“BEM-AVENTURADO O HOMEM EM CUJO ESPÍRITO NÃO HÁ FALSIDADE”
“Bem-aventurado
o homem a quem o SENHOR não atribui iniquidade e em cujo espírito não há falsidade”
(Sl 32.2).
Neste versículo
o salmista Davi distingue os crentes tanto dos hipócritas quanto dos insensíveis
desdenhadores de Deus, os quais não se preocupam com esta felicidade nem podem
eles alcançar o desfruto dela. Os perversos são, aliás, conscientes de sua
própria culpa, todavia ainda sentem grande prazer em sua perversidade;
tornam-se empedernidos em sua impudência desenfreada e se riem das ameaças; ou,
pelo menos, se deleitam nas enganosas perspectivas de que jamais poderão ser
impedidos de ter acesso à presença de Deus. Sim, ainda que sejam infelizes pelo
senso de sua miséria e acossados com tormentos secretos, todavia com perversa
insensibilidade reprimem todo o temor de Deus. Quanto aos hipócritas, se sua
consciência, em algum momento, os fustiga, amenizam sua dor com remédios
ineficazes. De modo que, se Deus, em qualquer tempo, os cita a comparecerem
diante de seu tribunal, põem diante de si não sei que espécie de fantasma em
sua defesa; e nunca estão sem coberturas pelas quais afastam a luz de seus
corações. Ambas estas classes de homens são impedidas, pelo doloso coração, de
buscar sua felicidade no paternal amor de Deus. Não só isso, mas a maioria
deles se precipita na presença de Deus, ou se infla com soberba presunção,
sonhando que são felizes, mesmo que Deus seja contra eles. Davi, pois, quer
dizer que ninguém pode experimentar o que é o perdão dos pecados sem que antes
seu coração seja purificado de toda malícia. A intenção de Davi, pois, ao usar
o termo falsidade ou dolo, pode ser entendido à luz do que eu já disse. Quem
não se examina, enquanto na presença de Deus, mas, ao contrário, se esquiva de
seu juízo, quer se oculte nas trevas, quer se cubra de folhas, trata perfidamente
tanto a si próprio quanto a Deus. Não surpreende, pois, que quem não se sente
enfermo recusa o remédio. E difícil uma insensibilidade mais terrível do que
não se deixar dominar pelo temor de Deus e não nutrir a menor solicitude por
sua graça, nem se deixar comover senão por uma fria busca de perdão. Daí
suceder que nem mesmo de leve percebem que inaudita felicidade é tomar posse do
favor divino. Tal foi o caso de Davi por algum tempo, quando uma traiçoeira
segurança aproximou-se sorrateiramente, entenebrecendo sua mente e impedindo-o
de zelosamente aplicar-se a sair no encalço desta felicidade. Os santos, às
vezes, labutam sujeitos à mesma enfermidade. Portanto, se devemos desfrutar da
felicidade que Davi aqui nos propõe, então é preciso que prestemos muita
atenção para que Satanás, enchendo nossos corações de malícia, nos prive de
todo senso de nossa própria miséria, a qual inevitavelmente consumirá todos
quantos recorrem a subterfúgios.
Deus nos
abençoe!
João Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

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