“SENHOR, NÃO ME REPREENDAS NA TUA IRA”
“SENHOR, não me
repreendas na tua ira, nem me castigues no teu furor. Tem compaixão de mim, SENHOR,
porque eu me sinto debilitado; sara-me, SENHOR, porque os meus ossos estão
abalados” (Sl 6:1,2).
Ao clamar
veementemente a Deus, que usasse de misericórdia para com ele, daqui se manifesta
ainda mais nitidamente que, pelos termos ira e furor, Davi não pretendia
insinuar crueldade ou severidade indevida, mas somente o juízo tal como Deus
executa sobre os réprobos, a quem não poupa usando de misericórdia como faz a
seus próprios filhos. Se porventura se houvera queixado de ser mui injusta e
severamente castigado, ele agora haveria apenas adicionado algo a este
resultado: Contém-te, para que, ao castigar-me, não excedas a medida de minha
ofensa. Ao valer-se, pois, exclusivamente da compaixão de Deus, Davi demonstra
que nada deseja além de não ser tratado segundo a estrita justiça ou segundo
merecia. Com o fim de induzir a Deus a exercer sua perdoadora misericórdia para
com ele, declara que está acabado: Tem compaixão de mim, SENHOR, porque eu me
sinto debilitado. Como disse antes, ele evoca sua fraqueza, não porque
estivesse enfermo, mas porque se sentia fulminado e perturbado por algo que lhe
havia sucedido. E como sabemos que o propósito de Deus, ao infligir-nos algum
castigo, consiste em humilhar-nos, então, quando somos reprimidos sob sua vara,
a porta se abre para que sua misericórdia nos alcance. Além disso, visto que
sua peculiar função é curar os enfermos, erguer os caídos, amparar os fracos e,
finalmente, comunicar vida aos mortos, esta, por si mesma, é uma razão
suficiente para buscarmos seu favor quando nos acharmos mergulhados em nossas
aflições.
Após Davi haver
protestado que colocara sua esperança de salvação exclusivamente na
misericórdia de Deus, e haver tristemente demonstrado o quanto se encontrava
degradado, ele acrescenta que isso havia prejudicado sua saúde física, e ora pela
restauração dessa bênção: Sara-me, SENHOR. E esta é a ordem que devemos
observar, a saber: que saibamos que todas as bênçãos que pedimos a Deus emanam
da fonte de sua graciosa bondade, e que então somos, e somente então,
libertados das calamidades e castigos, ou seja, quando ele usar de misericórdia
em nosso favor.
Porque os meus ossos estão abalados. Isso confirma a observação que acabo de fazer, ou seja: da
própria miséria de suas aflições, Davi entreteve a esperança de algum lenitivo;
pois Deus, quanto mais vê o infeliz oprimido e à mercê da destruição, tanto
mais se prontifica a socorrê-lo. Ele atribui abalo a seus ossos, não porque
sejam dotados de emoção, mas porque a veemência de sua tristeza era tal que
afetara todo seu corpo. Ele não fala de sua carne, a qual é a mais tenra e a
mais suscetível parte do sistema corporal; menciona, porém, seus ossos, com
isso insinuando que as partes mais resistentes de sua estrutura foram feitas
para tremerem de medo. A seguir [v.3] assinala a causa disso, dizendo: Também a
minha alma está profundamente perturbada, como se quisesse dizer: Tão severa e
íntima é a angústia de meu coração, que afeta e esvai as energias de cada parte
de meu corpo.
Deus nos abençoe!
João
Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.







