“DÁ OUVIDOS, SENHOR, ÀS MINHAS PALAVRAS”
“Dá ouvidos, SENHOR, às minhas palavras e
acode ao meu gemido. Escuta, Rei meu e Deus meu, a minha voz que clama, pois a
ti é que imploro” (Sl 5:1,2).
Atrevo-me, não
em termos positivos, determinar ou que Davi, neste Salmo, lamenta as injustiças
que sofreu de seus inimigos em alguma ocasião específica, ou que ele se queixa,
em termos gerais, das várias perseguições com as quais, por um longo tempo, fora
acossado por Saul. Há comentaristas judeus que aplicam o Salmo ainda a Absalão;
porque, pela expressão, o sanguinário e
fraudulento, acreditam que Doegue e Aitofel ficam em evidência. Para mim,
contudo, parece mais provável que, quando Davi, após a morte de Saul, tomou posse
do reino pacificamente, ele se dedicou a escrever as orações que constituíam os
frutos de suas meditações em suas aflições e perigos. Para chegar às palavras,
porém, ele expressa uma mesma coisa de três formas diferentes; e essa repetição
denota a força de sua aflição e de sua longa permanência em oração. Pois ele
não era tão amigo de muitas palavras que lançasse mão de diferentes formas de
expressão sem qualquer significado; sendo, porém, profundamente aferrado à
prática da oração, ele representou, por essas várias expressões, a diversidade
de suas queixas. Portanto, significa que ele não costumava orar friamente,
muito menos a empregar palavras sem nexo; senão que, segundo a veemência de sua
tristeza o impelia, ele estava determinado a deplorar suas calamidades diante
de Deus; e, visto que o resultado não lhe surgia imediatamente, ele perseverava
em repetir as mesmas queixas. Uma vez mais, ele não afirma expressamente o que
deseja pedir a Deus; mas há nesse gênero de expressão maior força do que se ele
houvera falado distintamente. Ao não expressar os desejos de seu coração, ele
revela de forma mais enfática que seus sentimentos íntimos, os quais trouxe
consigo à presença de Deus, eram tais que qualquer linguagem que usasse era insuficiente
para expressá-los. Da mesma forma, o verbo clamar,
que significa alta e sonora articulação da voz, serve para caracterizar a
gravidade de seu desejo. Davi não clamou como se fosse aos ouvidos de quem é
surdo; senão que a veemência de sua tristeza, bem como o ímpeto de sua angústia
interior, jorravam neste clamor. O verbo que o profeta usa aqui, significa
tanto falar distintamente quanto sussurrar ou murmurar. O segundo sentido, porém, parece melhor ajustável a esta
passagem. Depois de Davi ter dito em termos gerais que Deus ouve suas palavras,
imediatamente a seguir, e com o propósito de ser mais específico, ele parece
dividi-las em duas espécies, chamando a uma de gemidos obscuros ou indistintos,
e à outra de clamor. Pela primeira ele quer dizer um murmúrio confuso, tal como
é descrito no Cântico de Ezequias, quando o sofrimento o impedia de falar distintamente
e de fazer sua voz audível. “Como a andorinha ou o grou, assim eu chilreava e
gemia como a pomba” [Is 38.14]. Se, pois, em alguma ocasião, formos levados a
orar relutantemente, ou nossas afeições devotas começarem a perder seu fervor,
que encontremos aqui os argumentos para reavivar-nos e impelir-nos para frente.
E como, ao chamar Deus, Rei meu e Deus
meu, ele tencionava nutrir mais vivas e favoráveis esperanças com respeito
aos resultados de suas aflições, aprendamos a aplicar esses títulos a um uso
semelhante, isto é, com o propósito de fazer-nos mais familiarizados com Deus.
Finalmente, ele testifica que não se atormentava sobriamente, como os incrédulos
costumam fazer, mas que direciona a Deus seus gemidos; pois aqueles que,
desconsiderando a Deus, quer se amofinem interiormente ou expressem suas
murmurações, não são dignos de desfrutar de sua consideração. A última cláusula:
Pois a ti é que imploro, é a razão
pela qual Davi aponta para o que ele havia dito imediatamente antes, e que seu
propósito visava a fortalecer sua confiança em Deus, assumindo o seguinte como
um princípio geral: ninguém que invoque a Deus em suas calamidades será
repelido por ele.
Deus nos
abençoe!
João Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).







