“DEUS MEU, DEUS MEU, POR QUE ME DESAMPARASTE?” - parte 2
“Deus meu, Deus
meu, por que me desamparaste? Por que estás afastado de me auxiliar, e das
palavras do meu bramido?” (Sl 22.1).
Vimos, pois, a
fonte da qual procedeu esta exclamação: Deus meu! Deus meu!, e da qual
também procedeu a queixa que se segue imediatamente: Por que me desamparaste?
Enquanto a veemência da tristeza e a enfermidade da carne arrancavam do
salmista estas palavras: Estou desamparado de Deu?, a fé,
para que ele, ao ser tão severamente provado, não mergulhasse em desespero, põe
em seus lábios a correção dessa linguagem, para que ousadamente invocasse a
Deus, como seu Deus, de quem cria estar desamparado. Sim, descobrimos que ele
tem dado à fé a preeminência. Antes de se permitir expressar sua queixa, a fim
de dar à fé a prioridade, ele antes declara que ainda clamava a Deus como seu
Deus pessoal e recorria a ele como seu refúgio. E visto que os afetos da carne,
uma vez dando vazão ao seu impulso, não são facilmente reprimidos, ao contrário
nos impelem para além dos limites da razão, por isso é aconselhável que os
reprimamos desde o começo. Davi, pois, observou a melhor ordem possível ao dar
à fé a precedência — expressando-a antes de dar vazão à sua dor, e modificando,
por meio de uma devota oração, a queixa que mais adiante faz com respeito à
ampla extensão de suas calamidades. Houvera ele expresso simples e precisamente
nesses termos: SENHOR, por que me desamparaste?, e pareceria, através de uma
queixa tão amarga, ter murmurado contra Deus; e, além disso, sua mente correria
um imenso risco de exasperar-se em razão do descontentamento movido pela
intensidade de sua tristeza. Mas ao erguer contra a murmuração e o descontentamento
a trincheira da fé, ele mantém todos os seus pensamentos e sentimentos
reprimidos, a fim de que não ultrapassassem os devidos limites. Tampouco é
supérflua a dupla reiteração ao chamar Deus de Deus meu; e, logo depois, ele
ainda repete as mesmas palavras pela terceira vez. Quando parecer que Deus
lançou de si toda preocupação por nossa segurança, ignorando nossas misérias e
gemidos como se não os percebesse, o conflito com essa espécie de tentação é
árduo e penoso; por isso Davi se esforça o máximo que pode em buscar a
confirmação de sua fé. A fé não logra vitória logo no primeiro encontro, mas
depois de ser alvo de muitos dardos; e depois de ser exercitada com muitas
sacudidelas, ela por fim se sai vitoriosa.
Deus nos abençoe!
João Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.

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