“NÃO OCULTEI NO CORAÇÃO A TUA JUSTIÇA”
“Não ocultei no coração a tua justiça; proclamei a tua fidelidade e a
tua salvação; não escondi da grande congregação a tua graça e a tua verdade”
(Sl 40:10).
Aqui se faz necessário observar o acúmulo de termos que são empregados
para denotarem a mesma coisa. À justiça de Deus o salmista acrescenta sua
fidelidade, sua salvação e sua graça. E qual é o propósito disto senão para
magnificar e ressaltar a bondade de Deus através de muitos termos ou expressões
de louvor? E preciso, contudo, notar em que aspectos estes termos diferem;
porque desta forma poderemos determinar em que aspectos se aplicam ao
livramento sobre o qual Davi aqui discursa. Se estas quatro coisas forem
tomadas na devida ordem, graça manterá o primeiro lugar,
como aquele elemento pelo qual só Deus se induz a dignar-se a abençoar-nos. Sua
justiça é a proteção pela qual ele constantemente defende a seu
próprio povo, e a bondade pela qual, como já dissemos, ele o preserva. E, para
que não haja dúvida alguma de que ela fluirá num curso constante e
ininterrupto, Davi acrescenta, em terceiro lugar, a verdade, pela
qual somos instruídos de que Deus prossegue sendo sempre o mesmo, e que jamais
se cansa de socorrer-nos nem em tempo algum nos deixa escapar de sua mão. Ao
mesmo tempo há implícito nisto uma exibição de suas promessas; pois nenhum
outro jamais se apropriará corretamente da justiça divina senão aquele que a
abraça como ela lhe é oferecida e apresentada na Palavra. Salvação
é o efeito da justiça, pois Deus continua a manifestar a seu povo seu gracioso
favor, oferendo-lhe diariamente auxílio e assistência, até que o mesmo seja
completamente salvo.
Deus nos abençoe!
João Calvino (1509-1564).




