“BEM-AVENTURADO AQUELE CUJA INIQUIDADE É PERDOADA”
– Parte 2
“Bem-aventurado aquele
cuja a iniquidade é perdoada, cujo pecado é coberto” (Sl
32.1).
É deveras por si mesmo suficientemente evidente que bem-aventurado é o homem cuja iniquidade é perdoada; mas a experiência nos ensina quão difícil é persuadir-se deste fato, de tal maneira que se torne indelevelmente afixado em nossos corações. A grande maioria, como já demonstrei, enredada por, suas próprias invenções, extingue de si, o quanto pode, os terrores da consciência e todo o temor da ira divina. Sem dúvida, eles nutrem o desejo de reconciliar-se com Deus; e todavia se esquivam da presença dele, em vez de buscarem sua graça sinceramente e de todo seu coração. Em contrapartida, todos aqueles a quem Deus tem realmente despertado para que se deixem afetar por um vivo senso de sua miséria, estão constantemente agitados e inquietados, tanto que é difícil restaurar a paz de suas mentes. Realmente degustam a misericórdia divina e se diligenciam em tomar posse dela, e, no entanto vivem frequentemente atemorizados sob os múltiplos assaltos que lhes são feitos. As duas razões por que o salmista Davi insiste tanto sobre o tema do perdão dos pecados são estas: para que ele, de um lado, erga aqueles que porventura caíram em profundo sono, inspire a indiferença com ponderação e reavive os entorpecidos; e para, por outro lado, tranquilizar as mentes temerosas e estressadas com uma confiança segura e disposta. Quanto (a primeira razão,) a doutrina pode ser aplicada desta forma: “O que pretendeis, ó vós infelizes, que uma ou duas ferroadas em vossa consciência não vos perturbam? Supondes que um mero e limitado conhecimento de vossos pecados não é suficiente para abalar-vos com terror, todavia quão irracional é continuardes dormitando em segurança, enquanto sucumbis sob imenso fardo de pecados!” E esta reiteração fornece não pouco conforto e confirmação aos débeis e temerosos. Visto que as dúvidas amiúde lhes sobrevêm, uma após outra, não basta que sejam vitoriosos em apenas um conflito. Esse desespero, pois, para que não os sucumbisse em meio aos vários pensamentos perplexivos com que são agitados, o Espírito Santo confirma e ratifica a remissão de pecados com muitas declarações.
Agora se torna
oportuno avaliar a força particular das expressões aqui empregadas. Certamente
que a remissão da qual aqui se trata não se harmoniza com as satisfações. Deus,
ao lançar fora ou tirar os pecados, e igualmente ao cobri-los e não imputá-los,
graciosamente os perdoa. Por essa conta os católicos romanos, ao introduzirem
suas satisfações e obras de superrogação, segundo as chamam, se privam desta
bem-aventurança. Além disso, Davi aplica essas palavras a fim de completar o
perdão. Ora, é necessário considerar a quem pertence esta felicidade, a qual
pode facilmente ser extraída da circunstância do tempo. Ao ser Davi instruído
de que era bem-aventurado unicamente pela misericórdia divina, ele não
havia sido alienado da igreja de Deus; ao contrário, ele se avantajava a muitos
no temor e no serviço de Deus, bem como em santidade de vida, e se exercitava em
todos os deveres da piedade. E mesmo depois de fazer esses progressos na
religião, Deus então o exercitara a fim de que depositasse o alfa e o ômega de
sua salvação em sua gratuita reconciliação com Deus. Tampouco é destituído de
razão que Zacarias, em seu cântico, represente “o conhecimento da salvação”
como que consistindo em conhecer “a remissão de pecados” [Lc 1.77]. Quanto mais
eminentemente alguém se destaca em santidade, mais ele se sente destituído da
perfeita justiça e mais que claramente percebe que em nada pode confiar senão
unicamente na misericórdia de Deus. Daí ser evidente que estão frontalmente
equivocados os que concluem que o perdão de pecado só é necessário para o
início da justiça. Uma vez que os crentes todos os dias se envolvem em muitos
erros, de nada lhes aproveitará já terem tomado a vereda da justiça, a menos
que a mesma graça que os manteve em sua companhia os conduza à última fase de
sua vida. Com que objetivo se diz em outra parte que são bem-aventurados “os
que temem ao Senhor”, “que andam em seus caminhos”, “que são retos de coração”
etc., a resposta é fácil, a saber: como o perfeito temor do Senhor, a perfeita
observância de sua lei e perfeita retidão do coração não se encontram em parte
alguma, tudo quanto a Escritura em qualquer lugar diz, concernente à
bem-aventurança, se fundamenta no gracioso favor de Deus, através do qual ele
nos reconcilia consigo mesmo.
Deus nos
abençoe!
João Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).






