"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



terça-feira, 14 de julho de 2026

“PERSIGA O INIMIGO A MINHA ALMA”


“PERSIGA O INIMIGO A MINHA ALMA”

“Se paguei com o mal a quem estava em paz comigo, eu, que poupei aquele que sem razão me oprimia, persiga o inimigo a minha alma e alcance-a, espezinhe no chão a minha vida e arraste no pó a minha glória” (Salmos 7:4,5).

Persiga o inimigo a minha alma. Eis uma extraordinária evidência da profunda confiança que Davi tinha em sua própria integridade, estando disposto a suportar qualquer gênero de castigo, embora temeroso, desde que fosse encontrado culpado de algum crime. Se pudermos levar à presença de Deus uma boa consciência como esta, sua mão mui prontamente se estenderá para proporcionar-nos imediata assistência. Mas como às vezes sucede que aqueles que nos molestam o fazem porque são provocados por nós, ou ardemos de desejo por vingança quando ofendidos, somos indignos de receber o socorro divino; sim, nossa própria impaciência fecha a porta às nossas orações. Em primeiro lugar, Davi está preparado para ser entregue à vontade de seus inimigos, para que se assenhoreassem de sua vida e a lançassem ao chão; para em seguida ser publicamente exibido como objeto de seu escárnio, de modo que, mesmo depois de morto, fosse exposto à miséria eterna. Há quem pense que a palavra que traduzimos por glória, deve ser, aqui, tomada por vida, e assim teremos três palavras: alma, vida e glória, significando a mesma coisa. A meu ver, porém, o significado da passagem será mais completo se tomarmos a palavra glória no sentido de memória, ou seu bom nome, como se quisesse dizer: Que meu inimigo não só me destrua, mas também, depois de matar-me, fale de mim nos mais ignominiosos termos, de modo que meu nome seja mergulhado na lama ou na imundícia.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

“SE EU FIZ O DE QUE ME CULPAM”


SE EU FIZ O DE QUE ME CULPAM”

“SENHOR, meu Deus, se eu fiz o de que me culpam, se nas minhas mãos há iniquidade, se paguei com o mal a quem estava em paz comigo, eu, que poupei aquele que sem razão me oprimia, persiga o inimigo a minha alma e alcance-a, espezinhe no chão a minha vida e arraste no pó a minha glória” (Salmos 7:3-5).

O salmista Davi, neste ponto, insiste com Deus a mostrar-lhe seu favor, protesta que é injustamente molestado, sem mesmo ser culpado de crime algum. Com o fim de imprimir ao seu protesto mais vigor, ele usa a imprecação. Se eu fiz o de que me culpam, ele declara sua prontidão em ser responsabilizado; sim, ele se oferece para suportar o mais severo castigo, caso não seja completamente inocente do crime acerca do qual todos os homens acreditavam estivesse ele já quase convencido. E ao rogar a Deus que o socorresse sob nenhuma outra condição senão esta, a saber: para que sua integridade não fosse embaraçada pelas provações, ele nos ensina, por seu exemplo, que, enquanto temos o recurso divino, devemos fazer dele nossa primordial preocupação para assegurar-nos bem de nossa própria consciência com respeito à justiça de nossa causa; pois cometeríamos grave erro se desejássemos engajá-lo como advogado e defensor de uma má causa. O pronome esta revela que ele fala de uma coisa que era geralmente notória; daí podermos concluir que a calúnia levantada contra ele por se espalhara amplamente. E quando Davi se viu condenado pelas falsas notícias e injustos juízos que os homens as sacavam contra ele, e não via antídoto algum sobre a terra, ele recorreu ao tribunal divino e se contenta em manter sua inocência diante do Juiz celestial; exemplo que deveria ser imitado por todo crente piedoso, a fim de que, em oposição às notícias caluniosas que são divulgadas contra ele, descanse satisfeito unicamente com o juízo divino. A seguir declara mais distintamente que não cometera crime algum. E no quarto versículo menciona duas particularidades em sua defesa. A primeira é que ele não havia cometido erro algum contra alguém; e a segunda é que havia se esforçado em fazer o bem em favor de seus inimigos, por quem, não obstante, havia sido injuriado sem nenhuma justa causa. Portanto, explico o quarto versículo assim: Se prejudiquei alguém que vivia em paz comigo, e ao contrário deixei de socorrer o indigno que me perseguia sem justa causa etc. Visto que Davi era odiado por quase todos os homens, como se a ambição de reinar o houvera impelido perfidamente a rebelar-se contra Saul, e armara armadilhas para o monarca a quem se comprometera por juramento de obedecer, na primeira parte do versículo ele se lava de calúnia tão infame. Provavelmente, a razão de ele chamar Saul aquele que vivia em paz comigo seja que, em razão de sua dignidade real, sua pessoa devia ser sagrada e guardada do perigo, de modo que não seria ilícito fazer qualquer tentativa hostil contra ele. Essa frase, contudo, pode ser entendida em termos gerais, como se dissesse: Nenhum daqueles que humildemente se refrearam de injuriar-me e se conduziram com espírito humano para comigo, pode com justiça queixar-se de um único exemplo meu de lançar injúria contra ele. E, no entanto era a convicção geral de que Davi, num clima de paz, havia provocado grande confusão e deflagrado guerra. À luz desse fato tanto mais se manifesta que Davi, desde que desfrutava da aprovação divina, sentia-se feliz com a consolação oriunda dela, visto que ele não receberia nenhum conforto proveniente de outra fonte.

Na segunda cláusula do quarto versículo, ele avança mais e declara que havia sido amigo, não só em relação aos bons, mas também em relação aos maus; e não só se refreara de toda e qualquer vingança, mas que até mesmo socorrera seus inimigos, por quem fora profunda e cruelmente injuriado. Certamente não seria uma virtude muito louvável amar os bons e pacíficos, a não ser que haja uma associação entre essa autonomia e a docilidade em suportar pacientemente os maus. Mas quando uma pessoa se guarda não só de vingar as injúrias que haja recebido, mas também se esforça por vencer o mal pela prática do bem, ela está a manifestar uma das graças da natureza renovada e santificada, e com isso prova a si mesma pertencer ao rol dos filhos de Deus; pois tal mansidão só pode proceder do Espírito de adoção.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“SENHOR, DEUS MEU, EM TI CONFIO”


“SENHOR, DEUS MEU, EM TI CONFIO”

“SENHOR, Deus meu, em ti confio; salva-me de todos os que me perseguem e livra-me; para que ninguém, como leão, me arrebate, despedaçando-me, não havendo quem me livre” (Sal 7:1,2).

Bem no início do Salmo, Davi já fala da existência de muitos inimigos, e no segundo versículo ele especifica alguém na forma singular. E com toda certeza, visto que as mentes de todos os homens se inflamaram contra ele, por isso tinha boas razões para orar a fim de que se visse libertado de todos os seus perseguidores. Mas, como a perversa crueldade do rei, como um tição, acendera contra ele, ainda que inocente, o ódio de todo o povo, ele tinha também boas razões para converter sua pena particularmente contra o mesmo. Por conseguinte, no primeiro versículo ele descreve o verdadeiro caráter de suas próprias circunstâncias - era um homem perseguido; e, no segundo versículo, a fonte ou causa da calamidade que ora suportava. Há forte ênfase nas palavras que ele usa no início do Salmo: SENHOR, meu Deus, em ti confio. Na verdade o verbo, no hebraico, está no tempo passado; portanto, se literalmente traduzido, a redação seria: Em ti tenho confiado; como o hebraico, porém, às vezes toma um tempo por outro, prefiro traduzi-lo no presente: Em ti confio, especialmente visto ser muitíssimo evidente que, como se denomina, denota-se um ato contínuo. Davi não se gloria naquela confiança em Deus da qual ora tinha fracassado, mas naquela confiança que constantemente acalentava em suas aflições. E essa é a genuína e indubitável prova de nossa fé, quando, sendo visitado pela adversidade, nós, não obstante, perseveramos em acalentar e exercitar esperança em Deus. À luz desta passagem também aprendemos que o portão da misericórdia estará fechado contra nossas orações caso a chave da fé não no-lo abrir. Nem tampouco usa linguagem supérflua quando chama o SENHOR seu próprio Deus; pois ao levantar essa verdade como um baluarte diante de seus próprios olhos, ele rebate as ondas das tentações, para que não inundem sua fé. No segundo versículo, usando a figura de um leão, ele projeta por um facho de luz ainda mais forte a crueldade de Saul, como um argumento para induzir a Deus a conceder-lhe assistência, ainda quando descreva Deus em sua peculiar função de resgatar suas pobres ovelhas das garras dos lobos.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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segunda-feira, 13 de julho de 2026

“DÁ OUVIDOS, SENHOR, ÀS MINHAS PALAVRAS”


“DÁ OUVIDOS, SENHOR, ÀS MINHAS PALAVRAS”

“Dá ouvidos, SENHOR, às minhas palavras e acode ao meu gemido. Escuta, Rei meu e Deus meu, a minha voz que clama, pois a ti é que imploro” (Sl 5:1,2).

Atrevo-me, não em termos positivos, determinar ou que Davi, neste Salmo, lamenta as injustiças que sofreu de seus inimigos em alguma ocasião específica, ou que ele se queixa, em termos gerais, das várias perseguições com as quais, por um longo tempo, fora acossado por Saul. Há comentaristas judeus que aplicam o Salmo ainda a Absalão; porque, pela expressão, o sanguinário e fraudulento, acreditam que Doegue e Aitofel ficam em evidência. Para mim, contudo, parece mais provável que, quando Davi, após a morte de Saul, tomou posse do reino pacificamente, ele se dedicou a escrever as orações que constituíam os frutos de suas meditações em suas aflições e perigos. Para chegar às palavras, porém, ele expressa uma mesma coisa de três formas diferentes; e essa repetição denota a força de sua aflição e de sua longa permanência em oração. Pois ele não era tão amigo de muitas palavras que lançasse mão de diferentes formas de expressão sem qualquer significado; sendo, porém, profundamente aferrado à prática da oração, ele representou, por essas várias expressões, a diversidade de suas queixas. Portanto, significa que ele não costumava orar friamente, muito menos a empregar palavras sem nexo; senão que, segundo a veemência de sua tristeza o impelia, ele estava determinado a deplorar suas calamidades diante de Deus; e, visto que o resultado não lhe surgia imediatamente, ele perseverava em repetir as mesmas queixas. Uma vez mais, ele não afirma expressamente o que deseja pedir a Deus; mas há nesse gênero de expressão maior força do que se ele houvera falado distintamente. Ao não expressar os desejos de seu coração, ele revela de forma mais enfática que seus sentimentos íntimos, os quais trouxe consigo à presença de Deus, eram tais que qualquer linguagem que usasse era insuficiente para expressá-los. Da mesma forma, o verbo clamar, que significa alta e sonora articulação da voz, serve para caracterizar a gravidade de seu desejo. Davi não clamou como se fosse aos ouvidos de quem é surdo; senão que a veemência de sua tristeza, bem como o ímpeto de sua angústia interior, jorravam neste clamor. O verbo que o profeta usa aqui, significa tanto falar distintamente quanto sussurrar ou murmurar. O segundo sentido, porém, parece melhor ajustável a esta passagem. Depois de Davi ter dito em termos gerais que Deus ouve suas palavras, imediatamente a seguir, e com o propósito de ser mais específico, ele parece dividi-las em duas espécies, chamando a uma de gemidos obscuros ou indistintos, e à outra de clamor. Pela primeira ele quer dizer um murmúrio confuso, tal como é descrito no Cântico de Ezequias, quando o sofrimento o impedia de falar distintamente e de fazer sua voz audível. “Como a andorinha ou o grou, assim eu chilreava e gemia como a pomba” [Is 38.14]. Se, pois, em alguma ocasião, formos levados a orar relutantemente, ou nossas afeições devotas começarem a perder seu fervor, que encontremos aqui os argumentos para reavivar-nos e impelir-nos para frente. E como, ao chamar Deus, Rei meu e Deus meu, ele tencionava nutrir mais vivas e favoráveis esperanças com respeito aos resultados de suas aflições, aprendamos a aplicar esses títulos a um uso semelhante, isto é, com o propósito de fazer-nos mais familiarizados com Deus. Finalmente, ele testifica que não se atormentava sobriamente, como os incrédulos costumam fazer, mas que direciona a Deus seus gemidos; pois aqueles que, desconsiderando a Deus, quer se amofinem interiormente ou expressem suas murmurações, não são dignos de desfrutar de sua consideração. A última cláusula: Pois a ti é que imploro, é a razão pela qual Davi aponta para o que ele havia dito imediatamente antes, e que seu propósito visava a fortalecer sua confiança em Deus, assumindo o seguinte como um princípio geral: ninguém que invoque a Deus em suas calamidades será repelido por ele.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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quinta-feira, 9 de julho de 2026

“CHEIO DE GRAÇA E DE VERDADE”


“CHEIO DE GRAÇA E DE VERDADE”

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1.14).

E habitou entre nós. Os que afirmam que a carne foi como que um lar para Cristo não conseguiram penetrar o pensamento do Evangelista. Ele não atribui a Cristo residência permanente entre nós, mas simplesmente diz que ele exerceu por algum tempo o papel de hóspede. Pois o termo que ele usa é derivado de tabernáculo. Com isso, ele quer dizer simplesmente que Cristo desempenhou na terra seu ofício; em outros termos, ele não só surgiu por um instante, mas que viveu entre os homens enquanto cumpria a trajetória de seu ofício. É incerto se a frase “entre nós” se refere aos homens em geral ou a João e aos demais discípulos que foram testemunhas oculares dos eventos que ele narra. Prefiro a última interpretação, pois o Evangelista adiciona imediatamente:

E vimos a sua glória. Pois ainda que a glória de Cristo pudesse ser vista por todos, ela será ignorada pela maioria por causa de sua cegueira; apenas uns poucos, cujos olhos o Espírito Santo abrira, viram essa manifestação da glória. A essência dela consiste em que Cristo foi reconhecido como um homem que exibia em si algo muito maior e mais sublime. Portanto, segue-se que a majestade de Deus não foi aniquilada, ainda que estivesse circunscrita pela carne. Ela ficou, de fato, oculta pela vil condição da carne, mas de modo a não impedir a manifestação de sua glória.

Glória do como do unigênito do Pai. Neste versículo a expressão não denota uma comparação imprópria, mas, antes, uma prova genuína e forte. Precisamente como Paulo faz em Efésios 5.8, ao dizer: “Andai como filhos da luz”, querendo que realmente possamos dar testemunho através de nossas obras do que na realidade somos – filhos da luz. Portanto, a intenção do Evangelista é que em Cristo tinha que ser vista uma glória compatível com o Filho de Deus, testemunhando sua Deidade de uma forma infalível. Assim, ele qualifica a Cristo em razão de ser ele, inerentemente, o Filho unigênito do Pai. É como se o Evangelista tivesse proposto colocá-lo acima dos homens e anjos, e reivindicar para ele com exclusividade, aquilo que não pertence a nenhuma criatura.

Cheio de graça e de verdade. Esta é uma confirmação da última sentença. A majestade de Cristo certamente manifestou-se também em outros aspectos, mas o Evangelista escolheu este exemplo em vez de outros com o fim de nos exercitar no conhecimento prático dele, em vez do conhecimento especulativo – fato este que requer observação mui criteriosa. Quando Cristo caminhou sobre as águas com seus pés enxutos [Mt 14.26; Mc 6.48; Jo 6.19]; quando ele pôs em fuga os demônios e revelou seu poder em outros milagres; então pôde realmente ser reconhecido como o Filho unigênito de Deus. O Evangelista, porém, põe no centro essa parte da prova de que a fé recebe o sazonado fruto de Cristo, declarando que ele é inquestionavelmente a inexaurível fonte da graça e da verdade. De Estevão também se diz que estava “cheio de graça” [At 7.55], contudo em outro sentido. Pois a plenitude da graça em Cristo é aquele bem do qual todos nós devemos beber, como suscintamente se dirá mais adiante de uma forma mais plena.

Tal coisa pode ser expressa fazendo uso de uma expressão de linguagem como sendo “a genuína graça”. Ou, segundo outra explicação: “Ele era cheio de graça, ou seja, de verdade ou perfeição”. Visto, porém, que ele imediatamente repete a mesma forma de expressão, considero o significado como sendo o mesmo em ambos os passos. Logo a seguir, ele contrasta graça e verdade com a lei, o que entendo simplesmente no sentido em que Cristo deve ser reconhecido pelos apóstolos como Filho de Deus, já que ele tinha em si a plenitude de todas as coisas pertencentes ao reino espiritual de Deus. Em suma, em todas as coisas ele realmente demonstrou ser o Redentor e Messias, que é o característico mais importante e pelo qual ele tem de ser distinguido de todos os demais.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“E O VERBO SE FEZ CARNE”


“E O VERBO SE FEZ CARNE”

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1.14).

O Evangelista ensina a natureza da vinda de Cristo de que havia falado, a saber: que, vestido de nossa carne, ele se manifestou publicamente ao mundo. Embora ele toque apenas de leve no inefável mistério de o Filho de Deus assumir a natureza humana, tal brevidade é maravilhosamente clara. Aqui, alguns dementes se divertem de forma pueril, fazendo alguns sofismas desprezíveis, tais como: diz-se que a palavra se fez carne no sentido em que Deus enviou seu Filho ao mundo para tornar-se homem como um conceito mental – como se a Palavra fosse alguma espécie de ideia fantasmagórica. Mas já demonstramos que isso expressa uma genuína hypostasis ou existência pessoal na essência de Deus.

O termo carne expressa a ideia com mais eficácia do que se o Evangelista houvesse dito que ele se fez homem. Ele queria mostrar a que estado vil e abjeto o Filho de Deus desceu, deixando a amplitude de sua glória celestial por nossa causa. Quando a Escritura fala do homem em seu caráter deprimente, ela o chama de “carne”. Quão imensurável é a distância entre a glória espiritual da Palavra de Deus e a abominável vileza da nossa carne. Não obstante, o Filho de Deus se humilhou de forma tão extrema que tomou para si essa carne permeada de profunda miséria. Carne aqui não é usada para a natureza depravada (como em Paulo), mas para o homem mortal. Denota desdenhosamente sua natureza frágil e transitória: “toda carne é erva” [Is 40.6] e textos semelhantes [Sl 78.39].

Ao mesmo tempo, porém, é preciso observar que aqui temos uma sinédoque retórica – a vileza abrange o homem inteiro. Portanto, Apolinário procedeu nesciamente ao imaginar que Cristo se vestiu com um corpo destituído de alma. Pois não é fácil deduzir, à luz de inumeráveis afirmações que ele foi igualmente dotado com um corpo e uma alma. E as Escrituras, ao qualificar os homens de carne, nem por isso os apresentam destituídos de alma.

O sentido pleno, portanto, é para que a Palavra, gerada por Deus antes de todas as eras e habitando eternamente com o Pai, se fez homem. Temos aqui dois importantes artigos de fé. Primeiro: em Cristo as duas naturezas foram unidas numa só pessoa, de tal forma que um e o mesmo Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Segundo: a unidade de sua pessoa não impede suas naturezas de permanecerem distintas de tal modo que a divindade retém o que lhe é inerente, e a humanidade, de igual modo, mantém separadamente o que lhe pertence. E assim, quando Satanás usa os hereges para subverterem a sã teologia por meio desta ou daquela sandice, ele sempre introduz um ou outro destes dois erros: ou que Cristo foi o Filho de Deus e do homem de forma confusa, de modo que nem sua divindade permaneceu intacta nem foi ele circuncidado pela verdadeira natureza humana, ou que ele foi revestido de carne ao ponto de tornar-se um ser duplo, convertendo-se em duas pessoas distintas. Dessa forma, os nestorianos reconheciam expressamente cada natureza, porém imaginavam um Cristo que era Deus e outro que era homem. Êutico, por outro lado, reconhecia que um só Cristo é o Filho de Deus e do homem, porém o destituiu de ambas as naturezas, crendo que foram fundidas. Serveto e os anabatistas inventaram um Cristo que é a confusa combinação das duas naturezas, como se ele fosse um homem divino. Certamente que ele declara verbalmente que Cristo é Deus, mas quando se lhe permite expressar suas insanas imaginações, descobre-se que a divindade foi temporariamente mudada em natureza humana, e agora a natureza foi uma vez mais absorvida na Deidade.

As palavras do Evangelista foram expressas de forma a refutar ambas as blasfêmias. Ao dizer que a Palavra se fez carne, podemos deduzir claramente a unidade de sua pessoa. Pois não faz sentido dizer que o que agora é homem seja outro diferente do que sempre foi Deus, uma vez que se diz que foi Deus quem se fez carne. Além disso, visto que ele atribui distintamente ao homem Cristo o título a Palavra, segue-se que, quando se fez homem, Cristo não cessou de ser o que sempre fora antes, e que nada foi mudado naquela eterna essência do Deus que assumiu a carne. Em suma, o Filho de Deus começou a ser homem de tal forma que é ainda aquela eterna Palavra que jamais teve princípio temporal.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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sexta-feira, 3 de julho de 2026

“SANTIFICA-OS NA VERDADE; A TUA PALAVRA É A VERDADE”


“SANTIFICA-OS NA VERDADE; A TUA PALAVRA É A VERDADE”

“Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17:17).

Santifica-os na verdade. Esta santificação inclui o reino de Deus e sua justiça; ou seja, quando Deus nos renova por seu Espírito, ele confirma em nós a graça da regeneração e a leva até o fim. Portanto, Cristo pede em primeiro lugar que o Pai santifique os seus discípulos, ou, em outros termos, que os consagre inteiramente a si e os defenda como sua herança santa. Em seguida, ele realça os meios de santificação, e não sem razão; pois há fanáticos que se dedicam a tagarelar sobre a santificação com infantilidade tão inútil, porém negligenciam a verdade de Deus, pela qual nos consagra a si. Além disso, como há outros que também tagarelam tolamente sobre a verdade, e, contudo não levam em conta a palavra, ele expressamente afirma que a verdade, pela qual Deus santifica a seus filhos, não se encontra em qualquer outro lugar senão na palavra.

Tua palavra é a verdade. Por palavra, aqui, Cristo denota a doutrina do evangelho, a qual os apóstolos já tinham ouvido dos lábios de seu Mestre e a qual mais tarde iriam pregar a outros. Neste sentido, o apóstolo Paulo diz que a Igreja foi purificada com a lavagem de água pela palavra [Ef 5.26]. Aliás, é somente Deus que santifica; mas como o evangelho é o poder de Deus para salvação de todo o que crê [Rm 1.16], quem se aparta do evangelho como o instrumento, torna-se mais e mais sujo e contaminado.

A verdade é aqui tomada, em posição de excelência, pela luz da sabedoria celestial, na qual Deus se manifesta a nós, para que nos forme a sua imagem. É verdade que a pregação externa da palavra por si mesma não realiza isso, pois essa pregação é impiamente profanada pelos réprobos; lembremo-nos, porém, de que Cristo fala dos eleitos, a quem o Espirito Santo eficazmente regenera por meio da palavra. Ora, como os apóstolos não estavam totalmente destituídos desta graça, devemos inferir das palavras de Cristo que a santificação não é instantaneamente completada em nós no primeiro dia, mas que fazemos progresso nela ao longo de todo curso de nossa vida, até que, por fim, Deus havendo despido de nós as vestimentas da carne, nos encha com sua justiça.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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quinta-feira, 2 de julho de 2026

“A FIM DE QUE TODOS SEJAM UM”


“A FIM DE QUE TODOS SEJAM UM”

“A fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17:21).

O nosso Senhor Jesus uma vez mais estabelece que o propósito de nossa felicidade consiste na unidade, e com razão; pois a ruína da raça humana consiste em que, havendo a mesma alienado de Deus, ela é também por si mesma esfacelada e dispersa. Portanto, a restauração dela, ao contrário, consiste em ser ela propriamente unida em um só corpo, como Paulo declara que a perfeição da Igreja consiste em que: “Esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz. E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo... que é a cabeça. De quem todo o corpo, bem-ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor” [Ef 4.3,11-16]. Por essa razão, sempre que Cristo falar sobre unidade, lembremo-nos quão humilhante e dolorosamente, quando separado dele, o mundo se acha disperso; e, em seguida, aprendamos que o começo de uma vida bem-aventurada está em que sejamos todos governados e que todos vivamos, unicamente pelo Espírito de Cristo.

Além disso, deve-se entender que, em cada exemplo no qual Cristo declara, neste capítulo, que ele é um com o Pai, ele não fala simplesmente de sua essência divina, mas que ele é denominado um com respeito a seu ofício medianeiro, e no que respeita ser ele nossa Cabeça. Muitos dos pais, sem dúvida, interpretaram essas palavras no sentido em que, absolutamente, Cristo é um com Pai, porque ele é o Deus eterno. Mas em suas disputas com os arianos foram levados a tomar passagens isoladas e a torcer seu sentido natural a fim de empregá-las contra seus antagonistas. Ora, o desígnio de Cristo era amplamente distinto daquele que surgiu na mente deles, em sua mera especulação sobre sua Deidade secreta; pois ele arrazoa com o fim de mostrar que devemos ser um, do contrário a unidade que ele tem com o Pai seria infrutífera e sem valor para nós. Para compreender corretamente o que se pretendia com a expressão de que Cristo e o Pai são um, devemos tomar cuidado para não privar a Cristo de seu ofício como Mediador, mas, antes, devemos vê-lo no caráter de a Cabeça da Igreja e unido a seus membros. E assim a cadeia de pensamento será preservada, e a fim de evitar que a unidade do Filho com o Pai seja infrutífera e sem valor, o poder dessa unidade deve ser difundido através de toda a corporação dos crentes. Daí também inferirmos que somos um com o Filho de Deus; não porque ele nos transmita sua substância, mas porque, pelo poder de seu Espírito, ele nos comunica sua vida e todas as bênçãos que ele recebeu do Pai.

Para que o mundo creia. Alguns explicam a palavra mundo significando os eleitos, os quais, naquele tempo, estavam ainda dispersos; visto, porém, que a palavra mundo, ao longo de todo este capítulo, denota os réprobos, sinto-me mais inclinado a adotar uma opinião distinta. Ocorre que, imediatamente depois, ele traça uma distinção entre todo seu povo e o mesmo mundo de que ele agora faz menção.

O verbo crer tem sido usado inexatamente em lugar do verbo saber, isto é, quando os incrédulos, convencidos por sua própria experiência, percebem a glória celestial e divina de Cristo. A consequência é que crendo, não creem, porque tal convicção não penetra o sentimento íntimo do coração. E uma vingança justa de Deus é que o esplendor da glória divina ofusque os olhos dos réprobos, porque não merecem ter uma clara e pura visão dela.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“QUEM OS CONDENARÁ?”


“QUEM OS CONDENARÁ?”

“Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós” (Rm 8.34).

Visto que ninguém terá êxito em sua acusação diante da absolvição do juiz, assim também qualquer condenação não prevalecerá quando as leis são satisfeitas e a dívida, quitada. Cristo é aquele Único que sofreu o castigo que era nosso, e por isso declarou que tomou o nosso lugar a fim de pôr-nos em liberdade. Portanto, qualquer um que quiser condenar-nos terá que matar o próprio Cristo novamente. Porém, ele não só já morreu, mas também ressurgiu como vencedor da morte, e assim triunfou sobre o seu poder mediante sua ressurreição.

O apóstolo Paulo adiciona algo mais, ou seja: Cristo, declara ele, está agora assentado à mão direita do Pai. Este fato o fez dominador do céu e da terra, e com autoridade plenária governa todas as coisas, de acordo com sua afirmação em Efésios 1.20. Finalmente, ele nos ensina que Cristo está assim entronizado com o fim de ser o eterno Advogado e Intercessor em prol de nossa salvação. Segue-se disto que, se alguém desejar condenar-nos terá não só que invalidar a morte de Cristo, como terá também que lutar contra o incomparável poder com o qual o Pai honrou ao Filho e com o qual conferiu-lhe soberana autoridade. Esta sólida segurança que ousa triunfar sobre o Diabo, a morte, o pecado e as portas do inferno deve estar profundamente implantada no coração de todos os santos, porquanto nossa fé não seria nada, se porventura não nos persuadisse com plena certeza de que Cristo é nosso, e que o Pai se nos fez propício em seu Filho. Portanto, para longe toda concepção perniciosa ou destrutiva com a qual os dogmas escolásticos minam a certeza de nossa [inabalável] salvação.

E também intercede por nós. O apóstolo insistiu em fazer esta adição explícita com o fim de evitar que a divina Majestade de Cristo viesse a terrificar-nos. Portanto, ainda que Cristo mantenha todas as coisas em sujeição sob a planta de seus pés, assentado em seu trono de soberania, Paulo o apresenta como Mediador, cuja presença seria simplesmente absurda caso nos aterrasse, visto que não só nos convida para ele com gesto benevolente, mas também comparece diante do Pai por nós no exercício de Intercessor infalível. Não temos como medir essa intercessão pelo nosso critério carnal, pois não podemos pensar do Intercessor como humilde suplicante diante do Pai, com os joelhos genuflexos e com as mãos estendidas. Cristo, contudo, com razão intercede por nós, visto que comparece continuamente diante do Pai, como morto e ressurreto, que assume a posição de eterno Intercessor, defendendo-nos com eficácia e vívida oração para reconciliar-nos com o Pai e levá-lo a ouvir-nos com prontidão.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“QUEM INTENTARÁ ACUSAÇÃO CONTRA OS ELEITOS DE DEUS?”


“QUEM INTENTARÁ ACUSAÇÃO CONTRA OS ELEITOS DE DEUS?”

“Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica” (Rm 8.33).

A primeira e principal consolação dos santos, nas adversidades, é serem eles persuadidos da munificência paternal de Deus. Daqui procede tanto a certeza da salvação quanto a tranquila segurança da alma, pelas quais as adversidades são suavizadas, ou, pelo menos, a crueza da dor é mitigada. Portanto, dificilmente existe uma exortação à paciência mais apropriada do que quando entendemos que Deus nos é propício. E é por isso que o apóstolo Paulo faz dessa confiança o princípio da consolação, por meio do qual os crentes devem ser fortalecidos contra todos os males. Visto que a salvação do homem é assaltada, primeiramente por meio de acusações, e em seguida destruída por meio de condenação. Paulo antes remove o perigo que a acusação traz, pois só existe um Deus perante cujo tribunal devemos nos pôr. Portanto, visto que é ele quem nos justifica, então não há lugar para acusação. Aparentemente, as cláusulas contrastadas não se acham dispostas com exatidão. As duas partes que Paulo deveria contrastar são: “Quem acusará?” e “é Cristo quem intercede”. Ele deveria, pois, ter adicionado as outras duas cláusulas: “Quem nos condenará? É Deus quem justifica”. À absolvição divina corresponde a condenação, e à defesa de Cristo corresponde a acusação. Mas Paulo tinha razão para fazer tal transposição, visto que queria armar os filhos de Deus com aquela sólida confiança que é capaz de guardá-los de quaisquer ansiedades e temores. Sua conclusão, pois, de que os filhos de Deus não estão sujeitos a acusações, visto que é Deus quem os justifica, é muito mais enfática do que se dissera que Cristo é o nosso Advogado; pois, ao proceder assim, ele expressa mais claramente que a via de acesso para o julgamento é completamente obstruída quando o juiz pronuncia estar o prisioneiro completamente isento de culpa, diante dos acusadores que exultariam em vê-lo definitivamente condenado.

O mesmo argumento se aplica igualmente à segunda cláusula. Paulo nos mostra que os crentes não mais estão sob o risco de sofrer condenação, visto que Cristo, ao expiar seus pecados, antecipa o julgamento divino; e, através de sua intercessão, não só aboliu a morte, mais também lançou nossos pecados ao esquecimento, de modo que não mais são levados em conta [contra o crente].

A substância do argumento consiste em que somos não só isentos do terror mediante a disponibilidade de antídotos, ao chegarmos diante do tribunal divino, mas que Deus mesmo vem antecipadamente em nosso socorro, a fim de poder munir-nos com uma confiança muito mais sólida.

Entretanto, é preciso notar aqui o que temos afirmado sempre, ou seja: que, segundo Paulo, ser justificado significa ser considerado justo mediante a absolvição da sentença divina. Não é difícil provar isto na passagem em apreço, na qual Paulo argui com base em uma só proposição com o fim de anular a proposição oposta. Absolver e acusar são opostos entre si. Portanto, Deus não permitirá qualquer acusação que se levante contra nós, visto que já nos absolveu de toda culpa. O Diabo, certamente, vive a acusar todos os santos [Ap 12.10]; e a lei de Deus, por sua própria natureza, bem como a própria consciência humana, igualmente nos reprovam. Todavia, nenhum destes elementos tem qualquer influência sobre o Juiz que nos justifica. Nenhum adversário, pois, pode abalar, muito menos destruir, nossa salvação.

Paulo igualmente faz referência a eles como eleitos, de maneira tal que remove qualquer dúvida de fazer ele parte de seu número. Ele não possuía tal conhecimento com base – como caluniam os sofistas – em uma salvação especial, e, sim, com base naquela percepção comum a todos os santos. Portanto, a afirmação, aqui, com referência ao eleito pode, segundo o exemplo de Paulo, ser aplicada por todos os santos a si mesmos. Outrossim, tivesse ele sepultado a eleição no secreto conselho de Deus, e seria ela uma doutrina não apenas carente de calor, mas também sem vida. Porém, visto que Paulo, aqui, está deliberadamente introduzindo algo que todos os santos devem aplicar a si próprios, não há dúvida de que todos nós somos levados a examinar nossa vocação, a fim de podermos determinar se de fato somos filhos de Deus.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).