“SE ALGUÉM NÃO NASCER DE NOVO”
“A isto,
respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de
novo, não pode ver o reino de Deus” (Jo 3:3).
Em verdade, em verdade te digo. Cristo
repete a expressão “em verdade” com o intuito de atrair a atenção. Pois quando
está para falar do mais importante e mais sério de todos os temas, realmente
precisava fazer Nicodemos mais atento. De outra forma, ele poderia ouvir todo
este discurso displicente e levianamente. Tal, pois, é o propósito da dupla afirmação.
Ainda que este
discurso pareça um tanto forçado e inoportuno, contudo era o modo mais adequado
de Cristo começar. Pois assim como é inútil semear sementes num solo sem
cultivo, também a doutrina do evangelho será negligentemente desperdiçada a
menos que o ouvinte seja antes despertado devidamente e preparado à obediência
e instrução. Cristo percebeu que a mente de Nicodemos era tão cheia de espinhos
e asfixiada por tantas ervas daninhas, que dificilmente se encontraria ali espaço
para o ensinamento espiritual. A presente exortação era, pois, como uma aradura
a expurgá-lo, afim de que nada impedisse de o ensino frutificar. Portanto,
lembremo-nos de que isso foi expresso a apenas um homem, a fim de que o Filho
de Deus se nos dirija diariamente no mesmo teor. Pois qual de nós se acha tão
isento de afeições corruptas que não necessite de tal purificação? Se, pois,
queremos progredir satisfatória e proveitosamente na escola de Cristo, então
aprendamos a começar daqui.
Se alguém não nascer de novo. Em
outros termos, enquanto lhe faltar a coisa mais importante no reino de Deus,
não creio que você realmente me reconheça como Mestre, pois seu primeiro passo
no reino Deus é converter-se num novo homem. Visto, porém, que esta é uma
passagem tão extraordinária, cada parte dela precisa ser detalhadamente examinada.
Ver o reino de Deus vem a ser o
mesmo que entrar no reino de Deus, como prontamente aparece do contexto. Mas
estão equivocados aqueles que creem que o reino de Deus é o mesmo que o céu.
Antes, é a vida espiritual, cujo ponto de partida é a fé, aqui e agora, e que
diariamente cresce em consonância com o progresso contínuo da mesma fé. O
sentido, portanto, é que ninguém pode realmente unir-se à Igreja e ser
reconhecido entre os filhos de Deus sem que antes seja renovado. Portanto, esse fato mostra de forma sucinta qual é o
princípio da vida cristã.
Ao mesmo
tempo, somos instruídos por essa expressão que desde o nascimento somos
alienados e completamente estranhos ao reino de Deus, como igualmente existe
uma perpétua oposição entre Deus e nós, até que ele nos transforme pela
operação [do Espírito] no segundo nascimento. Pois a afirmação é geral e
compreende toda a raça humana. Se Cristo dissesse a apenas um homem ou a uns
poucos que não poderiam entrar no reino
de Deus, a menos que nasçam de novo, poderíamos supor que isso apontava só
para certa classe de pessoas, mas ele está se referindo a todos sem exceção. Pois a linguagem é ilimitada e contém o mesmo
teor de uma expressão de cunho universal, como: “Todo aquele que não nascer de
novo...”.
Além do mais,
pelo termo nascer de novo ele tem em
mente não a reparação de uma parte, mas a renovação da natureza inteira. Daqui
se deduz que não há em nós absolutamente nada que não seja defectivo, pois se a
reforma é necessária na totalidade, e em cada parte, então a corrupção deve ter
se expandido por toda parte. Falaremos sobre isso de maneira mais plena.
Erasmo, seguindo a opinião de Cirilo, incorretamente traduziu o advérbio como
de cima. Reconheço que em grego o
significado é ambíguo, mas estou ciente de que Cristo falou a Nicodemos em
hebraico. Nesse caso, não teria havido qualquer ambiguidade a confundir
Nicodemos em sua infantil hesitação sobre o nascimento da carne. É por isso que
ele tomou as palavras de Cristo em nenhum outro sentido senão que o homem tem
que nascer segunda vez antes de ser recebido no reino de Deus.
Deus nos
abençoe!
João Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

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