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domingo, 1 de março de 2026

“A LEI DO SENHOR É PERFEITA”


“A LEI DO SENHOR É PERFEITA”

A lei do SENHOR é perfeita e restaura a alma; o testemunho do SENHOR é fiel e dá sabedoria aos símplices” (Sl 19.7).

A primeira recomendação da lei de Deus consiste em que ela é perfeita. Com essa palavra o salmista Davi quer dizer que, se uma pessoa é devidamente instruída na lei de Deus, ela não carece de nada que seja indispensável à perfeita sabedoria. Não há dúvida de que nos escritos dos autores pagãos se encontrarão algumas frases verdadeiras e úteis espalhadas aqui e ali; e é igualmente verdade que Deus tem posto nas mentes humanas algum conhecimento de justiça e retidão; em consequência, porém, devido à corrupção de nossa natureza, a genuína luz da verdade não será encontrada entre os homens em quem a revelação não é desfrutada, mas apenas certos princípios mutilados que se encontram envolvidos por muita obscuridade e dúvida. Davi, pois, com razão reivindica esse louvor para a lei de Deus, ou seja, que nela há perfeita e absoluta sabedoria.

Quanto a restauração da alma, de que ele fala imediatamente a seguir, que sem dúvida subentende sua conversão, não sinto qualquer dificuldade em assim traduzi-la. Há alguns que arrazoam com demasiada sutileza sobre esta expressão, explicando- a como se referindo ao arrependimento e regeneração do homem. Admito que a alma não pode ser restaurada pela lei de Deus, sem ser ao mesmo tempo renovada para a justiça; mas devemos considerar qual o significado próprio de Davi, que é o seguinte: visto que a alma transmite vigor e energia ao corpo, assim a lei semelhantemente é a vida da alma. Ao dizer que a alma é restaurada, ele faz alusão ao miserável estado em que todos nós nascemos. Indubitavelmente, ainda sobrevivem em nós alguns resquícios da primeira criação; visto, porém, que nenhuma parte de nossa constituição está isenta de contaminação e impureza, a condição da alma, assim corrompida e depravada, difere muito da morte e se inclina totalmente para a morte. Portanto, necessário se faz que Deus empregue a lei como antídoto para restaurar-nos à pureza. Não que a letra da lei possa por si só fazer isso, como será subsequentemente demonstrado mais extensamente, mas porque Deus emprega sua palavra como instrumento para a restauração de nossas almas.

Quando o salmista declara: O testemunho do SENHOR é fiel, é uma repetição da frase precedente, de modo que a integridade ou perfeição da lei e a fé plenária ou verdade de seu testemunho, significam a mesma coisa; isto é, que quando nos entregamos para sermos guiados e governados pela palavra de Deus, não corremos nenhum risco de desviar-nos, visto que esta é a vereda pela qual ele seguramente guia seu próprio povo à salvação. Instrução em sabedoria parece, aqui, ser adicionada como o princípio da restauração da alma. O entendimento é o dote mui excelente da alma; e Davi nos ensina que ele se deriva da lei, pois somos naturalmente destituídos dele. Pela palavra símplices, ele não deve ser interpretado como a indicar alguma classe particular de pessoas, como se outros fossem suficientemente e por si mesmos sábios; mas com isso ele nos ensina, em primeiro lugar, que ninguém é dotado com o reto entendimento enquanto não fizer progresso no estudo da lei. Em segundo lugar, ele mostra com isso que gênero de estudantes Deus requer, a saber, aqueles que consideram a si próprios como estultos [1Co 3.18] e que descem à categoria de criancinhas, para que a indolência de seu próprio entendimento não os impeça de dedicar-se, com um espírito de total docilidade, ao estudo da palavra de Deus.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.

“A LEI DO SENHOR”


“A LEI DO SENHOR”

A lei do SENHOR é perfeita e restaura a alma; o testemunho do SENHOR é fiel e dá sabedoria aos símplices” (Sl 19.7).

Depois de haver mostrado que as criaturas, ainda que não falem, não obstante servem como instrutoras a todo o gênero humano, e ensinam a todos os homens tão claramente que existe um Deus, que os deixam inescusáveis, o salmista Davi agora se volve para os judeus, a quem Deus havia comunicado um conhecimento mais pleno de si mesmo por meio de sua palavra. Enquanto os céus dão testemunho acerca de Deus, seu testemunho não guia os homens ao ponto de, por meio deles, aprenderem a temê-lo realmente e adquirirem um sólido conhecimento dele. Tal testemunho só serve para deixá-los indesculpáveis. É realmente verdade que, se não fôssemos tão obtusos e estúpidos, as assinaturas e provas da Deidade que se encontram na criação são suficientemente abundantes para incitar-nos ao reconhecimento e reverência de Deus; mas visto que, embora circundados com uma luz tão vívida, somos, não obstante, cegos, essa esplêndida representação da glória de Deus, sem o auxílio da palavra, de nada nos aproveitaria, ainda que ela seja para nós uma audível e distinta proclamação a soar em nossos ouvidos. Consequentemente, Deus se digna conceder graça especial àqueles a quem determinou chamar para a salvação, justamente como nos tempos antigos, enquanto concedia a todos os homens, sem exceção, evidências de sua existência, em suas obras, ele comunicava sua lei exclusivamente aos filhos de Abraão, para, por esse meio, dotá-los de um conhecimento mais definido e íntimo de sua majestade. Donde se segue que os judeus estão atados a uma dupla obrigação de servir a Deus. Visto que os gentios, a quem Deus falou somente pelas mudas criaturas, não têm justificativa de sua ignorância, quanto menos tolerável será a negligência de quem ouve a voz que procede de seus próprios lábios sacros! O propósito, pois, que Davi, aqui, tem em vista consiste em incitar os judeus, a quem Deus uniu a si por um laço muito mais sagrado, a prestar-lhe obediência com uma afeição muito mais espontânea e alegre. Além do mais, sob o termo lei ele não só significa a regra de um viver íntegro, ou os Dez Mandamentos, mas também compreende o pacto pelo qual Deus distinguira aquele povo do resto do mundo, bem como toda a doutrina de Moisés as partes que subsequentemente enumera sob os termos testemunhos, estatutos e outros títulos. Esses títulos e recomendações, pelos quais ele enaltece a dignidade e excelência da Lei, não se coadunariam só com os Dez Mandamentos, a menos que houvesse, ao mesmo tempo, associadas a eles a gratuita adoção e as promessas das quais ela depende; e, em suma, todo o corpo de doutrina do qual a verdadeira religião e a autêntica piedade consistem.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.