Louvor: QUEM SUBIRÁ
AO MONTE DO SENHOR?
"Quem
subirá ao monte do SENHOR? Quem há de permanecer no seu santo lugar? O que é
limpo de mãos e puro de coração, que não entrega a sua alma à falsidade, nem
jura dolosamente" (Sl 24:3,4).
Deus
nos abençoe!
Mensagens Bíblicas
Louvor: QUEM SUBIRÁ
AO MONTE DO SENHOR?
"Quem
subirá ao monte do SENHOR? Quem há de permanecer no seu santo lugar? O que é
limpo de mãos e puro de coração, que não entrega a sua alma à falsidade, nem
jura dolosamente" (Sl 24:3,4).
Deus
nos abençoe!
“Mal acabara
Isaque de abençoar a Jacó, tendo este saído da presença de Isaque, seu pai,
chega Esaú, seu irmão, da sua caçada” (Gn 27:30).
Aqui se
acrescenta a maneira como Esaú foi rejeitado, cuja circunstância era favorável
para confirmar a bênção sobre Jacó; porque, se Esaú não fosse rejeitado,
poderia parecer que ele não foi privado daquela honra que a natureza lhe
conferiu; agora, porém, Isaque declara que, o que fizera, em virtude de seu
ofício patriarcal, não podia deixar de ser confirmado. De fato, aqui fica
evidente, outra vez, que a primogenitura que Jacó obtivera, à custa de seu
irmão, se fizera sua por um dom gratuito; pois se compararmos as obras dos
gêmeos, Esaú obedece a seu pai, traz-lhe o produto de sua caçada, prepara-lhe a
refeição obtida por seu próprio labor, e nada fala senão a verdade; em suma,
nada encontramos em Esaú que não seja digno de louvor. Jacó nunca deixa seu
lar, substitui uma caça por um cabrito, dissimula por meio de muitas mentiras,
nada traz que propriamente o recomende, mas em muitas coisas merece repreensão.
Por isso devemos reconhecer que a causa desse evento não deve remontar-se às
boas obras, senão que está oculta no eterno conselho de Deus. Contudo, Esaú não
é injustamente reprovado, porque os que não são governados pelo Espírito de
Deus nada podem receber de boa consciência. Diante disso, devemos apenas manter
firmemente que, uma vez que a condição de todos é igual, se alguém for
preferido a outro, isso não deve ao seu próprio mérito, mas porque o Senhor
graciosamente o elegera.
Deus nos abençoe!
João
Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.
“Deus te dê do
orvalho do céu, e da exuberância da terra, e fartura de trigo e de mosto. Sirvam-te
povos, e nações te reverenciem; sê senhor de teus irmãos, e os filhos de tua
mãe se encurvem a ti; maldito seja o que te amaldiçoar, e abençoado o que te abençoar” (Gn 27:28-29).
Aqui, Isaque não
parece desejar e implorar outra coisa para seu filho senão o que é terreno;
pois este é o cerne de suas palavras: que tudo vá bem com o seu filho aqui
neste mundo, que ele ajunte o abundante produto da terra, que ele desfrute de
grande paz e resplandeça em honra acima dos demais. Não há menção do reino
celestial; e disso tem-se suscitado o que os homens sem erudição e pouco
afeitos à verdadeira piedade têm imaginado: que esses santos Patriarcas eram abençoados
pelo Senhor somente no que diz respeito a esta frágil e transitória vida.
Muitas passagens, porém, evidenciam algo muito diferente. E, quanto ao fato de
Isaque limitar-se aqui aos favores terrenos de Deus, a explicação é simples;
pois o Senhor, outrora, não punha a esperança da herança futura claramente
diante dos olhos dos Patriarcas (como agora nos chama e nos eleva diretamente
para o céu), mas os guiava por um caminho sinuoso. Assim ele lhes designou a
terra de Canaã como um espelho e penhor da herança celestial.
Em todos esses
atos de bondade, o Senhor lhes deu sinais de seu favor paterno, não com o
propósito de contentá-los com as riquezas desta terra, de modo que
negligenciassem o céu, ou seguissem uma sombra meramente vazia, como alguns
tolamente presumem, mas para que, sendo auxiliados, pudessem, pouco a pouco,
subir ao céu. Porque, visto que Cristo, as primícias dos que ressuscitarão é o
autor da eterna e incorruptível vida, ainda não havia sido manifestado, seu
reino espiritual era, dessa maneira, prefigurado por meio de sombras, até que
chegasse a plenitude do tempo; e, como todas as promessas de Deus estavam
envolvidas e, em certo sentido, revestidas de símbolos, assim a fé dos santos
Patriarcas absorvia a mesma medida, e fazia seus avanços rumo ao céu por meio
desses rudimentos terrenos. Portanto, embora Isaque tornasse proeminente os
favores temporais de Deus, nada está mais distante de sua mente do que limitar
a esperança de seu filho a esse mundo; ele o elevaria à mesma altura a que ele
mesmo ansiava. Alguma prova disso pode ser extraída de suas próprias palavras,
pois este é o ponto primordial que ele designa ao domínio das nações. Mas qual
é a origem da esperança de tal honra, senão da certeza de que sua descendência
fora eleita pelo Senhor e, de fato, com essa convicção, de que o direito ao
reino permaneceria apenas com um de seus filhos? Enquanto isso, seja suficiente
nos apegarmos a este princípio: que o santo homem, quando implora para seu
filho um próspero curso de vida, deseja que Deus, em cujo paternal favor reside
nossa firme e eterna felicidade, possa ser-lhe propício.
Maldito seja o que te amaldiçoar. É preciso ter em
mente o que eu já disse antes, a saber, que esses não são meros desejos, tais como os pais costumam pronunciar em
favor de seus filhos, mas que as promessas de Deus estão inclusas neles; pois
Isaque é o intérprete autorizado de Deus e o instrumento empregado pelo
Espírito Santo; e, portanto, como instrumento de Deus eficazmente pronuncia
maldição sobre aqueles que se opuserem ao bem-estar de seu filho. Essa, pois, é
a confirmação da promessa, pela qual Deus, quando recebe os fiéis sob sua
proteção, declara que será inimigo de seus inimigos. Todo o poder da bênção é
direcionado a este ponto: que Deus provará ser para seu servo Jacó um bondoso
pai em todas as coisas, de modo que o preservará e o defenderá com seu poder, e
assegurará sua salvação diante de toda sorte de inimigos.
Deus nos
abençoe!
João
Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.
“Jura que não nos
farás mal, como também não te havemos tocado, e como te fizemos somente o bem,
e te deixamos ir em paz. Tu és agora o abençoado do SENHOR” (Gn 26:29).
Uma consciência
acusadora os leva a desejarem manter Isaque obrigado diante deles e, por isso,
exigem dele um juramento de que não os ferirá. Pois sabiam que Isaque poderia
vingar-se com justiça pelos sofrimentos que suportara; mas eles dissimulam
e inclusive se vangloriam de seus próprios atos de bondade. De fato, a
princípio, a benevolência do rei foi algo notável, pois não só entreteve Isaque
com hospitalidade, mas o tratou com peculiar honra; entretanto, não manteve
essa atitude até o fim. Mas de acordo com o costume dos homens, eles dissimulam
seus erros utilizando-se de todos os artifícios e meios que possam inventar.
Mas, caso tenhamos cometido alguma ofensa, devemos antes confessar sinceramente
nosso erro, em vez de negá-lo, para que não fira mais profundamente a mente
daqueles a quem temos ofendido. Entretanto, Isaque, visto que já havia ferido
suficientemente a consciência deles, não os pressiona mais. Pois os estranhos
não devem ser tratados por nós como familiares, porém, se não tirarem proveito,
que sejam deixados ao juízo de Deus. Portanto, embora Isaque não arrancasse
deles uma confissão justa, para que não pensassem que Isaque nutria alguma
hostilidade contra eles, não se recusa a fazer uma aliança com eles. Assim
aprendemos de seu exemplo que, se porventura alguém se afastar de nós, que não
seja rejeitado caso nos ofereça outra vez sua amizade. Pois se somos ordenados
a seguir a paz, mesmo quando ela parece fugir de nós, então não devemos nos
esquivar quando nossos inimigos voluntariamente buscarem reconciliação;
especialmente se houver alguma esperança de uma reconciliação futura, embora o verdadeiro
arrependimento ainda não seja visível. E Isaque lhes oferece uma festa, não
apenas para promover a paz, mas também com o intuito de mostrar que ele,
esquecendo-se de toda ofensa, se torna amigo deles.
Tu és agora o abençoado do SENHOR. Normalmente essa expressão é explicada no sentido de que eles
buscavam o favor de Isaque com bajulações, exatamente como algumas pessoas
costumam bajular quando querem um favor; no entanto, eu, ao contrário, creio
que essa expressão foi acrescentada em um sentido diferente. Isaque havia se
queixado das injúrias deles por haverem-no expulsado por inveja; eles respondem
que não havia razão para que restasse a menor sombra de pesar na mente de Isaque,
visto que o Senhor o tratara de modo tão bondoso e precisamente conforme seu
próprio desejo, como se quisessem dizer: “o que ainda queres? Não te contentas
com o teu atual êxito? Admitimos que não temos cumprido com o dever de
hospitalidade para contigo; contudo a bênção de Deus é abundantemente suficiente
para apagar a lembrança daquele tempo”. Mas, talvez, por essas palavras, eles novamente
estejam dizendo que estão agindo de boa-fé para com ele, porque ele está sob a
proteção de Deus.
Deus nos abençoe!
João
Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.
“Eles
responderam: Vimos claramente que o SENHOR é contigo; então, dissemos: Haja
agora juramento entre nós e ti, e façamos aliança contigo” (Gn 26:28).
Por esse
argumento, eles provam que desejavam fazer um acordo com Isaque, não um acordo
fraudulento, mas de boa-fé, porque reconhecem o favor de Deus para com ele.
Pois era necessário se livrar dessa suspeita, visto que agora se apresentavam
de modo tão gentil a alguém contra o qual previamente faziam injustificável
oposição. Essa confissão deles, contudo, contém uma instrução proveitosa. Os
homens profanos, ao chamarem alguém, cujas atividades são todas bem-sucedidas e
prósperas, o bendito do Senhor, dão testemunho de que Deus é o autor de todas
as boas dádivas, e que somente dele flui toda prosperidade. Excessivamente vil,
pois seria ingratidão se, quando Deus age bondosamente para conosco, ignoramos
seus benefícios. Além disso, os homens profanos consideram a amizade de alguém a
quem Deus favorece como algo desejável, levando em conta que não há melhor ou mais
santa recomendação do que o amor de Deus. Perversamente cegos, pois, são
aqueles que só negligenciam aos que Deus declara lhe serem queridos, mas iniquamente
os perturbam. O Senhor proclama que está pronto para executar vingança contra
alguém que porventura faça injúria àqueles a quem ele toma sob sua proteção;
mas a maioria, indiferente a essa mui terrível denúncia, ainda perversamente
aflige os bons e simples. Contudo, vemos aqui que o senso natural proclamava
aos incrédulos o que raramente reconhecemos aquilo que é dito pela boca do
próprio Deus. Entretanto, é surpreendente que tivessem medo de um homem inofensivo,
e exigissem dele um juramento de que lhes não causaria nenhum dano. Deveriam
ter concluído, à luz do favor que Deus lhe demonstrava, que ele era um homem
justo, e por isso ele não representava nenhum perigo; contudo, pelo fato de
formarem sua convicção a respeito de seu caráter a partir do caráter e conduta
deles, também põem em dúvida sua integridade. Tal perturbação geralmente inquieta
os incrédulos, de modo que são inconsistentes consigo mesmos; ou ao menos,
vacilam e são atormentados por sentimentos conflitantes, e ficam sem
estabilidade e constância. Pois aqueles princípios do reto juízo, que fluem de
dentro de si, logo são sufocados pelos afetos depravados. Por isso, justamente
aquilo que é concebido por eles se desvanece; ou, pelo menos, é corrompido e
não produz bons frutos.
Deus nos
abençoe!
João
Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.
“Disse-lhes
Isaque: Por que viestes a mim, pois me odiais e me expulsastes do vosso meio?” (Gn
26:27).
Isaque
não só se queixa das injúrias recebidas, mas protesta que no futuro não pode
ter confiança neles, já que descobrira que da parte deles havia uma disposição
tão hostil para com ele. Essa passagem nos ensina que é lícito aos fiéis
apresentar queixa de seus inimigos, a fim de que, se possível, relembrá-los de
seu propósito de fazer injúria, e refrear sua força, fraude e atos de
injustiça. Pois a liberdade não é inconsistente com a paciência; tampouco Deus
exige de seu próprio povo que suportem silenciosamente toda injúria que
porventura lhes seja infligida, mas tão somente refreiem sua mente e contenham
suas mãos de vingança. Ora, se a mente deles é pura e bem regulada, a sua língua
não será virulenta em reprovar as faltas dos outros; mas o seu único propósito será
restringir os perversos por um senso de vergonha, por causa da iniquidade. Pois
onde não há esperança de tirar proveito das lamúrias, é melhor cultivar a paz
mediante o silêncio, a menos que, talvez, o propósito será tornar indesculpáveis
os que se deleitam na perversidade. De fato, devemos nos precaver sempre para
que, movida por um desejo de vingança, nossa língua não irrompa em reprimendas;
e, no dizer de Salomão, “O ódio excita contendas” (Pv 10.12).
Deus nos
abençoe!
João
Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.
“E deu esta
ordem a todo o povo: Qualquer que tocar a este homem ou à sua mulher certamente
morrerá” (Gn 26:11).
Ao denunciar a
punição capital contra quem prejudicasse a esse estrangeiro, podemos
presumir que Abimeleque promulgou esse edito como um privilégio especial; pois
não é comum vingar-se tão rigidamente de todo tipo de injúria. Qual é, pois, a
origem dessa disposição da parte do rei de preferir Isaque a todos os habitantes
nativos do pais, e quase tratá-lo como igual, senão que alguma porção da
majestade divina brilhou nele, a qual lhe assegurou esse decreto de reverência?
Também para ajudar seu servo em sua fraqueza, Deus inclinou a mente do rei
pagão, de todas as formas, para mostrar-lhe favor. E não há dúvida de que sua
modéstia geral induziu o rei a protegê-lo tão cuidadosamente; pois ele,
percebendo que Isaque era um homem tímido, que chegara ao ponto de preservar
sua própria vida pela ruína de sua esposa, sentiu-se ainda mais disposto a
dar-lhe sua assistência em seus perigos, a fim de que pudesse viver em
segurança sob seu próprio governo.
Deus nos abençoe!
João
Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.
“Disse
Abimeleque: Que é isso que nos fizeste? Facilmente algum do povo teria abusado
de tua mulher, e tu, atraído sobre nós grave delito” (Gn 26:10).
O Senhor não
castiga Isaque como merecia, talvez porque ele não fosse completamente dotado
de paciência como o fora seu pai; e, portanto, para que a apreensão de sua
esposa não o desanimasse, Deus misericordiosamente a previne. Entretanto, para
que a censura produzisse uma vergonha mais profunda, Deus constitui um pagão
como seu mestre e seu reprovador. Podemos acrescentar que Abimeleque reprova
sua estultícia não tanto com a intenção de injuriá-lo quanto de repreendê-lo.
Entretanto, teria ferido profundamente a alma do santo homem, quando percebeu
que sua ofensa era repulsiva ao juízo, inclusive dos cegos.
Portanto,
recordemos bem que devemos andar na luz que Deus nos tem acendido, para que até
mesmo os incrédulos, que vivem envolto pelas trevas da ignorância, não reprovem
nosso entorpecimento. E, certamente, quando negligenciamos a obediência à voz
de Deus, merecemos ser enviados aos bois e aos asnos para deles recebermos
instrução. Na verdade, Abimeleque não investiga nem perscruta toda ofensa de
Isaque, mas apenas menciona uma parte dela. Isaque, porém, quando assim
brandamente admoestado por uma única palavra, deveria ter condenado a si mesmo,
visto que, em vez de confiar a si mesmo e a sua esposa aos cuidados de Deus, o
qual prometeu ser o guardião de ambos, recorreu, por sua própria incredulidade,
a uma solução ilícita. Pois a fé tem a seguinte característica: ela nos mantém
dentro dos limites divinamente prescritos, para que nada tentemos, exceto com a
autoridade ou permissão de Deus. Consequentemente, a fé de Isaque oscilou
quando se afastou de seu dever de marido.
Além disso, das
palavras de Abimeleque, deduzimos que todas as nações têm inscrito em sua mente
o senso de que a violação do santo matrimônio é um crime digno da vingança
divina e, consequentemente, traz em si o medo do juízo divino. Pois embora a
mente dos homens seja obscurecida por densas nuvens, de modo que são
frequentemente enganadas, Deus tem feito com que permaneça algum poder de
distinção entre o certo e o errado, de modo que cada um suporte a sua própria
condenação, e que todos sejam considerados indesculpáveis. Se, pois, Deus
intima inclusive os incrédulos ao seu tribunal, e não permite que escapem à
justa condenação, quão horrível é aquela punição que nos aguarda, se tentarmos
extirpar, por nossa própria fraqueza, aquele conhecimento que Deus gravou em
nossa própria consciência.
Deus nos abençoe!
João
Calvino (1509-1564).
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“Ora, tendo
Isaque permanecido ali por muito tempo, Abimeleque, rei dos filisteus, olhando
da janela, viu que Isaque acariciava a Rebeca, sua mulher. Então, Abimeleque
chamou a Isaque e lhe disse: É evidente que ela é tua esposa; como, pois,
disseste: É minha irmã? Respondeu-lhe Isaque: Porque eu dizia: para que eu não
morra por causa dela” (Gn 26:8,9).
De fato, a
paciência de Deus é admirável, não apenas porque perdoa de modo condescendente
o duplo erro de seu servo, mas também porque estende sua mão e evita de modo
maravilhoso, pela aplicação de um remédio imediato, o mal que ele traria sobre
si mesmo. Deus não permitiu – o que duas vezes ocorrera a Abraão – que sua esposa
fosse arrancada de seus braços; porém, instigou a um rei pagão para corrigir,
com brandura e sem causar-lhe qualquer tribulação, sua insensatez. Mas, embora
Deus ponha diante dos nossos olhos tal exemplo de sua bondade, para que os
fiéis, se em algum tempo porventura venha a cair, possam esperar confiantemente
encontrar-se com um Deus amável e propício, contudo, devemos nos precaver da
autoconfiança, quando observamos que a santa mulher, que naquele momento era a
única mãe da Igreja sobre a terra, estava isenta de desonra por um privilégio
especial. Entretanto, podemos presumir, com base no julgamento de Abimeleque,
quão santa e pura havia sido a conduta de Isaque, em quem não podia recair
sequer uma suspeita de mal; e, além disso, quão maior integridade florescia
naquele tempo do que no nosso. Pois, por que ele não condenou a Isaque como
culpado de fornicação, visto ser provável que algum crime se insinuava, quando,
negou que ela era sua esposa? E por isso não tenho dúvida de que a religião de
Isaque e a integridade de sua vida, eram suficientes para defender seu caráter.
Por esse exemplo,
somos ensinados a cultivar de tal modo a retidão ao longo de toda nossa vida,
que os homens não sejam capazes de suspeitar algo perverso e desonroso de nossa
parte, pois não há nada que nos vindique mais completamente do estigma de
infâmia do que uma vida vivida com modéstia e temperança. Entretanto, devemos
acrescentar o que eu já mencionei anteriormente: que naquele tempo as
concupiscências não eram tão comuns e tão profundamente fomentadas, a ponto de
uma suspeita desfavorável surgir na mente do rei no tocante a um peregrino de
caráter honesto. Portanto, ele facilmente se convence de que Rebeca era esposa,
e não prostituta. O senso de castidade daquela época se evidencia ainda mais
com base nisto: que Abimeleque toma a familiaridade afetiva de Isaque com
Rebeca como uma evidência de sua vida conjugal. Pois Moisés não fala sobre
relação conjugal, mas sobre algumas atitudes que eram demasiadamente íntimas,
que eram uma prova ou de licenciosidade dissoluta ou de amor conjugal. Hoje,
porém, a licenciosidade avançou tanto para além de todos os limites, que o
marido é obrigado a ouvir em silêncio sobre a conduta dissoluta da esposa com
estranhos.
Deus nos
abençoe!
João
Calvino (1509-1564).
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“Perguntando-lhe
os homens daquele lugar a respeito de sua mulher, disse: É minha irmã; pois
temia dizer: É minha mulher; para que, dizia ele consigo, os homens do lugar
não me matem por amor de Rebeca, porque era formosa de aparência” (Gn 26:7).
Moisés relata
que Isaque foi tentado da mesma maneira que seu pai Abraão, isto é, pelo fato
de a sua esposa ter sido tirada dele; e, sem dúvida, ele foi conduzido de tal
modo pelo exemplo de seu pai que, sendo instruído pela semelhança das circunstâncias,
veio a juntar-se com ele em sua fé. Contudo, nesse ponto, ele deveria antes ter
evitado do que imitado à falha de seu pai; pois, sem dúvida, ele se lembrava
perfeitamente bem de que a castidade de sua mãe fora duas vezes posta em grande
perigo; e, embora ela fosse maravilhosamente resgatada pela mão de Deus, ela e
seu marido, respectivamente, pagaram o preço de sua desconfiança. Por isso a
negligência de Isaque é indesculpável, porque ele agora tropeça na mesma pedra.
Ele não nega sua esposa de forma expressa; porém, deve ser culpado, em primeiro
lugar, porque, querendo preservar sua esposa, recorre a uma evasiva não muito
distante de uma mentira; e, segundo, porque, ao fazer isso, ele à expõe a
prostituição. No entanto, agrava ainda mais seu erro, principalmente (como eu
já disse) em não recorrer às advertências dos exemplos domésticos, porém,
voluntariamente, lança sua esposa em manifesto perigo. Assim, fica evidente
quão grande é a propensão de nossa natureza à dúvida, e quão facilmente ela se
mostra destituída de sabedoria nas situações de perplexidade. Visto, pois, que
vivemos cercados por todos os lados de muitos perigos, devemos rogar ao Senhor
que nos fortaleça por seu Espírito, para que nossa mente não desfaleça e não se
dissolva no temor e tremor; de outro modo, seremos frequente e inutilmente envolvidos
em ações das quais logo nos arrependeremos, porém, tarde demais para remediar o
mal.
Deus nos
abençoe!
João
Calvino (1509-1564).
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