“SE EU FIZ O DE QUE ME CULPAM”
“SENHOR, meu
Deus, se eu fiz o de que me culpam, se nas minhas mãos há iniquidade, se paguei
com o mal a quem estava em paz comigo, eu, que poupei aquele que sem razão me
oprimia, persiga o inimigo a minha alma e alcance-a, espezinhe no chão a minha
vida e arraste no pó a minha glória” (Salmos 7:3-5).
O salmista Davi,
neste ponto, insiste com Deus a mostrar-lhe seu favor, protesta que é
injustamente molestado, sem mesmo ser culpado de crime algum. Com o fim de
imprimir ao seu protesto mais vigor, ele usa a imprecação. Se eu fiz o de que me culpam, ele declara sua prontidão em ser
responsabilizado; sim, ele se oferece para suportar o mais severo castigo, caso
não seja completamente inocente do crime acerca do qual todos os homens
acreditavam estivesse ele já quase convencido. E ao rogar a Deus que o
socorresse sob nenhuma outra condição senão esta, a saber: para que sua
integridade não fosse embaraçada pelas provações, ele nos ensina, por seu
exemplo, que, enquanto temos o recurso divino, devemos fazer dele nossa
primordial preocupação para assegurar-nos bem de nossa própria consciência com
respeito à justiça de nossa causa; pois cometeríamos grave erro se desejássemos
engajá-lo como advogado e defensor de uma má causa. O pronome esta revela que ele fala de uma coisa
que era geralmente notória; daí podermos concluir que a calúnia levantada
contra ele por se espalhara amplamente. E quando Davi se viu condenado pelas
falsas notícias e injustos juízos que os homens as sacavam contra ele, e não
via antídoto algum sobre a terra, ele recorreu ao tribunal divino e se contenta
em manter sua inocência diante do Juiz celestial; exemplo que deveria ser
imitado por todo crente piedoso, a fim de que, em oposição às notícias
caluniosas que são divulgadas contra ele, descanse satisfeito unicamente com o
juízo divino. A seguir declara mais distintamente que não cometera crime algum.
E no quarto versículo menciona duas particularidades em sua defesa. A primeira
é que ele não havia cometido erro algum contra alguém; e a segunda é que havia
se esforçado em fazer o bem em favor de seus inimigos, por quem, não obstante,
havia sido injuriado sem nenhuma justa causa. Portanto, explico o quarto
versículo assim: Se prejudiquei alguém que vivia em paz comigo, e ao contrário
deixei de socorrer o indigno que me perseguia sem justa causa etc. Visto que
Davi era odiado por quase todos os homens, como se a ambição de reinar o
houvera impelido perfidamente a rebelar-se contra Saul, e armara armadilhas
para o monarca a quem se comprometera por juramento de obedecer, na primeira
parte do versículo ele se lava de calúnia tão infame. Provavelmente, a razão de
ele chamar Saul aquele que vivia em paz
comigo seja que, em razão de sua dignidade real, sua pessoa devia ser
sagrada e guardada do perigo, de modo que não seria ilícito fazer qualquer
tentativa hostil contra ele. Essa frase, contudo, pode ser entendida em termos
gerais, como se dissesse: Nenhum daqueles que humildemente se refrearam de
injuriar-me e se conduziram com espírito humano para comigo, pode com justiça
queixar-se de um único exemplo meu de lançar injúria contra ele. E, no entanto
era a convicção geral de que Davi, num clima de paz, havia provocado grande
confusão e deflagrado guerra. À luz desse fato tanto mais se manifesta que
Davi, desde que desfrutava da aprovação divina, sentia-se feliz com a
consolação oriunda dela, visto que ele não receberia nenhum conforto
proveniente de outra fonte.
Na segunda
cláusula do quarto versículo, ele avança mais e declara que havia sido amigo,
não só em relação aos bons, mas também em relação aos maus; e não só se
refreara de toda e qualquer vingança, mas que até mesmo socorrera seus inimigos,
por quem fora profunda e cruelmente injuriado. Certamente não seria uma virtude
muito louvável amar os bons e pacíficos, a não ser que haja uma associação
entre essa autonomia e a docilidade em suportar pacientemente os maus. Mas
quando uma pessoa se guarda não só de vingar as injúrias que haja recebido, mas
também se esforça por vencer o mal pela prática do bem, ela está a manifestar
uma das graças da natureza renovada e santificada, e com isso prova a si mesma
pertencer ao rol dos filhos de Deus; pois tal mansidão só pode proceder do
Espírito de adoção.
Deus nos
abençoe!
João Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

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