“DEUS AMOU AO MUNDO DE TAL MANEIRA”
“Porque Deus
amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que
nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:16).
Cristo mostra
a causa primeira e, por assim dizer,
a fonte de nossa salvação. E ele
procedeu assim para que não pairasse dúvida alguma, pois não existe nenhum céu
calmo onde nossas mentes possam repousar enquanto não nos aproximarmos do
gracioso amor de Deus. Toda substância de nossa salvação não deve ser buscada
em alguma outra fonte além de Cristo, e por isso devemos descobrir por que meios
Cristo nos emana e por que ele foi oferecido como nosso Salvador.
Ambos os
pontos são claramente afirmados aqui – que a fé em Cristo vivifica tudo, e que
Cristo trouxe vida porque o Pai celestial não deseja que a raça humana, à qual
ele ama, pereça. E esta sequência deve ser cuidadosamente observada, pois, tal
é a ímpia e inerente ambição de nossa natureza que, quando ponderamos sobre a
origem de nossa salvação, de pronto invadem nossa mente diabólicas imaginações
acerca de nossos méritos pessoais. Por conseguinte, imaginamos que Deus nos é
favorável porque nos têm considerado dignos de seu respeito. A Escritura,
porém, por toda parte enaltece sua misericórdia
que pura e simplesmente abole todo e qualquer mérito.
E as palavras
de Cristo não têm outro sentido, quando ele diz que a causa está no amor de Deus. Pois, se quisermos ir além
disso, o Espírito nos impede com a declaração de Paulo, a saber, que este amor
tinha por fundamento o “beneplácito de sua vontade” [Ef 1.5]. E é claro que
Cristo falou isso com fim de desviar os olhos dos homens de si para, exclusivamente,
a misericórdia de Deus. Tampouco declara ele que Deus se moveu a nos salvar por
divisar em nós algo merecedor de tal bênção. Ele atribui a glória de nossa
salvação inteiramente ao seu amor. E isso se torna ainda mais claro à luz do
contexto, pois ele acrescenta que o Filho foi dado aos homens para que estes
não perecessem. Segue-se que, enquanto Cristo não dignar-se a socorrer os
perdidos, todos continuarão destinados à destruição eterna.
Paulo também
demonstra isso à luz da sequência do tempo, pois fomos amados mesmo quando
ainda éramos inimigos em virtude do pecado [Rm 5.8,10]. E, de fato, onde reina
o pecado, nada encontraremos, exceto a ira de Deus e a morte que ele causa.
Portanto, é unicamente a misericórdia que nos reconcilia com Deus e ao mesmo
nos restaura à vida.
Esta maneira
de falar, contudo, pode parecer conflitante com muitos testemunhos da
Escritura, os quais colocam em Cristo o primeiro fundamento do amor divino para
conosco, e diz que fora dele somos detestados por Deus. Mas temos que lembrar
bem, como eu já disse, que o amor secreto, no qual nosso Pai celestial nos alcançou
para si, visto que o mesmo flui de seu beneplácito eterno, é precedente a todas
as demais coisas. A graça, porém, a qual ele quer que nos seja testificada, e
pela qual somos despertados à esperança da salvação, começa com a reconciliação
providenciada através de Cristo. Porque, uma vez que necessariamente odeia o
pecado, como seremos convencidos que ele nos ama, enquanto não forem expiados
os pecados, por cuja causa ele está justamente irado conosco? E assim, antes
que possamos nutrir alguma noção de sua bondade paternal, é necessário que o
sangue interceda para que Deus se reconcilie conosco. Visto, porém, que
primeiro ouvimos que Deus deu o seu Filho a fim de morrer por nós, porque ele
nos amou, acrescenta-se imediatamente que é tão somente em Cristo que,
propriamente falando, a fé deve repousar.
Deus nos
abençoe!
João Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

Nenhum comentário:
Postar um comentário