“QUE É ISSO QUE NOS FIZESTE?”
“Disse
Abimeleque: Que é isso que nos fizeste? Facilmente algum do povo teria abusado
de tua mulher, e tu, atraído sobre nós grave delito” (Gn 26:10).
O Senhor não
castiga Isaque como merecia, talvez porque ele não fosse completamente dotado
de paciência como o fora seu pai; e, portanto, para que a apreensão de sua
esposa não o desanimasse, Deus misericordiosamente a previne. Entretanto, para
que a censura produzisse uma vergonha mais profunda, Deus constitui um pagão
como seu mestre e seu reprovador. Podemos acrescentar que Abimeleque reprova
sua estultícia não tanto com a intenção de injuriá-lo quanto de repreendê-lo.
Entretanto, teria ferido profundamente a alma do santo homem, quando percebeu
que sua ofensa era repulsiva ao juízo, inclusive dos cegos.
Portanto,
recordemos bem que devemos andar na luz que Deus nos tem acendido, para que até
mesmo os incrédulos, que vivem envolto pelas trevas da ignorância, não reprovem
nosso entorpecimento. E, certamente, quando negligenciamos a obediência à voz
de Deus, merecemos ser enviados aos bois e aos asnos para deles recebermos
instrução. Na verdade, Abimeleque não investiga nem perscruta toda ofensa de
Isaque, mas apenas menciona uma parte dela. Isaque, porém, quando assim
brandamente admoestado por uma única palavra, deveria ter condenado a si mesmo,
visto que, em vez de confiar a si mesmo e a sua esposa aos cuidados de Deus, o
qual prometeu ser o guardião de ambos, recorreu, por sua própria incredulidade,
a uma solução ilícita. Pois a fé tem a seguinte característica: ela nos mantém
dentro dos limites divinamente prescritos, para que nada tentemos, exceto com a
autoridade ou permissão de Deus. Consequentemente, a fé de Isaque oscilou
quando se afastou de seu dever de marido.
Além disso, das
palavras de Abimeleque, deduzimos que todas as nações têm inscrito em sua mente
o senso de que a violação do santo matrimônio é um crime digno da vingança
divina e, consequentemente, traz em si o medo do juízo divino. Pois embora a
mente dos homens seja obscurecida por densas nuvens, de modo que são
frequentemente enganadas, Deus tem feito com que permaneça algum poder de
distinção entre o certo e o errado, de modo que cada um suporte a sua própria
condenação, e que todos sejam considerados indesculpáveis. Se, pois, Deus
intima inclusive os incrédulos ao seu tribunal, e não permite que escapem à
justa condenação, quão horrível é aquela punição que nos aguarda, se tentarmos
extirpar, por nossa própria fraqueza, aquele conhecimento que Deus gravou em
nossa própria consciência.
Deus nos abençoe!
João
Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.

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