“QUEM INTENTARÁ ACUSAÇÃO CONTRA OS ELEITOS DE DEUS?”
“Quem
intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica” (Rm
8.33).
A primeira e
principal consolação dos santos, nas adversidades, é serem eles persuadidos da
munificência paternal de Deus. Daqui procede tanto a certeza da salvação quanto
a tranquila segurança da alma, pelas quais as adversidades são suavizadas, ou,
pelo menos, a crueza da dor é mitigada. Portanto, dificilmente existe uma
exortação à paciência mais apropriada do que quando entendemos que Deus nos é
propício. E é por isso que o apóstolo Paulo faz dessa confiança o princípio da consolação,
por meio do qual os crentes devem ser fortalecidos contra todos os males. Visto
que a salvação do homem é assaltada, primeiramente por meio de acusações, e em
seguida destruída por meio de condenação. Paulo antes remove o perigo que a
acusação traz, pois só existe um Deus perante cujo tribunal devemos nos pôr.
Portanto, visto que é ele quem nos justifica, então não há lugar para acusação.
Aparentemente, as cláusulas contrastadas não se acham dispostas com exatidão.
As duas partes que Paulo deveria contrastar são: “Quem acusará?” e “é Cristo
quem intercede”. Ele deveria, pois, ter adicionado as outras duas cláusulas: “Quem
nos condenará? É Deus quem justifica”. À absolvição divina corresponde a
condenação, e à defesa de Cristo corresponde a acusação. Mas Paulo tinha razão
para fazer tal transposição, visto que queria armar os filhos de Deus com aquela
sólida confiança que é capaz de guardá-los de quaisquer ansiedades e temores.
Sua conclusão, pois, de que os filhos de Deus não estão sujeitos a acusações,
visto que é Deus quem os justifica, é muito mais enfática do que se dissera que
Cristo é o nosso Advogado; pois, ao proceder assim, ele expressa mais
claramente que a via de acesso para o julgamento é completamente obstruída
quando o juiz pronuncia estar o prisioneiro completamente isento de culpa,
diante dos acusadores que exultariam em vê-lo definitivamente condenado.
O mesmo
argumento se aplica igualmente à segunda cláusula. Paulo nos mostra
que os crentes não mais estão sob o risco de sofrer condenação, visto que
Cristo, ao expiar seus pecados, antecipa o julgamento divino; e, através de sua
intercessão, não só aboliu a morte, mais também lançou nossos pecados ao esquecimento,
de modo que não mais são levados em conta [contra o crente].
A substância
do argumento consiste em que somos não só isentos do terror mediante a
disponibilidade de antídotos, ao chegarmos diante do tribunal divino, mas que
Deus mesmo vem antecipadamente em nosso socorro, a fim de poder munir-nos com
uma confiança muito mais sólida.
Entretanto, é
preciso notar aqui o que temos afirmado sempre, ou seja: que, segundo Paulo,
ser justificado significa ser
considerado justo mediante a absolvição da sentença divina. Não é difícil
provar isto na passagem em apreço, na qual Paulo argui com base em uma só proposição
com o fim de anular a proposição oposta. Absolver e acusar são opostos entre
si. Portanto, Deus não permitirá qualquer acusação que se levante contra nós,
visto que já nos absolveu de toda culpa. O Diabo, certamente, vive a acusar
todos os santos [Ap 12.10]; e a lei de Deus, por sua própria natureza, bem como
a própria consciência humana, igualmente nos reprovam. Todavia, nenhum destes
elementos tem qualquer influência sobre o Juiz que nos justifica. Nenhum
adversário, pois, pode abalar, muito menos destruir, nossa salvação.
Paulo
igualmente faz referência a eles como eleitos, de maneira tal que remove
qualquer dúvida de fazer ele parte de seu número. Ele não possuía tal conhecimento
com base – como caluniam os sofistas – em uma salvação especial, e, sim, com
base naquela percepção comum a todos os santos. Portanto, a afirmação, aqui,
com referência ao eleito pode, segundo o exemplo de Paulo, ser aplicada por
todos os santos a si mesmos. Outrossim, tivesse ele sepultado a eleição no
secreto conselho de Deus, e seria ela uma doutrina não apenas carente de calor,
mas também sem vida. Porém, visto que Paulo, aqui, está deliberadamente
introduzindo algo que todos os santos devem aplicar a si próprios, não há
dúvida de que todos nós somos levados a examinar nossa vocação, a fim de
podermos determinar se de fato somos filhos de Deus.
Deus nos
abençoe!
João Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

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