“RABI, SABEMOS QUE ÉS MESTRE VINDO DA PARTE DE DEUS”
“Havia, entre
os fariseus, um homem chamado Nicodemos, um dos principais dos judeus. Este, de
noite, foi ter com Jesus e lhe disse: Rabi, sabemos que és Mestre vindo da
parte de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não
estiver com ele” (Jo 3:1,2).
Estas palavras
equivalem àquela expressão: “Rabi, sabemos que tu vieste como mestre”. Visto,
porém, que os homens eruditos eram então comumente chamados Rabi, Nicodemos primeiro saúda Cristo na
maneira usual, atribuindo-lhe o título ordinário e, subsequentemente, declara
que aquele que exercia o ofício de mestre era enviado de Deus. E deste princípio
depende toda a autoridade dos mestres na igreja. Pois é tão somente da Palavra de
Deus que devemos aprender a sabedoria, e por isso a ninguém mais se deve ouvir
para a salvação senão aqueles por cuja boca Deus fala. E devemos observar que,
embora a religião estivesse profundamente corrompida e quase subvertida entre
os judeus, sempre mantiveram o princípio de que a nenhum homem era lícito
ensinar a menos que o mesmo viesse de Deus. Visto, porém, que ninguém se
vangloria mais arrogante e categoricamente de seu título divino do que os
falsos profetas, eles precisam ser testados pelo espírito de discernimento. Consequentemente,
Nicodemos acrescenta que é indubitável que Cristo tenha sido enviado por Deus,
pois este exibia nele seu poder com tal virtude que não se podia negar que Deus
estava com ele. Ele toma como matéria axiomática que Deus não costuma operar
senão através de seus ministros, para que assim pudesse pôr seu selo sobre o
ofício que lhes confiara. E ele está certo, pois Deus sempre designou os
milagres para que fossem selos de sua doutrina. Ele está também certo em
reconhecer Deus como o único autor dos milagres, quando diz que ninguém pode
fazer tais sinais a não ser que Deus esteja com ele. Equivale dizer que não
eram atos humanos, senão que o poder de Deus reinava e permanecia nitidamente
neles. Numa palavra, os milagres têm duplo resultado: preparar-nos para a fé e
então imprimir maior fortalecimento naquele que tem sido concebido pela Palavra.
E assim Nicodemos apropriou-se corretamente da primeira parte, visto que, à luz
dos milagres, ele reconhece Cristo como um legítimo profeta de Deus.
Não obstante,
isso parece inconclusivo porque, já que os profetas podem enganar os ignorantes
com suas fraudes tão perfeitamente como se estivessem, através de sinais
genuínos, provando ser ministros de Deus, que diferença haverá entre a verdade
e a falsidade, se porventura a fé dependesse de milagres? Aliás, Moisés declara
expressamente, que dessa forma somos testados se de fato amamos a Deus [Dt
13.3]. Conhecemos também a advertência de Cristo, bem como a de Paulo, ou seja,
que os crentes devem precaver-se dos sinais mentirosos pelos quais o Anticristo
ofusca muitos olhos [Mt 22.24]. Minha resposta é que isso é feito pela justa
permissão de Deus, a fim de que os que merecem sejam enganados pela astúcia de
Satanás. Digo, porém, que tal fato não impede que o poder de Deus se manifeste
aos eleitos através de milagres, os quais costumam ser-lhes uma valiosa
confirmação da genuína e sã doutrina. E assim, Paulo se gloria de que seu
apostolado era confirmado por meio de sinais e prodígios [2Co 12.12]. Portanto,
por mais que Satanás tente manter Deus envolto em trevas, contudo, quando os olhos
se abrem e a luz da sabedoria espiritual resplandece, os milagres são atestados
bastante fortes da presença de Deus, conforme Nicodemos aqui declara.
Deus nos
abençoe!
João Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

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