas sobretudo aquele que tem consciência de haver provado e a perdeu para sempre por culpa unicamente sua. Tais pessoas merecem não só ser aguilhoadas e dilaceradas, mas ainda torturadas e feitas em pedaços de uma forma mais terrível. Isso as leva a digladiarem furiosamente contra Deus, visto que não podem suportar o Juiz tão inclemente. Certamente que tentam de todas as formas esquivar-se de sentirem o aguilhão da ira divina, porém em vão. Tão logo Deus lhes conceda uma breve trégua, imediatamente os faz comparecer ante o tribunal e os acossa com tormentos dos quais por todos os meios tentam escapar.

Ele adicionou fogo vingador, significando por esta última palavra, a meu ver, um veemente impulso ou uma violenta paixão. A palavra fogo denota uma metáfora muito comum. Assim como os incrédulos são agora inflamados pelo temor da ira divina, assim também arderão, então, sentindo esse mesmo fogo. Não ignoro aqueles filósofos que especularam com certa agudeza sobre a natureza desse fogo; não presto, porém, a mínima atenção aos seus comentários, visto que é evidente que a Escritura, aqui, emprega a mesma forma de falar, quando conecta fogo com verme [Is 66.24]. Não há a menor dúvida de que ele usa o termo verme metaforicamente para o terrível tormento da consciência que devora os incrédulos.

Prestes a consumir os adversários. Assim os devorará como para destrui-los, mas não consumi-los, porque ele será inextinguível. E assim o apóstolo nos lembra que todos quantos rejeitam o lugar que lhes é dado entre os fiéis são incluídos entre os inimigos de Cristo. Não há meio termo. Aqueles que abandonam a Igreja se entregam a Satanás.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).