“A fim de que
todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em
nós; para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17:21).
O nosso Senhor
Jesus uma vez mais estabelece que o propósito de nossa felicidade consiste na
unidade, e com razão; pois a ruína da raça humana consiste em que, havendo a mesma alienado de Deus, ela é também por si
mesma esfacelada e dispersa. Portanto, a restauração dela, ao contrário,
consiste em ser ela propriamente unida em um só corpo, como Paulo declara que a
perfeição da Igreja consiste em que: “Esforçando-vos
diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz. E ele
mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para
evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento
dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de
Cristo... que é a cabeça. De quem todo o corpo, bem-ajustado e
consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada
parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor” [Ef
4.3,11-16]. Por essa razão, sempre que Cristo falar sobre unidade, lembremo-nos
quão humilhante e dolorosamente, quando separado dele, o mundo se acha
disperso; e, em seguida, aprendamos que o começo de uma vida bem-aventurada
está em que sejamos todos governados e que todos vivamos, unicamente pelo Espírito
de Cristo.
Além disso,
deve-se entender que, em cada exemplo no qual Cristo declara, neste capítulo,
que ele é um com o Pai, ele não fala
simplesmente de sua essência divina, mas que ele é denominado um com respeito a
seu ofício medianeiro, e no que respeita ser ele nossa Cabeça. Muitos dos pais,
sem dúvida, interpretaram essas palavras no sentido em que, absolutamente,
Cristo é um com Pai, porque ele é o
Deus eterno. Mas em suas disputas com os arianos foram levados a tomar
passagens isoladas e a torcer seu sentido natural a fim de empregá-las contra
seus antagonistas. Ora, o desígnio de Cristo era amplamente distinto daquele
que surgiu na mente deles, em sua mera especulação sobre sua Deidade secreta; pois
ele arrazoa com o fim de mostrar que devemos ser um, do contrário a unidade
que ele tem com o Pai seria infrutífera e sem valor para nós. Para compreender
corretamente o que se pretendia com a expressão de que Cristo e o Pai são um, devemos tomar cuidado para não
privar a Cristo de seu ofício como Mediador, mas, antes, devemos vê-lo no
caráter de a Cabeça da Igreja e unido a seus membros. E assim a cadeia de
pensamento será preservada, e a fim de evitar que a unidade do Filho com o Pai seja infrutífera e sem valor, o poder dessa
unidade deve ser difundido através de
toda a corporação dos crentes. Daí também inferirmos que somos um com o Filho de Deus; não porque ele
nos transmita sua substância, mas porque, pelo poder de seu Espírito, ele nos
comunica sua vida e todas as bênçãos que ele recebeu do Pai.
Para que o mundo creia. Alguns
explicam a palavra mundo significando
os eleitos, os quais, naquele tempo, estavam ainda dispersos; visto, porém, que
a palavra mundo, ao longo de todo
este capítulo, denota os réprobos, sinto-me mais inclinado a adotar uma opinião
distinta. Ocorre que, imediatamente depois, ele traça uma distinção entre todo
seu povo e o mesmo mundo de que ele
agora faz menção.
O verbo crer tem sido usado inexatamente em
lugar do verbo saber, isto é, quando
os incrédulos, convencidos por sua própria experiência, percebem a glória
celestial e divina de Cristo. A consequência é que crendo, não creem, porque
tal convicção não penetra o sentimento íntimo do coração. E uma vingança justa
de Deus é que o esplendor da glória divina ofusque os olhos dos réprobos,
porque não merecem ter uma clara e pura visão dela.
Deus nos
abençoe!
João Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

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