“A LEI DO SENHOR”
A lei do SENHOR é
perfeita e restaura a alma; o testemunho do SENHOR é fiel e dá sabedoria aos
símplices” (Sl 19.7).
Depois de
haver mostrado que as criaturas, ainda que não falem, não obstante servem como
instrutoras a todo o gênero humano, e ensinam a todos os homens tão claramente
que existe um Deus, que os deixam inescusáveis, o salmista Davi agora se volve para
os judeus, a quem Deus havia comunicado um conhecimento mais pleno de si mesmo
por meio de sua palavra. Enquanto os céus dão testemunho acerca de Deus, seu
testemunho não guia os homens ao ponto de, por meio deles, aprenderem a temê-lo
realmente e adquirirem um sólido conhecimento dele. Tal testemunho só serve
para deixá-los indesculpáveis. É realmente verdade que, se não fôssemos tão
obtusos e estúpidos, as assinaturas e provas da Deidade que se encontram na
criação são suficientemente abundantes para incitar-nos ao reconhecimento e
reverência de Deus; mas visto que, embora circundados com uma luz tão vívida,
somos, não obstante, cegos, essa esplêndida representação da glória de Deus,
sem o auxílio da palavra, de nada nos aproveitaria, ainda que ela seja para nós
uma audível e distinta proclamação a soar em nossos ouvidos. Consequentemente,
Deus se digna conceder graça especial àqueles a quem determinou chamar para a
salvação, justamente como nos tempos antigos, enquanto concedia a todos os
homens, sem exceção, evidências de sua existência, em suas obras, ele
comunicava sua lei exclusivamente aos filhos de Abraão, para, por esse meio,
dotá-los de um conhecimento mais definido e íntimo de sua majestade. Donde se
segue que os judeus estão atados a uma dupla obrigação de servir a Deus. Visto
que os gentios, a quem Deus falou somente pelas mudas criaturas, não têm
justificativa de sua ignorância, quanto menos tolerável será a negligência de
quem ouve a voz que procede de seus próprios lábios sacros! O propósito, pois,
que Davi, aqui, tem em vista consiste em incitar os judeus, a quem Deus uniu a
si por um laço muito mais sagrado, a prestar-lhe obediência com uma afeição
muito mais espontânea e alegre. Além do mais, sob o termo lei ele não só
significa a regra de um viver íntegro, ou os Dez Mandamentos, mas também
compreende o pacto pelo qual Deus distinguira aquele povo do resto do mundo,
bem como toda a doutrina de Moisés as partes que subsequentemente enumera sob
os termos testemunhos, estatutos e
outros títulos. Esses títulos e recomendações, pelos quais ele enaltece a dignidade
e excelência da Lei, não se coadunariam só com os Dez Mandamentos, a menos que
houvesse, ao mesmo tempo, associadas a eles a gratuita adoção e as promessas
das quais ela depende; e, em suma, todo o corpo de doutrina do qual a
verdadeira religião e a autêntica piedade consistem.
Deus nos
abençoe!
João
Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.

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