“VAI E NÃO PEQUES MAIS”
“Erguendo-se
Jesus e não vendo a ninguém mais além da mulher, perguntou-lhe: Mulher, onde
estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? Respondeu ela: Ninguém,
Senhor! Então, lhe disse Jesus: Nem eu tampouco te condeno; vai e não peques
mais” (Jo 8:10-11).
Não somos
informados se Jesus absolveu absolutamente a mulher, senão que lhe permitiu ir
livremente. Nem isso surpreende, pois ele não deseja empreender algo que não
pertença a seu ofício. Ele fora enviado pelo Pai a congregar as ovelhas
perdidas [Mt 10.6], e, por isso, cônscio de sua vocação, ele exorta a mulher ao
arrependimento e a conforta com uma promessa de graça. Aqueles que inferem
disto que o adultério não deve ser punido com a morte, devem, pela mesma razão,
admitir que as heranças não devem ser divididas só porque Cristo recusou ser
árbitro numa questão entre dois irmãos [Lc 12.13]. Aliás, se o adultério não
for punido, então não existe nenhum crime que não possa ser isentado de
qualquer penalidade da lei. E então a porta está escancarada a todo e qualquer
tipo de traição, de corrupção, de homicídio e de latrocínio. Além disso, a
adúltera, quando ilicitamente dá à luz a uma criança, não só rouba o nome da
família, mas violentamente destrói o direito de herança da prole legítima e a
entrega a estranhos. Mas, o que é ainda pior, a esposa não só desonra o esposo,
a quem um dia se unira, mas se prostitui de uma maneira vergonhosamente
perversa, e igualmente viola a sacra aliança de Deus. Lembremo-nos que, embora
Cristo perdoe os pecados dos homens, ele não subverteu a ordem política nem
reverteu as sentenças e castigos designados pela lei.
Vai e não peques mais. Daí
inferirmos qual o desígnio da graça de Cristo. É para que o pecador, uma vez
reconciliado com Deus, possa honrar o Autor de sua salvação vivendo uma vida boa
e santa. Em suma, pela mesma palavra de Deus, quando o perdão nos é oferecido,
somos igualmente chamados ao arrependimento. Além disso, ainda que esta
exortação aponte para o futuro, ela humilha os pecadores despertando sua
memória para sua vida pregressa.
Deus nos abençoe!
João Calvino
(1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.
