"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



sexta-feira, 14 de agosto de 2026

“O QUE NÃO CRÊ JÁ ESTÁ JULGADO”


“O QUE NÃO CRÊ JÁ ESTÁ JULGADO”

“Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo 3:18).

Isso significa que não há outro remédio pelo qual qualquer ser humano possa escapar da morte, ou, em outros termos, que para quantos rejeitam a vida que lhe é outorgada em Cristo nada resta senão a morte, visto que a vida não consiste em algo mais além da fé. O tempo perfeito do verbo, já está julgado ou condenado, foi usado por Cristo enfaticamente para expressar mais fortemente que todos os incrédulos estão completamente arruinados. Deve-se, porém, observar que ele fala especificamente daqueles cuja perversidade se exibirá por seu franco desprezo do evangelho. Pois ainda que seja verdade que jamais houve qualquer outro remédio para escapar à morte, além do fato de que os homens devam recorrer a Cristo, todavia, visto que aqui Cristo fala da pregação do evangelho, a qual teria que ecoar pelo mundo inteiro, ele dirige seu discurso contra os que deliberada e maliciosamente extinguem a luz que Deus acendeu.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

“QUEM NELE CRÊ NÃO É JULGADO”


“QUEM NELE CRÊ NÃO É JULGADO”

“Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo 3:18).

Ao repetir com tanta frequência e com tanta solicitude que todos os que creem se encontram além do perigo de morte, podemos inferir disso a grande necessidade de uma confiança firme e certa, que a consciência não pode ser mantida perpetuamente num estado de tremor e expectação. Cristo uma vez mais declara que, ao crermos, já nenhuma condenação resta, o que depois explicará no capítulo 5. O tempo presente – não é julgado ou condenado –, é aqui usado em vez do tempo futuro – não será condenado –, segundo a maneira do idioma hebreu, pois sua intenção é que os crentes estão a salvo do temor da condenação.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

“OS HOMENS AMARAM MAIS AS TREVAS DO QUE A LUZ”


“OS HOMENS AMARAM MAIS AS TREVAS DO QUE A LUZ”

“O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más” (Jo 3:19).

Cristo refreia as murmurações e queixas pelas quais os ímpios costumavam censurar – o que imaginamos ser – o excessivo rigor de Deus, quando ele age contra eles com mais severidade do que esperavam. Acham duro demais o fato de que os que não creem em Cristo sejam entregues à destruição. Para que ninguém atribua sua condenação a Cristo, ele mostra que cada ser humano deve imputar a si próprio a responsabilidade. A razão é que a incredulidade é uma testemunha de uma má consciência; e, portanto, é evidente que é sua própria perversidade que impede os incrédulos de se aproximarem de Cristo.

Há quem pense que o que ele aqui realça nada mais é que o selo da condenação. Todavia, o desígnio de Cristo é restringir a perversidade dos homens afim de que, segundo seu costume, não contendam nem argumentem contra Deus, como se ele os tratasse injustamente, quando pune a incredulidade com a morte eterna. Ele mostra que tal condenação é justa, e não está sujeita a qualquer reprovação, não só porque tais homens agem impiamente, que preferem as trevas à luz e recusam a luz que lhes é graciosamente oferecida, mas porque tal ódio pela luz só brota de uma mente que é perversa e cônscia de sua culpabilidade.

Uma bela aparência e excelência de santidade de fato podem ser encontradas em muitos que, além de tudo, se opõem ao evangelho. No entanto, ainda que pareçam ser mais santos do que os próprios anjos, sem a menor sombra de dúvida, são hipócritas, pois rejeitam a doutrina de Cristo por nenhuma outra razão senão pelo fato de amarem seus esconderijos, por meio dos quais sua vileza continue velada. Portanto, visto que a mera hipocrisia basta para tornar os homens odiosos aos olhos de Deus, todos são conservados réus, porque, não fora isso, cegados pela soberba e deleitando-se em seus crimes, pronta e espontaneamente receberiam a doutrina do evangelho.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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terça-feira, 4 de agosto de 2026

“DEUS ENVIOU O SEU FILHO AO MUNDO, NÃO PARA QUE JULGASSE O MUNDO”


“DEUS ENVIOU O SEU FILHO AO MUNDO, NÃO PARA QUE JULGASSE O MUNDO”

“Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele” (Jo 3:17).

Aqui temos uma confirmação da afirmação precedente, porque não foi em vão que Deus enviou seu próprio Filho em nosso favor [Jo 3.16]. Ele não veio com o fim de destruir, e, por isso, segue-se ser o ofício peculiar do Filho de Deus que todo aquele que nele crê obtenha a salvação por meio dele. Agora não a razão por que uma pessoa viva em estado de hesitação ou angustiante ansiedade quanto à maneira pela qual pode escapar da morte, ao crer que era propósito de Deus que Cristo nos livrasse dela. A palavra mundo é uma vez mais reiterada, a fim de que ninguém pense que foi totalmente excluído, se tão somente conservar-se na vereda da fé.

A palavra julgar é aqui posta em lugar de condenar, como é o caso em muitas outras passagens. Ao declarar que não veio para condenar o mundo, ele assim realça o desígnio real de sua vinda, pois que necessidade havia para Cristo vir com o fim de destruir-nos, nós que estávamos completamente arruinados? Não devemos, pois, buscar em Cristo algo mais além do fato de que Deus, de sua infinita bondade, quis estender seu auxílio para salvar-nos, a nós que estávamos perdidos. E sempre que nossos pecados nos oprimam – sempre que Satanás nos conduza ao desespero –, devemos correr para este refúgio, a saber: que Deus não deseja que sejamos esmagados por perene destruição, visto que ele designara seu Filho para ser o Salvador do mundo.

Quando em outras passagens Cristo diz que veio para julgar [Jo 9.39]. Quando ele é denominado de pedra de escândalo [1Pe 2.7] e quando lemos ser ele posto para destruição de muitos [Lc 2.34], isso pode ser considerado como provindo de uma causa distinta, porquanto aquele que rejeita a graça que lhe é oferecida merece encontrar nele o Juiz e Vingador de um desdém tão indigno e vil.

Um notável exemplo disso pode ser visto no evangelho, pois ainda que ele seja estritamente o poder de Deus para a salvação de todo aquele que nele crê [Rm 1.16], a ingratidão de muitos o converte em morte para os mesmos. Ambas as coisas foram bem expressas por Paulo, quando ele vingar toda desobediência, quando for cumprida vossa obediência [2Co 10.6]. O significado equivale a isto: que o evangelho é especialmente, e em primeira instância, designado para os crentes, a fim de que a salvação lhes pertença, mas que, depois, os descrentes não escaparão impunes, caso desprezem a graça de Cristo e decidam tê-lo como o Autor da morte, em vez de o Autor da vida.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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quinta-feira, 30 de julho de 2026

“ENQUANTO CALEI OS MEUS PECADOS”


“ENQUANTO CALEI OS MEUS PECADOS”

“Enquanto calei os meus pecados, envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos todo o dia” (Sl 32.3).

Neste ponto Davi confirma, mediante sua própria experiência, a doutrina que havia estabelecido, a saber, que quando foi humilhado debaixo da mão de Deus, sentiu que nada era tão miserável quanto ser privado do favor divino. E assim notifica que esta verdade não pode ser corretamente apreendida senão quando Deus nos prova com aquele senso da ira divina. Tampouco fala ele de uma mera e ordinária provação, mas declara que se achava inteiramente subjugado com o mais extremo rigor. E, certamente, a apatia de nossa carne, nesta matéria, não é menos espantosa que sua audácia. Se não formos atraídos por meios forçosos, jamais nos apressaremos a buscar a reconciliação com Deus tão solicitamente quanto devíamos. Finalmente, o escritor inspirado nos ensina, através de seu próprio exemplo, que jamais perceberemos quão imensa felicidade é desfrutar do favor divino, enquanto não tivermos sentido plenamente, à luz dos graves conflitos com as tentações íntimas, quão terrível é a ira divina. Ele acrescenta que, se guardasse silêncio, ou se tentasse agravar sua tristeza clamando e bramando, seus ossos envelheceriam; noutros termos, toda sua força se desvaneceria. Disto se segue que, para onde quer que o pecador se volte, ou por mais que ele seja afetado, seu mal-estar em grau algum é aliviado, nem seu bem-estar em algum grau é promovido, até que seja restaurado ao favor divino. Às vezes sucede que, os que são torturados pela mais aguda tristeza, chegam ao ponto de sua dor os corroer e devorar interiormente e a guardam velada e reclusa em seu íntimo, sem confessá-la, e a violência de sua tristeza se irrompe com tanto ímpeto que não mais podem contê-la. Pelo termo calei ou silêncio Davi pretende dizer não insensibilidade nem estupidez, mas aquele sentimento que se põe entre a paciência e a obstinação, e que se alia tanto ao vício quanto à virtude. Pois seus ossos não se consumiam com a idade, mas com os terríveis tormentos de sua mente. Seu silêncio, contudo, não era o silêncio da esperança ou obediência, porquanto ele não trazia à sua miséria nenhum alívio.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“BEM-AVENTURADO O HOMEM EM CUJO ESPÍRITO NÃO HÁ FALSIDADE”


“BEM-AVENTURADO O HOMEM EM CUJO ESPÍRITO NÃO HÁ FALSIDADE”

“Bem-aventurado o homem a quem o SENHOR não atribui iniquidade e em cujo espírito não há falsidade” (Sl 32.2).

Neste versículo o salmista Davi distingue os crentes tanto dos hipócritas quanto dos insensíveis desdenhadores de Deus, os quais não se preocupam com esta felicidade nem podem eles alcançar o desfruto dela. Os perversos são, aliás, conscientes de sua própria culpa, todavia ainda sentem grande prazer em sua perversidade; tornam-se empedernidos em sua impudência desenfreada e se riem das ameaças; ou, pelo menos, se deleitam nas enganosas perspectivas de que jamais poderão ser impedidos de ter acesso à presença de Deus. Sim, ainda que sejam infelizes pelo senso de sua miséria e acossados com tormentos secretos, todavia com perversa insensibilidade reprimem todo o temor de Deus. Quanto aos hipócritas, se sua consciência, em algum momento, os fustiga, amenizam sua dor com remédios ineficazes. De modo que, se Deus, em qualquer tempo, os cita a comparecerem diante de seu tribunal, põem diante de si não sei que espécie de fantasma em sua defesa; e nunca estão sem coberturas pelas quais afastam a luz de seus corações. Ambas estas classes de homens são impedidas, pelo doloso coração, de buscar sua felicidade no paternal amor de Deus. Não só isso, mas a maioria deles se precipita na presença de Deus, ou se infla com soberba presunção, sonhando que são felizes, mesmo que Deus seja contra eles. Davi, pois, quer dizer que ninguém pode experimentar o que é o perdão dos pecados sem que antes seu coração seja purificado de toda malícia. A intenção de Davi, pois, ao usar o termo falsidade ou dolo, pode ser entendido à luz do que eu já disse. Quem não se examina, enquanto na presença de Deus, mas, ao contrário, se esquiva de seu juízo, quer se oculte nas trevas, quer se cubra de folhas, trata perfidamente tanto a si próprio quanto a Deus. Não surpreende, pois, que quem não se sente enfermo recusa o remédio. E difícil uma insensibilidade mais terrível do que não se deixar dominar pelo temor de Deus e não nutrir a menor solicitude por sua graça, nem se deixar comover senão por uma fria busca de perdão. Daí suceder que nem mesmo de leve percebem que inaudita felicidade é tomar posse do favor divino. Tal foi o caso de Davi por algum tempo, quando uma traiçoeira segurança aproximou-se sorrateiramente, entenebrecendo sua mente e impedindo-o de zelosamente aplicar-se a sair no encalço desta felicidade. Os santos, às vezes, labutam sujeitos à mesma enfermidade. Portanto, se devemos desfrutar da felicidade que Davi aqui nos propõe, então é preciso que prestemos muita atenção para que Satanás, enchendo nossos corações de malícia, nos prive de todo senso de nossa própria miséria, a qual inevitavelmente consumirá todos quantos recorrem a subterfúgios.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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terça-feira, 28 de julho de 2026

“BEM-AVENTURADO AQUELE CUJA INIQUIDADE É PERDOADA” – Parte 2

“BEM-AVENTURADO AQUELE CUJA INIQUIDADE É PERDOADA” – Parte 2

“Bem-aventurado aquele cuja a iniquidade é perdoada, cujo pecado é coberto” (Sl 32.1).

É deveras por si mesmo suficientemente evidente que bem-aventurado é o homem cuja iniquidade é perdoada; mas a experiência nos ensina quão difícil é persuadir-se deste fato, de tal maneira que se torne indelevelmente afixado em nossos corações. A grande maioria, como já demonstrei, enredada por, suas próprias invenções, extingue de si, o quanto pode, os terrores da consciência e todo o temor da ira divina. Sem dúvida, eles nutrem o desejo de reconciliar-se com Deus; e todavia se esquivam da presença dele, em vez de buscarem sua graça sinceramente e de todo seu coração. Em contrapartida, todos aqueles a quem Deus tem realmente despertado para que se deixem afetar por um vivo senso de sua miséria, estão constantemente agitados e inquietados, tanto que é difícil restaurar a paz de suas mentes. Realmente degustam a misericórdia divina e se diligenciam em tomar posse dela, e, no entanto vivem frequentemente atemorizados sob os múltiplos assaltos que lhes são feitos. As duas razões por que o salmista Davi insiste tanto sobre o tema do perdão dos pecados são estas: para que ele, de um lado, erga aqueles que porventura caíram em profundo sono, inspire a indiferença com ponderação e reavive os entorpecidos; e para, por outro lado, tranquilizar as mentes temerosas e estressadas com uma confiança segura e disposta. Quanto (a primeira razão,) a doutrina pode ser aplicada desta forma: “O que pretendeis, ó vós infelizes, que uma ou duas ferroadas em vossa consciência não vos perturbam? Supondes que um mero e limitado conhecimento de vossos pecados não é suficiente para abalar-vos com terror, todavia quão irracional é continuardes dormitando em segurança, enquanto sucumbis sob imenso fardo de pecados!” E esta reiteração fornece não pouco conforto e confirmação aos débeis e temerosos. Visto que as dúvidas amiúde lhes sobrevêm, uma após outra, não basta que sejam vitoriosos em apenas um conflito. Esse desespero, pois, para que não os sucumbisse em meio aos vários pensamentos perplexivos com que são agitados, o Espírito Santo confirma e ratifica a remissão de pecados com muitas declarações.

Agora se torna oportuno avaliar a força particular das expressões aqui empregadas. Certamente que a remissão da qual aqui se trata não se harmoniza com as satisfações. Deus, ao lançar fora ou tirar os pecados, e igualmente ao cobri-los e não imputá-los, graciosamente os perdoa. Por essa conta os católicos romanos, ao introduzirem suas satisfações e obras de superrogação, segundo as chamam, se privam desta bem-aventurança. Além disso, Davi aplica essas palavras a fim de completar o perdão. Ora, é necessário considerar a quem pertence esta felicidade, a qual pode facilmente ser extraída da circunstância do tempo. Ao ser Davi instruído de que era bem-aventurado unicamente pela misericórdia divina, ele não havia sido alienado da igreja de Deus; ao contrário, ele se avantajava a muitos no temor e no serviço de Deus, bem como em santidade de vida, e se exercitava em todos os deveres da piedade. E mesmo depois de fazer esses progressos na religião, Deus então o exercitara a fim de que depositasse o alfa e o ômega de sua salvação em sua gratuita reconciliação com Deus. Tampouco é destituído de razão que Zacarias, em seu cântico, represente “o conhecimento da salvação” como que consistindo em conhecer “a remissão de pecados” [Lc 1.77]. Quanto mais eminentemente alguém se destaca em santidade, mais ele se sente destituído da perfeita justiça e mais que claramente percebe que em nada pode confiar senão unicamente na misericórdia de Deus. Daí ser evidente que estão frontalmente equivocados os que concluem que o perdão de pecado só é necessário para o início da justiça. Uma vez que os crentes todos os dias se envolvem em muitos erros, de nada lhes aproveitará já terem tomado a vereda da justiça, a menos que a mesma graça que os manteve em sua companhia os conduza à última fase de sua vida. Com que objetivo se diz em outra parte que são bem-aventurados “os que temem ao Senhor”, “que andam em seus caminhos”, “que são retos de coração” etc., a resposta é fácil, a saber: como o perfeito temor do Senhor, a perfeita observância de sua lei e perfeita retidão do coração não se encontram em parte alguma, tudo quanto a Escritura em qualquer lugar diz, concernente à bem-aventurança, se fundamenta no gracioso favor de Deus, através do qual ele nos reconcilia consigo mesmo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“BEM-AVENTURADO AQUELE CUJA INIQUIDADE É PERDOADA” – Parte 1

“BEM-AVENTURADO AQUELE CUJA INIQUIDADE É PERDOADA” – Parte 1

“Bem-aventurado aquele cuja a iniquidade é perdoada, cujo pecado é coberto” (Sl 32.1).

Esta exclamação flui da ardente afeição do coração do salmista Davi, bem como de séria consideração. Visto que quase o mundo inteiro desvia seus pensamentos do juízo de Deus, geram em si um fatal descaso e se intoxicam com ilusórios prazeres. Davi, sentindo-se dominado pelo temor da ira de Deus e se predispondo a valer-se da misericórdia divina, também desperta outros para o mesmo exercício, declarando distinta e audivelmente que só aqueles que são abençoados é que podem reconciliar-se com Deus, de modo que reconheça como seus filhos aqueles que, com justiça, poderia tratar como seus inimigos. Alguns se fazem tão cegos pela hipocrisia e soberba, e outros por um tão grosseiro menosprezo por Deus, que não se sentem de forma alguma ansiosos em buscar o perdão, embora todos reconheçam que necessitam de perdão; nem existe sequer um homem cuja consciência não o acuse ante o tribunal divino. Esta confissão, por conseguinte, de que todos necessitam de perdão, uma vez que ninguém é perfeito, e que então só estará bem conosco se Deus perdoar nossos pecados, a própria natureza arranca até dos homens mais perversos. Nesse ínterim, porém, a hipocrisia fecha os olhos das multidões, embora outros sejam tão iludidos por uma perversa segurança carnal que não se deixam sensibilizar por qualquer senso da ira divina, nem sequer por um tênue indício dela.

Disto procede um duplo erro: (primeiro) que tais homens fazem pouco de seus pecados, e sequer ponderam sobre a centésima parte do perigo advindo da indignação divina; e, (segundo) que engendram frívolas expiações com o fim de isentar-se da culpa e conquistar o favor divino. E assim, em todas as épocas e em todos os lugares, esta tem sido a opinião prevalecente: embora todos os homens estejam infectados com o pecado, ao mesmo tempo se adornam com méritos cuja intenção é granjear-lhes o favor divino, e que embora provoquem a ira divina, com seus crimes, se munem de expiações e satisfações, com facilidade, para a obtenção de sua absolvição. Toda pessoa, pois, que não se deixa arrebatar pelo engano de Satanás, admitirá a veracidade desta afirmação, ou seja, que os homens se acham num deplorável estado a menos que Deus os trate misericordiosamente, não debitando seus pecados em sua conta. Davi, porém, vai além, declarando que toda a vida do homem está sujeita à ira e maldição divinas, a não ser quando ele se digna, por sua graciosa mercê, recebê-los em seu favor; o que o Espírito falou pelos lábios de Davi é infalível, devidamente intérpretado e testemunhado pelos lábios de Paulo [Rm 4.6], Não houvera Paulo usado este testemunho, jamais seus leitores haveriam penetrado o real sentido do profeta. Com Paulo, porém, esta é a plena definição da justiça da fé; como se o profeta dissesse: Os homens, pois, só serão bem-aventurados depois que forem gratuitamente reconciliados com Deus e reputados por ele como justos. Por conseguinte, a bem-aventuraça que Davi celebra destrói definitivamente a justiça proveniente das obras. Mas, ainda hoje, não são poucos os que não hesitam em impor suas virtudes a Deus, justamente como se houvessem extraído delas grande parte de sua bem-aventurança.

Davi, não obstante, prescreve uma ordem bem diferente, a saber: que ao buscar-se a bem-aventurança, tudo começaria com o princípio de que Deus não pode reconciliar-se com os que são dignos de eterna destruição de algum outro modo além de graciosamente perdoá-los e conceder-lhes seu favor. E com razão declara que, se a misericórdia lhes fosse negada, todos os homens seriam completamente miseráveis e malditos; pois se todos os homens são inerentemente inclinados tão-só para o mal, enquanto não forem regenerados, é óbvio que toda a sua vida pregressa seria odiosa aos olhos de Deus. Além disso, visto que mesmo depois da regeneração nenhuma obra que os homens realizem pode agradar a Deus, a menos que ele perdoe o pecado que se mescla com ela, todos seriam excluídos da esperança de salvação. Que as obras dos santos são indignas de galardão por estarem contaminadas com muitas imundícias, parece ser uma expressão dura demais aos ouvidos de muitos. Nisto, porém, denunciam sua grosseira ignorância ao estimarem, segundo suas concepções pessoais, o juízo de Deus, a cujos olhos o próprio fulgor das estrelas não passa de trevas. Portanto, que isto permaneça como doutrina estabelecida: visto que só seremos considerados justos diante de Deus pela remissão gratuita dos pecados, então esta é a porta da eterna salvação; e, consequentemente, que só serão bem-aventurados aqueles que põem sua confiança na misericórdia de Deus.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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terça-feira, 21 de julho de 2026

“PARA QUE TODO O QUE NELE CRÊ NÃO PEREÇA”


“PARA QUE TODO O QUE NELE CRÊ NÃO PEREÇA”

“Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:16).

A coisa mais extraordinária sobre a fé é que ela nos livra da destruição eterna. Porque ele queria dizer especialmente que, embora pareçamos ter nascidos para a morte, pela fé em Cristo se nos oferece livramento infalível, de sorte que não devemos temer a morte que, caso contrário, nos ameaçaria. E ele usou um termo geral para convidar indiscriminadamente a todos a fim de que participem da vida e excluir todo pretexto dos incrédulos. Tal também é a importância do termo mundo que ele usara antes. Porque, embora não haja nada no mundo merecedor do favor divino, não obstante se revela favorável ao mundo inteiro, quando ele chama todos, sem exceção, à fé em Cristo, que na verdade é um ingresso à vida.

Tenhamos em mente, por outro lado, que a vida seja universalmente prometida a todos os que creem em Cristo, todavia a fé não é comum a todos [2Ts 3.2]. Porque Cristo se faz conhecido e exibido à vista de todos, porém somente os eleitos são aqueles a cujo os olhos Deus abre para que o busquem por meio da fé. Aqui também se exibe um prodigioso efeito da fé, pois por meio dela recebemos a Cristo tal como ele nos foi dado pelo Pai – ou seja, como aquele que nos libertou da condenação da morte eterna e nos fez herdeiros da vida eterna, porque, pelo sacrifício de sua morte, ele fez expiação por nossos pecados para que nada nos impeça de ser reconhecidos por Deus como seus filhos. Portanto, visto que a fé abraça a Cristo, com a eficácia de sua morte e o fruto de sua ressurreição, não carece de surpresa se por meio dela obtivermos igualmente a vida de Cristo.

Todavia, não fica ainda muito evidente por que e como a fé nos outorga a vida. Seria porque Cristo nos renova mediante seu Espírito para que a justiça de Deus possa viver e ser revigorada em nós, ou seria porque, tendo sido purificado por seu sangue, somos considerados justos diante de Deus mediante seu perdão gratuito? Aliás, é certo que essas duas coisas andam sempre juntas, mas, como a certeza da salvação é o tema ora em discussão, devemos principalmente manter, por esta razão, que vivemos porque Deus nos ama soberanamente, não mais imputando nossos pecados. Por essa razão, menciona-se expressamente o sacrifício por meio do qual, juntamente com nossos pecados, a maldição e a morte são destruídas. Já explicamos o objeto dessas duas sentenças, a saber, informar-nos de que em Cristo tomamos posse da vida, da qual estamos inerentemente destituídos, pois nesta miserável condição do gênero humano, a redenção, na ordem do tempo vem antes da salvação.

Deus nos Abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“QUE DEU O SEU FILHO UNIGÊNITO”


“QUE DEU O SEU FILHO UNIGÊNITO”

“Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:16).

O genuíno olhar da fé, confesso, é colocar Cristo diante dos olhos e contemplar nele o coração de Deus transbordante de amor. Nosso firme e substancial sustento é descansar na morte de Cristo como nossa única garantia. A palavra unigênito é realçada para exaltar o fervor do amor divino por nós. Porque os homens não se deixam convencer facilmente de que Deus os ama, e, por isso, para remover toda dúvida, ele expressamente declara que somos tão queridos de Deus que, por amor de nós, ele não poupou nem mesmo seu Filho unigênito. Deus declarou seu amor para conosco de uma forma mui exuberante, e, portanto, quem ainda nutre dúvida e se sente insatisfeito com este testemunho faz a Cristo uma séria injúria, como se ele fosse algum homem ordinário que tivesse morrido acidentalmente. Consideremos, antes, que o amor de Deus por seu Filho unigênito é a medida de quão preciosa lhe foi nossa salvação, que quis que a morte do próprio Unigênito fosse seu preço. Além disso, Cristo possui este nome por direito, ainda que, por natureza, seja o único filho de Deus. Ele, porém, compartilha conosco esta honra por meio da adoção, quando somos enxertados em seu corpo.

Deus nos Abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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