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terça-feira, 14 de julho de 2026

“SE EU FIZ O DE QUE ME CULPAM”


SE EU FIZ O DE QUE ME CULPAM”

“SENHOR, meu Deus, se eu fiz o de que me culpam, se nas minhas mãos há iniquidade, se paguei com o mal a quem estava em paz comigo, eu, que poupei aquele que sem razão me oprimia, persiga o inimigo a minha alma e alcance-a, espezinhe no chão a minha vida e arraste no pó a minha glória” (Salmos 7:3-5).

O salmista Davi, neste ponto, insiste com Deus a mostrar-lhe seu favor, protesta que é injustamente molestado, sem mesmo ser culpado de crime algum. Com o fim de imprimir ao seu protesto mais vigor, ele usa a imprecação. Se eu fiz o de que me culpam, ele declara sua prontidão em ser responsabilizado; sim, ele se oferece para suportar o mais severo castigo, caso não seja completamente inocente do crime acerca do qual todos os homens acreditavam estivesse ele já quase convencido. E ao rogar a Deus que o socorresse sob nenhuma outra condição senão esta, a saber: para que sua integridade não fosse embaraçada pelas provações, ele nos ensina, por seu exemplo, que, enquanto temos o recurso divino, devemos fazer dele nossa primordial preocupação para assegurar-nos bem de nossa própria consciência com respeito à justiça de nossa causa; pois cometeríamos grave erro se desejássemos engajá-lo como advogado e defensor de uma má causa. O pronome esta revela que ele fala de uma coisa que era geralmente notória; daí podermos concluir que a calúnia levantada contra ele por se espalhara amplamente. E quando Davi se viu condenado pelas falsas notícias e injustos juízos que os homens as sacavam contra ele, e não via antídoto algum sobre a terra, ele recorreu ao tribunal divino e se contenta em manter sua inocência diante do Juiz celestial; exemplo que deveria ser imitado por todo crente piedoso, a fim de que, em oposição às notícias caluniosas que são divulgadas contra ele, descanse satisfeito unicamente com o juízo divino. A seguir declara mais distintamente que não cometera crime algum. E no quarto versículo menciona duas particularidades em sua defesa. A primeira é que ele não havia cometido erro algum contra alguém; e a segunda é que havia se esforçado em fazer o bem em favor de seus inimigos, por quem, não obstante, havia sido injuriado sem nenhuma justa causa. Portanto, explico o quarto versículo assim: Se prejudiquei alguém que vivia em paz comigo, e ao contrário deixei de socorrer o indigno que me perseguia sem justa causa etc. Visto que Davi era odiado por quase todos os homens, como se a ambição de reinar o houvera impelido perfidamente a rebelar-se contra Saul, e armara armadilhas para o monarca a quem se comprometera por juramento de obedecer, na primeira parte do versículo ele se lava de calúnia tão infame. Provavelmente, a razão de ele chamar Saul aquele que vivia em paz comigo seja que, em razão de sua dignidade real, sua pessoa devia ser sagrada e guardada do perigo, de modo que não seria ilícito fazer qualquer tentativa hostil contra ele. Essa frase, contudo, pode ser entendida em termos gerais, como se dissesse: Nenhum daqueles que humildemente se refrearam de injuriar-me e se conduziram com espírito humano para comigo, pode com justiça queixar-se de um único exemplo meu de lançar injúria contra ele. E, no entanto era a convicção geral de que Davi, num clima de paz, havia provocado grande confusão e deflagrado guerra. À luz desse fato tanto mais se manifesta que Davi, desde que desfrutava da aprovação divina, sentia-se feliz com a consolação oriunda dela, visto que ele não receberia nenhum conforto proveniente de outra fonte.

Na segunda cláusula do quarto versículo, ele avança mais e declara que havia sido amigo, não só em relação aos bons, mas também em relação aos maus; e não só se refreara de toda e qualquer vingança, mas que até mesmo socorrera seus inimigos, por quem fora profunda e cruelmente injuriado. Certamente não seria uma virtude muito louvável amar os bons e pacíficos, a não ser que haja uma associação entre essa autonomia e a docilidade em suportar pacientemente os maus. Mas quando uma pessoa se guarda não só de vingar as injúrias que haja recebido, mas também se esforça por vencer o mal pela prática do bem, ela está a manifestar uma das graças da natureza renovada e santificada, e com isso prova a si mesma pertencer ao rol dos filhos de Deus; pois tal mansidão só pode proceder do Espírito de adoção.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

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