“E AS TREVAS NÃO PREVALECERAM”
“A luz
resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela” (Jo 1:5).
Ainda que o Filho
de Deus tenha sempre convocado os homens a si, pela instrumentalidade dessa
pobre luz que ainda restou em nós, o Evangelista assevera que ela era ineficaz,
porquanto, “vendo, não veem”. Porque, depois que o homem foi alienado de Deus,
tal foi a ignorância que se apoderou de sua mente, que toda e qualquer luz que porventura
nela restou é extinta e inútil. A experiência também comprova tal fato
diariamente. Pois mesmo aqueles que não foram ainda regenerados pelo Espírito
de Deus exercem certa razão, de modo que somos claramente instruídos de que o
homem foi criado não só para respirar, mas que possui também entendimento. Não
obstante, guiados por sua razão, o homem não alcança ou não consegue ter acesso
a Deus e, assim, toda sua inteligência não prima direção senão rumo à vaidade,
donde se deduz que não há qualquer esperança para a salvação dos homens, a
menos que Deus lhe proveja um novo recurso. Pois ainda que o Filho de Deus
derrame sua luz sobre eles, encontram-se tão entorpecidos que sua obtusidade
não lhes permite compreender a fonte dessa luz; obcecados por fascinantes e
perversas fantasias acabam na demência.
Há duas partes
primordiais nessa luta que ainda permanecem na natureza corrompida. Alguma
semente da religião está plantada em todos; existe também aquela distinção
entre o bem e o mal que está esculpida em suas consciências. Afinal, qual é o
usufruto disso, senão que a religião produz mil e uma superstições monstruosas,
e a consciência corrompe todo o juízo, confundindo vício com virtude? Em suma,
a razão jamais guiará os homens a Cristo. O fato de serem eles dotados de
sabedoria para dirigir suas vidas e de se formarem em filosofia e ciências se
reduz e resulta em nada.
Além do mais,
devemos ter em mente que o Evangelista está falando unicamente dos dons
naturais, e não está tratando ainda da graça da regeneração. Porque há no Filho
de Deus dois poderes distintos. O primeiro se manifesta na arquitetura do mundo
e na ordem da natureza. No uso do segundo, ele renova e restaura a natureza
caída. Ele é a eterna Palavra de Deus;
e, por conseguinte, por meio dele, o mundo foi criado. Pela ação de seu poder,
todas as coisas conservam a vida que uma vez receberam; de uma forma toda
especial, o homem foi adornado com o dom singular do entendimento. E,
conquanto, com sua queda, tenha perdido a luz do entendimento, ele ainda vê e
entende, já que o que ele naturalmente possui da graça do Filho de Deus não lhe
foi totalmente destruído. Visto, porém, que mediante seu embotamento e
perversidade, ele empana a luz que ainda lhe resta, cumpre ao Filho de Deus
assumir uma nova função, a saber, a de Mediador, e assim renova o homem perdido
através do Espírito de regeneração. Portanto, põe o carro adiante do boi quem
interpreta a luz que o Evangelista
menciona como sendo o evangelho e a proclamação da salvação.
Deus nos abençoe!
João Calvino
(1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).


