"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



quarta-feira, 26 de agosto de 2026

“CONVÉM QUE ELE CRESÇA”


“CONVÉM QUE ELE CRESÇA”

“Convém que ele cresça e que eu diminua” ( Jo 3:30).

João Batista dá mais um passo, pois tendo anteriormente sido elevado pelo Senhor à mais nobre dignidade, ele mostra que isso foi por apenas pouco tempo. Mas agora que o Sol da Justiça [Mt 4.2] entrou em cena, ele tem de deixar-lhe livre o caminho; e, por isso, não só dispersou e afugentou as fúteis fumaças da honra que lhe era precipitada e ignorantemente cumulada pelos homens, mas também se mune de excessivo cuidado para que a verdadeira e legítima honra que o Senhor lhe concedera de modo algum obscureça a glória de Cristo. Consequentemente, ele nos diz que a razão pela qual fora até aqui considerado grande profeta era que, por apenas algum tempo, ele foi posto em tão elevada condição até que Cristo se manifestasse, a quem ele teria que consagrar seu ofício. Entrementes, ele declara que muito mais espontaneamente se deixará reduzir a nada, contanto que Cristo ocupe e encha o mundo inteiro com seus benditos raios e todos os pastores da Igreja devem imitar tal zelo de João, curvando suas cabeças e ombros para que Cristo seja exaltado.   

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

“O QUE TEM A NOIVA É O NOIVO”


“O QUE TEM A NOIVA É O NOIVO”

“O que tem a noiva é o noivo; o amigo do noivo que está presente e o ouve muito se regozija por causa da voz do noivo. Pois esta alegria já se cumpriu em mim” (Jo 3:29).

Com esta comparação, João Batista confirma mais plenamente afirmação de que Cristo é o único que é excluído da estirpe ordinária dos homens, pois, como aquele que se une a uma esposa não chama e convida seus amigos para as bodas a fim de prostituir a noiva com eles, nem para renunciar a seus próprios direitos, permitindo-lhes participar com ele do leito nupcial; senão que, ao contrário, para que o matrimônio, sendo honrado por eles, se torne ainda mais sagrado. Assim, Cristo não chama seus ministros para o ofício docente a fim de que, conquistando a Igreja, reivindiquem domínio sobre ela, mas para que ele faça uso de seus labores fieis associando-os consigo. A designação de homens sobre a Igreja é uma distinção grande e sublime, para que representem a pessoa do Filho de Deus. Portanto, assemelham-se aos amigos a quem o noivo conduz ao seu lado, para que o acompanhem na celebração das bodas. Mas devemos atentar bem para esta distinção, a saber: que os ministros, sendo cônscios de sua posição, não se apropriem do que pertence exclusivamente ao noivo. A suma equivale a isto: que toda eminência que os mestres porventura possuam entre si não deve impedir a Cristo de ser o único a governar sua Igreja nem de governá-la exclusivamente por meio de sua palavra.

Esta comparação ocorre com frequência na Escritura, quando o Senhor intenta expressar o sacro vínculo de adoção, por meio do qual ele nos une a si. Pois, como se oferece para ser realmente desfrutado por nós, para que seja nosso, assim ele, como razão, exige de nós aquela fidelidade e amor mútuos que a esposa deve a seu esposo. Esse matrimônio se cumpre inteiramente em Cristo, de cuja carne e ossos somos nós, como Paulo nos informa [Ef 5.30]. A castidade exigida por ele consiste primordialmente na obediência ao evangelho, para que não permitamos desviar-nos de sua perfeita simplicidade, como nos ensina o apóstolo [2Co 11.2,3]. Portanto, devemos estar sujeitos unicamente a Cristo. Ele deve ser nossa única Cabeça. Não devemos desviar-nos sequer um fio de cabelo da doutrina simples do evangelho; tão somente ele deve possuir a mais elevada glória, para que retenha o direito e a autoridade de ser nosso Noivo.

Mas, o que os ministros devem fazer? Certamente o Filho de Deus os chama para que executem o seu dever em relação a ele na condução do matrimônio sagrado. Portanto, seu dever é tudo fazer para que de todas as formas, a esposa – que é confiado a sua responsabilidade – seja apresentada por eles como virgem casta a seu Esposo, o que Paulo na passagem supracitada, se gloria de haver feito. Mas os que arrastam a Igreja após si, e não a Cristo, se fazem culpados de vilmente violar o matrimônio que deveriam ter honrado. E, quanto maior é a honra que Cristo nos confere, fazendo-nos guardiãs de sua esposa, tão mais hedionda será nossa falta de fidelidade, se não nos esforçarmos em manter e defender seu direito.

Pois esta alegria já se cumpriu em mim. Significa que João já alcançou o cumprimento de todos os seus desejos, e que ele nada mais deseja, ao ver Cristo reinando e os homens dando-lhe ouvidos como de fato ele merece. Quem quer que tenha afetos tais que, pondo de lado toda consideração pessoal, exalte a Cristo, sinta-se feliz em ver Cristo sendo honrado, será fiel e bem sucedo em governar a Igreja. Todo aquele, porém, que muda o mínimo grau desse propósito será um vil adúltero, e outra coisa não fará senão corromper a esposa de Cristo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

“VÓS MESMOS SOIS TESTEMUNHAS”


“VÓS MESMOS SOIS TESTEMUNHAS”

“Vós mesmos sois testemunhas de que vos disse: eu não sou o Cristo, mas fui enviado como seu precursor” (Jo 3:28).

João reprova seus discípulos, dizendo que não deram crédito a suas afirmações. Ele os advertia com frequência, dizendo que não era o Cristo. E, por isso, assegurava-lhes que seria um servo do Filho de Deus e lhe seria sujeito juntamente como os demais. E esta passagem é digna de ponderação, pois, ao afirmar que não era o Cristo, ele nada merece para si senão sujeitar-se à cabeça e servir na Igreja como um dentre os demais, e não para ser tão altamente exaltado a ponto de obscurecer a honra da Cabeça. Diz ele que fora enviado antecipadamente com o fim de preparar o caminho para Cristo, como os reis costumavam enviar arautos como seus precursores.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“O HOMEM NÃO PODE RECEBER COISA ALGUMA”


“O HOMEM NÃO PODE RECEBER COISA ALGUMA”

“Respondeu João: O homem não pode receber coisa alguma se do céu não lhe for dada” (Jo 3:27.

Alguns atribuem essas palavras a Cristo, como se João acusasse os discípulos de perversa presunção em oposição a Deus, por tudo fazerem com o fim de privar a Cristo do que o Pai lhe dera. Supunham que o significado era este: “Que era obra de Deus o fato de que dentro de tão pouco tempo ele havia granjeado tão grande honra; e, por isso, era em vão que tentassem denegrir aquele a quem Deus com sua própria mão dera tão elevada posição”. Outros pensam que é uma exclamação que ele indignamente pronuncia, visto que seus discípulos até então tinham feito tão pouco progresso. E certamente era excessivamente absurdo que ainda lutassem por reduzir à posição de homens comuns àquele que, com tanta frequência ouviam , era o Cristo, o qual não podia erguer-se acima de seus próprios servos. E, portanto, João poderia, com justiça, ter dito ser inútil gastar tempo em instruir os homens, porquanto são obtusos e estúpidos, enquanto não fossem renovados em sua mente.

Antes, porém, concordo com a opinião daqueles que o explicam como uma aplicação a João, como a asseverar que não estava em seu poder, nem no deles, de fazê-lo grande, porque a medida de todos nós é sermos aquilo que Deus pretende que sejamos. Pois até mesmo o Filho de Deus não tomou para si honra alguma [Hb 5.4], que homem dentre a categoria ordinária se aventuraria a desejar mais do que aquilo que o Senhor deu? Se esse único pensamento, se estivesse devidamente impresso nas mentes de todos nós, seria sobejamente suficiente para refrear a ambição, e a ambição seria corrigida e destruída e a praga das contendas seria igualmente removida. Como sucede, pois, que cada pessoa se exalte mais do que lhe é lícito, senão porque não dependemos do Senhor, de modo a nos sentirmos satisfeitos com a posição que ele nos designou?

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“E TODOS LHE SAEM AO ENCONTRO”


“E TODOS LHE SAEM AO ENCONTRO”

“E foram ter com João e lhe disseram: Mestre, aquele que estava contigo além do Jordão, do qual tens dado testemunho, está batizando, e todos lhe saem ao encontro” (Jo 3:26).

Do qual tens dado testemunho. Com tal argumento empreendem ou fazer Cristo inferior a João ou mostrar que João, honrando-o, o pusera sob obrigações, pois reconheciam que João conferira um favor a Cristo, adornando-o com títulos proeminentes, como se fora o dever de João fazer tal proclamação, ou melhor, como se não fora a mais elevada dignidade de João ser o arauto do Filho de Deus. Nada poderia ter sido mais irracional do que fazer Cristo inferior a João, visto que seu testemunho era sublimemente favorável, pois sabemos qual foi o testemunho de João. A expressão que usaram – todos lhe saem ao encontro ou vêm a Cristo – é a linguagem de pessoas invejosas, e procede da ambição pecaminosa, pois temiam que a multidão imediatamente esquecessem João, seu mestre.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

“UMA CONTENDA COM RESPEITO À PURIFICAÇÃO”


“UMA CONTENDA COM RESPEITO À PURIFICAÇÃO”

“Ora, entre os discípulos de João e um judeu suscitou-se uma contenda com respeito à purificação” (João 3:25).

Não sem uma boa razão, o Evangelho relata que entre os discípulos de João suscitou-se uma dúvida. Porque, à medida que eram informados a cerca da doutrina, mais prontos estavam em entrar em discussão, visto que a ignorância é sempre ousada e presunçosa. Se outros o atacavam, então poderiam justificar-se. Mas quando eles mesmos, ainda que sem razão, mantinham o fogo da contenda, provocando voluntariamente os judeus, isso constituía um procedimento precipitado e tolo.

Ora, as palavras significam que “foram eles que suscitaram a dúvida”. E não só deveriam responsabilizar-se por despertar uma questão da qual não tinham conhecimento, mas também por falarem a respeito precipitadamente e além da medida de seu conhecimento. Mas o outro erro foi – não menos que o primeiro – que pretendiam não tanto manter a legitimidade do batismo quanto defender a causa de seu mestre, para que sua autoridade permanecesse incomunicável. Em ambos os aspectos, mereceram reprovação, porque, não compreendendo qual era a natureza real do batismo, expunham a santa ordenança de Deus ao ridículo, e porque, mediante uma ambição pecaminosa, empreenderam defender a causa de seu mestre contra Cristo.

É evidente, pois, que ficaram atônitos e confusos com uma única palavra, quando foram informados de que Cristo também estava batizando, pois, enquanto sua atenção era direcionada para a pessoa de um homem e para sua aparência externa, preocupavam-se menos com a doutrina. Somos ensinados, por seu exemplo, que os equívocos em que os homens caem se devem a um desejo pecaminoso de agradar a si mesmos antes que movidos por zelo de Deus. E somos igualmente lembrados que o único objetivo que devemos ter em vista, e por todos os meios promover, é que tão somente Cristo deve ter a preeminência.

Com respeito à purificação. A dúvida foi proveniente da purificação, pois os judeus tinham vários batismos e lavagens ordenados pela Lei, e, não satisfeitos com aqueles que Deus designara, cuidadosamente observavam muitos outros que tinham sido introduzidos por seus ancestrais. Quando acham que, além de tão grande número e variedade de purificações, um novo método de purificação é introduzido por Cristo e por João, veem-no como um absurdo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

“O QUE NÃO CRÊ JÁ ESTÁ JULGADO”


“O QUE NÃO CRÊ JÁ ESTÁ JULGADO”

“Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo 3:18).

Isso significa que não há outro remédio pelo qual qualquer ser humano possa escapar da morte, ou, em outros termos, que para quantos rejeitam a vida que lhe é outorgada em Cristo nada resta senão a morte, visto que a vida não consiste em algo mais além da fé. O tempo perfeito do verbo, já está julgado ou condenado, foi usado por Cristo enfaticamente para expressar mais fortemente que todos os incrédulos estão completamente arruinados. Deve-se, porém, observar que ele fala especificamente daqueles cuja perversidade se exibirá por seu franco desprezo do evangelho. Pois ainda que seja verdade que jamais houve qualquer outro remédio para escapar à morte, além do fato de que os homens devam recorrer a Cristo, todavia, visto que aqui Cristo fala da pregação do evangelho, a qual teria que ecoar pelo mundo inteiro, ele dirige seu discurso contra os que deliberada e maliciosamente extinguem a luz que Deus acendeu.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“QUEM NELE CRÊ NÃO É JULGADO”


“QUEM NELE CRÊ NÃO É JULGADO”

“Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo 3:18).

Ao repetir com tanta frequência e com tanta solicitude que todos os que creem se encontram além do perigo de morte, podemos inferir disso a grande necessidade de uma confiança firme e certa, que a consciência não pode ser mantida perpetuamente num estado de tremor e expectação. Cristo uma vez mais declara que, ao crermos, já nenhuma condenação resta, o que depois explicará no capítulo 5. O tempo presente – não é julgado ou condenado –, é aqui usado em vez do tempo futuro – não será condenado –, segundo a maneira do idioma hebreu, pois sua intenção é que os crentes estão a salvo do temor da condenação.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

“OS HOMENS AMARAM MAIS AS TREVAS DO QUE A LUZ”


“OS HOMENS AMARAM MAIS AS TREVAS DO QUE A LUZ”

“O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más” (Jo 3:19).

Cristo refreia as murmurações e queixas pelas quais os ímpios costumavam censurar – o que imaginamos ser – o excessivo rigor de Deus, quando ele age contra eles com mais severidade do que esperavam. Acham duro demais o fato de que os que não creem em Cristo sejam entregues à destruição. Para que ninguém atribua sua condenação a Cristo, ele mostra que cada ser humano deve imputar a si próprio a responsabilidade. A razão é que a incredulidade é uma testemunha de uma má consciência; e, portanto, é evidente que é sua própria perversidade que impede os incrédulos de se aproximarem de Cristo.

Há quem pense que o que ele aqui realça nada mais é que o selo da condenação. Todavia, o desígnio de Cristo é restringir a perversidade dos homens afim de que, segundo seu costume, não contendam nem argumentem contra Deus, como se ele os tratasse injustamente, quando pune a incredulidade com a morte eterna. Ele mostra que tal condenação é justa, e não está sujeita a qualquer reprovação, não só porque tais homens agem impiamente, que preferem as trevas à luz e recusam a luz que lhes é graciosamente oferecida, mas porque tal ódio pela luz só brota de uma mente que é perversa e cônscia de sua culpabilidade.

Uma bela aparência e excelência de santidade de fato podem ser encontradas em muitos que, além de tudo, se opõem ao evangelho. No entanto, ainda que pareçam ser mais santos do que os próprios anjos, sem a menor sombra de dúvida, são hipócritas, pois rejeitam a doutrina de Cristo por nenhuma outra razão senão pelo fato de amarem seus esconderijos, por meio dos quais sua vileza continue velada. Portanto, visto que a mera hipocrisia basta para tornar os homens odiosos aos olhos de Deus, todos são conservados réus, porque, não fora isso, cegados pela soberba e deleitando-se em seus crimes, pronta e espontaneamente receberiam a doutrina do evangelho.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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terça-feira, 4 de agosto de 2026

“DEUS ENVIOU O SEU FILHO AO MUNDO, NÃO PARA QUE JULGASSE O MUNDO”


“DEUS ENVIOU O SEU FILHO AO MUNDO, NÃO PARA QUE JULGASSE O MUNDO”

“Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele” (Jo 3:17).

Aqui temos uma confirmação da afirmação precedente, porque não foi em vão que Deus enviou seu próprio Filho em nosso favor [Jo 3.16]. Ele não veio com o fim de destruir, e, por isso, segue-se ser o ofício peculiar do Filho de Deus que todo aquele que nele crê obtenha a salvação por meio dele. Agora não a razão por que uma pessoa viva em estado de hesitação ou angustiante ansiedade quanto à maneira pela qual pode escapar da morte, ao crer que era propósito de Deus que Cristo nos livrasse dela. A palavra mundo é uma vez mais reiterada, a fim de que ninguém pense que foi totalmente excluído, se tão somente conservar-se na vereda da fé.

A palavra julgar é aqui posta em lugar de condenar, como é o caso em muitas outras passagens. Ao declarar que não veio para condenar o mundo, ele assim realça o desígnio real de sua vinda, pois que necessidade havia para Cristo vir com o fim de destruir-nos, nós que estávamos completamente arruinados? Não devemos, pois, buscar em Cristo algo mais além do fato de que Deus, de sua infinita bondade, quis estender seu auxílio para salvar-nos, a nós que estávamos perdidos. E sempre que nossos pecados nos oprimam – sempre que Satanás nos conduza ao desespero –, devemos correr para este refúgio, a saber: que Deus não deseja que sejamos esmagados por perene destruição, visto que ele designara seu Filho para ser o Salvador do mundo.

Quando em outras passagens Cristo diz que veio para julgar [Jo 9.39]. Quando ele é denominado de pedra de escândalo [1Pe 2.7] e quando lemos ser ele posto para destruição de muitos [Lc 2.34], isso pode ser considerado como provindo de uma causa distinta, porquanto aquele que rejeita a graça que lhe é oferecida merece encontrar nele o Juiz e Vingador de um desdém tão indigno e vil.

Um notável exemplo disso pode ser visto no evangelho, pois ainda que ele seja estritamente o poder de Deus para a salvação de todo aquele que nele crê [Rm 1.16], a ingratidão de muitos o converte em morte para os mesmos. Ambas as coisas foram bem expressas por Paulo, quando ele vingar toda desobediência, quando for cumprida vossa obediência [2Co 10.6]. O significado equivale a isto: que o evangelho é especialmente, e em primeira instância, designado para os crentes, a fim de que a salvação lhes pertença, mas que, depois, os descrentes não escaparão impunes, caso desprezem a graça de Cristo e decidam tê-lo como o Autor da morte, em vez de o Autor da vida.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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