“DEUS ENVIOU O SEU FILHO AO MUNDO, NÃO PARA QUE JULGASSE O MUNDO”
“Porquanto
Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o
mundo fosse salvo por ele” (Jo 3:17).
Aqui temos uma
confirmação da afirmação precedente, porque não foi em vão que Deus enviou seu
próprio Filho em nosso favor [Jo 3.16]. Ele não veio com o fim de destruir, e,
por isso, segue-se ser o ofício peculiar do Filho de Deus que todo aquele que nele crê obtenha a
salvação por meio dele. Agora não a razão por que uma pessoa viva em estado de
hesitação ou angustiante ansiedade quanto à maneira pela qual pode escapar da
morte, ao crer que era propósito de Deus que Cristo nos livrasse dela. A
palavra mundo é uma vez mais
reiterada, a fim de quem ninguém pense que foi totalmente excluído, se tão
somente conservar-se na vereda da fé.
A palavra julgar é aqui posta em lugar de
condenar, como é o caso em muitas outras passagens. Ao declarar que não veio
para condenar o mundo, ele assim realça o desígnio real de sua vinda, pois que necessidade
havia para Cristo vir com o fim de destruir-nos, nós que estávamos
completamente arruinados? Não devemos, pois, buscar em Cristo algo mais além do
fato de que Deus, de sua infinita bondade, quis estender seu auxílio para
salvar-nos, a nós que estávamos perdidos. E sempre que nossos pecados nos
oprimam – sempre que Satanás nos conduza ao desespero –, devemos correr para
este refúgio, a saber: que Deus não deseja que sejamos esmagados por perene
destruição, visto que ele designara seu Filho para ser o Salvador do mundo.
Quando em
outras passagens Cristo diz que veio para
julgar [Jo 9.39]. Quando ele é denominado de pedra de escândalo [1Pe 2.7] e quando lemos ser ele posto para destruição de muitos [Lc 2.34],
isso pode ser considerado como provindo de uma causa distinta, porquanto aquele
que rejeita a graça que lhe é oferecida merece encontrar nele o Juiz e Vingador
de um desdém tão indigno e vil.
Um notável
exemplo disso pode ser visto no evangelho, pois ainda que ele seja estritamente
o poder de Deus para a salvação de todo
aquele que nele crê [Rm 1.16], a ingratidão de muitos o converte em morte
para os mesmos. Ambas as coisas foram bem expressas por Paulo, quando ele vingar toda desobediência, quando
for cumprida vossa obediência [2Co 10.6]. O significado equivale a isto:
que o evangelho é especialmente, e em primeira instância, designado para os
crentes, a fim de que a salvação lhes pertença, mas que, depois, os descrentes
não escaparão impunes, caso desprezem a graça de Cristo e decidam tê-lo como o Autor
da morte, em vez de o Autor da vida.
Deus nos
abençoe!
João Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

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