"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



terça-feira, 2 de junho de 2026

“POR ISSO, DEIXA O HOMEM PAI E MÃE E SE UNE À SUA MULHER”


“POR ISSO, DEIXA O HOMEM PAI E MÃE E SE UNE À SUA MULHER”

“E a costela que o Senhor Deus tomara ao homem, transformou-a numa mulher e lha trouxe. E disse o homem: Esta, afinal, é osso dos meus ossos e carne da minha carne; chamar-se-á varoa, porquanto do varão foi tomada. Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne” (Gn 2:22-24).

Por isso, deixa o homem... É duvidoso se Moisés, aqui, apresenta Deus a falar, ou dá seguimento ao discurso de Adão, ou, de fato, acrescentou isso em virtude de seu ofício de mestre, em sua própria pessoa. A última dessas opiniões é que eu aprovo. Portanto, depois de haver relatado historicamente o que Deus fizera, Moises também demostra o propósito. A suma de tudo é que, entre os ofícios pertinentes à sociedade humana, este é o principal e, por assim dizer, o mais santo: que um homem se mantenha fiel à sua esposa. E Moisés amplia isso acrescentando uma elevada comparação, a saber, que o esposo deve preferir a esposa aos pais. Mas lemos que se deixa pai e mãe não porque o casamento separe os filhos de seus pais, ou dispense outros laços da natureza, pois, dessa forma, Deus estaria agindo contrário a si próprio. Enquanto a piedade do filho para com seus pais deva ser diligente e assiduamente cultivada, e em si mesma deve ser tida como inviolável e sacra, contudo, Moisés fala assim do matrimônio com o intuito de mostrar que é menos lícito abandonar sua esposa do que os pais. Portanto, aquele que, por causas superficiais, imprudentemente permite divórcios, viola, de uma maneira muito particular, todas as leis da natureza e as reduz a nada. Se tomarmos como uma questão de consciência não separar um pai de seu filho, é uma perversidade ainda maior dissolver o laço que Deus preferiu a todos os demais.

Tornando-se os dois uma só carne. Embola, na Vulgata, Jerônimo tenha traduzido a passagem por “numa só carne”, os intérpretes gregos expressaram de uma maneira mais enérgica: “Os dois estarão em uma só carne”, e é nesse sentido que Cristo cita o ponto em questão em Mateus 19.5. Portanto, assegura-se que o vínculo conjugal só subsiste entre duas pessoas, e disso facilmente se mostra que nada tão contrário à divina instituição do que a poligamia. Ora, quando Cristo, ao censurar os divórcios voluntários dos judeus, alega como sua razão para fazê-lo que “não foi assim desde o princípio”, certamente ordena que essa instituição fosse observada como uma perpétua norma de conduta. Com o mesmo propósito, Malaquias também recorda aos judeus de seu próprio tempo: “Portanto cuidai de vós mesmos, e ninguém seja infiel para com a mulher da sua mocidade [Ml 2.15]. Portanto, não há dúvida de que a poligamia é uma corrupção do legítimo matrimônio.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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terça-feira, 26 de maio de 2026

“QUEM NÃO ME AMA NÃO GUARDA AS MINHAS PALAVRAS”


“QUEM NÃO ME AMA NÃO GUARDA AS MINHAS PALAVRAS”

“Quem não me ama não guarda as minhas palavras; e a palavra que estais ouvindo não é minha, mas do Pai, que me enviou” (Jo 14:24).

Como neste mundo os crentes vivem misturados com os descrentes e como vivem agitados por várias tormentas como um mar encapelado, Cristo novamente os confirma por meio desta admoestação, a saber: que não se deixem desviar pelos maus exemplos. Como se quisesse dizer: “Não olhem para o mundo como se dele dependessem; pois haverá sempre alguns que desprezarão a mim e a minha doutrina; mas, no tocante a vós, preservai constantemente até o fim a graça que uma vez recebestes”. Não obstante, ele igualmente notifica que o mundo é com justiça punido por sua ingratidão, quando perece em sua cegueira, visto que, ao desprezar a verdadeira justiça, manifesta o perverso ódio por Cristo.

A palavra que estais ouvindo. Para que os discípulos não desanimassem nem vacilassem pela contemplação da obstinação do mundo, ele novamente se esforça para imprimir crédito a sua doutrina, testificando que ela procede de Deus e que não foi engendrada por seres humanos terrenos. E de fato a vigor de nossa fé consiste em sabermos que Deus é nosso Líder e que estamos fundamentados em nada mais senão em sua verdade eterna. Seja qual for, pois, a fúria e demência do mundo, sigamos a doutrina de Cristo que se eleva muito acima de céu e terra. Ao dizer que a palavra não é sua, ele se acomoda a seus discípulos; como se quisesse dizer que ela não é humana, porque ele ensina fielmente o que lhe foi confiado pelo Pai. Contudo sabemos que, no que diz respeito ser ele a eterna Sabedoria de Deus, ele é a única fonte de toda doutrina, e que todos os profetas que vieram desde o princípio falaram por intermédio de seu Espírito.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“E VIREMOS PARA ELE E FAREMOS NELE MORADA”


“E VIREMOS PARA ELE E FAREMOS NELE MORADA”

“Respondeu Jesus: Se alguém me ama, guardará a minha palavra; e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada” (Jo 14:23).

Já explicamos que o amor de Deus para conosco não é posto em segunda posição, como se ele viesse depois que a piedade causasse tal amor, mas para que os crentes pudessem se convencer plenamente de que a obediência que rendem ao evangelho é agradável a Deus e para que esperem continuamente dele novos acréscimos de dons.

E viremos para aquele que me ama. Ou seja, esse sentirá que a graça de Deus habita nele e a cada dia recebe adições dos dons divinos. Ele, pois, fala não daquele amor eterno com que ele nos ama antes de nascermos e mesmo antes que o mundo fosse criado, mas desde o momento em que ele o sela em nossos corações fazendo-nos participantes de sua adoção. Tampouco ele aponta para a iluminação inicial, mas para aqueles graus de fé por meio dos quais os crentes avançam continuamente, de conformidade com aquele dito: “Todo aquele que tem se lhe dará” [Mt 13:12].

Conhecemos, pois, os que erram em inferir desta passagem que há dois tipos de amor com que amamos a Deus. Falsamente afirmam que amamos a Deus naturalmente, antes de sermos regenerados por seu Espírito e que, ainda por esta preparação, merecemos a graça da regeneração; como se a Escritura por toda parte não ensinasse, e como se a experiência também não proclamasse em alto e bom som que somos totalmente alienados de Deus, e que somos afetados e saturados de ódio por ele, até que ele mude nossos corações. Devemos, pois, manter nossa atenção no desígnio de Cristo, a saber: que ele e o Pai virão para confirmar os crentes na ininterrupta confiança em sua graça.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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domingo, 24 de maio de 2026

“AMAI-VOS CORDIALMENTE”

“AMAI-VOS CORDIALMENTE”

“Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros” (Rm 12.10).

Não há palavras suficientemente eloquentes com as quais o apóstolo Paulo pudesse expressar o ardor daquela afeição que deve impulsionar-nos ao amor recíproco. Ele se refere a esse ensinamento como sendo amor fraternal, e diz que o mesmo produz uma afeição muitíssimo cândida, significando aquele amoroso respeito que existe no seio da família. Este, sem dúvida, deve ser o tipo de amor que conferimos aos filhos de Deus. Com este propósito em vista, Paulo adiciona um preceito que é de extrema necessidade caso o bem deva triunfar, ou seja: que cada um deve preferir a seus irmãos em honra. Não há veneno mais letal para arrefecer as afeições do que alguém imaginar-se desprezado. Não questiono muito se vocês preferem entender esta honra no sentido de toda sorte de bondade, mas prefiro a primeira interpretação. Como não há nada mais contrário à harmonia fraternal do que o desdém que nasce do orgulho, quando alguém tem os demais em menos estima do que ele próprio, assim a modéstia, pela qual cada um traz honra aos demais, nutre muito mais o amor.

Deus nos abençoe! 

João Calvino (1509-1564).

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“O AMOR SEJA SEM HIPOCRISIA”

“O AMOR SEJA SEM HIPOCRISIA”

“O amor seja sem hipocrisia. Detestai o que é mau, apegando-vos ao que é bom” (Rm 12.9).

Propondo agora dirigir nossa atenção para os deveres particulares, o apóstolo Paulo começa apropriadamente com o amor, o qual é o vínculo da perfeição (Cl 3.14). Nesse respeito, ele prescreve o princípio muitíssimo necessário de que toda e qualquer dissimulação deve ser de todo desfeita, e que o amor deve proceder de uma sinceridade pura do espírito. É algo difícil de se expressar quão engenhosos quase todos os homens são em dissimular um amor que na verdade não existe neles. Ao tentarem persuadir-nos de que possuem um verdadeiro amor por aqueles a quem não só negligenciam, mas na verdade também rejeitam, estão enganando não só aos demais, mas também a si próprios. Portanto, ele declara, aqui, que o único amor que merece o nome é aquele que se acha isento de toda e qualquer dissimulação. Qualquer pessoa pode facilmente julgar se porventura possui algo nos recessos de seu coração que seja contrário ao amor. As palavras mau e bom, que vêm imediatamente no texto, não têm um sentido geral. Mau significa aquilo que é injusto e malicioso, que causa ofensa aos homens; e bom é a bondade que os assiste. É uma antítese muito comum nas Escrituras proibir primeiro os pecados, e recomendar em seguida as virtudes contrárias. E quando Paulo diz “detestai o que é mau”, na minha opinião ele deseja expressar algo mais, e a força do termo, “desviai-vos ou fugi corresponde melhor à clausula oposta, onde ele nos convida não só a diligenciarmo-nos na prática do que é bom, mas também prosseguirmos nesta conduta.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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quarta-feira, 20 de maio de 2026

“E EU ROGAREI AO PAI, E ELE VOS DARÁ OUTRO CONSOLADOR”


“E EU ROGAREI AO PAI, E ELE VOS DARÁ OUTRO CONSOLADOR”

“E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco” (Jo 14:16).

Essa palavra foi ministrada aos discípulos como um remédio para suavizar a tristeza que viessem sentir por causa da ausência de Cristo. Naquele tempo, porém, Cristo promete que lhes injetará vigor para que possam guardar os mandamentos, pois, do contrário, a exortação teria tido pouco efeito. Ele, pois, não perde tempo em informá-los de que, embora ausente deles no corpo, contudo não lhes permitirá que fiquem destituídos de assistência, pois ele estará presente através de seu Espírito.

Aqui Cristo chama ao Espírito o dom do Pai, porém um dom que granjeará através de suas orações; em outra passagem, ele promete que dará o Espírito. Se eu partir, diz ele, vo-lo enviarei [Jo16.7]. Ambas as afirmações são verdadeiras e corretas, porque Cristo na qualidade de nosso Mediador e Intercessor, ele obtém do Pai a graça do Espírito; porém, na qualidade de Deus, ele outorga essa graça de si mesmo. O significado dessa passagem, pois, é o seguinte: “Eu tenho vos dado pelo Pai para ser Consolador, porém só por algum tempo; agora, tendo desempenhado meu ofício, orarei a ele para que vos dê outro Consolador, o qual não será por algum tempo, mas estará sempre convosco”.

A palavra Consolador é aqui aplicada tanto a Cristo quanto ao Espírito, e com razão; pois confortar-nos e exortar-nos, bem como guardar-nos por sua proteção é um ofício que pertence igualmente a ambos. Cristo foi o Protetor de seus discípulos enquanto habitava no mundo e depois ele os encomendou à proteção e orientação do Espírito. É possível que se perguntem: Não estamos ainda sob a proteção de Cristo? A resposta é fácil. Cristo é um Protetor contínuo, porém não de forma visível. Enquanto ele habitava no mundo, manifestava-se publicamente como seu Protetor, mas agora ele nos guarda através do seu Espírito.

Ele denomina o Espírito de outro Consolador, em decorrência da diferença entre as bênçãos que obtemos de ambos. O ofício peculiar de Cristo era apaziguar a ira de Deus fazendo expiação pelos pecados do mundo, para redimir os homens da morte, granjear justiça e vida; e o ofício peculiar do Espírito é fazer-nos participantes não só de Cristo mesmo, mas de todas as bênçãos. E não deve haver impropriedade em inferir desta passagem a distinção de Pessoas, pois haveria alguma peculiaridade no qual o Espírito difere do Filho quanto a ser outro e não o Filho.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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segunda-feira, 18 de maio de 2026

“AQUELE QUE ME AMA SERÁ AMADO POR MEU PAI”


“AQUELE QUE ME AMA SERÁ AMADO POR MEU PAI”

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14:21).

Cristo uma vez mais reitera a afirmação anterior [v.15], a saber: que a prova indubitável de nosso amor para com ele está em guardarmos seus mandamentos; e a razão por que ele lembra os discípulos tantas vezes deste fato é para que não se desviem desse objetivo; pois nada existe a que mais nos inclinamos do que resvalar-nos para a afeição carnal, ao ponto de amarmos algo mais do que a Cristo sob o nome de Cristo. Tal é também a importância daquele dito de Paulo: “Ainda que tenhamos conhecido a Cristo segundo a carne, contudo doravante não mais o conhecemos dessa forma. Portanto, sejamos nova criatura” [2Co 5.16,17]. Ter seus mandamentos significa ser propriamente instruído neles; e guardar seus mandamentos significa conformarmos, a nós e nossa vida, a sua norma.

E aquele que me ama será amado por meu Pai. Cristo fala como se os homens amassem a Deus antes de serem amados por ele, o que seria um absurdo, porque, quando éramos inimigos, ele [Cristo] nos reconciliou com ele [o Pai] [Rm 5.10]. E as palavras de João são bem conhecidas: Não que o tenhamos amado primeiro, mas que ele antes nos amou [1Jo 4.10]. Aqui, porém, não há debate sobre causa e efeito; e por isso não há base para que a inferência de que o amor com que amamos a Cristo em ordem venha antes do amor que Deus tem por nós; pois Cristo apenas quer dizer que todos quantos o amarem serão felizes, porque também serão amados por ele e pelo Pai; não que Deus então começa a amá-los, mas porque tem um testemunho de seu amor para com eles, como Pai, esculpido em seus corações. Com o mesmo propósito é a sentença que segue imediatamente.

E me manifestarei a ele. Indubitavelmente, o conhecimento vem antes do amor, mas a intenção de Cristo era esta: “Outorgarei aos que observarem minha doutrina com pureza que façam progresso na fé dia a dia”, isto é, “Farei com que se aproximem mais e mais familiarmente de mim”. Daí se infere que o fruto da piedade é o progresso no conhecimento de Cristo, pois aquele que promete que se dará ao que a tem rejeita os hipócritas e leva todos a fazerem progresso na fé, aos que, cordialmente abraçando a doutrina do evangelho, se conduzem inteiramente em obediência a ela. E esta é a razão por que muitos retrocedem e por que raramente vemos um em dez prosseguindo avante em seu curso reto, pois a maioria não merece que ele se lhes manifeste. Devemos observar ainda que mui abundante conhecimento de Cristo é aqui representado como uma extraordinária recompensa de nosso amor a Cristo; e daí se segue que este é um inestimável tesouro.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“SE ME AMAIS, GUARDAREIS OS MEUS MANDAMENTOS”


“SE ME AMAIS, GUARDAREIS OS MEUS MANDAMENTOS”

“Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14:15).

O amor com que os discípulos amavam a Cristo era verdadeiro e sincero, e, no entanto, havia alguma superstição mesclada a ele, como se dá frequentemente conosco. Pois lhes era uma grande estultícia desejar conservá-lo no mundo. Para corrigir esse erro, o Senhor os convida a direcionar seu amor para outro propósito, a saber, dedicar-se em guardar os mandamentos que lhes havia dado. Esta é indubitavelmente uma doutrina útil, pois dentre aqueles que creem amar a Cristo há bem poucos que o honram como devem, mas ao contrário, depois de haver realizado pequenos e triviais serviços, não cedem mais à preocupação. O verdadeiro amor de Cristo, em contrapartida, relaciona-se com a observação de sua doutrina como uma única norma. Mas somos igualmente lembrados quão pecaminosas são nossas afeições, visto que mesmo o amor que temos por Cristo não é destituído de fragilidade, se o mesmo não for direcionado para uma obediência pura.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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domingo, 17 de maio de 2026

“O ESPÍRITO DA VERDADE, QUE O MUNDO NÃO PODE RECEBER”


“O ESPÍRITO DA VERDADE, QUE O MUNDO NÃO PODE RECEBER”

“O Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece; vós o conheceis, porque ele habita convosco e estará em vós” (Jo 14:17).

Cristo Jesus confere ao Espírito outro título, a saber, que ele é Mestre ou Catedrático da verdade. Daí se segue que enquanto não formos intimamente instruídos por ele, o entendimento de todos nós é reduzido ao domínio da vaidade e falsidade.

Que o mundo não pode receber. Este contraste revela a peculiar excelência daquela graça que Deus a ninguém mais outorga senão a seus eleitos; pois ele quer dizer que este não é um dom qualquer, e do qual o mundo está privado. Neste sentido Isaías também afirma: “Porque eis que as trevas cobrem a terra, e a escuridão, os povos; mas sobre ti aparece resplendente o SENHOR, e a sua glória se vê sobre ti” [Is 60:2]. Pois a misericórdia de Deus para com a Igreja merece tão mais sublime louvor, quando ele exalta a Igreja por meio de um eminente privilégio, acima do mundo inteiro. No entanto, Cristo exorta os discípulos, dizendo que não se enfatuem como o mundo costuma fazer, com conceitos carnais, e assim afastem de si a graça do Espírito. Tudo o que a Escritura nos informa sobre o Espírito Santo é considerado pelos homens mundanos como mero sonho, porque confiando em sua própria razão, desprezam a iluminação celestial. Ora, ainda que tal soberba, capaz de extinguir aqueles que estão no poder, se prolifere por toda parte, à luz do Espírito Santo, contudo, cônscios de nossa própria pobreza, devemos saber que tudo quanto pertence ao são entendimento procede de nenhuma outra fonte. Não obstante, as palavras de Cristo revelam que nada do que se relaciona com o Espírito Santo pode ser assimilado pela razão humana, senão que ele só é conhecido pela experiência da fé.

O mundo, diz Cristo, não pode receber o Espírito, porque não o vê, nem o conhece; vós o conheceis, porque ele habita convosco e estará em vós. Portanto, tão-somente o Espírito é que, ao habitar em nós, ele mesmo se faz conhecido a nós, porque, de outro modo, ele é desconhecido e incompreensível.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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quinta-feira, 7 de maio de 2026

“VOS FARÁ LEMBRAR DE TUDO O QUE VOS TENHO DITO”


“VOS FARÁ LEMBRAR DE TUDO O QUE VOS TENHO DITO”

“Isto vos tenho dito, estando ainda convosco; mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito” (Jo 14:25,26).

Quando o nosso Senhor Jesus Cristo testifica que o ofício peculiar do Espírito Santo é ensinar aos apóstolos o que já haviam aprendido de seus lábios, segue-se que o ensino externo será infrutífero e inútil se não for acompanhado pelo ensino do Espírito Santo. Portanto, Deus tem dois métodos de ensino: primeiro, ele nos faz ouvi-lo pelos lábios humanos; e, segundo, ele nos fala intimamente por seu Espírito; e ele faz isso ou no mesmo instante, ou em momentos distintos, conforme achar oportuno.

Observe-se, porém o que significam todas essas coisas que Cristo promete que o Espírito ensinará. Ele sugerirá, diz ele, ou vos trará à lembrança tudo o que vos tenho dito. Daí se segue que ele não será o mestre de novas revelações. Com esta palavra singular podemos refutar todas as invenções que Satanás tem introduzido na Igreja desde o princípio, sob o pretexto do Espírito. Os falsos mestres se congraçam em defender como um princípio de sua religião que a Escritura não contém uma perfeição de doutrina, mas que algo ainda mais especial tem sido revelado pelo Espírito. Os libertinos de nossos próprios dias têm extraído do mesmo ponto suas noções absurdas. Mas o espírito que introduz qualquer doutrina ou invenção divorciada do evangelho não passa de um espírito enganador, e não o Espírito de Cristo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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