"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



quinta-feira, 2 de julho de 2026

“QUEM OS CONDENARÁ?”


“QUEM OS CONDENARÁ?”

“Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós” (Rm 8.34).

Visto que ninguém terá êxito em sua acusação diante da absolvição do juiz, assim também qualquer condenação não prevalecerá quando as leis são satisfeitas e a dívida, quitada. Cristo é aquele Único que sofreu o castigo que era nosso, e por isso declarou que tomou o nosso lugar a fim de pôr-nos em liberdade. Portanto, qualquer um que quiser condenar-nos terá que matar o próprio Cristo novamente. Porém, ele não só já morreu, mas também ressurgiu como vencedor da morte, e assim triunfou sobre o seu poder mediante sua ressurreição.

O apóstolo Paulo adiciona algo mais, ou seja: Cristo, declara ele, está agora assentado à mão direita do Pai. Este fato o fez dominador do céu e da terra, e com autoridade plenária governa todas as coisas, de acordo com sua afirmação em Efésios 1.20. Finalmente, ele nos ensina que Cristo está assim entronizado com o fim de ser o eterno Advogado e Intercessor em prol de nossa salvação. Segue-se disto que, se alguém desejar condenar-nos terá não só que invalidar a morte de Cristo, como terá também que lutar contra o incomparável poder com o qual o Pai honrou ao Filho e com o qual conferiu-lhe soberana autoridade. Esta sólida segurança que ousa triunfar sobre o Diabo, a morte, o pecado e as portas do inferno deve estar profundamente implantada no coração de todos os santos, porquanto nossa fé não seria nada, se porventura não nos persuadisse com plena certeza de que Cristo é nosso, e que o Pai se nos fez propício em seu Filho. Portanto, para longe toda concepção perniciosa ou destrutiva com a qual os dogmas escolásticos minam a certeza de nossa [inabalável] salvação.

E também intercede por nós. O apóstolo insistiu em fazer esta adição explícita com o fim de evitar que a divina Majestade de Cristo viesse a terrificar-nos. Portanto, ainda que Cristo mantenha todas as coisas em sujeição sob a planta de seus pés, assentado em seu trono de soberania, Paulo o apresenta como Mediador, cuja presença seria simplesmente absurda caso nos aterrasse, visto que não só nos convida para ele com gesto benevolente, mas também comparece diante do Pai por nós no exercício de Intercessor infalível. Não temos como medir essa intercessão pelo nosso critério carnal, pois não podemos pensar do Intercessor como humilde suplicante diante do Pai, com os joelhos genuflexos e com as mãos estendidas. Cristo, contudo, com razão intercede por nós, visto que comparece continuamente diante do Pai, como morto e ressurreto, que assume a posição de eterno Intercessor, defendendo-nos com eficácia e vívida oração para reconciliar-nos com o Pai e levá-lo a ouvir-nos com prontidão.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

“QUEM INTENTARÁ ACUSAÇÃO CONTRA OS ELEITOS DE DEUS?”


“QUEM INTENTARÁ ACUSAÇÃO CONTRA OS ELEITOS DE DEUS?”

“Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica” (Rm 8.33).

A primeira e principal consolação dos santos, nas adversidades, é serem eles persuadidos da munificência paternal de Deus. Daqui procede tanto a certeza da salvação quanto a tranquila segurança da alma, pelas quais as adversidades são suavizadas, ou, pelo menos, a crueza da dor é mitigada. Portanto, dificilmente existe uma exortação à paciência mais apropriada do que quando entendemos que Deus nos é propício. E é por isso que o apóstolo Paulo faz dessa confiança o princípio da consolação, por meio do qual os crentes devem ser fortalecidos contra todos os males. Visto que a salvação do homem é assaltada, primeiramente por meio de acusações, e em seguida destruída por meio de condenação. Paulo antes remove o perigo que a acusação traz, pois só existe um Deus perante cujo tribunal devemos nos pôr. Portanto, visto que é ele quem nos justifica, então não há lugar para acusação. Aparentemente, as cláusulas contrastadas não se acham dispostas com exatidão. As duas partes que Paulo deveria contrastar são: “Quem acusará?” e “é Cristo quem intercede”. Ele deveria, pois, ter adicionado as outras duas cláusulas: “Quem nos condenará? É Deus quem justifica”. À absolvição divina corresponde a condenação, e à defesa de Cristo corresponde a acusação. Mas Paulo tinha razão para fazer tal transposição, visto que queria armar os filhos de Deus com aquela sólida confiança que é capaz de guardá-los de quaisquer ansiedades e temores. Sua conclusão, pois, de que os filhos de Deus não estão sujeitos a acusações, visto que é Deus quem os justifica, é muito mais enfática do que se dissera que Cristo é o nosso Advogado; pois, ao proceder assim, ele expressa mais claramente que a via de acesso para o julgamento é completamente obstruída quando o juiz pronuncia estar o prisioneiro completamente isento de culpa, diante dos acusadores que exultariam em vê-lo definitivamente condenado.

O mesmo argumento se aplica igualmente à segunda cláusula. Paulo nos mostra que os crentes não mais estão sob o risco de sofrer condenação, visto que Cristo, ao expiar seus pecados, antecipa o julgamento divino; e, através de sua intercessão, não só aboliu a morte, mais também lançou nossos pecados ao esquecimento, de modo que não mais são levados em conta [contra o crente].

A substância do argumento consiste em que somos não só isentos do terror mediante a disponibilidade de antídotos, ao chegarmos diante do tribunal divino, mas que Deus mesmo vem antecipadamente em nosso socorro, a fim de poder munir-nos com uma confiança muito mais sólida.

Entretanto, é preciso notar aqui o que temos afirmado sempre, ou seja: que, segundo Paulo, ser justificado significa ser considerado justo mediante a absolvição da sentença divina. Não é difícil provar isto na passagem em apreço, na qual Paulo argui com base em uma só proposição com o fim de anular a proposição oposta. Absolver e acusar são opostos entre si. Portanto, Deus não permitirá qualquer acusação que se levante contra nós, visto que já nos absolveu de toda culpa. O Diabo, certamente, vive a acusar todos os santos [Ap 12.10]; e a lei de Deus, por sua própria natureza, bem como a própria consciência humana, igualmente nos reprovam. Todavia, nenhum destes elementos tem qualquer influência sobre o Juiz que nos justifica. Nenhum adversário, pois, pode abalar, muito menos destruir, nossa salvação.

Paulo igualmente faz referência a eles como eleitos, de maneira tal que remove qualquer dúvida de fazer ele parte de seu número. Ele não possuía tal conhecimento com base – como caluniam os sofistas – em uma salvação especial, e, sim, com base naquela percepção comum a todos os santos. Portanto, a afirmação, aqui, com referência ao eleito pode, segundo o exemplo de Paulo, ser aplicada por todos os santos a si mesmos. Outrossim, tivesse ele sepultado a eleição no secreto conselho de Deus, e seria ela uma doutrina não apenas carente de calor, mas também sem vida. Porém, visto que Paulo, aqui, está deliberadamente introduzindo algo que todos os santos devem aplicar a si próprios, não há dúvida de que todos nós somos levados a examinar nossa vocação, a fim de podermos determinar se de fato somos filhos de Deus.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).