“SE VIVERMOS DELIBERADAMENTE EM PECADO”
“Porque, se
vivermos deliberadamente em pecado, depois de termos recebido o pleno
conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados” (Hb 10:26).
O escritor da
Epístola aos Hebreus realça quão severa é aquela vingança de Deus que aguarda
todos aqueles que apostatam da graça de Cristo, uma vez que se privam de sua
única salvação; é como se entregassem à sua própria destruição. Foi à luz desse
testemunho que Novato (século III) e seus asseclas se armaram em sua tentativa
de eliminar de todos os que caem após o batismo qualquer esperança de perdão,
sem discriminação alguma. Os que não puderam refutar tal falsidade, acharam
mais fácil impugnar a fidedignidade desta Epístola do que enfrentar tal
absurdo. No entanto, o genuíno significado desta passagem é por si mesmo
suficiente para refutar a impertinência de Novato, sem o auxílio de qualquer
apoio externo.
Os pecadores,
mencionados pelo apóstolo, não são os que de alguma forma caem; são, antes, aqueles que abandonaram a Igreja e se separaram
de Cristo. Ele não está tratando, aqui, desse ou daquele gênero de pecado,
senão que está expondo pelo nome aqueles que renunciam deliberadamente a comunhão
da Igreja. Não há muita diferença entre apostasia individual e uma deserção
universal desse tipo, pela qual apostatamos irrevogavelmente da graça de
Cristo. Visto que tal coisa não pode suceder senão a alguém que já foi
iluminado, ele diz: se vivermos deliberadamente em pecado, depois de termos recebido o
pleno conhecimento da verdade, como se estivesse dizendo: “Se alguém
consciente e voluntariamente despreza a graça que uma vez recebeu”. É evidente,
agora, quão longe esta doutrina está do erro de Novato.
À luz do
contexto se faz evidente que o apóstolo está se referindo, aqui, tão-somente
aos apóstatas. Ele age assim para que os que uma vez foram recebidos no seio da
Igreja não desertem como alguns que têm o hábito de fazê-lo. Ele declara que para
tais não há mais qualquer tipo de oferta pelo pecado, visto que têm pecado
deliberadamente depois de haverem recebido o conhecimento da verdade. Ao mesmo
tempo, Cristo se oferece diariamente pelos pecadores que têm caído de alguma
outra forma, de modo que não carecem de buscar alguma outra oferta para expiar
seus pecados. Diz ainda que nenhuma outra oferta é deixada para aqueles que rejeitam
a morte de Cristo, visto que tal rejeição não é oriunda de alguma ofensa
particular, mas de uma total rejeição da fé.
Tal severidade
divina é certamente terrível, mas ela é manifesta com o intuito de inspirar o
temor. Ao mesmo tempo, ele não pode ser acusado de selvageria. Visto que a
morte de Cristo é o único antídoto para livrar-nos da morte eterna, não é justo
que aqueles destroem o quanto podem, tanto sua eficácia quanto seus benefícios,
não mereçam outra coisa senão o desespero? Aqueles que confessam a Cristo são
diariamente chamados à reconciliação com Deus e encontram diariamente a
expiação para os seus pecados através de seu sacrifício eterno. Se não há
salvação alguma fora dele, então não devemos sentir-nos surpresos que todos os
que deliberadamente o abandonam sejam privados de toda esperança de perdão. O
sacrifício de Cristo é eficaz para os crentes, até à morte, ainda que
reiteradamente pequem. Além disso, ele mantém sempre sua eficácia, visto que
eles não podem viver plenamente livres do pecado enquanto estiverem na carne. O
apóstolo está, portanto, dirigindo sua atenção somente para aqueles que se
afastam de Cristo em sua incredulidade, e assim deixam de receber o benefício
de sua morte.
A frase depois
de termos recebido o pleno conhecimento da verdade é inserida para dar
força à ingratidão deles, pois qualquer um que, voluntariamente e com
deliberada perversidade, extingue a luz de Deus, que uma vez foi acesa em seu
coração, não tem justificativa a alegar diante de Deus. Aprendamos daqui não só
a aceitar a verdade que nos é comunicada, e isso com reverência e uma viva
humildade de espírito, mas também a perseverar continuamente no conhecimento
dela, para que não soframos tão medonho castigo por desprezá-la.
Deus nos
abençoe!
João Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).







