“CHEIO DE GRAÇA E DE VERDADE”
“E o Verbo se
fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua
glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1.14).
E habitou entre nós. Os que afirmam que a carne foi como que um lar para Cristo não conseguiram penetrar o pensamento do Evangelista. Ele não atribui a Cristo residência permanente entre nós, mas simplesmente diz que ele exerceu por algum tempo o papel de hóspede. Pois o termo que ele usa é derivado de tabernáculo. Com isso, ele quer dizer simplesmente que Cristo desempenhou na terra seu ofício; em outros termos, ele não só surgiu por um instante, mas que viveu entre os homens enquanto cumpria a trajetória de seu ofício. É incerto se a frase “entre nós” se refere aos homens em geral ou a João e aos demais discípulos que foram testemunhas oculares dos eventos que ele narra. Prefiro a última interpretação, pois o Evangelista adiciona imediatamente:
E vimos a sua glória. Pois ainda que a glória
de Cristo pudesse ser vista por todos, ela será ignorada pela maioria por causa
de sua cegueira; apenas uns poucos, cujos olhos o Espírito Santo abrira, viram
essa manifestação da glória. A essência dela consiste em que Cristo foi
reconhecido como um homem que exibia em si algo muito maior e mais sublime.
Portanto, segue-se que a majestade de Deus não foi aniquilada, ainda que
estivesse circunscrita pela carne. Ela ficou, de fato, oculta pela vil condição
da carne, mas de modo a não impedir a manifestação de sua glória.
Glória do como do unigênito do Pai. Neste versículo a
expressão não denota uma comparação imprópria, mas, antes, uma prova genuína e
forte. Precisamente como Paulo faz em Efésios 5.8, ao dizer: “Andai como filhos
da luz”, querendo que realmente possamos dar testemunho através de nossas obras
do que na realidade somos – filhos da luz.
Portanto, a intenção do Evangelista é que em Cristo tinha que ser vista uma glória
compatível com o Filho de Deus, testemunhando sua Deidade de uma forma
infalível. Assim, ele qualifica a Cristo em razão de ser ele, inerentemente, o
Filho unigênito do Pai. É como se o Evangelista tivesse proposto colocá-lo
acima dos homens e anjos, e reivindicar para ele com exclusividade, aquilo que
não pertence a nenhuma criatura.
Cheio de graça e de verdade. Esta é uma confirmação
da última sentença. A majestade de Cristo certamente manifestou-se também em
outros aspectos, mas o Evangelista escolheu este exemplo em vez de outros com o
fim de nos exercitar no conhecimento prático dele, em vez do conhecimento
especulativo – fato este que requer observação mui criteriosa. Quando Cristo
caminhou sobre as águas com seus pés enxutos [Mt 14.26; Mc 6.48; Jo 6.19];
quando ele pôs em fuga os demônios e revelou seu poder em outros milagres;
então pôde realmente ser reconhecido como o Filho unigênito de Deus. O
evangelista, porém, põe no centro essa parte da prova de que a fé recebe o
sazonado fruto de Cristo, declarando que ele é inquestionavelmente a inexaurível
fonte da graça e da verdade. De Estevão também se diz que estava “cheio de
graça” [At 7.55], contudo em outro sentido. Pois a plenitude da graça em Cristo
é aquele bem do qual todos nós devemos beber, como suscintamente se dirá mais
adiante de uma forma mais plena.
Tal coisa pode ser
expressa fazendo uso de uma expressão de linguagem como sendo “a genuína graça”.
Ou, segundo outra explicação: “Ele era cheio de graça, ou seja, de verdade ou perfeição”. Visto, porém, que
ele imediatamente repete a mesma forma de expressão, considero o significado
como sendo o mesmo em ambos os passos. Logo a seguir, ele contrasta graça e
verdade com a lei, o que entendo simplesmente no sentido em que Cristo deve ser
reconhecido pelos apóstolos como Filho de Deus, já que ele tinha em si a
plenitude de todas as coisas pertencentes ao reino espiritual de Deus. Em suma,
em todas as coisas ele realmente demonstrou ser o Redentor e Messias, que é o
característico mais importante e pelo qual ele tem de ser distinguido de todos
os demais.
Deus nos abençoe!
João Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

Nenhum comentário:
Postar um comentário