"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



segunda-feira, 14 de setembro de 2026

“EU ESTAVA EMBRUTECIDO E IGNORANTE”


“EU ESTAVA EMBRUTECIDO E IGNORANTE”

“Quando o coração se me amargou e as entranhas se me comoveram, eu estava embrutecido e ignorante; era como um irracional à tua presença” (Sl 73:21,22).

O salmista Davi volta novamente à confissão que previamente fizera, reconhecendo que, enquanto sentia seu coração amargurado e suas entranhas espicaçadas por perversa inveja, ele se queixava de Deus de uma maneira impertinente. Esses pensamentos angustiantes eram, por assim dizer, espinhos que o feriam. Já falamos como Davi foi afetado por essa ferina humilhação do espírito. Encontraremos muitos homens profanos que, embora neguem que o mundo seja governado pela Providência de Deus, todavia isso não os perturba muito, mas simplesmente sorriem para os caprichos da “sorte”. Em contrapartida, os verdadeiros crentes, quanto mais firmemente estejam convencidos de que Deus é o juiz do mundo, mais aflitos se sentem quando o procedimento dele não corresponde aos desejos deles.

EU ESTAVA EMBRUTECIDO E IGNORANTE. Aqui Davi censura a si próprio de forma cortante, como lhe cabia fazer, em primeiro lugar declarando que se tornara insensato; em segundo lugar, ele se culpa de ignorância; e, em terceiro, ele afirma que se assemelhara aos irracionais. Houvera simplesmente reconhecido sua ignorância, poder-se-ia perguntar: Donde procedia tal vício ou mácula de ignorância? Ele, pois, a atribui a sua própria estultícia; e ao expressar mais enfaticamente sua tolice, ele se compara aos animais inferiores. Equivalendo a isto: a inveja perversa de que falara era oriunda da ignorância e erro, e a culpa de haver assim errado devia ser imputada unicamente a si próprio, visto que perdera o bom senso e discernimento, e não de uma forma corriqueira, mas numa extensão tal que se reduzira ao estado de brutal estupidez. O que já afirmamos previamente é a pura verdade, ou, seja, que os homens nunca formulam um reto juízo das obras de Deus; pois quando aplicam suas mentes a avaliá-las, todas suas faculdades falham, tornando-se impróprias para a tarefa; no entanto Davi, com razão, põe a culpa de tal fracasso em si próprio, porque, havendo perdido o juízo de ser humano, caíra, por assim dizer, na categoria das criaturas irracionais. Sempre que nos sentirmos insatisfeitos com o método da providência divina em governar o mundo, lembremo-nos que tal coisa se deve atribuir à perversidade de nosso entendimento.

ERA COMO UM IRRACIONAL À TUA PRESENÇA. Aqui deve ser tomado, ao modo de comparação; como se Davi dissesse: Senhor, embora neste mundo tenha eu a aparência de alguém dotado de juízo e razão superiores, contudo, diante de tua sabedoria celestial, tenho me portado como um dos animais inferiores. Devido a esse fato, os homens se deixam ludibriar não tanto por sua própria estultícia, mas por isto: enquanto se entreolham, todos interiormente se mimam. Entre os cegos, cada um acredita possuir um olho; em outros termos, que ele sobressai aos demais; ou, pelo menos, deleita-se com a reflexão de que seus amigos em sentido algum lhe são superiores em sabedoria. Quando, porém, as pessoas vão a Deus, e se comparam a ele, esse erro tão prevalecente, no qual todos bem depressa adormecem, não pode encontrar qualquer guarida.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

“COMO TÊM SIDO DESTRUÍDOS”


“COMO TÊM SIDO DESTRUÍDOS”

“Como têm sido destruídos, como por um momento! Têm perecido, têm se consumido com terrores.” (Sl 73:19).

A linguagem de espanto com que o salmista se sente impelido serve bem para confirmar o conteúdo do versículo precedente. Uma vez que a consideração da prosperidade dos ímpios induz certo torpor a nossas mentes, aliás, as torna até mesmo estúpidas, portanto sua destruição, sendo súbita e imprevista, tende a despertar-nos mais eficazmente, sendo cada um de nós constrangido a inquirir como é possível suceder um fato como esse, o qual todos os homens jamais poderiam imaginar que se concretizasse. O profeta, pois, fala do mesmo na forma exclamativa, como de algo incrível. Não obstante, ele ao mesmo tempo nos ensina que Deus está diariamente trabalhando de maneira tal que, se pelo menos abríssemos nossos olhos, veríamos a manifestação de coisas que no mínimo excitariam nosso espanto. Sim, mais ainda, se pela fé olhássemos à distância para os juízos de Deus, diariamente chegando mais e mais perto de nós, nada aconteceria que considerássemos por demais estranho ou difícil de se crer; pois a surpresa que sentimos procede da lentidão e displicência com que procedemos na aquisição do conhecimento da divina verdade. Quando se diz: têm se consumido com terrores, pode-se entender a expressão de duas maneiras. Ou significa que Deus troveja sobre eles de uma maneira tão inusitada, que a própria singularidade do fato os abala com consternação; ou que Deus, embora não estenda suas mãos sobre seus inimigos, não obstante os precipita em consternação e os reduz a nada, tão-somente pelo terror de seu sopro, exatamente no momento em que são surpreendidos desprezando todos os perigos, como se estivessem em perfeita segurança e fazendo um pacto com a morte. Daí virmos antes Davi introduzindo-os a estimular-se em sua obstinação com essa linguagem ostensiva: “Quem é SENHOR sobre nós?” [SI 12.4], Sou mais inclinado a adotar o primeiro sentido; e a razão que me leva a fazer isso é que, quando Deus percebe que somos por demais lentos na avaliação de seus juízos, então ele inflige sobre os ímpios juízos de um gênero mui severo, e os persegue com espantosa manifestação de sua ira, como se provocasse tremores na terra, a fim de, com isso, corrigir a obtusidade de nossa percepção.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

“LUGARES ESCORREGADIOS”


“LUGARES ESCORREGADIOS”

“Certamente tu os puseste em lugares escorregadios; tu os precipitarás na destruição” (Sl 73:18).

O salmista Davi, passando em revista seus conflitos, começa, se pudermos usar tal expressão, sentindo-se um novo homem; e fala com mente tranquila, sendo, por assim dizer, elevado a uma torre de vigia, donde obtém uma clara e distinta visão das coisas que antes lhe eram ocultas. A resolução do profeta Habacuque era de assumir tal posição, e, por seu exemplo, ele nos prescreve isso como um antídoto em meio às tribulações - “Pôr-me-ei em minha guarda”, diz ele, “e pôr-me-ei sobre a torre” (Hc 2.1). Davi, pois, mostra quanta vantagem se pode derivar do acesso a Deus. Agora vejo, diz ele, como procedes em tua providência; pois, embora os ímpios continuem estáveis por um breve tempo, contudo estão, por assim dizer, empoleirados em lugares escorregadios, a fim de caírem antes que sejam precipitados na destruição. Ambos os verbos deste versículo estão no pretérito; mas o primeiro, os puseste em lugares escorregadios, deve ser entendido no tempo presente, como se houvesse dito: Deus, por um breve período, os põe em lugares altos, e, quando caem, sua queda pode ser extremamente pesada. É verdade que essa parece ser a porção tanto dos justos quanto dos ímpios; pois tudo neste mundo é escorregadio, incerto e mutável. Visto, porém, que os crentes dependem do céu, ou, melhor, visto que o poder de Deus é o fundamento sobre o qual descansam, não se afirma deles que são postos em lugares escorregadios, não obstante a fragilidade e incerteza que caracterizam sua condição neste mundo. Que embora tremam ou mesmo caiam, o Senhor tem sua mão sob eles para sustê-los e fortalecê-los quando tremerem, e erguê-los quando estiverem prostrados. A incerteza da condição dos ímpios, ou, como ele aqui o expressa, sua condição escorregadia, procede disto: que eles sentem prazer em contemplar seu próprio poder e grandeza, e se admiram por essa conta, tal como uma pessoa que teria de caminhar ociosamente sobre o gelo; e assim, por sua enfatuada presunção, se preparam para cair de ponta cabeça. Não devemos delinear em nossa imaginação a roda da "sorte", a qual, quando gira, enreda todas as coisas em total confusão; devemos, porém, admitir a verdade em relação à qual o profeta aqui chama a atenção, e a qual ele nos diz se faz conhecida de todos os santos no santuário, ou, seja, que há uma secreta e divina providência que administra todas as atividades do mundo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

KONING VAN DE KERK – REI DA IGREJA

KONING VAN DE KERK – REI DA IGREJA

"Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai" (Fp 2:9-11).


KONING VAN DE KERK

Nós nos rendemos a Jesus
Rei da Igreja
Senhor de todo o nosso coração
Jesus!
Toda honra a Jesus
Rei da Igreja
Senhor de todo o nosso coração.

EÉN HEER - UM SÓ SENHOR

EÉN HEER - UM SÓ SENHOR

"Todavia, para nós há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem existimos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas" (1Co 8.6).

EÉN HEER

Um só SENHOR
Um só Nome
Um só Deus que está acima de tudo.
Um só Espírito
Um só Filho
Um só Deus que reina acima de tudo.


terça-feira, 8 de setembro de 2026

“O SENHOR ME CASTIGOU SEVERAMENTE”


“O SENHOR ME CASTIGOU SEVERAMENTE”

“O SENHOR me castigou severamente, mas não me entregou à morte” (Sl 118:18).

Nestas palavras, o salmista Davi declara que seus inimigos o atacaram injustamente, que foram usados por Deus para corrigi-lo, que esta foi uma disciplina paterna, não infligindo Deus uma ferida mortal, e sim corrigindo-o em justa medida e em misericórdia. É como se ele antecipasse as decisões com as quais homens perversos o pressionavam seriamente, como se todos os males que suportara fossem evidências de ser ele abandonado por Deus. Ele aplica de modo bem diferente essas calúnias lançadas sobre ele pelos réprobos, declarando que a sua disciplina era suave e paterna. O elemento principal na adversidade é saber que somos humilhados pela mão de Deus e que esta é a maneira que Ele usa para provar nosso compromisso de fidelidade, erguer-nos de nosso entorpecimento, crucificar o velho homem, purgar-nos de nossa impureza, trazer-nos em submissão e sujeição a Deus e impelir-nos à meditação sobre a vida celestial.

Se estas coisas forem relembradas por nós, não haverá nenhum de nós que não estremecerá ante o pensamento de irritar-se contra Deus; e que, pelo contrário, não nutrirá submissão a Ele com espírito dócil e humilde. A nossa atitude de mostrar impaciência e de avançar precipitadamente, por certo, procede da maioria dos homens que não veem suas aflições como varas de Deus e de outros que não desfrutam do cuidado paternal de Deus. A última cláusula do versículo merece atenção especial: Deus sempre trata com misericórdia seu povo peculiar, de modo que as disciplinas da parte de Deus comprova a cura deles. Não que o cuidado paterno de Deus seja sempre visível, mas no fim Ele mostrará que suas disciplinas, longe de serem fatais, servem como um remédio, que, embora produza debilidade temporária, nos livra de nossa doença e nos torna saudáveis e vigorosos.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

“NÃO MORREREI; ANTES, VIVEREI”


“NÃO MORREREI; ANTES, VIVEREI”

“Não morrerei; antes, viverei e contarei as obras do SENHOR” (Sl 118:17).

O salmista Davi fala como alguém que emerge da sepultura. A mesma pessoa que diz eu não morrerei reconhece que foi resgatada da morte, da qual se achava tão próximo, como alguém condenado a ela. Durante vários anos, ele passara sua vida em perigo iminente, exposto a mil mortes a todo momento; e, logo que era libertado de uma, se via diante de outra. Assim, ele declara que não morreria, porque recobrava a vida, cuja esperança ele abandonara inteiramente. Nós, que temos a vida oculta com Cristo, em Deus, devemos meditar sobre este cântico todos os dias [Cl 3.3]. Se desfrutamos ocasionalmente de algum alívio, somos obrigados a unir-nos a Davi, dizendo que, quando estávamos cercados de morte, fomos ressurgidos para novidade de vida. Portanto, devemos perseverar constantemente em meio às trevas. Como nossa segurança jaz na esperança, é impossível que ela nos seja muito visível. Na segunda parte do versículo, Davi realça o uso correto da vida. Deus não prolonga a vida de seu povo para que tenham grande prazer em comida e bebida, com sono e deleite, desfrutando de toda bênção temporal, e sim para que Ele seja glorificado por seus benefícios com os quais, diariamente, abençoa seu povo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

“MELHOR É BUSCAR REFÚGIO NO SENHOR”


“MELHOR É BUSCAR REFÚGIO NO SENHOR”

“Melhor é buscar refúgio no SENHOR do que confiar no homem” (Sl 118:8).

É como se o salmista Davi declarasse o que é óbvio (e unanimemente admitido): quando Deus e os homens se confrontam, Ele deve ser visto como infinitamente exaltado acima dos homens; por isso, é melhor confiar nEle para obter o auxílio que prometera a seu povo. Todos fazem este reconhecimento. No entanto, raramente achamos um entre cem homens que se persuade plenamente de que somente Deus pode propiciar-lhe auxílio suficiente. Esse homem atingiu uma posição elevada entre os fiéis; esse homem, descansando satisfeito em Deus, nunca cessa de nutrir uma viva esperança, mesmo quando não acha nenhum auxílio na terra. Todavia, a comparação é imprópria, porque não podemos transferir aos homens a mínima porção de nossa confiança, que deve ser depositada somente em Deus. O significado é, de algum modo, ambíguo. O salmista está ridicularizando as esperanças ilusórias dos homens, pelas quais são arremessados de um lado para o outro, e declara que, quando o mundo os favorece, os orgulhosos se expandem e se esquecem de Deus ou O desprezam. Alguns acham que Davi censura amargamente seus inimigos, por estarem enganados em depender do favor de Saul. Isto me parece uma visão limitada demais da passagem. Não duvido que Davi se apresentou aqui como um exemplo para todos os fiéis: um exemplo de que ele havia colhido o fruto pleno de sua esperança, quando, dependendo unicamente de Deus, suportou pacientemente a perda de todo socorro terreno.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

“BENDITO O QUE VEM EM NOME DO SENHOR”


“BENDITO O QUE VEM EM NOME DO SENHOR”

“Bendito o que vem em nome do SENHOR. A vós outros da Casa do SENHOR, nós vos abençoamos” (Sl 118:26).

Neste versículo um pedido particular é acrescentado, um pedido que os fiéis deviam guardar, ou seja: uma vez que Deus havia designado Davi como ministro de sua graça, este também queria bendizê-Lo. Aqueles que Deus emprega para o bem-estar de sua Igreja são identificados como aqueles que vêm em nome do Senhor - tais como os profetas e mestres que Deus levanta para congregar sua Igreja; tais como generais e governantes que Ele instrui por meio de seu Espírito. Mas, como Davi era um tipo de Cristo, seu caso era peculiar, visto que era a vontade de Deus que seu povo vivesse sob os cuidados de Davi e de seus sucessores até ao advento de Cristo. A expressão bendito aquele que vem pode ser considerada como uma forma de congratulação. Todavia, visto que a bênção dos sacerdotes é imediatamente anexada, disponho-me antes a crer que o povo desejava que Davi recebesse a graça e o favor de Deus. Para induzi-los a apresentar esta petição com mais vivacidade e, assim, serem encorajados a receber o rei a quem Deus lhes designara, esta promessa é adicionada na pessoa dos sacerdotes: A vós outros da Casa do SENHOR, nós vos abençoamos ou nós te bendizemos desde a casa do SENHOR.

Eles falam dessa maneira em harmonia com seu ofício, que lhes impunha o dever de abençoar o povo, como transparece de várias passagens nos livros de Moisés (particularmente, Números 6.23). Não é sem razão que eles conectam o bem-estar da Igreja com a prosperidade do reino, sendo o desejo deles apresentar a sugestão e mostrar que a segurança do povo permaneceria enquanto o reino continuasse a florescer e que todos participariam das bênçãos que seriam conferidas a seu rei, por causa da conexão indissolúvel que existe entre a cabeça e os membros.

Sabendo, como agora sabemos, que, ao ser Davi constituído rei, foi lançado o fundamento daquele reino eterno que, eventualmente, se manifestou no evento de Cristo; sabendo também que o trono temporal sobre o qual os descendentes de Davi foram postos era um tipo do reino eterno dado a Cristo por Deus, seu Pai, em consequência do qual Ele obteve todo o poder, tanto no céu como na terra, não pode haver dúvida de que o profeta convoca os fiéis a orarem fervorosa e constantemente pela prosperidade e progresso deste reino espiritual. Pois de orarem por Davi e seus sucessores era uma incumbência dos que viviam durante aquela sombria dispensação; mas, depois que toda a grandeza daquele reino foi subvertida, coube-lhes rogar com todo ardor que Deus, no cumprimento de suas promessas, o restabelecesse.

Em suma, tudo o que é declarado aqui se relaciona propriamente com a pessoa de Cristo. E aquilo que era indistintamente prefigurado em Davi foi apresentado e cumprido em Cristo. A eleição de Davi foi secreta; e, depois de ser ungido como rei por Samuel, ele foi rejeitado por Saul, bem como por todos os líderes do povo; e todos nutriam aversão por ele, como se fosse merecedor de centenas de mortes. Assim, mal interpretado e desonrado, Davi não parecia ser uma pedra adequada para ocupar um lugar no edifício. Semelhante a isto foi o princípio do reino de Cristo, que, sendo enviado pelo Pai para a redenção da Igreja, não somente foi desprezado pelo mundo, mas também odiado e execrado, tanto pelas pessoas comuns como pelos nobres da Igreja.

Mas é possível que alguém pergunte: Como o profeta chama de construtores aqueles que, em vez de desejarem a proteção da Igreja, almejavam somente a destruição de toda a estrutura? Sabemos, por exemplo, com que veemência os escribas e sacerdotes, nos dias de Cristo, labutavam para a subversão de toda piedade. A resposta não é difícil. Davi se refere somente ao ofício que eles exerciam, e não às inclinações pelas quais eram impelidos. Saul e todos os seus conselheiros foram subvertedores da Igreja; no entanto, em relação ao seu ofício, eram os principais construtores. O Espírito Santo costuma conceder aos ímpios os títulos honrosos que pertencem ao ofício deles, até que Deus os remova do ofício. Portanto, quão desavergonhados eram, às vezes, os sacerdotes entre o antigo povo de Deus; no entanto, retinham a dignidade e a honra que pertenciam a seu ofício, até que eram destituídos do ofício. Por isso, as palavras de Isaías [42.19]: “Quem é cego, senão meu servo; e quem é louco, senão aquele a quem enviei?” Ora, ainda que a intenção deles era minar toda a constituição da Igreja, visto que haviam sido chamados por Deus para cumprir um objetivo diferente, o salmista os chama servos e enviados de Deus.

Esta passagem nos informa que aqueles que são investidos do ofício de governo da Igreja, são, às vezes, os piores operários. Davi, falando pelo Espírito, denomina de construtores àqueles que tentavam destruir o Filho de Deus e a salvação da humanidade. Por meio deles, o culto divino foi adulterado, o cristianismo, totalmente corrompido, e o templo de Deus, profanado. Se todos os que são investidos de autoridade ordinária devem ser ouvidos, sem exceção, como pastores legalmente designados, então Cristo não deve falar, porque frequentemente seus inimigos mais amargos vivem ocultos sob as vestes de pastores.

Aqui, vemos que poderoso e inexpugnável escudo o Espírito Santo nos dá contra a vanglória fútil dos clérigos papais. Eles possuem o título de “construtores”; mas, se não conhecem a Cristo, segue-se, necessariamente, que nós também não O conhecemos? Ao contrário, que condenemos e rejeitemos todos os decretos deles e reverenciemos esta preciosa pedra sobre a qual repousa a nossa salvação. Pela expressão essa veio a ser a pedra angular, devemos entender o fundamento real da Igreja, o fundamento que sustenta todo o peso do edifício, sendo indispensável que os cantos formem a principal foça do edifício. Não aprovo a opinião ingênua de Agostinho, que faz de Cristo a pedra angular, porque Ele uniu judeus e gentios, fazendo assim da pedra angular a pedra intermédia entre as duas paredes diferentes.

Davi prossegue, repetindo, em alguma extensão, como tenho observado, que é errôneo estimar o reino de Cristo pelos sentimentos e opiniões dos homens, porque, a despeito da oposição do mundo, o reino está erigido de maneira espantosa pelo poder invisível de Deus. Entretanto, devemos ter em mente que tudo o que foi realizado na pessoa de Cristo se estende ao desenvolvimento gradual de seu reino, inclusive até ao fim do mundo. Quando Cristo habitou na terra, Ele foi desprezado pelos principais sacerdotes. Agora, os que se chamam sucessores de Pedro e de Paulo, mas realmente não passam de sucessores de Ananias e Caifás, deflagram guerra, como gigantes, contra o evangelho e o Espírito Santo. Mas esta rebelião furiosa não deve inquietar-nos. Antes, adoremos humildemente aquele maravilhoso poder de Deus que reverte as perversas decisões do mundo. Se nosso entendimento limitado pudesse compreender o curso que Deus segue para a proteção e preservação de sua Igreja, não haveria nenhuma menção de um milagre. Deste fato, concluímos que o modo de operar de Deus é incompreensível e frustra o entendimento dos homens.

Poderíamos indagar: era necessário que Cristo foi censurado pelos construtores? Certamente, a Igreja indicaria encontrar-se em um estado lamentável, se ela tivesse como pastores somente aqueles que eram inimigos mortais do seu bem-estar. Quando Paulo se intitula “construtor”, ele nos informa que este ofício era comum a todos os apóstolos [1Co 3.10]. Minha resposta é: todos os que exercem liderança na Igreja não são culpados de cegueira perpétua e que o Espírito Santo confronta essa pedra de tropeço, que, em outros aspectos, tende a ser um obstáculo para muitos, quando testificam o nome de Cristo envoltos em esplendor profano.

Quando Deus, visando que sua glória resplandeça com mais fulgor, solta as rédeas de Satanás, de modo que os que são investidos com poder e autoridade rejeitam a Cristo, o Espírito Santo nos ordena a que sejamos corajosos e, rejeitando todas essas decisões perversas, recebamos com todo respeito o Rei a quem Deus pôs sobre nós. Sabemos que desde o início os construtores têm se empenhado para subverter o reino de Cristo. Isso continua a ocorrer em nossos dias, na atitude daqueles que, tendo recebido a incumbência da superintender a Igreja, fazem todas as tentativas para subverter esse reino, pois dirigem contra ele todo as armas que puderem inventar. Mas, se guardarmos em mente esta profecia, nossa fé não desanimará. Pelo contrário, mas será mais e mais confirmada, porque, dentre essas coisas, se tornará ainda mais evidente que o reino de Cristo não depende do favor humano, nem extrai sua força de apoios terrenos, porque não obteve sua força dos sufrágios humanos. No entanto, se os construtores edificam bem, a perversidade dos que não permitem a si mesmos o tornarem-se apropriados ao edifício sagrado será muito menos escusável. Além do mais, sempre que nós, por esta espécie de tentação, nos vemos diante das provações, não nos esqueçamos de que é irracional esperar que a Igreja seja governada segundo a nossa compreensão dos problemas e que somos ignorantes quanto ao governo dela, porque aquilo que é miraculoso excede a nossa compreensão.

A sentença anterior, este é o dia que o SENHOR fez [v.24], nos lembra que não há nada, exceto o reino de trevas morais, se Cristo, o Sol da Justiça, não nos ilumina com seu evangelho. Devemos ainda lembrar que esta obra deve ser atribuída a Deus e que a humanidade não deve arrogar para si qualquer mérito em virtude de seus próprios empenhos. O chamado ao exercício da gratidão, que segue imediatamente, tem o propósito de nos advertir contra o render-nos à loucura de nossos inimigos, por mais furiosos que se mostrem contra nós, a fim de privar-nos da alegria que Cristo nos conquistou. De Cristo deriva toda a nossa felicidade; consequentemente, não haverá motivo para admiração, se todos os ímpios se inflamarem de aborrecimento e sentirem-se indignados ante o fato de sermos elevados a um clímax de gozo tão sublime, que superamos toda tristeza e suavizamos toda a severidade das provas que temos suportado.

Antes do advento de Cristo, a oração que aparece em seguida era familiar ao povo e às crianças, pois os evangelistas declaram que Cristo foi recebido com esta forma de saudação. Certamente era a vontade de Deus ratificar, naquele tempo, a predição que Ele falara pelos lábios de Davi. Ou melhor, essa exclamação demonstra nitidamente que a interpretação contra a qual os judeus ergueram um clamor era unanimemente admitida; e isso torna sua obstinação e malícia ainda mais inescusáveis. Eu os culpo não por sua estupidez, visto que se deixam envolver intencionalmente por um misto de ignorância, a fim de cegarem a si mesmos e aos demais. E, como os judeus nunca cessaram de pronunciar esta oração durante aquela dolorosa desolação e aquelas chocantes devastações, sua perseverança deve inspirar-nos com novo vigor nestes dias.

Naquele tempo, os judeus não tinham a honra de um reino, um trono real, um nome senão com Deus. Contudo, nesse estado deplorável e corrompido, apegaram-se à forma de oração outrora prescrita para eles pelo Espírito Santo. Instruídos por seu exemplo, não desfaleçamos em orar ardentemente pela restauração da Igreja, a qual, em nossos dias, se encontra envolta em melancólica desolação. Além disso, nestas palavras somos também informados que o reino de Cristo não é erigido e desenvolvido pela política humana, e sim que esse reino é uma obra exclusiva de Deus, pois os fiéis são ensinados a confiar somente na bênção dEle. Além do mais, a própria repetição das palavras que, como temos observado, as torna mais vigorosas, deve despertar-nos de nossa letargia e tornar-nos mais intensamente zelosos em verbalizar esta oração. Deus pode, por Si mesmo, sem a instrumentalidade da oração de qualquer crente, erigir e proteger o reino de seu Filho; porém não é sem bom motivo que Ele nos impõe esta obrigação, visto que nada deve ser mais conveniente aos fiéis do que a busca solícita do avanço da glória de Deus.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

terça-feira, 1 de setembro de 2026

“A FIGUEIRA MURCHA” - Conclusão


“A FIGUEIRA MURCHA”

“Cedo de manhã, ao voltar para a cidade, teve fome; e, vendo uma figueira à beira do caminho, aproximou-se dela; e, não tendo achado senão folhas, disse-lhe: Nunca mais nasça fruto de ti! E a figueira secou imediatamente. Vendo isto os discípulos, admiraram-se e exclamaram: Como secou depressa a figueira!” (Mt 21.17-20).

Conclusão.

Sugiro que todas as pessoas aqui presentes clamem ao Senhor para nos tornar conscientes da nossa esterilidade natural. Amados irmãos, que o Senhor nos leve a lamentar nossa esterilidade, mesmo quando trazemos alguns frutos. Sentirem-se bem satisfeitos consigo mesmos é perigoso: julgarem-se santos, e até mesmo perfeitos, é ficar à beira da fossa do orgulho. Se vocês erguerem a cabeça tão alta, temo que vão batê-la contra a verga da porta. Se andarem sobre pernas de pau, temo que cairão. É muito mais seguro sentir: "Senhor, realmente sirvo a Ti, e não sou enganador. Amo-te realmente; Tu tens operado em mim as obras do Espírito. Mas ai de mim! Não sou o que quero ser, não sou o que devo ser. Aspiro à santidade; ajuda-me a alcançá-la. Senhor, devo ficar deitado no próprio pó diante de Ti quando penso que, depois de ter recebido o trabalho da escavação e da adubação, produzo tão poucos frutos. Sinto que sou menos do que nada. Meu clamor é: "Deus tem misericórdia de mim". Se eu tivesse feito tudo, ainda seria um servo de pouco proveito; mas tendo feito tão pouco, Senhor, onde esconderei a minha cabeça culpada?"

Finalmente, depois de terem feito essa confissão, e o bom Senhor ter ouvido, há um símbolo nas Escrituras que eu gostaria que vocês copiassem. Imaginemos que nesta manhã vocês se sintam tão secos, mortos e infrutíferos, que não podem servir a Deus como gostariam de fazer, nem sequer orar pedindo mais graça, conforme desejam. Então, estão como doze varas. Estão muito mortas e secas, porque ficaram sempre nas mãos de doze chefes, que as usaram como cetros do seu cargo oficial. Essas doze varas devem ser colocadas diante do Senhor. Esta aqui é a de Arão; mas está tão morta e seca como qualquer das demais. Todas as doze são colocadas onde o Senhor habita. Vemo-las no dia seguinte. Onze delas continuam a ser varas secas; mas vejam essa vara de Arão! O que aconteceu? Era seca como a morte. Mas vejam, brotou! Isto é maravilhoso! Mas olhem, floresceu! Há nela flores de amendoeira. São cor-de-rosa e brancas. É uma maravilha! Mas olhem de novo: produziu amêndoas! Aqui estão! Vejam estes frutos verdes, que parecem pêssegos. Tirem a parte carnuda, e aqui está uma amêndoa cuja casca vocês podem quebrar para achar a noz. O poder celestial veio sobre a vara seca, e brotou, e floresceu, e até mesmo produziu amêndoas. Frutificar é a prova da vida e do favor. Senhor, tome essas pobres varas hoje, e faça-as brotar. Senhor, aqui estamos, num feixe, realize aquele milagre antigo em mil de nós. Faça-nos brotar, florescer, e frutificar! Vem com poder divino, e transforma esta congregação de gavela em pomar. Quem dera que nosso bendito Senhor obtivesse um figo dalguma vara seca nesta manhã! — pelo menos um figo tal como este: "Deus tem misericórdia de mim, pecador!" Há doçura nessa oração. Nosso Senhor Jesus gosta do sabor de um figo tal como este: "Senhor, creio! Ajuda a minha falta de fé!" Aqui está outro: "Ainda que ele me mate, nele esperarei" — é uma cestada de figos temporãos, e o Senhor se regozija na sua doçura. Vem, Espírito Santo, produza frutos em nós hoje, mediante a fé em Jesus Cristo, nosso Senhor! 

Deus nos abençoe!

Charles Haddon Spurgeon (1834-1892).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).