“O QUE TEM A NOIVA
É O NOIVO”
“O que tem a
noiva é o noivo; o amigo do noivo que está presente e o ouve muito se regozija
por causa da voz do noivo. Pois esta alegria já se cumpriu em mim” (Jo 3:29).
Com esta
comparação, João Batista confirma mais plenamente afirmação de que Cristo é o
único que é excluído da estirpe ordinária dos homens, pois, como aquele que se
une a uma esposa não chama e convida seus amigos para as bodas a fim de
prostituir a noiva com eles, nem para renunciar a seus próprios direitos,
permitindo-lhes participar com ele do leito nupcial; senão que, ao contrário,
para que o matrimônio, sendo honrado por eles, se torne ainda mais sagrado.
Assim, Cristo não chama seus ministros para o ofício docente a fim de que,
conquistando a Igreja, reivindiquem domínio sobre ela, mas para que ele faça
uso de seus labores fieis associando-os consigo. A designação de homens sobre a
Igreja é uma distinção grande e sublime, para que representem a pessoa do Filho
de Deus. Portanto, assemelham-se aos amigos
a quem o noivo conduz ao seu lado,
para que o acompanhem na celebração das bodas. Mas devemos atentar bem para
esta distinção, a saber: que os ministros, sendo cônscios de sua posição, não
se apropriem do que pertence exclusivamente ao noivo. A suma equivale a isto: que toda eminência que os mestres porventura
possuam entre si não deve impedir a Cristo de ser o único a governar sua Igreja
nem de governá-la exclusivamente por meio de sua palavra.
Esta
comparação ocorre com frequência na Escritura, quando o Senhor intenta
expressar o sacro vínculo de adoção, por meio do qual ele nos une a si. Pois,
como se oferece para ser realmente desfrutado por nós, para que seja nosso,
assim ele, como razão, exige de nós aquela fidelidade e amor mútuos que a
esposa deve a seu esposo. Esse matrimônio se cumpre inteiramente em Cristo, de cuja carne e ossos somos nós, como
Paulo nos informa [Ef 5.30]. A castidade exigida por ele consiste
primordialmente na obediência ao evangelho, para que não permitamos desviar-nos
de sua perfeita simplicidade, como nos ensina o apóstolo [2Co 11.2,3].
Portanto, devemos estar sujeitos unicamente a Cristo. Ele deve ser nossa única
Cabeça. Não devemos desviar-nos sequer um fio de cabelo da doutrina simples do
evangelho; tão somente ele deve possuir a mais elevada glória, para que retenha
o direito e a autoridade de ser nosso Noivo.
Mas, o que os
ministros devem fazer? Certamente o Filho de Deus os chama para que executem o
seu dever em relação a ele na condução do matrimônio sagrado. Portanto, seu
dever é tudo fazer para que de todas as formas, a esposa – que é confiado a sua responsabilidade – seja apresentada por
eles como virgem casta a seu Esposo,
o que Paulo na passagem supracitada, se gloria de haver feito. Mas os que
arrastam a Igreja após si, e não a Cristo, se fazem culpados de vilmente violar
o matrimônio que deveriam ter honrado. E, quanto maior é a honra que Cristo nos
confere, fazendo-nos guardiãs de sua esposa, tão mais hedionda será nossa falta
de fidelidade, se não nos esforçarmos em manter e defender seu direito.
Pois esta alegria já se cumpriu em mim. Significa que João já alcançou o cumprimento de todos os seus
desejos, e que ele nada mais deseja, ao ver Cristo reinando e os homens
dando-lhe ouvidos como de fato ele merece. Quem quer que tenha afetos tais que,
pondo de lado toda consideração pessoal, exalte a Cristo, sinta-se feliz em ver
Cristo sendo honrado, será fiel e bem sucedo em governar a Igreja. Todo aquele,
porém, que muda o mínimo grau desse propósito será um vil adúltero, e outra
coisa não fará senão corromper a esposa de Cristo.
Deus nos abençoe!
João Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).