“BENDITO O QUE VEM EM NOME DO SENHOR”
“Bendito o que
vem em nome do SENHOR. A vós outros da Casa do SENHOR, nós vos abençoamos” (Sl
118:26).
Neste
versículo um pedido particular é acrescentado, um pedido que os fiéis deviam guardar,
ou seja: uma vez que Deus havia designado Davi como ministro de sua graça, este
também queria bendizê-Lo. Aqueles que Deus emprega para o bem-estar de sua
Igreja são identificados como aqueles que vêm em nome do Senhor - tais como os
profetas e mestres que Deus levanta para congregar sua Igreja; tais como
generais e governantes que Ele instrui por meio de seu Espírito. Mas, como Davi
era um tipo de Cristo, seu caso era peculiar, visto que era a vontade de Deus
que seu povo vivesse sob os cuidados de Davi e de seus sucessores até ao
advento de Cristo. A expressão bendito aquele que vem pode ser considerada como
uma forma de congratulação. Todavia, visto que a bênção dos sacerdotes é
imediatamente anexada, disponho-me antes a crer que o povo desejava que Davi
recebesse a graça e o favor de Deus. Para induzi-los a apresentar esta petição
com mais vivacidade e, assim, serem encorajados a receber o rei a quem Deus
lhes designara, esta promessa é adicionada na pessoa dos sacerdotes: A vós outros da Casa do SENHOR, nós vos
abençoamos ou nós te bendizemos desde
a casa do SENHOR.
Eles falam
dessa maneira em harmonia com seu ofício, que lhes impunha o dever de abençoar
o povo, como transparece de várias passagens nos livros de Moisés
(particularmente, Números 6.23). Não é sem razão que eles conectam o bem-estar
da Igreja com a prosperidade do reino, sendo o desejo deles apresentar a
sugestão e mostrar que a segurança do povo permaneceria enquanto o reino
continuasse a florescer e que todos participariam das bênçãos que seriam
conferidas a seu rei, por causa da conexão indissolúvel que existe entre a
cabeça e os membros.
Sabendo, como
agora sabemos, que, ao ser Davi constituído rei, foi lançado o fundamento
daquele reino eterno que, eventualmente, se manifestou no evento de Cristo; sabendo
também que o trono temporal sobre o qual os descendentes de Davi foram postos
era um tipo do reino eterno dado a Cristo por Deus, seu Pai, em consequência do
qual Ele obteve todo o poder, tanto no céu como na terra, não pode haver dúvida
de que o profeta convoca os fiéis a orarem fervorosa e constantemente pela
prosperidade e progresso deste reino espiritual. Pois de orarem por Davi e seus
sucessores era uma incumbência dos que viviam durante aquela sombria
dispensação; mas, depois que toda a grandeza daquele reino foi subvertida,
coube-lhes rogar com todo ardor que Deus, no cumprimento de suas promessas, o
restabelecesse.
Em suma, tudo
o que é declarado aqui se relaciona propriamente com a pessoa de Cristo. E
aquilo que era indistintamente prefigurado em Davi foi apresentado e cumprido
em Cristo. A eleição de Davi foi secreta; e, depois de ser ungido como rei por
Samuel, ele foi rejeitado por Saul, bem como por todos os líderes do povo; e
todos nutriam aversão por ele, como se fosse merecedor de centenas de mortes.
Assim, mal interpretado e desonrado, Davi não parecia ser uma pedra adequada
para ocupar um lugar no edifício. Semelhante a isto foi o princípio do reino de
Cristo, que, sendo enviado pelo Pai para a redenção da Igreja, não somente foi
desprezado pelo mundo, mas também odiado e execrado, tanto pelas pessoas comuns
como pelos nobres da Igreja.
Mas é possível
que alguém pergunte: Como o profeta chama de construtores aqueles que, em vez
de desejarem a proteção da Igreja, almejavam somente a destruição de toda a
estrutura? Sabemos, por exemplo, com que veemência os escribas e sacerdotes,
nos dias de Cristo, labutavam para a subversão de toda piedade. A resposta não
é difícil. Davi se refere somente ao ofício que eles exerciam, e não às inclinações
pelas quais eram impelidos. Saul e todos os seus conselheiros foram
subvertedores da Igreja; no entanto, em relação ao seu ofício, eram os
principais construtores. O Espírito Santo costuma conceder aos ímpios os
títulos honrosos que pertencem ao ofício deles, até que Deus os remova do
ofício. Portanto, quão desavergonhados eram, às vezes, os sacerdotes entre o
antigo povo de Deus; no entanto, retinham a dignidade e a honra que pertenciam
a seu ofício, até que eram destituídos do ofício. Por isso, as palavras de
Isaías [42.19]: “Quem é cego, senão meu servo; e quem é louco, senão aquele a
quem enviei?” Ora, ainda que a intenção deles era minar toda a constituição da
Igreja, visto que haviam sido chamados por Deus para cumprir um objetivo
diferente, o salmista os chama servos e enviados de Deus.
Esta passagem nos informa que aqueles que são investidos do ofício de governo da Igreja, são, às vezes, os piores operários. Davi, falando pelo Espírito, denomina de construtores àqueles que tentavam destruir o Filho de Deus e a salvação da humanidade. Por meio deles, o culto divino foi adulterado, o cristianismo, totalmente corrompido, e o templo de Deus, profanado. Se todos os que são investidos de autoridade ordinária devem ser ouvidos, sem exceção, como pastores legalmente designados, então Cristo não deve falar, porque frequentemente seus inimigos mais amargos vivem ocultos sob as vestes de pastores.
Aqui, vemos
que poderoso e inexpugnável escudo o Espírito Santo nos dá contra a vanglória
fútil dos clérigos papais. Eles possuem o título de “construtores”; mas, se não
conhecem a Cristo, segue-se, necessariamente, que nós também não O conhecemos?
Ao contrário, que condenemos e rejeitemos todos os decretos deles e reverenciemos
esta preciosa pedra sobre a qual repousa a nossa salvação. Pela expressão essa veio a ser a pedra angular, devemos
entender o fundamento real da Igreja, o fundamento que sustenta todo o peso do
edifício, sendo indispensável que os cantos formem a principal foça do
edifício. Não aprovo a opinião ingênua de Agostinho, que faz de Cristo a pedra
angular, porque Ele uniu judeus e gentios, fazendo assim da pedra angular a
pedra intermédia entre as duas paredes diferentes.
Davi
prossegue, repetindo, em alguma extensão, como tenho observado, que é errôneo
estimar o reino de Cristo pelos sentimentos e opiniões dos homens, porque, a
despeito da oposição do mundo, o reino está erigido de maneira espantosa pelo
poder invisível de Deus. Entretanto, devemos ter em mente que tudo o que foi
realizado na pessoa de Cristo se estende ao desenvolvimento gradual de seu reino,
inclusive até ao fim do mundo. Quando Cristo habitou na terra, Ele foi
desprezado pelos principais sacerdotes. Agora, os que se chamam sucessores de
Pedro e de Paulo, mas realmente não passam de sucessores de Ananias e Caifás,
deflagram guerra, como gigantes, contra o evangelho e o Espírito Santo. Mas
esta rebelião furiosa não deve inquietar-nos. Antes, adoremos humildemente
aquele maravilhoso poder de Deus que reverte as perversas decisões do mundo. Se
nosso entendimento limitado pudesse compreender o curso que Deus segue para a
proteção e preservação de sua Igreja, não haveria nenhuma menção de um milagre.
Deste fato, concluímos que o modo de operar de Deus é incompreensível e frustra
o entendimento dos homens.
Poderíamos
indagar: era necessário que Cristo foi censurado pelos construtores?
Certamente, a Igreja indicaria encontrar-se em um estado lamentável, se ela
tivesse como pastores somente aqueles que eram inimigos mortais do seu bem-estar.
Quando Paulo se intitula “construtor”, ele nos informa que este ofício era
comum a todos os apóstolos [1Co 3.10]. Minha resposta é: todos os que exercem
liderança na Igreja não são culpados de cegueira perpétua e que o Espírito
Santo confronta essa pedra de tropeço, que, em outros aspectos, tende a ser um
obstáculo para muitos, quando testificam o nome de Cristo envoltos em esplendor
profano.
Quando Deus,
visando que sua glória resplandeça com mais fulgor, solta as rédeas de Satanás,
de modo que os que são investidos com poder e autoridade rejeitam a Cristo, o
Espírito Santo nos ordena a que sejamos corajosos e, rejeitando todas essas
decisões perversas, recebamos com todo respeito o Rei a quem Deus pôs sobre
nós. Sabemos que desde o início os construtores têm se empenhado para subverter
o reino de Cristo. Isso continua a ocorrer em nossos dias, na atitude daqueles
que, tendo recebido a incumbência da superintender a Igreja, fazem todas as
tentativas para subverter esse reino, pois dirigem contra ele todo as armas que
puderem inventar. Mas, se guardarmos em mente esta profecia, nossa fé não
desanimará. Pelo contrário, mas será mais e mais confirmada, porque, dentre
essas coisas, se tornará ainda mais evidente que o reino de Cristo não depende
do favor humano, nem extrai sua força de apoios terrenos, porque não obteve sua
força dos sufrágios humanos. No entanto, se os construtores edificam bem, a
perversidade dos que não permitem a si mesmos o tornarem-se apropriados ao
edifício sagrado será muito menos escusável. Além do mais, sempre que nós, por
esta espécie de tentação, nos vemos diante das provações, não nos esqueçamos de
que é irracional esperar que a Igreja seja governada segundo a nossa
compreensão dos problemas e que somos ignorantes quanto ao governo dela, porque
aquilo que é miraculoso excede a nossa compreensão.
A sentença
anterior, este é o dia que o SENHOR fez
[v.24], nos lembra que não há nada, exceto o reino de trevas morais, se Cristo,
o Sol da Justiça, não nos ilumina com seu evangelho. Devemos ainda lembrar que
esta obra deve ser atribuída a Deus e que a humanidade não deve arrogar para si
qualquer mérito em virtude de seus próprios empenhos. O chamado ao exercício da
gratidão, que segue imediatamente, tem o propósito de nos advertir contra o render-nos
à loucura de nossos inimigos, por mais furiosos que se mostrem contra nós, a
fim de privar-nos da alegria que Cristo nos conquistou. De Cristo deriva toda a
nossa felicidade; consequentemente, não haverá motivo para admiração, se todos
os ímpios se inflamarem de aborrecimento e sentirem-se indignados ante o fato
de sermos elevados a um clímax de gozo tão sublime, que superamos toda tristeza
e suavizamos toda a severidade das provas que temos suportado.
Antes do
advento de Cristo, a oração que aparece em seguida era familiar ao povo e às
crianças, pois os evangelistas declaram que Cristo foi recebido com esta forma
de saudação. Certamente era a vontade de Deus ratificar, naquele tempo, a
predição que Ele falara pelos lábios de Davi. Ou melhor, essa exclamação
demonstra nitidamente que a interpretação contra a qual os judeus ergueram um
clamor era unanimemente admitida; e isso torna sua obstinação e malícia ainda
mais inescusáveis. Eu os culpo não por sua estupidez, visto que se deixam
envolver intencionalmente por um misto de ignorância, a fim de cegarem a si
mesmos e aos demais. E, como os judeus nunca cessaram de pronunciar esta oração
durante aquela dolorosa desolação e aquelas chocantes devastações, sua
perseverança deve inspirar-nos com novo vigor nestes dias.
Naquele tempo,
os judeus não tinham a honra de um reino, um trono real, um nome senão com
Deus. Contudo, nesse estado deplorável e corrompido, apegaram-se à forma de
oração outrora prescrita para eles pelo Espírito Santo. Instruídos por seu
exemplo, não desfaleçamos em orar ardentemente pela restauração da Igreja, a
qual, em nossos dias, se encontra envolta em melancólica desolação. Além disso,
nestas palavras somos também informados que o reino de Cristo não é erigido e
desenvolvido pela política humana, e sim que esse reino é uma obra exclusiva de
Deus, pois os fiéis são ensinados a confiar somente na bênção dEle. Além do
mais, a própria repetição das palavras que, como temos observado, as torna mais
vigorosas, deve despertar-nos de nossa letargia e tornar-nos mais intensamente
zelosos em verbalizar esta oração. Deus pode, por Si mesmo, sem a
instrumentalidade da oração de qualquer crente, erigir e proteger o reino de
seu Filho; porém não é sem bom motivo que Ele nos impõe esta obrigação, visto
que nada deve ser mais conveniente aos fiéis do que a busca solícita do avanço
da glória de Deus.
Deus nos
abençoe!
João Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).


