“BEM-AVENTURADO AQUELE CUJA INIQUIDADE É PERDOADA” – Parte 1
“Bem-aventurado aquele cuja a iniquidade é perdoada, cujo pecado é coberto” (Sl 32.1).
Esta
exclamação flui da ardente afeição do coração do salmista Davi, bem como de
séria consideração. Visto que quase o mundo inteiro desvia seus pensamentos do
juízo de Deus, geram em si um fatal descaso e se intoxicam com ilusórios
prazeres. Davi, sentindo-se dominado pelo temor da ira de Deus e se
predispondo a valer-se da misericórdia divina, também desperta outros para o
mesmo exercício, declarando distinta e audivelmente que só aqueles que são
abençoados é que podem reconciliar-se com Deus, de modo que reconheça como seus
filhos aqueles que, com justiça, poderia tratar como seus inimigos. Alguns se
fazem tão cegos pela hipocrisia e soberba, e outros por um tão grosseiro
menosprezo por Deus, que não se sentem de forma alguma ansiosos em buscar o
perdão, embora todos reconheçam que necessitam de perdão; nem existe sequer um
homem cuja consciência não o acuse ante o tribunal divino, nem o espicace com
muitos espinhos. Esta confissão, por conseguinte, de que todos necessitam de
perdão, uma vez que ninguém é perfeito, e que então só estará bem conosco se
Deus perdoar nossos pecados, a própria natureza arranca até dos homens mais
perversos. Nesse ínterim, porém, a hipocrisia fecha os olhos das multidões, embora
outros sejam tão iludidos por uma perversa segurança carnal que não se deixam
sensibilizar por qualquer senso da ira divina, nem sequer por um tênue indício dela.
Disto procede
um duplo erro: (primeiro) que tais homens fazem pouco de seus pecados, e sequer
ponderam sobre a centésima parte do perigo advindo da indignação divina; e,
(segundo) que engendram frívolas expiações com o fim de isentar-se da culpa e conquistar
o favor divino. E assim, em todas as épocas e em todos os lugares, esta tem
sido a opinião prevalecente: embora todos os homens estejam infectados com o
pecado, ao mesmo tempo se adornam com méritos cuja intenção é granjear-lhes o
favor divino, e que embora provoquem a ira divina, com seus crimes, se munem de
expiações e satisfações, com facilidade, para a obtenção de sua absolvição. Toda pessoa, pois,
que não se deixa arrebatar pelo engano de Satanás, admitirá a
veracidade desta afirmação, ou seja, que os homens se acham num deplorável
estado a menos que Deus os trate misericordiosamente, não debitando seus
pecados em sua conta. Davi, porém, vai além, declarando que toda a vida do
homem está sujeita à ira e maldição divinas, a não ser quando ele se digna, por
sua graciosa mercê, recebê-los em seu favor; o que o Espírito falou pelos lábios de Davi é infalível, devidamente intérpretado e testemunhado pelos lábios de Paulo [Rm 4.6], Não
houvera Paulo usado este testemunho, jamais seus leitores haveriam penetrado o
real sentido do profeta. Com Paulo, porém, esta é a plena definição da justiça
da fé; como se o profeta dissesse: Os homens, pois, só serão bem-aventurados
depois que forem gratuitamente reconciliados com Deus e reputados por ele como
justos. Por conseguinte, a bem-aventuraça que Davi celebra destrói
definitivamente a justiça proveniente das obras. Mas, ainda hoje, não são
poucos os que não hesitam em impor suas virtudes a Deus, justamente como se
houvessem extraído delas grande parte de sua bem-aventurança.
Davi, não
obstante, prescreve uma ordem bem diferente, a saber: que ao buscar-se a bem-aventurança,
tudo começaria com o princípio de que Deus não pode reconciliar-se com os que
são dignos de eterna destruição de algum outro modo além de graciosamente
perdoá-los e conceder-lhes seu favor. E com razão declara que, se a
misericórdia lhes fosse negada, todos os homens seriam completamente miseráveis
e malditos; pois se todos os homens são inerentemente inclinados tão-só para o
mal, enquanto não forem regenerados, é óbvio que toda a sua vida pregressa
seria odiosa aos olhos de Deus. Além disso, visto que mesmo depois da
regeneração nenhuma obra que os homens realizem pode agradar a Deus, a menos
que ele perdoe o pecado que se mescla com ela, todos seriam excluídos da
esperança de salvação. Que as obras dos santos são indignas de galardão por estarem
contaminadas com muitas imundícias, parece ser uma expressão dura demais aos
ouvidos de muitos. Nisto, porém, denunciam sua grosseira ignorância ao
estimarem, segundo suas concepções pessoais, o juízo de Deus, a cujos olhos o
próprio fulgor das estrelas não passa de trevas. Portanto, que isto permaneça
como doutrina estabelecida: visto que só seremos considerados justos diante de
Deus pela remissão gratuita dos pecados, então esta é a porta da eterna
salvação; e, consequentemente, que só serão bem-aventurados aqueles que põem
sua confiança na misericórdia de Deus.
Deus nos
abençoe!
João Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

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