"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



segunda-feira, 24 de agosto de 2026

“VÓS MESMOS SOIS TESTEMUNHAS”


“VÓS MESMOS SOIS TESTEMUNHAS”

“Vós mesmos sois testemunhas de que vos disse: eu não sou o Cristo, mas fui enviado como seu precursor” (Jo 3:28).

João reprova seus discípulos, dizendo que não deram crédito a suas afirmações. Ele os advertia com frequência, dizendo que não era o Cristo. E, por isso, assegurava-lhes que seria um servo do Filho de Deus e lhe seria sujeito juntamente como os demais. E esta passagem é digna de ponderação, pois, ao afirmar que não era o Cristo, ele nada merece para si senão sujeitar-se à cabeça e servir na Igreja como um dentre os demais, e não para ser tão altamente exaltado a ponto de obscurecer a honra da Cabeça. Diz ele que fora enviado antecipadamente com o fim de preparar o caminho para Cristo, como os reis costumavam enviar arautos como seus precursores.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

“O HOMEM NÃO PODE RECEBER COISA ALGUMA”


“O HOMEM NÃO PODE RECEBER COISA ALGUMA”

“Respondeu João: O homem não pode receber coisa alguma se do céu não lhe for dada” (Jo 3:27.

Alguns atribuem essas palavras a Cristo, como se João acusasse os discípulos de perversa presunção em oposição a Deus, por tudo fazerem com o fim de privar a Cristo do que o Pai lhe dera. Supunham que o significado era este: “Que era obra de Deus o fato de que dentro de tão pouco tempo ele havia granjeado tão grande honra; e, por isso, era em vão que tentassem denegrir aquele a quem Deus com sua própria mão dera tão elevada posição”. Outros pensam que é uma exclamação que ele indignamente pronuncia, visto que seus discípulos até então tinham feito tão pouco progresso. E certamente era excessivamente absurdo que ainda lutassem por reduzir à posição de homens comuns àquele que, com tanta frequência ouviam , era o Cristo, o qual não podia erguer-se acima de seus próprios servos. E, portanto, João poderia, com justiça, ter dito ser inútil gastar tempo em instruir os homens, porquanto são obtusos e estúpidos, enquanto não fossem renovados em sua mente.

Antes, porém, concordo com a opinião daqueles que o explicam como uma aplicação a João, como a asseverar que não estava em seu poder, nem no deles, de fazê-lo grande, porque a medida de todos nós é sermos aquilo que Deus pretende que sejamos. Pois até mesmo o Filho de Deus não tomou para si honra alguma [Hb 5.4], que homem dentre a categoria ordinária se aventuraria a desejar mais do que aquilo que o Senhor deu? Se esse único pensamento, se estivesse devidamente impresso nas mentes de todos nós, seria sobejamente suficiente para refrear a ambição, e a ambição seria corrigida e destruída e a praga das contendas seria igualmente removida. Como sucede, pois, que cada pessoa se exalte mais do que lhe é lícito, senão porque não dependemos do Senhor, de modo a nos sentirmos satisfeitos com a posição que ele nos designou?

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

“E TODOS LHE SAEM AO ENCONTRO”


“E TODOS LHE SAEM AO ENCONTRO”

“E foram ter com João e lhe disseram: Mestre, aquele que estava contigo além do Jordão, do qual tens dado testemunho, está batizando, e todos lhe saem ao encontro” (Jo 3:26).

Do qual tens dado testemunho. Com tal argumento empreendem ou fazer Cristo inferior a João ou mostrar que João, honrando-o, o pusera sob obrigações, pois reconheciam que João conferira um favor a Cristo, adornando-o com títulos proeminentes, como se fora o dever de João fazer tal proclamação, ou melhor, como se não fora a mais elevada dignidade de João ser o arauto do Filho de Deus. Nada poderia ter sido mais irracional do que fazer Cristo inferior a João, visto que seu testemunho era sublimemente favorável, pois sabemos qual foi o testemunho de João. A expressão que usaram – todos lhe saem ao encontro ou vêm a Cristo – é a linguagem de pessoas invejosas, e procede da ambição pecaminosa, pois temiam que a multidão imediatamente esquecessem João, seu mestre.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

“UMA CONTENDA COM RESPEITO À PURIFICAÇÃO”


“UMA CONTENDA COM RESPEITO À PURIFICAÇÃO”

“Ora, entre os discípulos de João e um judeu suscitou-se uma contenda com respeito à purificação” (João 3:25).

Não sem uma boa razão, o Evangelho relata que entre os discípulos de João suscitou-se uma dúvida. Porque, à medida que eram informados a cerca da doutrina, mais prontos estavam em entrar em discussão, visto que a ignorância é sempre ousada e presunçosa. Se outros o atacavam, então poderiam justificar-se. Mas quando eles mesmos, ainda que sem razão, mantinham o fogo da contenda, provocando voluntariamente os judeus, isso constituía um procedimento precipitado e tolo.

Ora, as palavras significam que “foram eles que suscitaram a dúvida”. E não só deveriam responsabilizar-se por despertar uma questão da qual não tinham conhecimento, mas também por falarem a respeito precipitadamente e além da medida de seu conhecimento. Mas o outro erro foi – não menos que o primeiro – que pretendiam não tanto manter a legitimidade do batismo quanto defender a causa de seu mestre, para que sua autoridade permanecesse incomunicável. Em ambos os aspectos, mereceram reprovação, porque, não compreendendo qual era a natureza real do batismo, expunham a santa ordenança de Deus ao ridículo, e porque, mediante uma ambição pecaminosa, empreenderam defender a causa de seu mestre contra Cristo.

É evidente, pois, que ficaram atônitos e confusos com uma única palavra, quando foram informados de que Cristo também estava batizando, pois, enquanto sua atenção era direcionada para a pessoa de um homem e para sua aparência externa, preocupavam-se menos com a doutrina. Somos ensinados, por seu exemplo, que os equívocos em que os homens caem se devem a um desejo pecaminoso de agradar a si mesmos antes que movidos por zelo de Deus. E somos igualmente lembrados que o único objetivo que devemos ter em vista, e por todos os meios promover, é que tão somente Cristo deve ter a preeminência.

Com respeito à purificação. A dúvida foi proveniente da purificação, pois os judeus tinham vários batismos e lavagens ordenados pela Lei, e, não satisfeitos com aqueles que Deus designara, cuidadosamente observavam muitos outros que tinham sido introduzidos por seus ancestrais. Quando acham que, além de tão grande número e variedade de purificações, um novo método de purificação é introduzido por Cristo e por João, veem-no como um absurdo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

“O QUE NÃO CRÊ JÁ ESTÁ JULGADO”


“O QUE NÃO CRÊ JÁ ESTÁ JULGADO”

“Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo 3:18).

Isso significa que não há outro remédio pelo qual qualquer ser humano possa escapar da morte, ou, em outros termos, que para quantos rejeitam a vida que lhe é outorgada em Cristo nada resta senão a morte, visto que a vida não consiste em algo mais além da fé. O tempo perfeito do verbo, já está julgado ou condenado, foi usado por Cristo enfaticamente para expressar mais fortemente que todos os incrédulos estão completamente arruinados. Deve-se, porém, observar que ele fala especificamente daqueles cuja perversidade se exibirá por seu franco desprezo do evangelho. Pois ainda que seja verdade que jamais houve qualquer outro remédio para escapar à morte, além do fato de que os homens devam recorrer a Cristo, todavia, visto que aqui Cristo fala da pregação do evangelho, a qual teria que ecoar pelo mundo inteiro, ele dirige seu discurso contra os que deliberada e maliciosamente extinguem a luz que Deus acendeu.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

“QUEM NELE CRÊ NÃO É JULGADO”


“QUEM NELE CRÊ NÃO É JULGADO”

“Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo 3:18).

Ao repetir com tanta frequência e com tanta solicitude que todos os que creem se encontram além do perigo de morte, podemos inferir disso a grande necessidade de uma confiança firme e certa, que a consciência não pode ser mantida perpetuamente num estado de tremor e expectação. Cristo uma vez mais declara que, ao crermos, já nenhuma condenação resta, o que depois explicará no capítulo 5. O tempo presente – não é julgado ou condenado –, é aqui usado em vez do tempo futuro – não será condenado –, segundo a maneira do idioma hebreu, pois sua intenção é que os crentes estão a salvo do temor da condenação.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

“OS HOMENS AMARAM MAIS AS TREVAS DO QUE A LUZ”


“OS HOMENS AMARAM MAIS AS TREVAS DO QUE A LUZ”

“O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más” (Jo 3:19).

Cristo refreia as murmurações e queixas pelas quais os ímpios costumavam censurar – o que imaginamos ser – o excessivo rigor de Deus, quando ele age contra eles com mais severidade do que esperavam. Acham duro demais o fato de que os que não creem em Cristo sejam entregues à destruição. Para que ninguém atribua sua condenação a Cristo, ele mostra que cada ser humano deve imputar a si próprio a responsabilidade. A razão é que a incredulidade é uma testemunha de uma má consciência; e, portanto, é evidente que é sua própria perversidade que impede os incrédulos de se aproximarem de Cristo.

Há quem pense que o que ele aqui realça nada mais é que o selo da condenação. Todavia, o desígnio de Cristo é restringir a perversidade dos homens afim de que, segundo seu costume, não contendam nem argumentem contra Deus, como se ele os tratasse injustamente, quando pune a incredulidade com a morte eterna. Ele mostra que tal condenação é justa, e não está sujeita a qualquer reprovação, não só porque tais homens agem impiamente, que preferem as trevas à luz e recusam a luz que lhes é graciosamente oferecida, mas porque tal ódio pela luz só brota de uma mente que é perversa e cônscia de sua culpabilidade.

Uma bela aparência e excelência de santidade de fato podem ser encontradas em muitos que, além de tudo, se opõem ao evangelho. No entanto, ainda que pareçam ser mais santos do que os próprios anjos, sem a menor sombra de dúvida, são hipócritas, pois rejeitam a doutrina de Cristo por nenhuma outra razão senão pelo fato de amarem seus esconderijos, por meio dos quais sua vileza continue velada. Portanto, visto que a mera hipocrisia basta para tornar os homens odiosos aos olhos de Deus, todos são conservados réus, porque, não fora isso, cegados pela soberba e deleitando-se em seus crimes, pronta e espontaneamente receberiam a doutrina do evangelho.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

terça-feira, 4 de agosto de 2026

“DEUS ENVIOU O SEU FILHO AO MUNDO, NÃO PARA QUE JULGASSE O MUNDO”


“DEUS ENVIOU O SEU FILHO AO MUNDO, NÃO PARA QUE JULGASSE O MUNDO”

“Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele” (Jo 3:17).

Aqui temos uma confirmação da afirmação precedente, porque não foi em vão que Deus enviou seu próprio Filho em nosso favor [Jo 3.16]. Ele não veio com o fim de destruir, e, por isso, segue-se ser o ofício peculiar do Filho de Deus que todo aquele que nele crê obtenha a salvação por meio dele. Agora não a razão por que uma pessoa viva em estado de hesitação ou angustiante ansiedade quanto à maneira pela qual pode escapar da morte, ao crer que era propósito de Deus que Cristo nos livrasse dela. A palavra mundo é uma vez mais reiterada, a fim de que ninguém pense que foi totalmente excluído, se tão somente conservar-se na vereda da fé.

A palavra julgar é aqui posta em lugar de condenar, como é o caso em muitas outras passagens. Ao declarar que não veio para condenar o mundo, ele assim realça o desígnio real de sua vinda, pois que necessidade havia para Cristo vir com o fim de destruir-nos, nós que estávamos completamente arruinados? Não devemos, pois, buscar em Cristo algo mais além do fato de que Deus, de sua infinita bondade, quis estender seu auxílio para salvar-nos, a nós que estávamos perdidos. E sempre que nossos pecados nos oprimam – sempre que Satanás nos conduza ao desespero –, devemos correr para este refúgio, a saber: que Deus não deseja que sejamos esmagados por perene destruição, visto que ele designara seu Filho para ser o Salvador do mundo.

Quando em outras passagens Cristo diz que veio para julgar [Jo 9.39]. Quando ele é denominado de pedra de escândalo [1Pe 2.7] e quando lemos ser ele posto para destruição de muitos [Lc 2.34], isso pode ser considerado como provindo de uma causa distinta, porquanto aquele que rejeita a graça que lhe é oferecida merece encontrar nele o Juiz e Vingador de um desdém tão indigno e vil.

Um notável exemplo disso pode ser visto no evangelho, pois ainda que ele seja estritamente o poder de Deus para a salvação de todo aquele que nele crê [Rm 1.16], a ingratidão de muitos o converte em morte para os mesmos. Ambas as coisas foram bem expressas por Paulo, quando ele vingar toda desobediência, quando for cumprida vossa obediência [2Co 10.6]. O significado equivale a isto: que o evangelho é especialmente, e em primeira instância, designado para os crentes, a fim de que a salvação lhes pertença, mas que, depois, os descrentes não escaparão impunes, caso desprezem a graça de Cristo e decidam tê-lo como o Autor da morte, em vez de o Autor da vida.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

quinta-feira, 30 de julho de 2026

“ENQUANTO CALEI OS MEUS PECADOS”


“ENQUANTO CALEI OS MEUS PECADOS”

“Enquanto calei os meus pecados, envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos todo o dia” (Sl 32.3).

Neste ponto Davi confirma, mediante sua própria experiência, a doutrina que havia estabelecido, a saber, que quando foi humilhado debaixo da mão de Deus, sentiu que nada era tão miserável quanto ser privado do favor divino. E assim notifica que esta verdade não pode ser corretamente apreendida senão quando Deus nos prova com aquele senso da ira divina. Tampouco fala ele de uma mera e ordinária provação, mas declara que se achava inteiramente subjugado com o mais extremo rigor. E, certamente, a apatia de nossa carne, nesta matéria, não é menos espantosa que sua audácia. Se não formos atraídos por meios forçosos, jamais nos apressaremos a buscar a reconciliação com Deus tão solicitamente quanto devíamos. Finalmente, o escritor inspirado nos ensina, através de seu próprio exemplo, que jamais perceberemos quão imensa felicidade é desfrutar do favor divino, enquanto não tivermos sentido plenamente, à luz dos graves conflitos com as tentações íntimas, quão terrível é a ira divina. Ele acrescenta que, se guardasse silêncio, ou se tentasse agravar sua tristeza clamando e bramando, seus ossos envelheceriam; noutros termos, toda sua força se desvaneceria. Disto se segue que, para onde quer que o pecador se volte, ou por mais que ele seja afetado, seu mal-estar em grau algum é aliviado, nem seu bem-estar em algum grau é promovido, até que seja restaurado ao favor divino. Às vezes sucede que, os que são torturados pela mais aguda tristeza, chegam ao ponto de sua dor os corroer e devorar interiormente e a guardam velada e reclusa em seu íntimo, sem confessá-la, e a violência de sua tristeza se irrompe com tanto ímpeto que não mais podem contê-la. Pelo termo calei ou silêncio Davi pretende dizer não insensibilidade nem estupidez, mas aquele sentimento que se põe entre a paciência e a obstinação, e que se alia tanto ao vício quanto à virtude. Pois seus ossos não se consumiam com a idade, mas com os terríveis tormentos de sua mente. Seu silêncio, contudo, não era o silêncio da esperança ou obediência, porquanto ele não trazia à sua miséria nenhum alívio.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

“BEM-AVENTURADO O HOMEM EM CUJO ESPÍRITO NÃO HÁ FALSIDADE”


“BEM-AVENTURADO O HOMEM EM CUJO ESPÍRITO NÃO HÁ FALSIDADE”

“Bem-aventurado o homem a quem o SENHOR não atribui iniquidade e em cujo espírito não há falsidade” (Sl 32.2).

Neste versículo o salmista Davi distingue os crentes tanto dos hipócritas quanto dos insensíveis desdenhadores de Deus, os quais não se preocupam com esta felicidade nem podem eles alcançar o desfruto dela. Os perversos são, aliás, conscientes de sua própria culpa, todavia ainda sentem grande prazer em sua perversidade; tornam-se empedernidos em sua impudência desenfreada e se riem das ameaças; ou, pelo menos, se deleitam nas enganosas perspectivas de que jamais poderão ser impedidos de ter acesso à presença de Deus. Sim, ainda que sejam infelizes pelo senso de sua miséria e acossados com tormentos secretos, todavia com perversa insensibilidade reprimem todo o temor de Deus. Quanto aos hipócritas, se sua consciência, em algum momento, os fustiga, amenizam sua dor com remédios ineficazes. De modo que, se Deus, em qualquer tempo, os cita a comparecerem diante de seu tribunal, põem diante de si não sei que espécie de fantasma em sua defesa; e nunca estão sem coberturas pelas quais afastam a luz de seus corações. Ambas estas classes de homens são impedidas, pelo doloso coração, de buscar sua felicidade no paternal amor de Deus. Não só isso, mas a maioria deles se precipita na presença de Deus, ou se infla com soberba presunção, sonhando que são felizes, mesmo que Deus seja contra eles. Davi, pois, quer dizer que ninguém pode experimentar o que é o perdão dos pecados sem que antes seu coração seja purificado de toda malícia. A intenção de Davi, pois, ao usar o termo falsidade ou dolo, pode ser entendido à luz do que eu já disse. Quem não se examina, enquanto na presença de Deus, mas, ao contrário, se esquiva de seu juízo, quer se oculte nas trevas, quer se cubra de folhas, trata perfidamente tanto a si próprio quanto a Deus. Não surpreende, pois, que quem não se sente enfermo recusa o remédio. E difícil uma insensibilidade mais terrível do que não se deixar dominar pelo temor de Deus e não nutrir a menor solicitude por sua graça, nem se deixar comover senão por uma fria busca de perdão. Daí suceder que nem mesmo de leve percebem que inaudita felicidade é tomar posse do favor divino. Tal foi o caso de Davi por algum tempo, quando uma traiçoeira segurança aproximou-se sorrateiramente, entenebrecendo sua mente e impedindo-o de zelosamente aplicar-se a sair no encalço desta felicidade. Os santos, às vezes, labutam sujeitos à mesma enfermidade. Portanto, se devemos desfrutar da felicidade que Davi aqui nos propõe, então é preciso que prestemos muita atenção para que Satanás, enchendo nossos corações de malícia, nos prive de todo senso de nossa própria miséria, a qual inevitavelmente consumirá todos quantos recorrem a subterfúgios.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).