“FOI ELE QUEM NOS FEZ”
“Sabei que o SENHOR
é Deus; foi ele quem nos fez, e dele somos; somos o seu povo e rebanho do seu
pastoreio” (Sl 100:3).
Dizer que Deus
nos fez é uma verdade geralmente bem reconhecida; porém não é comum atentar
para a ingratidão tão natural entre os homens, de que raramente um entre uma
centena seriamente reconhece que ele mantém sua existência como Deus, embora,
quando quase não é expressa, não negam que foram criados a partir do nada;
todavia, cada um faz de si mesmo um deus e virtualmente se adora, quando
atribui a seu próprio poder o que Deus declara pertencer-lhe exclusivamente.
Além do mais, é preciso ter em mente que o salmista aqui não está falando da
criação em geral, mas daquela regeneração
espiritual por meio da qual ele cria de novo sua imagem em seus eleitos. Os
crentes são as pessoas sobre quem o salmista aqui declara ser obra da mão de
Deus, não que fossem feitos homens no ventre de sua própria mãe, porém no
sentido que Paulo expressa em Efésios 2.10, chamando-os feitura de Deus, porque são criados para as boas obras as quais de
antemão Deus preparou para que andassem nelas. E de fato isso concorda
melhor com o contexto subsequente. Pois quando ele diz: Somos seu povo e rebanho do seu pastoreio, evidentemente a
referência é àquela graça inusitada que levou Deus a separar seus filhos como
sua herança, a fim de que pudesse, por assim dizer, alimentá-los debaixo de
suas asas, o que é um privilégio muito mais excelente do que ser meramente
nascidos como seres humanos. Qualquer pessoa estaria, porventura, disposta a
vangloriar-se de ter sido transformada em um novo ser, sem sentir aversão ante
a vil tentativa de roubar a Deus daquilo que lhe pertence? Nem devemos atribuir
esse nascimento espiritual a nossos pais terrenos, como se por seu próprio
poder nos gerassem: pois o que poderia produzir uma semente corrompida? Não
obstante, a maioria dos homens não hesita reivindicar para si todo o louvor da
vida espiritual. O que mais querem declarar os arautos do livre-arbítrio, senão
dizer-nos que, por nosso próprio empenho, nós mesmos, filhos de Adão, nos
tornamos filhos de Deus? Em oposição a isso o profeta, ao chamar-nos povo de
Deus, nos informa que provém de sua própria boa vontade o fato de sermos
espiritualmente regenerados. E ao denominar-nos ovelhas do seu pastoreio, ele
nos dá a conhecer que, através da mesma graça que uma vez nos foi comunicada,
continuamos a salvos e intocáveis até o fim.
Deus nos
abençoe!
João
Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.

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