"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



sexta-feira, 17 de julho de 2026

“COMO PODE UM HOMEM NASCER, SENDO VELHO?”

“COMO PODE UM HOMEM NASCER, SENDO VELHO?”

“Perguntou-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, voltar ao ventre materno e nascer segunda vez? Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus” (Jo 3:4,5).

Ainda que a forma de expressão de Cristo não ocorra expressamente na lei e nos profetas, todavia, como renovação, é mencionada por toda parte na Escritura e constitui um dos princípios primordiais da fé, e se torna óbvio quão imperfeitamente instruídos eram os escribas de então na leitura das Escrituras. Certamente, este homem não era o único negligente em desconhecer a graça da regeneração. O elemento primordial da doutrina da piedade era negligenciado em razão de quase todos eles se acharem preocupados com vãs sutilezas.

Não precisamos sentir-nos perplexos ante o fato de Nicodemos tropeçar numa palha, por assim dizer, pois é uma justa vingança divina que aqueles que pensam de si como sendo os mais excelentes e eminentes mestres, e para quem a simplicidade ordinária da doutrina é algo vil e vulgar assustem-se diante de coisas as mais ínfimas.

“Quem não nascer da água. Esta passagem tem sido explicada de várias formas. Alguns acreditam que aqui se expressam duas partes da regeneração, e que pelo termo água subtende-se a negação do velho homem, enquanto tomam o termo Espírito como sendo a nova vida. Outros pensam que aqui há uma antítese implícita, como se Cristo estivesse contrastando água e Espírito – ou seja, elementos puros e líquidos – com a natureza terrena e animal do homem. Por isso tomam esse dito como sendo de caráter alegórico, a saber, que Cristo estava recomendando a nos despirmos de nossa pesada e insuportável massa de carne e a nos tornarmos como água e ar, a fim de nos movermos para cima ou, pelo menos, não cairmos por terra sob um fardo tão pesado. Mas ambas as opiniões me parecem alheias à intenção de Cristo.

Crisóstomo, com quem a maioria concorda, relaciona o termo água com o batismo. O significado, então, seria que, por meio do batismo, entramos no reino de Deus, porque então o Espírito de Deus nos regenera. Daí surgir a crença na absoluta necessidade do batismo para a esperança da vida eterna. Mas ainda que concordássemos que nesse ponto Cristo está falando do batismo, não devemos forçar suas palavras a ponto de fazê-lo restringir a salvação ao sinal externo. Ao contrário, ele conecta água com o Espírito, porque sob esse sinal visível, ele testifica e sela a novidade de vida, a qual tão somente através de seu Espírito, Deus efetua em nós. É verdade que somos excluídos da salvação se desprezarmos o batismo; e, nesse caso, confesso ser ele necessário. É absurdo, porém, confinar ao sinal a certeza da nossa salvação. No que diz respeito a esta passagem, não posso de forma alguma convencer-me de que Cristo esteja falando do batismo, porquanto isso teria sido inoportuno. E devemos ter sempre em mente o propósito de Cristo, o qual já explicamos como sendo o desejo de impelir Nicodemos à novidade vida, porquanto não seria capaz de receber o evangelho enquanto não começasse a ser um outro homem.

Para sermos filhos de Deus temos que nascer de novo, e que o Espírito Santo é o autor desse segundo nascimento, é, pois uma afirmação única e simples. Pois enquanto Nicodemos sonhava com a regeneração ou transformação ensinada por Pitágoras, que imaginava que as almas, após a morte de seus corpos, entrava em outros corpos, Cristo, para libertá-lo desse erro, acrescenta, à maneira de explicação, que nascer segunda vez não é um evento que sucede naturalmente, e nesse ato ninguém se reveste de um novo corpo, mas nasce enquanto é renovado na mente e coração, mediante a graça do Espírito.

Consequentemente, nosso Senhor emprega as palavras Espírito e água no mesmo sentido, e isso não deve ser tomado como uma interpretação abrupta e forçada. Quando se menciona o Espírito na Escritura, uma forma frequente e comum de expressão é acrescentar a palavra água ou fogo, para expressar seu poder. De vez em quando, ouvimos de Cristo batizando com o Espírito Santo e com fogo, quando fogo não significa algo distinto do Espírito, mas simplesmente mostra a natureza de seu poder em nós.

É uma questão de pouca importância anteceder ele a palavra água. Quer dizer simplesmente que essa frase flui mais facilmente que outra, já que uma afirmação clara e direta segue a metáfora. É como se Cristo dissesse que ninguém será filho de Deus enquanto não for renovado pela água, e que essa água é o Espírito que nos purifica de uma nova forma, e que, mediante seu poder derramado sobre nós, nos comunica a energia de vida celestial, quando, por natureza, somos completamente estéreis. E, com o fim de reprovar a Nicodemos em razão de sua ignorância, Cristo, mui apropriadamente, usa uma forma de linguagem comum na Escritura, pois Nicodemos deve por fim ter reconhecido que o que Cristo dizia fora tomado do ensino ordinário dos profetas.

Pelo termo água, pois, subtende-se simplesmente a purificação e vivificação interior efetuadas pelo Espírito Santo. Tampouco é incomum empregar-se a conjunção e explicitamente, quando a última sentença é uma explicação da primeira. E também o contexto me apoia, pois quando Cristo adiciona imediatamente a razão por que temos que nascer de novo, ele mostra, sem mencionar água, como a novidade de vida que ele requer provém unicamente do Espírito. Por isso se deduz que não se deve separar a água de o Espírito.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

Nenhum comentário:

Postar um comentário