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terça-feira, 28 de julho de 2026

“BEM-AVENTURADO AQUELE CUJA INIQUIDADE É PERDOADA” – Parte 1


“BEM-AVENTURADO AQUELE CUJA INIQUIDADE É PERDOADA” – Parte 1

“Bem-aventurado aquele cuja a iniquidade é perdoada, cujo pecado é coberto” (Sl 32.1).

Esta exclamação flui da ardente afeição do coração do salmista Davi, bem como de séria consideração. Visto que quase o mundo inteiro desvia seus pensamentos do juízo de Deus, geram em si um fatal descaso e se intoxicam com ilusórios prazeres. Davi, sentindo-se dominado pelo temor da ira de Deus e se predispondo a valer-se da misericórdia divina, também desperta outros para o mesmo exercício, declarando distinta e audivelmente que só aqueles que são abençoados é que podem reconciliar-se com Deus, de modo que reconheça como seus filhos aqueles que, com justiça, poderia tratar como seus inimigos. Alguns se fazem tão cegos pela hipocrisia e soberba, e outros por um tão grosseiro menosprezo por Deus, que não se sentem de forma alguma ansiosos em buscar o perdão, embora todos reconheçam que necessitam de perdão; nem existe sequer um homem cuja consciência não o acuse ante o tribunal divino, nem o espicace com muitos espinhos. Esta confissão, por conseguinte, de que todos necessitam de perdão, uma vez que ninguém é perfeito, e que então só estará bem conosco se Deus perdoar nossos pecados, a própria natureza arranca até dos homens mais perversos. Nesse ínterim, porém, a hipocrisia fecha os olhos das multidões, embora outros sejam tão iludidos por uma perversa segurança carnal que não se deixam sensibilizar por qualquer senso da ira divina, nem sequer por um tênue indício dela.

Disto procede um duplo erro: (primeiro) que tais homens fazem pouco de seus pecados, e sequer ponderam sobre a centésima parte do perigo advindo da indignação divina; e, (segundo) que engendram frívolas expiações com o fim de isentar-se da culpa e conquistar o favor divino. E assim, em todas as épocas e em todos os lugares, esta tem sido a opinião prevalecente: embora todos os homens estejam infectados com o pecado, ao mesmo tempo se adornam com méritos cuja intenção é granjear-lhes o favor divino, e que embora provoquem a ira divina, com seus crimes, se munem de expiações e satisfações, com facilidade, para a obtenção de sua absolvição. Toda pessoa, pois, que não se deixa arrebatar pelo engano de Satanás, admitirá a veracidade desta afirmação, ou seja, que os homens se acham num deplorável estado a menos que Deus os trate misericordiosamente, não debitando seus pecados em sua conta. Davi, porém, vai além, declarando que toda a vida do homem está sujeita à ira e maldição divinas, a não ser quando ele se digna, por sua graciosa mercê, recebê-los em seu favor; o que o Espírito falou pelos lábios de Davi é infalível, devidamente intérpretado e testemunhado pelos lábios de Paulo [Rm 4.6], Não houvera Paulo usado este testemunho, jamais seus leitores haveriam penetrado o real sentido do profeta. Com Paulo, porém, esta é a plena definição da justiça da fé; como se o profeta dissesse: Os homens, pois, só serão bem-aventurados depois que forem gratuitamente reconciliados com Deus e reputados por ele como justos. Por conseguinte, a bem-aventuraça que Davi celebra destrói definitivamente a justiça proveniente das obras. Mas, ainda hoje, não são poucos os que não hesitam em impor suas virtudes a Deus, justamente como se houvessem extraído delas grande parte de sua bem-aventurança.

Davi, não obstante, prescreve uma ordem bem diferente, a saber: que ao buscar-se a bem-aventurança, tudo começaria com o princípio de que Deus não pode reconciliar-se com os que são dignos de eterna destruição de algum outro modo além de graciosamente perdoá-los e conceder-lhes seu favor. E com razão declara que, se a misericórdia lhes fosse negada, todos os homens seriam completamente miseráveis e malditos; pois se todos os homens são inerentemente inclinados tão-só para o mal, enquanto não forem regenerados, é óbvio que toda a sua vida pregressa seria odiosa aos olhos de Deus. Além disso, visto que mesmo depois da regeneração nenhuma obra que os homens realizem pode agradar a Deus, a menos que ele perdoe o pecado que se mescla com ela, todos seriam excluídos da esperança de salvação. Que as obras dos santos são indignas de galardão por estarem contaminadas com muitas imundícias, parece ser uma expressão dura demais aos ouvidos de muitos. Nisto, porém, denunciam sua grosseira ignorância ao estimarem, segundo suas concepções pessoais, o juízo de Deus, a cujos olhos o próprio fulgor das estrelas não passa de trevas. Portanto, que isto permaneça como doutrina estabelecida: visto que só seremos considerados justos diante de Deus pela remissão gratuita dos pecados, então esta é a porta da eterna salvação; e, consequentemente, que só serão bem-aventurados aqueles que põem sua confiança na misericórdia de Deus.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

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