"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



terça-feira, 28 de julho de 2026

“BEM-AVENTURADO AQUELE CUJA INIQUIDADE É PERDOADA” – Parte 2

“BEM-AVENTURADO AQUELE CUJA INIQUIDADE É PERDOADA” – Parte 2

“Bem-aventurado aquele cuja a iniquidade é perdoada, cujo pecado é coberto” (Sl 32.1).

É deveras por si mesmo suficientemente evidente que bem-aventurado é o homem cuja iniquidade é perdoada; mas a experiência nos ensina quão difícil é persuadir-se deste fato, de tal maneira que se torne indelevelmente afixado em nossos corações. A grande maioria, como já demonstrei, enredada por, suas próprias invenções, extingue de si, o quanto pode, os terrores da consciência e todo o temor da ira divina. Sem dúvida, eles nutrem o desejo de reconciliar-se com Deus; e todavia se esquivam da presença dele, em vez de buscarem sua graça sinceramente e de todo seu coração. Em contrapartida, todos aqueles a quem Deus tem realmente despertado para que se deixem afetar por um vivo senso de sua miséria, estão constantemente agitados e inquietados, tanto que é difícil restaurar a paz de suas mentes. Realmente degustam a misericórdia divina e se diligenciam em tomar posse dela, e, no entanto vivem frequentemente atemorizados sob os múltiplos assaltos que lhes são feitos. As duas razões por que o salmista Davi insiste tanto sobre o tema do perdão dos pecados são estas: para que ele, de um lado, erga aqueles que porventura caíram em profundo sono, inspire a indiferença com ponderação e reavive os entorpecidos; e para, por outro lado, tranquilizar as mentes temerosas e estressadas com uma confiança segura e disposta. Quanto (a primeira razão,) a doutrina pode ser aplicada desta forma: “O que pretendeis, ó vós infelizes, que uma ou duas ferroadas em vossa consciência não vos perturbam? Supondes que um mero e limitado conhecimento de vossos pecados não é suficiente para abalar-vos com terror, todavia quão irracional é continuardes dormitando em segurança, enquanto sucumbis sob imenso fardo de pecados!” E esta reiteração fornece não pouco conforto e confirmação aos débeis e temerosos. Visto que as dúvidas amiúde lhes sobrevêm, uma após outra, não basta que sejam vitoriosos em apenas um conflito. Esse desespero, pois, para que não os sucumbisse em meio aos vários pensamentos perplexivos com que são agitados, o Espírito Santo confirma e ratifica a remissão de pecados com muitas declarações.

Agora se torna oportuno avaliar a força particular das expressões aqui empregadas. Certamente que a remissão da qual aqui se trata não se harmoniza com as satisfações. Deus, ao lançar fora ou tirar os pecados, e igualmente ao cobri-los e não imputá-los, graciosamente os perdoa. Por essa conta os católicos romanos, ao introduzirem suas satisfações e obras de superrogação, segundo as chamam, se privam desta bem-aventurança. Além disso, Davi aplica essas palavras a fim de completar o perdão. Ora, é necessário considerar a quem pertence esta felicidade, a qual pode facilmente ser extraída da circunstância do tempo. Ao ser Davi instruído de que era bem-aventurado unicamente pela misericórdia divina, ele não havia sido alienado da igreja de Deus; ao contrário, ele se avantajava a muitos no temor e no serviço de Deus, bem como em santidade de vida, e se exercitava em todos os deveres da piedade. E mesmo depois de fazer esses progressos na religião, Deus então o exercitara a fim de que depositasse o alfa e o ômega de sua salvação em sua gratuita reconciliação com Deus. Tampouco é destituído de razão que Zacarias, em seu cântico, represente “o conhecimento da salvação” como que consistindo em conhecer “a remissão de pecados” [Lc 1.77]. Quanto mais eminentemente alguém se destaca em santidade, mais ele se sente destituído da perfeita justiça e mais que claramente percebe que em nada pode confiar senão unicamente na misericórdia de Deus. Daí ser evidente que estão frontalmente equivocados os que concluem que o perdão de pecado só é necessário para o início da justiça. Uma vez que os crentes todos os dias se envolvem em muitos erros, de nada lhes aproveitará já terem tomado a vereda da justiça, a menos que a mesma graça que os manteve em sua companhia os conduza à última fase de sua vida. Com que objetivo se diz em outra parte que são bem-aventurados “os que temem ao Senhor”, “que andam em seus caminhos”, “que são retos de coração” etc., a resposta é fácil, a saber: como o perfeito temor do Senhor, a perfeita observância de sua lei e perfeita retidão do coração não se encontram em parte alguma, tudo quanto a Escritura em qualquer lugar diz, concernente à bem-aventurança, se fundamenta no gracioso favor de Deus, através do qual ele nos reconcilia consigo mesmo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

“BEM-AVENTURADO AQUELE CUJA INIQUIDADE É PERDOADA” – Parte 1

“BEM-AVENTURADO AQUELE CUJA INIQUIDADE É PERDOADA” – Parte 1

“Bem-aventurado aquele cuja a iniquidade é perdoada, cujo pecado é coberto” (Sl 32.1).

Esta exclamação flui da ardente afeição do coração do salmista Davi, bem como de séria consideração. Visto que quase o mundo inteiro desvia seus pensamentos do juízo de Deus, geram em si um fatal descaso e se intoxicam com ilusórios prazeres. Davi, sentindo-se dominado pelo temor da ira de Deus e se predispondo a valer-se da misericórdia divina, também desperta outros para o mesmo exercício, declarando distinta e audivelmente que só aqueles que são abençoados é que podem reconciliar-se com Deus, de modo que reconheça como seus filhos aqueles que, com justiça, poderia tratar como seus inimigos. Alguns se fazem tão cegos pela hipocrisia e soberba, e outros por um tão grosseiro menosprezo por Deus, que não se sentem de forma alguma ansiosos em buscar o perdão, embora todos reconheçam que necessitam de perdão; nem existe sequer um homem cuja consciência não o acuse ante o tribunal divino. Esta confissão, por conseguinte, de que todos necessitam de perdão, uma vez que ninguém é perfeito, e que então só estará bem conosco se Deus perdoar nossos pecados, a própria natureza arranca até dos homens mais perversos. Nesse ínterim, porém, a hipocrisia fecha os olhos das multidões, embora outros sejam tão iludidos por uma perversa segurança carnal que não se deixam sensibilizar por qualquer senso da ira divina, nem sequer por um tênue indício dela.

Disto procede um duplo erro: (primeiro) que tais homens fazem pouco de seus pecados, e sequer ponderam sobre a centésima parte do perigo advindo da indignação divina; e, (segundo) que engendram frívolas expiações com o fim de isentar-se da culpa e conquistar o favor divino. E assim, em todas as épocas e em todos os lugares, esta tem sido a opinião prevalecente: embora todos os homens estejam infectados com o pecado, ao mesmo tempo se adornam com méritos cuja intenção é granjear-lhes o favor divino, e que embora provoquem a ira divina, com seus crimes, se munem de expiações e satisfações, com facilidade, para a obtenção de sua absolvição. Toda pessoa, pois, que não se deixa arrebatar pelo engano de Satanás, admitirá a veracidade desta afirmação, ou seja, que os homens se acham num deplorável estado a menos que Deus os trate misericordiosamente, não debitando seus pecados em sua conta. Davi, porém, vai além, declarando que toda a vida do homem está sujeita à ira e maldição divinas, a não ser quando ele se digna, por sua graciosa mercê, recebê-los em seu favor; o que o Espírito falou pelos lábios de Davi é infalível, devidamente intérpretado e testemunhado pelos lábios de Paulo [Rm 4.6], Não houvera Paulo usado este testemunho, jamais seus leitores haveriam penetrado o real sentido do profeta. Com Paulo, porém, esta é a plena definição da justiça da fé; como se o profeta dissesse: Os homens, pois, só serão bem-aventurados depois que forem gratuitamente reconciliados com Deus e reputados por ele como justos. Por conseguinte, a bem-aventuraça que Davi celebra destrói definitivamente a justiça proveniente das obras. Mas, ainda hoje, não são poucos os que não hesitam em impor suas virtudes a Deus, justamente como se houvessem extraído delas grande parte de sua bem-aventurança.

Davi, não obstante, prescreve uma ordem bem diferente, a saber: que ao buscar-se a bem-aventurança, tudo começaria com o princípio de que Deus não pode reconciliar-se com os que são dignos de eterna destruição de algum outro modo além de graciosamente perdoá-los e conceder-lhes seu favor. E com razão declara que, se a misericórdia lhes fosse negada, todos os homens seriam completamente miseráveis e malditos; pois se todos os homens são inerentemente inclinados tão-só para o mal, enquanto não forem regenerados, é óbvio que toda a sua vida pregressa seria odiosa aos olhos de Deus. Além disso, visto que mesmo depois da regeneração nenhuma obra que os homens realizem pode agradar a Deus, a menos que ele perdoe o pecado que se mescla com ela, todos seriam excluídos da esperança de salvação. Que as obras dos santos são indignas de galardão por estarem contaminadas com muitas imundícias, parece ser uma expressão dura demais aos ouvidos de muitos. Nisto, porém, denunciam sua grosseira ignorância ao estimarem, segundo suas concepções pessoais, o juízo de Deus, a cujos olhos o próprio fulgor das estrelas não passa de trevas. Portanto, que isto permaneça como doutrina estabelecida: visto que só seremos considerados justos diante de Deus pela remissão gratuita dos pecados, então esta é a porta da eterna salvação; e, consequentemente, que só serão bem-aventurados aqueles que põem sua confiança na misericórdia de Deus.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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terça-feira, 21 de julho de 2026

“PARA QUE TODO O QUE NELE CRÊ NÃO PEREÇA”


“PARA QUE TODO O QUE NELE CRÊ NÃO PEREÇA”

“Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:16).

A coisa mais extraordinária sobre a fé é que ela nos livra da destruição eterna. Porque ele queria dizer especialmente que, embora pareçamos ter nascidos para a morte, pela fé em Cristo se nos oferece livramento infalível, de sorte que não devemos temer a morte que, caso contrário, nos ameaçaria. E ele usou um termo geral para convidar indiscriminadamente a todos a fim de que participem da vida e excluir todo pretexto dos incrédulos. Tal também é a importância do termo mundo que ele usara antes. Porque, embora não haja nada no mundo merecedor do favor divino, não obstante se revela favorável ao mundo inteiro, quando ele chama todos, sem exceção, à fé em Cristo, que na verdade é um ingresso à vida.

Tenhamos em mente, por outro lado, que a vida seja universalmente prometida a todos os que creem em Cristo, todavia a fé não é comum a todos [2Ts 3.2]. Porque Cristo se faz conhecido e exibido à vista de todos, porém somente os eleitos são aqueles a cujo os olhos Deus abre para que o busquem por meio da fé. Aqui também se exibe um prodigioso efeito da fé, pois por meio dela recebemos a Cristo tal como ele nos foi dado pelo Pai – ou seja, como aquele que nos libertou da condenação da morte eterna e nos fez herdeiros da vida eterna, porque, pelo sacrifício de sua morte, ele fez expiação por nossos pecados para que nada nos impeça de ser reconhecidos por Deus como seus filhos. Portanto, visto que a fé abraça a Cristo, com a eficácia de sua morte e o fruto de sua ressurreição, não carece de surpresa se por meio dela obtivermos igualmente a vida de Cristo.

Todavia, não fica ainda muito evidente por que e como a fé nos outorga a vida. Seria porque Cristo nos renova mediante seu Espírito para que a justiça de Deus possa viver e ser revigorada em nós, ou seria porque, tendo sido purificado por seu sangue, somos considerados justos diante de Deus mediante seu perdão gratuito? Aliás, é certo que essas duas coisas andam sempre juntas, mas, como a certeza da salvação é o tema ora em discussão, devemos principalmente manter, por esta razão, que vivemos porque Deus nos ama soberanamente, não mais imputando nossos pecados. Por essa razão, menciona-se expressamente o sacrifício por meio do qual, juntamente com nossos pecados, a maldição e a morte são destruídas. Já explicamos o objeto dessas duas sentenças, a saber, informar-nos de que em Cristo tomamos posse da vida, da qual estamos inerentemente destituídos, pois nesta miserável condição do gênero humano, a redenção, na ordem do tempo vem antes da salvação.

Deus nos Abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“QUE DEU O SEU FILHO UNIGÊNITO”


“QUE DEU O SEU FILHO UNIGÊNITO”

“Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:16).

O genuíno olhar da fé, confesso, é colocar Cristo diante dos olhos e contemplar nele o coração de Deus transbordante de amor. Nosso firme e substancial sustento é descansar na morte de Cristo como nossa única garantia. A palavra unigênito é realçada para exaltar o fervor do amor divino por nós. Porque os homens não se deixam convencer facilmente de que Deus os ama, e, por isso, para remover toda dúvida, ele expressamente declara que somos tão queridos de Deus que, por amor de nós, ele não poupou nem mesmo seu Filho unigênito. Deus declarou seu amor para conosco de uma forma mui exuberante, e, portanto, quem ainda nutre dúvida e se sente insatisfeito com este testemunho faz a Cristo uma séria injúria, como se ele fosse algum homem ordinário que tivesse morrido acidentalmente. Consideremos, antes, que o amor de Deus por seu Filho unigênito é a medida de quão preciosa lhe foi nossa salvação, que quis que a morte do próprio Unigênito fosse seu preço. Além disso, Cristo possui este nome por direito, ainda que, por natureza, seja o único filho de Deus. Ele, porém, compartilha conosco esta honra por meio da adoção, quando somos enxertados em seu corpo.

Deus nos Abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“DEUS AMOU AO MUNDO DE TAL MANEIRA”


“DEUS AMOU AO MUNDO DE TAL MANEIRA”

“Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:16).

Cristo mostra a causa primeira e, por assim dizer, a fonte de nossa salvação. E ele procedeu assim para que não pairasse dúvida alguma, pois não existe nenhum céu calmo onde nossas mentes possam repousar enquanto não nos aproximarmos do gracioso amor de Deus. Toda substância de nossa salvação não deve ser buscada em alguma outra fonte além de Cristo, e por isso devemos descobrir por que meios Cristo nos emana e por que ele foi oferecido como nosso Salvador.

Ambos os pontos são claramente afirmados aqui – que a fé em Cristo vivifica tudo, e que Cristo trouxe vida porque o Pai celestial não deseja que a raça humana, à qual ele ama, pereça. E esta sequência deve ser cuidadosamente observada, pois, tal é a ímpia e inerente ambição de nossa natureza que, quando ponderamos sobre a origem de nossa salvação, de pronto invadem nossa mente diabólicas imaginações acerca de nossos méritos pessoais. Por conseguinte, imaginamos que Deus nos é favorável porque nos têm considerado dignos de seu respeito. A Escritura, porém, por toda parte enaltece sua misericórdia que pura e simplesmente abole todo e qualquer mérito.

E as palavras de Cristo não têm outro sentido, quando ele diz que a causa está no amor de Deus. Pois, se quisermos ir além disso, o Espírito nos impede com a declaração de Paulo, a saber, que este amor tinha por fundamento o “beneplácito de sua vontade” [Ef 1.5]. E é claro que Cristo falou isso com fim de desviar os olhos dos homens de si para, exclusivamente, a misericórdia de Deus. Tampouco declara ele que Deus se moveu a nos salvar por divisar em nós algo merecedor de tal bênção. Ele atribui a glória de nossa salvação inteiramente ao seu amor. E isso se torna ainda mais claro à luz do contexto, pois ele acrescenta que o Filho foi dado aos homens para que estes não perecessem. Segue-se que, enquanto Cristo não dignar-se a socorrer os perdidos, todos continuarão destinados à destruição eterna.

Paulo também demonstra isso à luz da sequência do tempo, pois fomos amados mesmo quando ainda éramos inimigos em virtude do pecado [Rm 5.8,10]. E, de fato, onde reina o pecado, nada encontraremos, exceto a ira de Deus e a morte que ele causa. Portanto, é unicamente a misericórdia que nos reconcilia com Deus e ao mesmo nos restaura à vida.

Esta maneira de falar, contudo, pode parecer conflitante com muitos testemunhos da Escritura, os quais colocam em Cristo o primeiro fundamento do amor divino para conosco, e diz que fora dele somos detestados por Deus. Mas temos que lembrar bem, como eu já disse, que o amor secreto, no qual nosso Pai celestial nos alcançou para si, visto que o mesmo flui de seu beneplácito eterno, é precedente a todas as demais coisas. A graça, porém, a qual ele quer que nos seja testificada, e pela qual somos despertados à esperança da salvação, começa com a reconciliação providenciada através de Cristo. Porque, uma vez que necessariamente odeia o pecado, como seremos convencidos que ele nos ama, enquanto não forem expiados os pecados, por cuja causa ele está justamente irado conosco? E assim, antes que possamos nutrir alguma noção de sua bondade paternal, é necessário que o sangue interceda para que Deus se reconcilie conosco. Visto, porém, que primeiro ouvimos que Deus deu o seu Filho a fim de morrer por nós, porque ele nos amou, acrescenta-se imediatamente que é tão somente em Cristo que, propriamente falando, a fé deve repousar.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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sexta-feira, 17 de julho de 2026

“COMO PODE UM HOMEM NASCER, SENDO VELHO?”

“COMO PODE UM HOMEM NASCER, SENDO VELHO?”

“Perguntou-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, voltar ao ventre materno e nascer segunda vez? Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus” (Jo 3:4,5).

Ainda que a forma de expressão de Cristo não ocorra expressamente na lei e nos profetas, todavia, como renovação, é mencionada por toda parte na Escritura e constitui um dos princípios primordiais da fé, e se torna óbvio quão imperfeitamente instruídos eram os escribas de então na leitura das Escrituras. Certamente, este homem não era o único negligente em desconhecer a graça da regeneração. O elemento primordial da doutrina da piedade era negligenciado em razão de quase todos eles se acharem preocupados com vãs sutilezas.

Não precisamos sentir-nos perplexos ante o fato de Nicodemos tropeçar numa palha, por assim dizer, pois é uma justa vingança divina que aqueles que pensam de si como sendo os mais excelentes e eminentes mestres, e para quem a simplicidade ordinária da doutrina é algo vil e vulgar assustem-se diante de coisas as mais ínfimas.

“Quem não nascer da água. Esta passagem tem sido explicada de várias formas. Alguns acreditam que aqui se expressam duas partes da regeneração, e que pelo termo água subtende-se a negação do velho homem, enquanto tomam o termo Espírito como sendo a nova vida. Outros pensam que aqui há uma antítese implícita, como se Cristo estivesse contrastando água e Espírito – ou seja, elementos puros e líquidos – com a natureza terrena e animal do homem. Por isso tomam esse dito como sendo de caráter alegórico, a saber, que Cristo estava recomendando a nos despirmos de nossa pesada e insuportável massa de carne e a nos tornarmos como água e ar, a fim de nos movermos para cima ou, pelo menos, não cairmos por terra sob um fardo tão pesado. Mas ambas as opiniões me parecem alheias à intenção de Cristo.

Crisóstomo, com quem a maioria concorda, relaciona o termo água com o batismo. O significado, então, seria que, por meio do batismo, entramos no reino de Deus, porque então o Espírito de Deus nos regenera. Daí surgir a crença na absoluta necessidade do batismo para a esperança da vida eterna. Mas ainda que concordássemos que nesse ponto Cristo está falando do batismo, não devemos forçar suas palavras a ponto de fazê-lo restringir a salvação ao sinal externo. Ao contrário, ele conecta água com o Espírito, porque sob esse sinal visível, ele testifica e sela a novidade de vida, a qual tão somente através de seu Espírito, Deus efetua em nós. É verdade que somos excluídos da salvação se desprezarmos o batismo; e, nesse caso, confesso ser ele necessário. É absurdo, porém, confinar ao sinal a certeza da nossa salvação. No que diz respeito a esta passagem, não posso de forma alguma convencer-me de que Cristo esteja falando do batismo, porquanto isso teria sido inoportuno. E devemos ter sempre em mente o propósito de Cristo, o qual já explicamos como sendo o desejo de impelir Nicodemos à novidade vida, porquanto não seria capaz de receber o evangelho enquanto não começasse a ser um outro homem.

Para sermos filhos de Deus temos que nascer de novo, e que o Espírito Santo é o autor desse segundo nascimento, é, pois uma afirmação única e simples. Pois enquanto Nicodemos sonhava com a regeneração ou transformação ensinada por Pitágoras, que imaginava que as almas, após a morte de seus corpos, entrava em outros corpos, Cristo, para libertá-lo desse erro, acrescenta, à maneira de explicação, que nascer segunda vez não é um evento que sucede naturalmente, e nesse ato ninguém se reveste de um novo corpo, mas nasce enquanto é renovado na mente e coração, mediante a graça do Espírito.

Consequentemente, nosso Senhor emprega as palavras Espírito e água no mesmo sentido, e isso não deve ser tomado como uma interpretação abrupta e forçada. Quando se menciona o Espírito na Escritura, uma forma frequente e comum de expressão é acrescentar a palavra água ou fogo, para expressar seu poder. De vez em quando, ouvimos de Cristo batizando com o Espírito Santo e com fogo, quando fogo não significa algo distinto do Espírito, mas simplesmente mostra a natureza de seu poder em nós.

É uma questão de pouca importância anteceder ele a palavra água. Quer dizer simplesmente que essa frase flui mais facilmente que outra, já que uma afirmação clara e direta segue a metáfora. É como se Cristo dissesse que ninguém será filho de Deus enquanto não for renovado pela água, e que essa água é o Espírito que nos purifica de uma nova forma, e que, mediante seu poder derramado sobre nós, nos comunica a energia de vida celestial, quando, por natureza, somos completamente estéreis. E, com o fim de reprovar a Nicodemos em razão de sua ignorância, Cristo, mui apropriadamente, usa uma forma de linguagem comum na Escritura, pois Nicodemos deve por fim ter reconhecido que o que Cristo dizia fora tomado do ensino ordinário dos profetas.

Pelo termo água, pois, subtende-se simplesmente a purificação e vivificação interior efetuadas pelo Espírito Santo. Tampouco é incomum empregar-se a conjunção e explicitamente, quando a última sentença é uma explicação da primeira. E também o contexto me apoia, pois quando Cristo adiciona imediatamente a razão por que temos que nascer de novo, ele mostra, sem mencionar água, como a novidade de vida que ele requer provém unicamente do Espírito. Por isso se deduz que não se deve separar a água de o Espírito.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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quinta-feira, 16 de julho de 2026

“SE ALGUÉM NÃO NASCER DE NOVO”


“SE ALGUÉM NÃO NASCER DE NOVO”

“A isto, respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (Jo 3:3).

Em verdade, em verdade te digo. Cristo repete a expressão “em verdade” com o intuito de atrair a atenção. Pois quando está para falar do mais importante e mais sério de todos os temas, realmente precisava fazer Nicodemos mais atento. De outra forma, ele poderia ouvir todo este discurso displicente e levianamente. Tal, pois, é o propósito da dupla afirmação.

Ainda que este discurso pareça um tanto forçado e inoportuno, contudo era o modo mais adequado de Cristo começar. Pois assim como é inútil semear sementes num solo sem cultivo, também a doutrina do evangelho será negligentemente desperdiçada a menos que o ouvinte seja antes despertado devidamente e preparado à obediência e instrução. Cristo percebeu que a mente de Nicodemos era tão cheia de espinhos e asfixiada por tantas ervas daninhas, que dificilmente se encontraria ali espaço para o ensinamento espiritual. A presente exortação era, pois, como uma aradura a expurgá-lo, afim de que nada impedisse de o ensino frutificar. Portanto, lembremo-nos de que isso foi expresso a apenas um homem, a fim de que o Filho de Deus se nos dirija diariamente no mesmo teor. Pois qual de nós se acha tão isento de afeições corruptas que não necessite de tal purificação? Se, pois, queremos progredir satisfatória e proveitosamente na escola de Cristo, então aprendamos a começar daqui.

Se alguém não nascer de novo. Em outros termos, enquanto lhe faltar a coisa mais importante no reino de Deus, não creio que você realmente me reconheça como Mestre, pois seu primeiro passo no reino Deus é converter-se num novo homem. Visto, porém, que esta é uma passagem tão extraordinária, cada parte dela precisa ser detalhadamente examinada.

Ver o reino de Deus vem a ser o mesmo que entrar no reino de Deus, como prontamente aparece do contexto. Mas estão equivocados aqueles que creem que o reino de Deus é o mesmo que o céu. Antes, é a vida espiritual, cujo ponto de partida é a fé, aqui e agora, e que diariamente cresce em consonância com o progresso contínuo da mesma fé. O sentido, portanto, é que ninguém pode realmente unir-se à Igreja e ser reconhecido entre os filhos de Deus sem que antes seja renovado. Portanto, esse fato mostra de forma sucinta qual é o princípio da vida cristã.

Ao mesmo tempo, somos instruídos por essa expressão que desde o nascimento somos alienados e completamente estranhos ao reino de Deus, como igualmente existe uma perpétua oposição entre Deus e nós, até que ele nos transforme pela operação [do Espírito] no segundo nascimento. Pois a afirmação é geral e compreende toda a raça humana. Se Cristo dissesse a apenas um homem ou a uns poucos que não poderiam entrar no reino de Deus, a menos que nasçam de novo, poderíamos supor que isso apontava só para certa classe de pessoas, mas ele está se referindo a todos sem exceção. Pois a linguagem é ilimitada e contém o mesmo teor de uma expressão de cunho universal, como: “Todo aquele que não nascer de novo...”.

Além do mais, pelo termo nascer de novo ele tem em mente não a reparação de uma parte, mas a renovação da natureza inteira. Daqui se deduz que não há em nós absolutamente nada que não seja defectivo, pois se a reforma é necessária na totalidade, e em cada parte, então a corrupção deve ter se expandido por toda parte. Falaremos sobre isso de maneira mais plena. Erasmo, seguindo a opinião de Cirilo, incorretamente traduziu o advérbio como de cima. Reconheço que em grego o significado é ambíguo, mas estou ciente de que Cristo falou a Nicodemos em hebraico. Nesse caso, não teria havido qualquer ambiguidade a confundir Nicodemos em sua infantil hesitação sobre o nascimento da carne. É por isso que ele tomou as palavras de Cristo em nenhum outro sentido senão que o homem tem que nascer segunda vez antes de ser recebido no reino de Deus.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“RABI, SABEMOS QUE ÉS MESTRE VINDO DA PARTE DE DEUS”


“RABI, SABEMOS QUE ÉS MESTRE VINDO DA PARTE DE DEUS”

“Havia, entre os fariseus, um homem chamado Nicodemos, um dos principais dos judeus. Este, de noite, foi ter com Jesus e lhe disse: Rabi, sabemos que és Mestre vindo da parte de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele” (Jo 3:1,2).

Estas palavras equivalem àquela expressão: “Rabi, sabemos que tu vieste como mestre”. Visto, porém, que os homens eruditos eram então comumente chamados Rabi, Nicodemos primeiro saúda Cristo na maneira usual, atribuindo-lhe o título ordinário e, subsequentemente, declara que aquele que exercia o ofício de mestre era enviado de Deus. E deste princípio depende toda a autoridade dos mestres na igreja. Pois é tão somente da Palavra de Deus que devemos aprender a sabedoria, e por isso a ninguém mais se deve ouvir para a salvação senão aqueles por cuja boca Deus fala. E devemos observar que, embora a religião estivesse profundamente corrompida e quase subvertida entre os judeus, sempre mantiveram o princípio de que a nenhum homem era lícito ensinar a menos que o mesmo viesse de Deus. Visto, porém, que ninguém se vangloria mais arrogante e categoricamente de seu título divino do que os falsos profetas, eles precisam ser testados pelo espírito de discernimento. Consequentemente, Nicodemos acrescenta que é indubitável que Cristo tenha sido enviado por Deus, pois este exibia nele seu poder com tal virtude que não se podia negar que Deus estava com ele. Ele toma como matéria axiomática que Deus não costuma operar senão através de seus ministros, para que assim pudesse pôr seu selo sobre o ofício que lhes confiara. E ele está certo, pois Deus sempre designou os milagres para que fossem selos de sua doutrina. Ele está também certo em reconhecer Deus como o único autor dos milagres, quando diz que ninguém pode fazer tais sinais a não ser que Deus esteja com ele. Equivale dizer que não eram atos humanos, senão que o poder de Deus reinava e permanecia nitidamente neles. Numa palavra, os milagres têm duplo resultado: preparar-nos para a fé e então imprimir maior fortalecimento naquele que tem sido concebido pela Palavra. E assim Nicodemos apropriou-se corretamente da primeira parte, visto que, à luz dos milagres, ele reconhece Cristo como um legítimo profeta de Deus.

Não obstante, isso parece inconclusivo porque, já que os profetas podem enganar os ignorantes com suas fraudes tão perfeitamente como se estivessem, através de sinais genuínos, provando ser ministros de Deus, que diferença haverá entre a verdade e a falsidade, se porventura a fé dependesse de milagres? Aliás, Moisés declara expressamente, que dessa forma somos testados se de fato amamos a Deus [Dt 13.3]. Conhecemos também a advertência de Cristo, bem como a de Paulo, ou seja, que os crentes devem precaver-se dos sinais mentirosos pelos quais o Anticristo ofusca muitos olhos [Mt 22.24]. Minha resposta é que isso é feito pela justa permissão de Deus, a fim de que os que merecem sejam enganados pela astúcia de Satanás. Digo, porém, que tal fato não impede que o poder de Deus se manifeste aos eleitos através de milagres, os quais costumam ser-lhes uma valiosa confirmação da genuína e sã doutrina. E assim, Paulo se gloria de que seu apostolado era confirmado por meio de sinais e prodígios [2Co 12.12]. Portanto, por mais que Satanás tente manter Deus envolto em trevas, contudo, quando os olhos se abrem e a luz da sabedoria espiritual resplandece, os milagres são atestados bastante fortes da presença de Deus, conforme Nicodemos aqui declara.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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terça-feira, 14 de julho de 2026

“PERSIGA O INIMIGO A MINHA ALMA”


“PERSIGA O INIMIGO A MINHA ALMA”

“Se paguei com o mal a quem estava em paz comigo, eu, que poupei aquele que sem razão me oprimia, persiga o inimigo a minha alma e alcance-a, espezinhe no chão a minha vida e arraste no pó a minha glória” (Salmos 7:4,5).

Persiga o inimigo a minha alma. Eis uma extraordinária evidência da profunda confiança que Davi tinha em sua própria integridade, estando disposto a suportar qualquer gênero de castigo, embora temeroso, desde que fosse encontrado culpado de algum crime. Se pudermos levar à presença de Deus uma boa consciência como esta, sua mão mui prontamente se estenderá para proporcionar-nos imediata assistência. Mas como às vezes sucede que aqueles que nos molestam o fazem porque são provocados por nós, ou ardemos de desejo por vingança quando ofendidos, somos indignos de receber o socorro divino; sim, nossa própria impaciência fecha a porta às nossas orações. Em primeiro lugar, Davi está preparado para ser entregue à vontade de seus inimigos, para que se assenhoreassem de sua vida e a lançassem ao chão; para em seguida ser publicamente exibido como objeto de seu escárnio, de modo que, mesmo depois de morto, fosse exposto à miséria eterna. Há quem pense que a palavra que traduzimos por glória, deve ser, aqui, tomada por vida, e assim teremos três palavras: alma, vida e glória, significando a mesma coisa. A meu ver, porém, o significado da passagem será mais completo se tomarmos a palavra glória no sentido de memória, ou seu bom nome, como se quisesse dizer: Que meu inimigo não só me destrua, mas também, depois de matar-me, fale de mim nos mais ignominiosos termos, de modo que meu nome seja mergulhado na lama ou na imundícia.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

“SE EU FIZ O DE QUE ME CULPAM”


SE EU FIZ O DE QUE ME CULPAM”

“SENHOR, meu Deus, se eu fiz o de que me culpam, se nas minhas mãos há iniquidade, se paguei com o mal a quem estava em paz comigo, eu, que poupei aquele que sem razão me oprimia, persiga o inimigo a minha alma e alcance-a, espezinhe no chão a minha vida e arraste no pó a minha glória” (Salmos 7:3-5).

O salmista Davi, neste ponto, insiste com Deus a mostrar-lhe seu favor, protesta que é injustamente molestado, sem mesmo ser culpado de crime algum. Com o fim de imprimir ao seu protesto mais vigor, ele usa a imprecação. Se eu fiz o de que me culpam, ele declara sua prontidão em ser responsabilizado; sim, ele se oferece para suportar o mais severo castigo, caso não seja completamente inocente do crime acerca do qual todos os homens acreditavam estivesse ele já quase convencido. E ao rogar a Deus que o socorresse sob nenhuma outra condição senão esta, a saber: para que sua integridade não fosse embaraçada pelas provações, ele nos ensina, por seu exemplo, que, enquanto temos o recurso divino, devemos fazer dele nossa primordial preocupação para assegurar-nos bem de nossa própria consciência com respeito à justiça de nossa causa; pois cometeríamos grave erro se desejássemos engajá-lo como advogado e defensor de uma má causa. Se eu fiz o de que me culpam, revela que ele fala de uma coisa que era geralmente notória; daí podermos concluir que a calúnia levantada contra ele por Cush se espalhara amplamente. E quando Davi se viu condenado pelas falsas notícias e injustos juízos que os homens as sacavam contra ele, e não via antídoto algum sobre a terra, ele recorreu ao tribunal divino e se contenta em manter sua inocência diante do Juiz celestial; exemplo que deveria ser imitado por todo crente piedoso, a fim de que, em oposição às notícias caluniosas que são divulgadas contra ele, descanse satisfeito unicamente com o juízo divino. A seguir declara mais distintamente que não cometera crime algum. E no quarto versículo menciona duas particularidades em sua defesa. A primeira é que ele não havia cometido erro algum contra alguém; e a segunda é que havia se esforçado em fazer o bem em favor de seus inimigos, por quem, não obstante, havia sido injuriado sem nenhuma justa causa. Portanto, explico o quarto versículo assim: Se prejudiquei alguém que vivia em paz comigo, e ao contrário deixei de socorrer o indigno que me perseguia sem justa causa etc. Visto que Davi era odiado por quase todos os homens, como se a ambição de reinar o houvera impelido perfidamente a rebelar-se contra Saul, e armara armadilhas para o monarca a quem se comprometera por juramento de obedecer, na primeira parte do versículo ele se lava de calúnia tão infame. Provavelmente, a razão de ele chamar Saul aquele que vivia em paz comigo seja que, em razão de sua dignidade real, sua pessoa devia ser sagrada e guardada do perigo, de modo que não seria ilícito fazer qualquer tentativa hostil contra ele. Essa frase, contudo, pode ser entendida em termos gerais, como se dissesse: Nenhum daqueles que humildemente se refrearam de injuriar-me e se conduziram com espírito humano para comigo, pode com justiça queixar-se de um único exemplo meu de lançar injúria contra ele. E, no entanto era a convicção geral de que Davi, num clima de paz, havia provocado grande confusão e deflagrado guerra. À luz desse fato tanto mais se manifesta que Davi, desde que desfrutava da aprovação divina, sentia-se feliz com a consolação oriunda dela, visto que ele não receberia nenhum conforto proveniente de outra fonte.

Na segunda cláusula do quarto versículo, ele avança mais e declara que havia sido amigo, não só em relação aos bons, mas também em relação aos maus; e não só se refreara de toda e qualquer vingança, mas que até mesmo socorrera seus inimigos, por quem fora profunda e cruelmente injuriado. Certamente não seria uma virtude muito louvável amar os bons e pacíficos, a não ser que haja uma associação entre essa autonomia e a docilidade em suportar pacientemente os maus. Mas quando uma pessoa se guarda não só de vingar as injúrias que haja recebido, mas também se esforça por vencer o mal pela prática do bem, ela está a manifestar uma das graças da natureza renovada e santificada, e com isso prova a si mesma pertencer ao rol dos filhos de Deus; pois tal mansidão só pode proceder do Espírito de adoção.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).