"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



terça-feira, 21 de julho de 2026

“DEUS AMOU AO MUNDO DE TAL MANEIRA”


“DEUS AMOU AO MUNDO DE TAL MANEIRA”

“Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:16).

Cristo mostra a causa primeira e, por assim dizer, a fonte de nossa salvação. E ele procedeu assim para que não pairasse dúvida alguma, pois não existe nenhum céu calmo onde nossas mentes possam repousar enquanto não nos aproximarmos do gracioso amor de Deus. Toda substância de nossa salvação não deve ser buscada em alguma outra fonte além de Cristo, e por isso devemos descobrir por que meios Cristo nos emana e por que ele foi oferecido como nosso Salvador.

Ambos os pontos são claramente afirmados aqui – que a fé em Cristo vivifica tudo, e que Cristo trouxe vida porque o Pai celestial não deseja que a raça humana, à qual ele ama, pereça. E esta sequência deve ser cuidadosamente observada, pois, tal é a ímpia e inerente ambição de nossa natureza que, quando ponderamos sobre a origem de nossa salvação, de pronto invadem nossa mente diabólicas imaginações acerca de nossos méritos pessoais. Por conseguinte, imaginamos que Deus nos é favorável porque nos têm considerado dignos de seu respeito. A Escritura, porém, por toda parte enaltece sua misericórdia que pura e simplesmente abole todo e qualquer mérito.

E as palavras de Cristo não têm outro sentido, quando ele diz que a causa está no amor de Deus. Pois, se quisermos ir além disso, o Espírito nos impede com a declaração de Paulo, a saber, que este amor tinha por fundamento o “beneplácito de sua vontade” [Ef 1.5]. E é claro que Cristo falou isso com fim de desviar os olhos dos homens de si para, exclusivamente, a misericórdia de Deus. Tampouco declara ele que Deus se moveu a nos salvar por divisar em nós algo merecedor de tal bênção. Ele atribui a glória de nossa salvação inteiramente ao seu amor. E isso se torna ainda mais claro à luz do contexto, pois ele acrescenta que o Filho foi dado aos homens para que estes não perecessem. Segue-se que, enquanto Cristo não dignar-se a socorrer os perdidos, todos continuarão destinados à destruição eterna.

Paulo também demonstra isso à luz da sequência do tempo, pois fomos amados mesmo quando ainda éramos inimigos em virtude do pecado [Rm 5.8,10]. E, de fato, onde reina o pecado, nada encontraremos, exceto a ira de Deus e a morte que ele causa. Portanto, é unicamente a misericórdia que nos reconcilia com Deus e ao mesmo nos restaura à vida.

Esta maneira de falar, contudo, pode parecer conflitante com muitos testemunhos da Escritura, os quais colocam em Cristo o primeiro fundamento do amor divino para conosco, e diz que fora dele somos detestados por Deus. Mas temos que lembrar bem, como eu já disse, que o amor secreto, no qual nosso Pai celestial nos alcançou para si, visto que o mesmo flui de seu beneplácito eterno, é precedente a todas as demais coisas. A graça, porém, a qual ele quer que nos seja testificada, e pela qual somos despertados à esperança da salvação, começa com a reconciliação providenciada através de Cristo. Porque, uma vez que necessariamente odeia o pecado, como seremos convencidos que ele nos ama, enquanto não forem expiados os pecados, por cuja causa ele está justamente irado conosco? E assim, antes que possamos nutrir alguma noção de sua bondade paternal, é necessário que o sangue interceda para que Deus se reconcilie conosco. Visto, porém, que primeiro ouvimos que Deus deu o seu Filho a fim de morrer por nós, porque ele nos amou, acrescenta-se imediatamente que é tão somente em Cristo que, propriamente falando, a fé deve repousar.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

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