“OLHANDO DA JANELA”
“Ora, tendo
Isaque permanecido ali por muito tempo, Abimeleque, rei dos filisteus, olhando
da janela, viu que Isaque acariciava a Rebeca, sua mulher. Então, Abimeleque
chamou a Isaque e lhe disse: É evidente que ela é tua esposa; como, pois,
disseste: É minha irmã? Respondeu-lhe Isaque: Porque eu dizia: para que eu não
morra por causa dela” (Gn 26:8,9).
De fato, a
paciência de Deus é admirável, não apenas porque perdoa de modo condescendente
o duplo erro de seu servo, mas também porque estende sua mão e evita de modo
maravilhoso, pela aplicação de um remédio imediato, o mal que ele traria sobre
si mesmo. Deus não permitiu – o que duas vezes ocorrera a Abraão – que sua esposa
fosse arrancada de seus braços; porém, instigou a um rei pagão para corrigir,
com brandura e sem causar-lhe qualquer tribulação, sua insensatez. Mas, embora
Deus ponha diante dos nossos olhos tal exemplo de sua bondade, para que os
fiéis, se em algum tempo porventura venha a cair, possam esperar confiantemente
encontrar-se com um Deus amável e propício, contudo, devemos nos precaver da
autoconfiança, quando observamos que a santa mulher, que naquele momento era a
única mãe da Igreja sobre a terra, estava isenta de desonra por um privilégio
especial. Entretanto, podemos presumir, com base no julgamento de Abimeleque,
quão santa e pura havia sido a conduta de Isaque, em quem não podia recair
sequer uma suspeita de mal; e, além disso, quão maior integridade florescia
naquele tempo do que no nosso. Pois, por que ele não condenou a Isaque como
culpado de fornicação, visto ser provável que algum crime se insinuava, quando,
negou que ela era sua esposa? E por isso não tenho dúvida de que a religião de
Isaque e a integridade de sua vida, eram suficientes para defender seu caráter.
Por esse exemplo,
somos ensinados a cultivar de tal modo a retidão ao longo de toda nossa vida,
que os homens não sejam capazes de suspeitar algo perverso e desonroso de nossa
parte, pois não há nada que nos vindique mais completamente do estigma de
infâmia do que uma vida vivida com modéstia e temperança. Entretanto, devemos
acrescentar o que eu já mencionei anteriormente: que naquele tempo as
concupiscências não eram tão comuns e tão profundamente fomentadas, a ponto de
uma suspeita desfavorável surgir na mente do rei no tocante a um peregrino de
caráter honesto. Portanto, ele facilmente se convence de que Rebeca era esposa,
e não prostituta. O senso de castidade daquela época se evidencia ainda mais
com base nisto: que Abimeleque toma a familiaridade afetiva de Isaque com
Rebeca como uma evidência de sua vida conjugal. Pois Moisés não fala sobre
relação conjugal, mas sobre algumas atitudes que eram demasiadamente íntimas,
que eram uma prova ou de licenciosidade dissoluta ou de amor conjugal. Hoje,
porém, a licenciosidade avançou tanto para além de todos os limites, que o
marido é obrigado a ouvir em silêncio sobre a conduta dissoluta da esposa com
estranhos.
Deus nos
abençoe!
João
Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.

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