"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



terça-feira, 21 de julho de 2026

“PARA QUE TODO O QUE NELE CRÊ NÃO PEREÇA”


“PARA QUE TODO O QUE NELE CRÊ NÃO PEREÇA”

“Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:16).

A coisa mais extraordinária o sobre a fé é que ela nos livra da destruição eterna. Porque ele queria dizer especialmente que, embora pareçamos ter nascidos para a morte, pela fé em Cristo se nos oferece livramento infalível, de sorte que não devemos temer a morte que, caso contrário, nos ameaçaria. E ele usou um termo geral para convidar indiscriminadamente a todos a fim de que participem da vida e excluir todo pretexto dos incrédulos. Tal também é a importância do termo mundo que ele usara antes. Porque, embora não haja nada no mundo merecedor do favor divino, não obstante se revela favorável ao mundo inteiro, quando ele chama todos, sem exceção, à fé em Cristo, que na verdade é um ingresso à vida.

Tenhamos em mente, por outro lado, que a vida seja universalmente prometida a todos os que creem em Cristo, todavia a fé não é comum a todos [2Ts 3.2]. Porque Cristo se faz conhecido e exibido à vista de todos, porém somente os eleitos são aqueles a cujo os olhos Deus abre para que o busquem por meio da fé. Aqui também se exibe um prodigioso efeito da fé, pois por meio dela recebemos a Cristo tal como ele nos foi dado pelo Pai – ou seja, como aquele que nos libertou da condenação da morte eterna e nos fez herdeiros da vida eterna, porque, pelo sacrifício de sua morte, ele fez expiação por nossos pecados para que nada nos impeça de ser reconhecidos por Deus como seus filhos. Portanto, visto que a fé abraça a Cristo, com a eficácia de sua morte e o fruto de sua ressurreição, não carece de surpresa se por meio dela obtivermos igualmente a vida de Cristo.

Todavia, não fica ainda muito evidente por que e como a fé nos outorga a vida. Seria porque Cristo nos renova mediante seu Espírito para que a justiça de Deus possa viver e ser revigorada em nós, ou seria porque, tendo sido purificado por seu sangue, somos considerados justos diante de Deus mediante seu perdão gratuito? Aliás, é certo que essas duas coisas andam sempre juntas, mas, como a certeza da salvação é o tema ora em discussão, devemos principalmente manter, por esta razão, que vivemos porque Deus nos ama soberanamente, não mais imputando nossos pecados. Por essa razão, menciona-se expressamente o sacrifício por meio do qual, juntamente com nossos pecados, a maldição e a morte são destruídas. Já explicamos objeto dessas duas sentenças, a saber, informar-nos de que em Cristo tomamos posse da vida, da qual estamos inerentemente destituídos, pois nesta miserável condição do gênero humano, a redenção, na ordem do tempo vem antes da salvação.

Deus nos Abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

“QUE DEU O SEU FILHO UNIGÊNITO”


“QUE DEU O SEU FILHO UNIGÊNITO”

“Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:16).

O genuíno olhar da fé, confesso, é colocar Cristo diante dos olhos e comtemplar nele o coração de Deus transbordante de amor. Nosso firme e substancial sustento é descansar na morte de Cristo como nossa única garantia. A palavra unigênito é realçada para exaltar o fervor do amor divino por nós. Porque os homens não se deixam convencer facilmente de que Deus os ama, e, por isso, para remover toda dúvida, ele expressamente declara que somos tão queridos de Deus que, por amor de nós, ele não poupou nem mesmo seu Filho unigênito. Deus declarou seu amor para conosco de uma forma mui exuberante, e, portanto, quem ainda nutre dúvida e se sente insatisfeito com este testemunho faz a Cristo uma séria injúria, como se ele fosse algum homem ordinário que tivesse morrido acidentalmente. Consideremos, antes, que o amor de Deus por seu Filho unigênito é a medida de quão preciosa lhe foi nossa salvação, que quis que a morte do próprio Unigênito fosse seu preço. Além disso, Cristo possui este nome por direito, ainda que, por natureza, seja o único filho de Deus. Ele, porém, compartilha conosco esta honra por meio da adoção, quando somos enxertados em seu corpo.

Deus nos Abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“DEUS AMOU AO MUNDO DE TAL MANEIRA”


“DEUS AMOU AO MUNDO DE TAL MANEIRA”

“Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:16).

Cristo mostra a causa primeira e, por assim dizer, a fonte de nossa salvação. E ele procedeu assim para que não pairasse dúvida alguma, pois não existe nenhum céu calmo onde nossas mentes possam repousar enquanto não nos aproximarmos do gracioso amor de Deus. Toda substância de nossa salvação não deve ser buscada em alguma outra fonte além de Cristo, e por isso devemos descobrir por que meios Cristo nos emana e por que ele foi oferecido como nosso Salvador.

Ambos os pontos são claramente afirmados aqui – que a fé em Cristo vivifica tudo, e que Cristo trouxe vida porque o Pai celestial não deseja que a raça humana, à qual ele ama, pereça. E esta sequência deve ser cuidadosamente observada, pois, tal é a ímpia e inerente ambição de nossa natureza que, quando ponderamos sobre a origem de nossa salvação, de pronto invadem nossa mente diabólicas imaginações acerca de nossos méritos pessoais. Por conseguinte, imaginamos que Deus nos é favorável porque nos têm considerado dignos de seu respeito. A Escritura, porém, por toda parte enaltece sua misericórdia que pura e simplesmente abole todo e qualquer mérito.

E as palavras de Cristo não têm outro sentido, quando ele diz que a causa está no amor de Deus. Pois, se quisermos ir além disso, o Espírito nos impede com a declaração de Paulo, a saber, que este amor tinha por fundamento o “beneplácito de sua vontade” [Ef 1.5]. E é claro que Cristo falou isso com fim de desviar os olhos dos homens de si para, exclusivamente, a misericórdia de Deus. Tampouco declara ele que Deus se moveu a nos salvar por divisar em nós algo merecedor de tal bênção. Ele atribui a glória de nossa salvação inteiramente ao seu amor. E isso se torna ainda mais claro à luz do contexto, pois ele acrescenta que o Filho foi dado aos homens para que estes não perecessem. Segue-se que, enquanto Cristo não dignar-se a socorrer os perdidos, todos continuarão destinados à destruição eterna.

Paulo também demonstra isso à luz da sequência do tempo, pois fomos amados mesmo quando ainda éramos inimigos em virtude do pecado [Rm 5.8,10]. E, de fato, onde reina o pecado, nada encontraremos, exceto a ira de Deus e a morte que ele causa. Portanto, é unicamente a misericórdia que nos reconcilia com Deus e ao mesmo nos restaura à vida.

Esta maneira de falar, contudo, pode parecer conflitante com muitos testemunhos da Escritura, os quais colocam em Cristo o primeiro fundamento do amor divino para conosco, e diz que fora dele somos detestados por Deus. Mas temos que lembrar bem, como eu já disse, que o amor secreto, no qual nosso Pai celestial nos alcançou para si, visto que o mesmo flui de seu beneplácito eterno, é precedente a todas as demais coisas. A graça, porém, a qual ele quer que nos seja testificada, e pela qual somos despertados à esperança da salvação, começa com a reconciliação providenciada através de Cristo. Porque, uma vez que necessariamente odeia o pecado, como seremos convencidos que ele nos ama, enquanto não forem expiados os pecados, por cuja causa ele está justamente irado conosco? E assim, antes que possamos nutrir alguma noção de sua bondade paternal, é necessário que o sangue interceda para que Deus se reconcilie conosco. Visto, porém, que primeiro ouvimos que Deus deu o seu Filho a fim de morrer por nós, porque ele nos amou, acrescenta-se imediatamente que é tão somente em Cristo que, propriamente falando, a fé deve repousar.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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sexta-feira, 17 de julho de 2026

“COMO PODE UM HOMEM NASCER, SENDO VELHO?”

“COMO PODE UM HOMEM NASCER, SENDO VELHO?”

“Perguntou-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, voltar ao ventre materno e nascer segunda vez? Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus” (Jo 3:4,5).

Ainda que a forma de expressão de Cristo não ocorra expressamente na lei e nos profetas, todavia, como renovação, é mencionada por toda parte na Escritura e constitui um dos princípios primordiais da fé, e se torna óbvio quão imperfeitamente instruídos eram os escribas de então na leitura das Escrituras. Certamente, este homem não era o único negligente em desconhecer a graça da regeneração. O elemento primordial da doutrina da piedade era negligenciado em razão de quase todos eles se acharem preocupados com vãs sutilezas.

Não precisamos sentir-nos perplexos ante o fato de Nicodemos tropeçar numa palha, por assim dizer, pois é uma justa vingança divina que aqueles que pensam de si como sendo os mais excelentes e eminentes mestres, e para quem a simplicidade ordinária da doutrina é algo vil e vulgar assustem-se diante de coisas as mais ínfimas.

“Quem não nascer da água. Esta passagem tem sido explicada de várias formas. Alguns acreditam que aqui se expressam duas partes da regeneração, e que pelo termo água subtende-se a negação do velho homem, enquanto tomam o termo Espírito como sendo a nova vida. Outros pensam que aqui há uma antítese implícita, como se Cristo estivesse contrastando água e Espírito – ou seja, elementos puros e líquidos – com a natureza terrena e animal do homem. Por isso tomam esse dito como sendo de caráter alegórico, a saber, que Cristo estava recomendando a nos despirmos de nossa pesada e insuportável massa de carne e a nos tornarmos como água e ar, a fim de nos movermos para cima ou, pelo menos, não cairmos por terra sob um fardo tão pesado. Mas ambas as opiniões me parecem alheias à intenção de Cristo.

Crisóstomo, com quem a maioria concorda, relaciona o termo água com o batismo. O significado, então, seria que, por meio do batismo, entramos no reino de Deus, porque então o Espírito de Deus nos regenera. Daí surgir a crença na absoluta necessidade do batismo para a esperança da vida eterna. Mas ainda que concordássemos que nesse ponto Cristo está falando do batismo, não devemos forçar suas palavras a ponto de fazê-lo restringir a salvação ao sinal externo. Ao contrário, ele conecta água com o Espírito, porque sob esse sinal visível, ele testifica e sela a novidade de vida, a qual tão somente através de seu Espírito, Deus efetua em nós. É verdade que somos excluídos da salvação se desprezarmos o batismo; e, nesse caso, confesso ser ele necessário. É absurdo, porém, confinar ao sinal a certeza da nossa salvação. No que diz respeito a esta passagem, não posso de forma alguma convencer-me de que Cristo esteja falando do batismo, porquanto isso teria sido inoportuno. E devemos ter sempre em mente o propósito de Cristo, o qual já explicamos como sendo o desejo de impelir Nicodemos à novidade vida, porquanto não seria capaz de receber o evangelho enquanto não começasse a ser um outro homem.

Para sermos filhos de Deus temos que nascer de novo, e que o Espírito Santo é o autor desse segundo nascimento, é, pois uma afirmação única e simples. Pois enquanto Nicodemos sonhava com a regeneração ou transformação ensinada por Pitágoras, que imaginava que as almas, após a morte de seus corpos, entrava em outros corpos, Cristo, para libertá-lo desse erro, acrescenta, à maneira de explicação, que nascer segunda vez não é um evento que sucede naturalmente, e nesse ato ninguém se reveste de um novo corpo, mas nasce enquanto é renovado na mente e coração, mediante a graça do Espírito.

Consequentemente, nosso Senhor emprega as palavras Espírito e água no mesmo sentido, e isso não deve ser tomado como uma interpretação abrupta e forçada. Quando se menciona o Espírito na Escritura, uma forma frequente e comum de expressão é acrescentar a palavra água ou fogo, para expressar seu poder. De vez em quando, ouvimos de Cristo batizando com o Espírito Santo e com fogo, quando fogo não significa algo distinto do Espírito, mas simplesmente mostra a natureza de seu poder em nós.

É uma questão de pouca importância anteceder ele a palavra água. Quer dizer simplesmente que essa frase flui mais facilmente que outra, já que uma afirmação clara e direta segue a metáfora. É como se Cristo dissesse que ninguém será filho de Deus enquanto não for renovado pela água, e que essa água é o Espírito que nos purifica de uma nova forma, e que, mediante seu poder derramado sobre nós, nos comunica a energia de vida celestial, quando, por natureza, somos completamente estéreis. E, com o fim de reprovar a Nicodemos em razão de sua ignorância, Cristo, mui apropriadamente, usa uma forma de linguagem comum na Escritura, pois Nicodemos deve por fim ter reconhecido que o que Cristo dizia fora tomado do ensino ordinário dos profetas.

Pelo termo água, pois, subtende-se simplesmente a purificação e vivificação interior efetuadas pelo Espírito Santo. Tampouco é incomum empregar-se a conjunção e explicitamente, quando a última sentença é uma explicação da primeira. E também o contexto me apoia, pois quando Cristo adiciona imediatamente a razão por que temos que nascer de novo, ele mostra, sem mencionar água, como a novidade de vida que ele requer provém unicamente do Espírito. Por isso se deduz que não se deve separar a água de o Espírito.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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quinta-feira, 16 de julho de 2026

“SE ALGUÉM NÃO NASCER DE NOVO”


“SE ALGUÉM NÃO NASCER DE NOVO”

“A isto, respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (Jo 3:3).

Em verdade, em verdade te digo. Cristo repete a expressão “em verdade” com o intuito de atrair a atenção. Pois quando está para falar do mais importante e mais sério de todos os temas, realmente precisava fazer Nicodemos mais atento. De outra forma, ele poderia ouvir todo este discurso displicente e levianamente. Tal, pois, é o propósito da dupla afirmação.

Ainda que este discurso pareça um tanto forçado e inoportuno, contudo era o modo mais adequado de Cristo começar. Pois assim como é inútil semear sementes num solo sem cultivo, também a doutrina do evangelho será negligentemente desperdiçada a menos que o ouvinte seja antes despertado devidamente e preparado à obediência e instrução. Cristo percebeu que a mente de Nicodemos era tão cheia de espinhos e asfixiada por tantas ervas daninhas, que dificilmente se encontraria ali espaço para o ensinamento espiritual. A presente exortação era, pois, como uma aradura a expurgá-lo, afim de que nada impedisse de o ensino frutificar. Portanto, lembremo-nos de que isso foi expresso a apenas um homem, a fim de que o Filho de Deus se nos dirija diariamente no mesmo teor. Pois qual de nós se acha tão isento de afeições corruptas que não necessite de tal purificação? Se, pois, queremos progredir satisfatória e proveitosamente na escola de Cristo, então aprendamos a começar daqui.

Se alguém não nascer de novo. Em outros termos, enquanto lhe faltar a coisa mais importante no reino de Deus, não creio que você realmente me reconheça como Mestre, pois seu primeiro passo no reino Deus é converter-se num novo homem. Visto, porém, que esta é uma passagem tão extraordinária, cada parte dela precisa ser detalhadamente examinada.

Ver o reino de Deus vem a ser o mesmo que entrar no reino de Deus, como prontamente aparece do contexto. Mas estão equivocados aqueles que creem que o reino de Deus é o mesmo que o céu. Antes, é a vida espiritual, cujo ponto de partida é a fé, aqui e agora, e que diariamente cresce em consonância com o progresso contínuo da mesma fé. O sentido, portanto, é que ninguém pode realmente unir-se à Igreja e ser reconhecido entre os filhos de Deus sem que antes seja renovado. Portanto, esse fato mostra de forma sucinta qual é o princípio da vida cristã.

Ao mesmo tempo, somos instruídos por essa expressão que desde o nascimento somos alienados e completamente estranhos ao reino de Deus, como igualmente existe uma perpétua oposição entre Deus e nós, até que ele nos transforme pela operação [do Espírito] no segundo nascimento. Pois a afirmação é geral e compreende toda a raça humana. Se Cristo dissesse a apenas um homem ou a uns poucos que não poderiam entrar no reino de Deus, a menos que nasçam de novo, poderíamos supor que isso apontava só para certa classe de pessoas, mas ele está se referindo a todos sem exceção. Pois a linguagem é ilimitada e contém o mesmo teor de uma expressão de cunho universal, como: “Todo aquele que não nascer de novo...”.

Além do mais, pelo termo nascer de novo ele tem em mente não a reparação de uma parte, mas a renovação da natureza inteira. Daqui se deduz que não há em nós absolutamente nada que não seja defectivo, pois se a reforma é necessária na totalidade, e em cada parte, então a corrupção deve ter se expandido por toda parte. Falaremos sobre isso de maneira mais plena. Erasmo, seguindo a opinião de Cirilo, incorretamente traduziu o advérbio como de cima. Reconheço que em grego o significado é ambíguo, mas estou ciente de que Cristo falou a Nicodemos em hebraico. Nesse caso, não teria havido qualquer ambiguidade a confundir Nicodemos em sua infantil hesitação sobre o nascimento da carne. É por isso que ele tomou as palavras de Cristo em nenhum outro sentido senão que o homem tem que nascer segunda vez antes de ser recebido no reino de Deus.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“RABI, SABEMOS QUE ÉS MESTRE VINDO DA PARTE DE DEUS”


“RABI, SABEMOS QUE ÉS MESTRE VINDO DA PARTE DE DEUS”

“Havia, entre os fariseus, um homem chamado Nicodemos, um dos principais dos judeus. Este, de noite, foi ter com Jesus e lhe disse: Rabi, sabemos que és Mestre vindo da parte de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele” (Jo 3:1,2).

Estas palavras equivalem àquela expressão: “Rabi, sabemos que tu vieste como mestre”. Visto, porém, que os homens eruditos eram então comumente chamados Rabi, Nicodemos primeiro saúda Cristo na maneira usual, atribuindo-lhe o título ordinário e, subsequentemente, declara que aquele que exercia o ofício de mestre era enviado de Deus. E deste princípio depende toda a autoridade dos mestres na igreja. Pois é tão somente da Palavra de Deus que devemos aprender a sabedoria, e por isso a ninguém mais se deve ouvir para a salvação senão aqueles por cuja boca Deus fala. E devemos observar que, embora a religião estivesse profundamente corrompida e quase subvertida entre os judeus, sempre mantiveram o princípio de que a nenhum homem era lícito ensinar a menos que o mesmo viesse de Deus. Visto, porém, que ninguém se vangloria mais arrogante e categoricamente de seu título divino do que os falsos profetas, eles precisam ser testados pelo espírito de discernimento. Consequentemente, Nicodemos acrescenta que é indubitável que Cristo tenha sido enviado por Deus, pois este exibia nele seu poder com tal virtude que não se podia negar que Deus estava com ele. Ele toma como matéria axiomática que Deus não costuma operar senão através de seus ministros, para que assim pudesse pôr seu selo sobre o ofício que lhes confiara. E ele está certo, pois Deus sempre designou os milagres para que fossem selos de sua doutrina. Ele está também certo em reconhecer Deus como o único autor dos milagres, quando diz que ninguém pode fazer tais sinais a não ser que Deus esteja com ele. Equivale dizer que não eram atos humanos, senão que o poder de Deus reinava e permanecia nitidamente neles. Numa palavra, os milagres têm duplo resultado: preparar-nos para a fé e então imprimir maior fortalecimento naquele que tem sido concebido pela Palavra. E assim Nicodemos apropriou-se corretamente da primeira parte, visto que, à luz dos milagres, ele reconhece Cristo como um legítimo profeta de Deus.

Não obstante, isso parece inconclusivo porque, já que os profetas podem enganar os ignorantes com suas fraudes tão perfeitamente como se estivessem, através de sinais genuínos, provando ser ministros de Deus, que diferença haverá entre a verdade e a falsidade, se porventura a fé dependesse de milagres? Aliás, Moisés declara expressamente, que dessa forma somos testados se de fato amamos a Deus [Dt 13.3]. Conhecemos também a advertência de Cristo, bem como a de Paulo, ou seja, que os crentes devem precaver-se dos sinais mentirosos pelos quais o Anticristo ofusca muitos olhos [Mt 22.24]. Minha resposta é que isso é feito pela justa permissão de Deus, a fim de que os que merecem sejam enganados pela astúcia de Satanás. Digo, porém, que tal fato não impede que o poder de Deus se manifeste aos eleitos através de milagres, os quais costumam ser-lhes uma valiosa confirmação da genuína e sã doutrina. E assim, Paulo se gloria de que seu apostolado era confirmado por meio de sinais e prodígios [2Co 12.12]. Portanto, por mais que Satanás tente manter Deus envolto em trevas, contudo, quando os olhos se abrem e a luz da sabedoria espiritual resplandece, os milagres são atestados bastante fortes da presença de Deus, conforme Nicodemos aqui declara.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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terça-feira, 14 de julho de 2026

“PERSIGA O INIMIGO A MINHA ALMA”


“PERSIGA O INIMIGO A MINHA ALMA”

“Se paguei com o mal a quem estava em paz comigo, eu, que poupei aquele que sem razão me oprimia, persiga o inimigo a minha alma e alcance-a, espezinhe no chão a minha vida e arraste no pó a minha glória” (Salmos 7:4,5).

Persiga o inimigo a minha alma. Eis uma extraordinária evidência da profunda confiança que Davi tinha em sua própria integridade, estando disposto a suportar qualquer gênero de castigo, embora temeroso, desde que fosse encontrado culpado de algum crime. Se pudermos levar à presença de Deus uma boa consciência como esta, sua mão mui prontamente se estenderá para proporcionar-nos imediata assistência. Mas como às vezes sucede que aqueles que nos molestam o fazem porque são provocados por nós, ou ardemos de desejo por vingança quando ofendidos, somos indignos de receber o socorro divino; sim, nossa própria impaciência fecha a porta às nossas orações. Em primeiro lugar, Davi está preparado para ser entregue à vontade de seus inimigos, para que se assenhoreassem de sua vida e a lançassem ao chão; para em seguida ser publicamente exibido como objeto de seu escárnio, de modo que, mesmo depois de morto, fosse exposto à miséria eterna. Há quem pense que a palavra que traduzimos por glória, deve ser, aqui, tomada por vida, e assim teremos três palavras: alma, vida e glória, significando a mesma coisa. A meu ver, porém, o significado da passagem será mais completo se tomarmos a palavra glória no sentido de memória, ou seu bom nome, como se quisesse dizer: Que meu inimigo não só me destrua, mas também, depois de matar-me, fale de mim nos mais ignominiosos termos, de modo que meu nome seja mergulhado na lama ou na imundícia.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“SE EU FIZ O DE QUE ME CULPAM”


SE EU FIZ O DE QUE ME CULPAM”

“SENHOR, meu Deus, se eu fiz o de que me culpam, se nas minhas mãos há iniquidade, se paguei com o mal a quem estava em paz comigo, eu, que poupei aquele que sem razão me oprimia, persiga o inimigo a minha alma e alcance-a, espezinhe no chão a minha vida e arraste no pó a minha glória” (Salmos 7:3-5).

O salmista Davi, neste ponto, insiste com Deus a mostrar-lhe seu favor, protesta que é injustamente molestado, sem mesmo ser culpado de crime algum. Com o fim de imprimir ao seu protesto mais vigor, ele usa a imprecação. Se eu fiz o de que me culpam, ele declara sua prontidão em ser responsabilizado; sim, ele se oferece para suportar o mais severo castigo, caso não seja completamente inocente do crime acerca do qual todos os homens acreditavam estivesse ele já quase convencido. E ao rogar a Deus que o socorresse sob nenhuma outra condição senão esta, a saber: para que sua integridade não fosse embaraçada pelas provações, ele nos ensina, por seu exemplo, que, enquanto temos o recurso divino, devemos fazer dele nossa primordial preocupação para assegurar-nos bem de nossa própria consciência com respeito à justiça de nossa causa; pois cometeríamos grave erro se desejássemos engajá-lo como advogado e defensor de uma má causa. Se eu fiz o de que me culpam, revela que ele fala de uma coisa que era geralmente notória; daí podermos concluir que a calúnia levantada contra ele por Cush se espalhara amplamente. E quando Davi se viu condenado pelas falsas notícias e injustos juízos que os homens as sacavam contra ele, e não via antídoto algum sobre a terra, ele recorreu ao tribunal divino e se contenta em manter sua inocência diante do Juiz celestial; exemplo que deveria ser imitado por todo crente piedoso, a fim de que, em oposição às notícias caluniosas que são divulgadas contra ele, descanse satisfeito unicamente com o juízo divino. A seguir declara mais distintamente que não cometera crime algum. E no quarto versículo menciona duas particularidades em sua defesa. A primeira é que ele não havia cometido erro algum contra alguém; e a segunda é que havia se esforçado em fazer o bem em favor de seus inimigos, por quem, não obstante, havia sido injuriado sem nenhuma justa causa. Portanto, explico o quarto versículo assim: Se prejudiquei alguém que vivia em paz comigo, e ao contrário deixei de socorrer o indigno que me perseguia sem justa causa etc. Visto que Davi era odiado por quase todos os homens, como se a ambição de reinar o houvera impelido perfidamente a rebelar-se contra Saul, e armara armadilhas para o monarca a quem se comprometera por juramento de obedecer, na primeira parte do versículo ele se lava de calúnia tão infame. Provavelmente, a razão de ele chamar Saul aquele que vivia em paz comigo seja que, em razão de sua dignidade real, sua pessoa devia ser sagrada e guardada do perigo, de modo que não seria ilícito fazer qualquer tentativa hostil contra ele. Essa frase, contudo, pode ser entendida em termos gerais, como se dissesse: Nenhum daqueles que humildemente se refrearam de injuriar-me e se conduziram com espírito humano para comigo, pode com justiça queixar-se de um único exemplo meu de lançar injúria contra ele. E, no entanto era a convicção geral de que Davi, num clima de paz, havia provocado grande confusão e deflagrado guerra. À luz desse fato tanto mais se manifesta que Davi, desde que desfrutava da aprovação divina, sentia-se feliz com a consolação oriunda dela, visto que ele não receberia nenhum conforto proveniente de outra fonte.

Na segunda cláusula do quarto versículo, ele avança mais e declara que havia sido amigo, não só em relação aos bons, mas também em relação aos maus; e não só se refreara de toda e qualquer vingança, mas que até mesmo socorrera seus inimigos, por quem fora profunda e cruelmente injuriado. Certamente não seria uma virtude muito louvável amar os bons e pacíficos, a não ser que haja uma associação entre essa autonomia e a docilidade em suportar pacientemente os maus. Mas quando uma pessoa se guarda não só de vingar as injúrias que haja recebido, mas também se esforça por vencer o mal pela prática do bem, ela está a manifestar uma das graças da natureza renovada e santificada, e com isso prova a si mesma pertencer ao rol dos filhos de Deus; pois tal mansidão só pode proceder do Espírito de adoção.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“SENHOR, DEUS MEU, EM TI CONFIO”


“SENHOR, DEUS MEU, EM TI CONFIO”

“SENHOR, Deus meu, em ti confio; salva-me de todos os que me perseguem e livra-me; para que ninguém, como leão, me arrebate, despedaçando-me, não havendo quem me livre” (Sal 7:1,2).

Bem no início do Salmo, Davi já fala da existência de muitos inimigos, e no segundo versículo ele especifica alguém na forma singular. E com toda certeza, visto que as mentes de todos os homens se inflamaram contra ele, por isso tinha boas razões para orar a fim de que se visse libertado de todos os seus perseguidores. Mas, como a perversa crueldade do rei, como um tição, acendera contra ele, ainda que inocente, o ódio de todo o povo, ele tinha também boas razões para converter sua pena particularmente contra o mesmo. Por conseguinte, no primeiro versículo ele descreve o verdadeiro caráter de suas próprias circunstâncias - era um homem perseguido; e, no segundo versículo, a fonte ou causa da calamidade que ora suportava. Há forte ênfase nas palavras que ele usa no início do Salmo: SENHOR, meu Deus, em ti confio. Na verdade o verbo, no hebraico, está no tempo passado; portanto, se literalmente traduzido, a redação seria: Em ti tenho confiado; como o hebraico, porém, às vezes toma um tempo por outro, prefiro traduzi-lo no presente: Em ti confio, especialmente visto ser muitíssimo evidente que, como se denomina, denota-se um ato contínuo. Davi não se gloria naquela confiança em Deus da qual ora tinha fracassado, mas naquela confiança que constantemente acalentava em suas aflições. E essa é a genuína e indubitável prova de nossa fé, quando, sendo visitado pela adversidade, nós, não obstante, perseveramos em acalentar e exercitar esperança em Deus. À luz desta passagem também aprendemos que o portão da misericórdia estará fechado contra nossas orações caso a chave da fé não no-lo abrir. Nem tampouco usa linguagem supérflua quando chama o SENHOR seu próprio Deus; pois ao levantar essa verdade como um baluarte diante de seus próprios olhos, ele rebate as ondas das tentações, para que não inundem sua fé. No segundo versículo, usando a figura de um leão, ele projeta por um facho de luz ainda mais forte a crueldade de Saul, como um argumento para induzir a Deus a conceder-lhe assistência, ainda quando descreva Deus em sua peculiar função de resgatar suas pobres ovelhas das garras dos lobos.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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segunda-feira, 13 de julho de 2026

“DÁ OUVIDOS, SENHOR, ÀS MINHAS PALAVRAS”


“DÁ OUVIDOS, SENHOR, ÀS MINHAS PALAVRAS”

“Dá ouvidos, SENHOR, às minhas palavras e acode ao meu gemido. Escuta, Rei meu e Deus meu, a minha voz que clama, pois a ti é que imploro” (Sl 5:1,2).

Atrevo-me, não em termos positivos, determinar ou que Davi, neste Salmo, lamenta as injustiças que sofreu de seus inimigos em alguma ocasião específica, ou que ele se queixa, em termos gerais, das várias perseguições com as quais, por um longo tempo, fora acossado por Saul. Há comentaristas judeus que aplicam o Salmo ainda a Absalão; porque, pela expressão, o sanguinário e fraudulento, acreditam que Doegue e Aitofel ficam em evidência. Para mim, contudo, parece mais provável que, quando Davi, após a morte de Saul, tomou posse do reino pacificamente, ele se dedicou a escrever as orações que constituíam os frutos de suas meditações em suas aflições e perigos. Para chegar às palavras, porém, ele expressa uma mesma coisa de três formas diferentes; e essa repetição denota a força de sua aflição e de sua longa permanência em oração. Pois ele não era tão amigo de muitas palavras que lançasse mão de diferentes formas de expressão sem qualquer significado; sendo, porém, profundamente aferrado à prática da oração, ele representou, por essas várias expressões, a diversidade de suas queixas. Portanto, significa que ele não costumava orar friamente, muito menos a empregar palavras sem nexo; senão que, segundo a veemência de sua tristeza o impelia, ele estava determinado a deplorar suas calamidades diante de Deus; e, visto que o resultado não lhe surgia imediatamente, ele perseverava em repetir as mesmas queixas. Uma vez mais, ele não afirma expressamente o que deseja pedir a Deus; mas há nesse gênero de expressão maior força do que se ele houvera falado distintamente. Ao não expressar os desejos de seu coração, ele revela de forma mais enfática que seus sentimentos íntimos, os quais trouxe consigo à presença de Deus, eram tais que qualquer linguagem que usasse era insuficiente para expressá-los. Da mesma forma, o verbo clamar, que significa alta e sonora articulação da voz, serve para caracterizar a gravidade de seu desejo. Davi não clamou como se fosse aos ouvidos de quem é surdo; senão que a veemência de sua tristeza, bem como o ímpeto de sua angústia interior, jorravam neste clamor. O verbo que o profeta usa aqui, significa tanto falar distintamente quanto sussurrar ou murmurar. O segundo sentido, porém, parece melhor ajustável a esta passagem. Depois de Davi ter dito em termos gerais que Deus ouve suas palavras, imediatamente a seguir, e com o propósito de ser mais específico, ele parece dividi-las em duas espécies, chamando a uma de gemidos obscuros ou indistintos, e à outra de clamor. Pela primeira ele quer dizer um murmúrio confuso, tal como é descrito no Cântico de Ezequias, quando o sofrimento o impedia de falar distintamente e de fazer sua voz audível. “Como a andorinha ou o grou, assim eu chilreava e gemia como a pomba” [Is 38.14]. Se, pois, em alguma ocasião, formos levados a orar relutantemente, ou nossas afeições devotas começarem a perder seu fervor, que encontremos aqui os argumentos para reavivar-nos e impelir-nos para frente. E como, ao chamar Deus, Rei meu e Deus meu, ele tencionava nutrir mais vivas e favoráveis esperanças com respeito aos resultados de suas aflições, aprendamos a aplicar esses títulos a um uso semelhante, isto é, com o propósito de fazer-nos mais familiarizados com Deus. Finalmente, ele testifica que não se atormentava sobriamente, como os incrédulos costumam fazer, mas que direciona a Deus seus gemidos; pois aqueles que, desconsiderando a Deus, quer se amofinem interiormente ou expressem suas murmurações, não são dignos de desfrutar de sua consideração. A última cláusula: Pois a ti é que imploro, é a razão pela qual Davi aponta para o que ele havia dito imediatamente antes, e que seu propósito visava a fortalecer sua confiança em Deus, assumindo o seguinte como um princípio geral: ninguém que invoque a Deus em suas calamidades será repelido por ele.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).