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segunda-feira, 13 de julho de 2026

“DÁ OUVIDOS, SENHOR, ÀS MINHAS PALAVRAS”


“DÁ OUVIDOS, SENHOR, ÀS MINHAS PALAVRAS”

“Dá ouvidos, SENHOR, às minhas palavras e acode ao meu gemido. Escuta, Rei meu e Deus meu, a minha voz que clama, pois a ti é que imploro” (Sl 5:1,2).

Atrevo-me, não em termos positivos, determinar ou que Davi, neste Salmo, lamenta as injustiças que sofreu de seus inimigos em alguma ocasião específica, ou que ele se queixa, em termos gerais, das várias perseguições com as quais, por um longo tempo, fora acossado por Saul. Há comentaristas judeus que aplicam o Salmo ainda a Absalão; porque, pela expressão, o sanguinário e fraudulento, acreditam que Doegue e Aitofel ficam em evidência. Para mim, contudo, parece mais provável que, quando Davi, após a morte de Saul, tomou posse do reino pacificamente, ele se dedicou a escrever as orações que constituíam os frutos de suas meditações em suas aflições e perigos. Para chegar às palavras, porém, ele expressa uma mesma coisa de três formas diferentes; e essa repetição denota a força de sua aflição e de sua longa permanência em oração. Pois ele não era tão amigo de muitas palavras que lançasse mão de diferentes formas de expressão sem qualquer significado; sendo, porém, profundamente aferrado à prática da oração, ele representou, por essas várias expressões, a diversidade de suas queixas. Portanto, significa que ele não costumava orar friamente, muito menos a empregar palavras sem nexo; senão que, segundo a veemência de sua tristeza o impelia, ele estava determinado a deplorar suas calamidades diante de Deus; e, visto que o resultado não lhe surgia imediatamente, ele perseverava em repetir as mesmas queixas. Uma vez mais, ele não afirma expressamente o que deseja pedir a Deus; mas há nesse gênero de expressão maior força do que se ele houvera falado distintamente. Ao não expressar os desejos de seu coração, ele revela de forma mais enfática que seus sentimentos íntimos, os quais trouxe consigo à presença de Deus, eram tais que qualquer linguagem que usasse era insuficiente para expressá-los. Da mesma forma, o verbo clamar, que significa alta e sonora articulação da voz, serve para caracterizar a gravidade de seu desejo. Davi não clamou como se fosse aos ouvidos de quem é surdo; senão que a veemência de sua tristeza, bem como o ímpeto de sua angústia interior, jorravam neste clamor. O verbo que o profeta usa aqui, significa tanto falar distintamente quanto sussurrar ou murmurar. O segundo sentido, porém, parece melhor ajustável a esta passagem. Depois de Davi ter dito em termos gerais que Deus ouve suas palavras, imediatamente a seguir, e com o propósito de ser mais específico, ele parece dividi-las em duas espécies, chamando a uma de gemidos obscuros ou indistintos, e à outra de clamor. Pela primeira ele quer dizer um murmúrio confuso, tal como é descrito no Cântico de Ezequias, quando o sofrimento o impedia de falar distintamente e de fazer sua voz audível. “Como a andorinha ou o grou, assim eu chilreava e gemia como a pomba” [Is 38.14]. Se, pois, em alguma ocasião, formos levados a orar relutantemente, ou nossas afeições devotas começarem a perder seu fervor, que encontremos aqui os argumentos para reavivar-nos e impelir-nos para frente. E como, ao chamar Deus, Rei meu e Deus meu, ele tencionava nutrir mais vivas e favoráveis esperanças com respeito aos resultados de suas aflições, aprendamos a aplicar esses títulos a um uso semelhante, isto é, com o propósito de fazer-nos mais familiarizados com Deus. Finalmente, ele testifica que não se atormentava sobriamente, como os incrédulos costumam fazer, mas que direciona a Deus seus gemidos; pois aqueles que, desconsiderando a Deus, quer se amofinem interiormente ou expressem suas murmurações, não são dignos de desfrutar de sua consideração. A última cláusula: Pois a ti é que imploro, é a razão pela qual Davi aponta para o que ele havia dito imediatamente antes, e que seu propósito visava a fortalecer sua confiança em Deus, assumindo o seguinte como um princípio geral: ninguém que invoque a Deus em suas calamidades será repelido por ele.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

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