“ENQUANTO CALEI OS MEUS PECADOS”
“Enquanto
calei os meus pecados, envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos
todo o dia” (Sl 32.3).
Neste ponto
Davi confirma, mediante sua própria experiência, a doutrina que havia
estabelecido, a saber, que quando foi humilhado debaixo da mão de Deus, sentiu
que nada era tão miserável quanto ser privado do favor divino. E assim notifica
que esta verdade não pode ser corretamente apreendida senão quando Deus nos
prova com aquele senso da ira divina. Tampouco fala ele de uma mera e ordinária
provação, mas declara que se achava inteiramente subjugado com o mais extremo
rigor. E, certamente, a apatia de nossa carne, nesta matéria, não é menos
espantosa que sua audácia. Se não formos atraídos por meios forçosos, jamais
nos apressaremos a buscar a reconciliação com Deus tão solicitamente quanto
devíamos. Finalmente, o escritor inspirado nos ensina, através de seu próprio
exemplo, que jamais perceberemos quão imensa felicidade é desfrutar do favor
divino, enquanto não tivermos sentido plenamente, à luz dos graves conflitos
com as tentações íntimas, quão terrível é a ira divina. Ele acrescenta que, se
guardasse silêncio, ou se tentasse agravar sua tristeza clamando e bramando, seus
ossos envelheceriam; noutros termos, toda sua força se desvaneceria. Disto se
segue que, para onde quer que o pecador se volte, ou por mais que ele seja
afetado, seu mal-estar em grau algum é aliviado, nem seu bem-estar em algum
grau é promovido, até que seja restaurado ao favor divino. Às vezes sucede que,
os que são torturados pela mais aguda tristeza, chegam ao ponto de sua dor os
corroer e devorar interiormente e a guardam velada e reclusa em seu íntimo, sem
confessá-la, e a violência de sua tristeza se irrompe com tanto ímpeto que não
mais podem contê-la. Pelo termo calei
ou silêncio Davi pretende dizer não
insensibilidade nem estupidez, mas aquele sentimento que se põe entre a
paciência e a obstinação, e que se alia tanto ao vício quanto à virtude. Pois
seus ossos não se consumiam com a idade, mas com os terríveis tormentos de sua
mente. Seu silêncio, contudo, não era o silêncio da esperança ou obediência,
porquanto ele não trazia à sua miséria nenhum alívio.
Deus nos
abençoe!
João Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

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