"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



quarta-feira, 15 de abril de 2026

“TU ÉS O DEUS DA MINHA SALVAÇÃO”


“TU ÉS O DEUS DA MINHA SALVAÇÃO”

“Guia-me na tua verdade e ensina-me, pois tu és o Deus da minha salvação, em quem eu espero todo o dia” (Sl 25:5).

Embora Davi frequentemente reitere a mesma coisa, pedindo que Deus o faça conhecer seus caminhos, o ensine em suas veredas, e o guie em sua verdade, não há qualquer redundância nessas formas de linguagem. Nossos adversários são muitas vezes como a névoa que tira a visão de nossos olhos; e cada um sabe à luz de suas próprias experiências quão difícil é, enquanto essas nuvens escuras persistirem, discernir em que caminho devemos andar. Se Davi, porém, profeta tão distinto e dotado de uma sabedoria tão inusitada, era carente de instrução, o que será de nós se, em nossas aflições, Deus não dispersar de nossas mentes aquelas nuvens de escuridade que nos impedem de contemplar sua luz? Então, assim que as tentações nos assaltarem, que oremos sempre para que Deus faça a luz de sua verdade resplandecer sobre nós, a fim de que, recorrendo a invenções pecaminosas, não nos desviemos vagueando por caminhos proibidos.

Ao mesmo tempo, devemos observar o argumento que aqui Davi emprega para corroborar sua oração. Ao chamar Deus de Deus de minha salvação, ele procede assim a fim de revigorar sua esperança em Deus para o futuro, a partir de uma consideração dos benefícios que ele já havia recebido dele; e então reitera o testemunho de sua confiança no Senhor. E assim, a primeira parte do argumento é extraída da natureza da própria pessoa de Deus e do dever que, por assim dizer, lhe pertence; ou seja, visto que ele se esforça por manter o bem-estar dos santos e os socorre em suas necessidades, com base no fato de que continuará a manifestar o mesmo favor para com eles até ao fim. Visto, porém, ser necessário que nossa confiança corresponda à sua incomensurável benevolência para conosco, Davi o assevera, ao mesmo tempo, em conexão com uma declaração de sua perseverança. Porque, pela expressão, todo o dia ou cada dia, ele quer dizer que, com uma constância determinada e infatigável, depende exclusivamente de Deus. E, indubitavelmente, olhar para Deus é uma propriedade da fé, mesmo nas circunstâncias mais tentadoras, e pacientemente esperar pelo socorro que lhe fora prometido por Deus. Para que o reconhecimento das bênçãos divinas possa nutrir e sustentar nossa esperança, aprendamos a refletir sobre a bondade que Deus já manifestou em nosso favor, olhando para o que Davi fez, fazendo disso a base de sua confiança, a qual ele encontrou em sua própria experiência pessoal com Deus como o Autor da salvação.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“FAZE-ME, SENHOR, CONHECER OS TEUS CAMINHOS”


“FAZE-ME, SENHOR, CONHECER OS TEUS CAMINHOS”

“Faze-me, SENHOR, conhecer os teus caminhos, ensina-me as tuas veredas” (Sl 25:4).

Davi usa esta expressão, conhecer os teus caminhos, para indicar a regra de uma vida santa e justa. Visto que o termo, verdade, ocorre no versículo imediatamente seguinte, a oração que ele apresenta neste lugar tem, em minha opinião, este propósito: Senhor, guarda teu servo na firme convicção de tuas promessas, e não permitas que ele se desvie da verdade. Quando nossas mentes se dispõem à paciência, não empreendemos nada precipitadamente nem por meios impróprios, mas passamos a depender inteiramente da providência de Deus. Consequentemente, neste ponto Davi deseja não simplesmente ser dirigido pelo Espírito de Deus, a fim de não errar o caminho certo, mas também para que Deus claramente lhe manifeste sua verdade e fidelidade nas promessas de sua palavra, para que pudesse viver em paz perante ele e se visse livre de toda impaciência. Não faço objeção se alguém tomar as palavras num sentido geral, como se Davi se confiasse totalmente a Deus para ser governado por ele. Entretanto, como creio ser provável que, sob o título verdade, no próximo versículo, ele explique sua intenção no tocante aos termos, caminhos e veredas de Deus, dos quais ele aqui fala, não tenho dúvida de que a referência nesta circunstância é à oração, ou seja, que Davi, temendo ceder ao sentimento de impaciência, ou ao desejo de vingança, ou a algum impulso extravagante e ilícito, suplica que as promessas de Deus sejam profundamente impressas e esculpidas em seu coração. Pois eu disse antes que, quando esse pensamento prevalece em nossas mentes, ou seja, que Deus toma cuidado de nós, esse é o melhor e mais poderoso meio de resistir às tentações. Entretanto, se pelos termos, os caminhos e veredas de Deus, alguém entende ser sua doutrina, eu, não obstante, mantenho isto como um ponto estabelecido, a saber, que na linguagem do salmista há uma alusão às emoções súbitas e irregulares que despontam em nossas mentes quando somos açoitados pela adversidade, e pelas quais somos precipitados nas tortuosas e ilusórias veredas do erro, até oportunamente sermos dominados ou tranquilizados pela palavra de Deus. O significado, portanto, é este: Seja o que for que venha suceder-me, não deixes, ó Senhor, desviar-me de teus caminhos ou ser levado por uma voluntária desobediência à tua autoridade, ou qualquer outro desejo pecaminoso. Mas, ao contrário, que tua verdade me conserve num estado de quieto repouso e paz, por uma humilde submissão a ela.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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terça-feira, 14 de abril de 2026

“E O ABENÇOEI, E ELE SERÁ ABENÇOADO”


“E O ABENÇOEI, E ELE SERÁ ABENÇOADO”

“Então, estremeceu Isaque de violenta comoção e disse: Quem é, pois, aquele que apanhou a caça e ma trouxe? Eu comi de tudo, antes que viesses, e o abençoei, e ele será abençoado” (Gn 27:33).

Aqui, uma vez mais, a fé que estivera sufocada no peito do santo homem se renova e emite novas fagulhas; pois não há dúvida de que seu temor emana da fé. Além disso, o que Moisés descreve não é um temor comum, mas aquele que fez estremecer totalmente o santo homem; porque, enquanto estava perfeitamente consciente de sua própria vocação, e por isso estava persuadido de que o dever de nomear o herdeiro em quem depositaria a aliança de vida eterna lhe fora divinamente ordenado, no mesmo instante em que descobriu seu erro, se encheu de temor, que numa questão tão grande e séria Deus deixou que ele errasse; porque, a menos que concluísse que Deus era quem controlava esse ato, o que teria impedido de ignorar sua ignorância como desculpa, e de enfurecer-se contra Jacó, que lhe enganava por meio de fraude e astúcia? Mas, embora se cobrisse de vergonha por causa do erro cometido, contudo, com uma mente renovada, ele confirma a bênção que havia pronunciado; não tenho dúvida de que, como alguém que acorda, ele começou a recordar o oráculo para o qual não atentara suficientemente. Portanto, o santo homem não foi impelido pela ambição a ser assim tão firme em seu propósito, como os homens obstinados costumam ser, os quais levam até as últimas consequências o que uma vez começaram, ainda que nesciamente; mas a declaração: “e o abençoei, e ele será abençoado” era fruto de uma rara e preciosa fé; pois ele, renunciando os afetos da carne, agora se rende inteiramente a Deus, e, reconhecendo-o como o autor da bênção que havia impetrado, lhe atribui a devida glória, e não ousa revogá-la. O benefício dessa doutrina pertence à Igreja, a fim de que saibamos com certeza que tudo que os arautos do evangelho nos prometem pela ordenação de Deus será eficaz e inabalável, porque não falam na qualidade de meros homens, e sim pela ordenação do próprio Deus; e a debilidade do ministro não destrói a fidelidade, poder e eficácia da palavra de Deus. Aquele que se nos apresenta com a missão de oferecer a felicidade e vida eternas está sujeito às mesmas misérias e à própria morte até; entretanto, a despeito de tudo isso, a promessa é eficaz. Aquele que nos absolve dos pecados se fez a si mesmo pecado; visto, porém, que seu ofício lhe foi divinamente designado, a firmeza dessa graça, tendo seu fundamento em Deus, jamais falhará.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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sábado, 11 de abril de 2026

Louvor: QUEM SUBIRÁ AO MONTE DO SENHOR?

Louvor: QUEM SUBIRÁ AO MONTE DO SENHOR?

"Quem subirá ao monte do SENHOR? Quem há de permanecer no seu santo lugar? O que é limpo de mãos e puro de coração, que não entrega a sua alma à falsidade, nem jura dolosamente" (Sl 24:3,4).

A letra é uma adoração contemporânea baseada no Salmo 24, destacando a soberania de Deus, a necessidade de santidade e intimidade com o SENHOR. É um chamado à consagração, um convite para despir-se de aparências e vaidades.

Pontos principais:

1. A Soberania e a Onisciência de Deus.

"Do Senhor é a terra... ele sabe, ele vê": A música começa estabelecendo que Deus é o dono de tudo e tem controle absoluto (soberania). Ele conhece as histórias individuais e os segredos ocultos ("segredos da varanda", "pesos presos ao olhar"), indicando que nada está oculto aos olhos do Senhor (Hb 4.13).

2. O Monte do Senhor: Lugar de Intimidade, adoração, santidade.

"Quem subirá ao Monte do Senhor?": O monte simboliza a presença de Deus, um lugar elevado de adoração e santidade. “Quem pode ficar?” A resposta é quem tem "mãos limpas, coração que o adora, alma inteira, sem mentira". Isso interpreta a pureza como integridade, exigindo sinceridade absoluta diante de Deus.

3. Arrependimento e Purificação. A letra vai além da adoração superficial e pede transformação: "Purifica as minhas mãos, alinha o meu coração". A "restauração" ocorre quando o "coração quebrado" é levado ao altar, indicando que a aproximação de Deus exige o reconhecimento da nossa própria fraqueza.

4. Mais que "dons", um relacionamento. "Eu não quero só os teus dons, eu te quero por quem tu és": Esta é a parte central da devoção. A música interpreta que a verdadeira adoração não busca benefícios (dons/bênçãos), mas Deus por si só.

5. A Promessa de "achegar-se sem se esconder". "Esse recebe a bênção que transborda", ou seja, aquele que se aproxima de Deus com sinceridade ("sem se esconder", sem máscaras), em justiça recebe a “bênção que transborda”, onde a graça e o cuidado de Deus manifestam-se em abundância. Isso afeta toda a nossa vida e de quem está ao nosso redor, uma referência a ser cheio do Espírito Santo. “A justiça do Deus do seu viver”, no contexto está ligada à fidelidade de Deus à sua aliança. Assim estaremos em sua presença justificados, bênção oferecida por sua graça e recebida mediante a fé em Cristo Jesus (Rm 5.1).

Deus nos abençoe!

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terça-feira, 7 de abril de 2026

“MAL ACABARA ISAQUE DE ABENÇOAR A JACÓ”


“MAL ACABARA ISAQUE DE ABENÇOAR A JACÓ”

“Mal acabara Isaque de abençoar a Jacó, tendo este saído da presença de Isaque, seu pai, chega Esaú, seu irmão, da sua caçada” (Gn 27:30).

Aqui se acrescenta a maneira como Esaú foi rejeitado, cuja circunstância era favorável para confirmar a bênção sobre Jacó; porque, se Esaú não fosse rejeitado, poderia parecer que ele não foi privado daquela honra que a natureza lhe conferiu; agora, porém, Isaque declara que, o que fizera, em virtude de seu ofício patriarcal, não podia deixar de ser confirmado. De fato, aqui fica evidente, outra vez, que a primogenitura que Jacó obtivera, à custa de seu irmão, se fizera sua por um dom gratuito; pois se compararmos as obras dos gêmeos, Esaú obedece a seu pai, traz-lhe o produto de sua caçada, prepara-lhe a refeição obtida por seu próprio labor, e nada fala senão a verdade; em suma, nada encontramos em Esaú que não seja digno de louvor. Jacó nunca deixa seu lar, substitui uma caça por um cabrito, dissimula por meio de muitas mentiras, nada traz que propriamente o recomende, mas em muitas coisas merece repreensão. Por isso devemos reconhecer que a causa desse evento não deve remontar-se às boas obras, senão que está oculta no eterno conselho de Deus. Contudo, Esaú não é injustamente reprovado, porque os que não são governados pelo Espírito de Deus nada podem receber de boa consciência. Diante disso, devemos apenas manter firmemente que, uma vez que a condição de todos é igual, se alguém for preferido a outro, isso não deve ao seu próprio mérito, mas porque o Senhor graciosamente o elegera.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“MALDITO SEJA O QUE TE AMALDIÇOAR”


“MALDITO SEJA O QUE TE AMALDIÇOAR”

“Deus te dê do orvalho do céu, e da exuberância da terra, e fartura de trigo e de mosto. Sirvam-te povos, e nações te reverenciem; sê senhor de teus irmãos, e os filhos de tua mãe se encurvem a ti; maldito seja o que te amaldiçoar, e abençoado o que te abençoar” (Gn 27:28-29).

Aqui, Isaque não parece desejar e implorar outra coisa para seu filho senão o que é terreno; pois este é o cerne de suas palavras: que tudo vá bem com o seu filho aqui neste mundo, que ele ajunte o abundante produto da terra, que ele desfrute de grande paz e resplandeça em honra acima dos demais. Não há menção do reino celestial; e disso tem-se suscitado o que os homens sem erudição e pouco afeitos à verdadeira piedade têm imaginado: que esses santos Patriarcas eram abençoados pelo Senhor somente no que diz respeito a esta frágil e transitória vida. Muitas passagens, porém, evidenciam algo muito diferente. E, quanto ao fato de Isaque limitar-se aqui aos favores terrenos de Deus, a explicação é simples; pois o Senhor, outrora, não punha a esperança da herança futura claramente diante dos olhos dos Patriarcas (como agora nos chama e nos eleva diretamente para o céu), mas os guiava por um caminho sinuoso. Assim ele lhes designou a terra de Canaã como um espelho e penhor da herança celestial.

Em todos esses atos de bondade, o Senhor lhes deu sinais de seu favor paterno, não com o propósito de contentá-los com as riquezas desta terra, de modo que negligenciassem o céu, ou seguissem uma sombra meramente vazia, como alguns tolamente presumem, mas para que, sendo auxiliados, pudessem, pouco a pouco, subir ao céu. Porque, visto que Cristo, as primícias dos que ressuscitarão é o autor da eterna e incorruptível vida, ainda não havia sido manifestado, seu reino espiritual era, dessa maneira, prefigurado por meio de sombras, até que chegasse a plenitude do tempo; e, como todas as promessas de Deus estavam envolvidas e, em certo sentido, revestidas de símbolos, assim a fé dos santos Patriarcas absorvia a mesma medida, e fazia seus avanços rumo ao céu por meio desses rudimentos terrenos. Portanto, embora Isaque tornasse proeminente os favores temporais de Deus, nada está mais distante de sua mente do que limitar a esperança de seu filho a esse mundo; ele o elevaria à mesma altura a que ele mesmo ansiava. Alguma prova disso pode ser extraída de suas próprias palavras, pois este é o ponto primordial que ele designa ao domínio das nações. Mas qual é a origem da esperança de tal honra, senão da certeza de que sua descendência fora eleita pelo Senhor e, de fato, com essa convicção, de que o direito ao reino permaneceria apenas com um de seus filhos? Enquanto isso, seja suficiente nos apegarmos a este princípio: que o santo homem, quando implora para seu filho um próspero curso de vida, deseja que Deus, em cujo paternal favor reside nossa firme e eterna felicidade, possa ser-lhe propício.

Maldito seja o que te amaldiçoar. É preciso ter em mente o que eu já disse antes, a saber, que esses não são meros desejos, tais como os pais costumam pronunciar em favor de seus filhos, mas que as promessas de Deus estão inclusas neles; pois Isaque é o intérprete autorizado de Deus e o instrumento empregado pelo Espírito Santo; e, portanto, como instrumento de Deus eficazmente pronuncia maldição sobre aqueles que se opuserem ao bem-estar de seu filho. Essa, pois, é a confirmação da promessa, pela qual Deus, quando recebe os fiéis sob sua proteção, declara que será inimigo de seus inimigos. Todo o poder da bênção é direcionado a este ponto: que Deus provará ser para seu servo Jacó um bondoso pai em todas as coisas, de modo que o preservará e o defenderá com seu poder, e assegurará sua salvação diante de toda sorte de inimigos.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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quinta-feira, 2 de abril de 2026

“JURA QUE NÃO NOS FARÁS MAL”


“JURA QUE NÃO NOS FARÁS MAL”

“Jura que não nos farás mal, como também não te havemos tocado, e como te fizemos somente o bem, e te deixamos ir em paz. Tu és agora o abençoado do SENHOR” (Gn 26:29).

Uma consciência acusadora os leva a desejarem manter Isaque obrigado diante deles e, por isso, exigem dele um juramento de que não os ferirá. Pois sabiam que Isaque poderia vingar-se com justiça pelos sofrimentos que suportara; mas eles dissimulam e inclusive se vangloriam de seus próprios atos de bondade. De fato, a princípio, a benevolência do rei foi algo notável, pois não só entreteve Isaque com hospitalidade, mas o tratou com peculiar honra; entretanto, não manteve essa atitude até o fim. Mas de acordo com o costume dos homens, eles dissimulam seus erros utilizando-se de todos os artifícios e meios que possam inventar. Mas, caso tenhamos cometido alguma ofensa, devemos antes confessar sinceramente nosso erro, em vez de negá-lo, para que não fira mais profundamente a mente daqueles a quem temos ofendido. Entretanto, Isaque, visto que já havia ferido suficientemente a consciência deles, não os pressiona mais. Pois os estranhos não devem ser tratados por nós como familiares, porém, se não tirarem proveito, que sejam deixados ao juízo de Deus. Portanto, embora Isaque não arrancasse deles uma confissão justa, para que não pensassem que Isaque nutria alguma hostilidade contra eles, não se recusa a fazer uma aliança com eles. Assim aprendemos de seu exemplo que, se porventura alguém se afastar de nós, que não seja rejeitado caso nos ofereça outra vez sua amizade. Pois se somos ordenados a seguir a paz, mesmo quando ela parece fugir de nós, então não devemos nos esquivar quando nossos inimigos voluntariamente buscarem reconciliação; especialmente se houver alguma esperança de uma reconciliação futura, embora o verdadeiro arrependimento ainda não seja visível. E Isaque lhes oferece uma festa, não apenas para promover a paz, mas também com o intuito de mostrar que ele, esquecendo-se de toda ofensa, se torna amigo deles.

Tu és agora o abençoado do SENHOR. Normalmente essa expressão é explicada no sentido de que eles buscavam o favor de Isaque com bajulações, exatamente como algumas pessoas costumam bajular quando querem um favor; no entanto, eu, ao contrário, creio que essa expressão foi acrescentada em um sentido diferente. Isaque havia se queixado das injúrias deles por haverem-no expulsado por inveja; eles respondem que não havia razão para que restasse a menor sombra de pesar na mente de Isaque, visto que o Senhor o tratara de modo tão bondoso e precisamente conforme seu próprio desejo, como se quisessem dizer: “o que ainda queres? Não te contentas com o teu atual êxito? Admitimos que não temos cumprido com o dever de hospitalidade para contigo; contudo a bênção de Deus é abundantemente suficiente para apagar a lembrança daquele tempo”. Mas, talvez, por essas palavras, eles novamente estejam dizendo que estão agindo de boa-fé para com ele, porque ele está sob a proteção de Deus.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“VIMOS CLARAMENTE QUE O SENHOR É CONTIGO”


“VIMOS CLARAMENTE QUE O SENHOR É CONTIGO”

“Eles responderam: Vimos claramente que o SENHOR é contigo; então, dissemos: Haja agora juramento entre nós e ti, e façamos aliança contigo” (Gn 26:28).

Por esse argumento, eles provam que desejavam fazer um acordo com Isaque, não um acordo fraudulento, mas de boa-fé, porque reconhecem o favor de Deus para com ele. Pois era necessário se livrar dessa suspeita, visto que agora se apresentavam de modo tão gentil a alguém contra o qual previamente faziam injustificável oposição. Essa confissão deles, contudo, contém uma instrução proveitosa. Os homens profanos, ao chamarem alguém, cujas atividades são todas bem-sucedidas e prósperas, o bendito do Senhor, dão testemunho de que Deus é o autor de todas as boas dádivas, e que somente dele flui toda prosperidade. Excessivamente vil, pois seria ingratidão se, quando Deus age bondosamente para conosco, ignoramos seus benefícios. Além disso, os homens profanos consideram a amizade de alguém a quem Deus favorece como algo desejável, levando em conta que não há melhor ou mais santa recomendação do que o amor de Deus. Perversamente cegos, pois, são aqueles que só negligenciam aos que Deus declara lhe serem queridos, mas iniquamente os perturbam. O Senhor proclama que está pronto para executar vingança contra alguém que porventura faça injúria àqueles a quem ele toma sob sua proteção; mas a maioria, indiferente a essa mui terrível denúncia, ainda perversamente aflige os bons e simples. Contudo, vemos aqui que o senso natural proclamava aos incrédulos o que raramente reconhecemos aquilo que é dito pela boca do próprio Deus. Entretanto, é surpreendente que tivessem medo de um homem inofensivo, e exigissem dele um juramento de que lhes não causaria nenhum dano. Deveriam ter concluído, à luz do favor que Deus lhe demonstrava, que ele era um homem justo, e por isso ele não representava nenhum perigo; contudo, pelo fato de formarem sua convicção a respeito de seu caráter a partir do caráter e conduta deles, também põem em dúvida sua integridade. Tal perturbação geralmente inquieta os incrédulos, de modo que são inconsistentes consigo mesmos; ou ao menos, vacilam e são atormentados por sentimentos conflitantes, e ficam sem estabilidade e constância. Pois aqueles princípios do reto juízo, que fluem de dentro de si, logo são sufocados pelos afetos depravados. Por isso, justamente aquilo que é concebido por eles se desvanece; ou, pelo menos, é corrompido e não produz bons frutos.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“POIS ME ODIAIS E ME EXPULSASTES DO VOSSO MEIO”


“POIS ME ODIAIS E ME EXPULSASTES DO VOSSO MEIO”

“Disse-lhes Isaque: Por que viestes a mim, pois me odiais e me expulsastes do vosso meio?” (Gn 26:27).

Isaque não só se queixa das injúrias recebidas, mas protesta que no futuro não pode ter confiança neles, já que descobrira que da parte deles havia uma disposição tão hostil para com ele. Essa passagem nos ensina que é lícito aos fiéis apresentar queixa de seus inimigos, a fim de que, se possível, relembrá-los de seu propósito de fazer injúria, e refrear sua força, fraude e atos de injustiça. Pois a liberdade não é inconsistente com a paciência; tampouco Deus exige de seu próprio povo que suportem silenciosamente toda injúria que porventura lhes seja infligida, mas tão somente refreiem sua mente e contenham suas mãos de vingança. Ora, se a mente deles é pura e bem regulada, a sua língua não será virulenta em reprovar as faltas dos outros; mas o seu único propósito será restringir os perversos por um senso de vergonha, por causa da iniquidade. Pois onde não há esperança de tirar proveito das lamúrias, é melhor cultivar a paz mediante o silêncio, a menos que, talvez, o propósito será tornar indesculpáveis os que se deleitam na perversidade. De fato, devemos nos precaver sempre para que, movida por um desejo de vingança, nossa língua não irrompa em reprimendas; e, no dizer de Salomão, “O ódio excita contendas” (Pv 10.12).

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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sexta-feira, 27 de março de 2026

“QUALQUER QUE TOCAR A ESTE HOMEM”


“QUALQUER QUE TOCAR A ESTE HOMEM”

“E deu esta ordem a todo o povo: Qualquer que tocar a este homem ou à sua mulher certamente morrerá” (Gn 26:11).

Ao denunciar a punição capital contra quem prejudicasse a esse estrangeiro, podemos presumir que Abimeleque promulgou esse edito como um privilégio especial; pois não é comum vingar-se tão rigidamente de todo tipo de injúria. Qual é, pois, a origem dessa disposição da parte do rei de preferir Isaque a todos os habitantes nativos do pais, e quase tratá-lo como igual, senão que alguma porção da majestade divina brilhou nele, a qual lhe assegurou esse decreto de reverência? Também para ajudar seu servo em sua fraqueza, Deus inclinou a mente do rei pagão, de todas as formas, para mostrar-lhe favor. E não há dúvida de que sua modéstia geral induziu o rei a protegê-lo tão cuidadosamente; pois ele, percebendo que Isaque era um homem tímido, que chegara ao ponto de preservar sua própria vida pela ruína de sua esposa, sentiu-se ainda mais disposto a dar-lhe sua assistência em seus perigos, a fim de que pudesse viver em segurança sob seu próprio governo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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