“A LEI DO SENHOR É PERFEITA”
A lei do SENHOR é
perfeita e restaura a alma; o testemunho do SENHOR é fiel e dá sabedoria aos
símplices” (Sl 19.7).
A primeira
recomendação da lei de Deus consiste em que ela é perfeita. Com essa palavra o
salmista Davi quer dizer que, se uma pessoa é devidamente instruída na lei de
Deus, ela não carece de nada que seja indispensável à perfeita sabedoria. Não
há dúvida de que nos escritos dos autores pagãos se encontrarão algumas frases
verdadeiras e úteis espalhadas aqui e ali; e é igualmente verdade que Deus tem
posto nas mentes humanas algum conhecimento de justiça e retidão; em consequência,
porém, devido à corrupção de nossa natureza, a genuína luz da verdade não será
encontrada entre os homens em quem a revelação não é desfrutada, mas apenas
certos princípios mutilados que se encontram envolvidos por muita obscuridade e
dúvida. Davi, pois, com razão reivindica esse louvor para a lei de Deus, ou
seja, que nela há perfeita e absoluta sabedoria.
Quanto a restauração da alma, de que
ele fala imediatamente a seguir, que sem dúvida subentende sua conversão, não
sinto qualquer dificuldade em assim traduzi-la. Há alguns que arrazoam com
demasiada sutileza sobre esta expressão, explicando- a como se referindo ao
arrependimento e regeneração do homem. Admito que a alma não pode ser
restaurada pela lei de Deus, sem ser ao mesmo tempo renovada para a justiça;
mas devemos considerar qual o significado próprio de Davi, que é o seguinte:
visto que a alma transmite vigor e energia ao corpo, assim a lei
semelhantemente é a vida da alma. Ao dizer que a alma é restaurada, ele faz
alusão ao miserável estado em que todos nós nascemos. Indubitavelmente, ainda
sobrevivem em nós alguns resquícios da primeira criação; visto, porém, que
nenhuma parte de nossa constituição está isenta de contaminação e impureza, a
condição da alma, assim corrompida e depravada, difere muito da morte e se
inclina totalmente para a morte. Portanto, necessário se faz que Deus empregue
a lei como antídoto para restaurar-nos à pureza. Não que a letra da lei possa
por si só fazer isso, como será subsequentemente demonstrado mais extensamente,
mas porque Deus emprega sua palavra como instrumento para a restauração de
nossas almas.
Quando o
salmista declara: O testemunho do SENHOR é fiel, é uma repetição da frase
precedente, de modo que a integridade ou perfeição da lei e a fé plenária ou
verdade de seu testemunho, significam a mesma coisa; isto é, que quando nos
entregamos para sermos guiados e governados pela palavra de Deus, não corremos
nenhum risco de desviar-nos, visto que esta é a vereda pela qual ele
seguramente guia seu próprio povo à salvação. Instrução em sabedoria parece,
aqui, ser adicionada como o princípio da restauração da alma. O entendimento é
o dote mui excelente da alma; e Davi nos ensina que ele se deriva da lei, pois
somos naturalmente destituídos dele. Pela palavra símplices, ele não deve ser interpretado como a indicar alguma
classe particular de pessoas, como se outros fossem suficientemente e por si
mesmos sábios; mas com isso ele nos ensina, em primeiro lugar, que ninguém é
dotado com o reto entendimento enquanto não fizer progresso no estudo da lei.
Em segundo lugar, ele mostra com isso que gênero de estudantes Deus requer, a
saber, aqueles que consideram a si próprios como estultos [1Co 3.18] e que
descem à categoria de criancinhas, para que a indolência de seu próprio
entendimento não os impeça de dedicar-se, com um espírito de total docilidade,
ao estudo da palavra de Deus.
Deus nos
abençoe!
João
Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.

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