“JURA QUE NÃO NOS FARÁS MAL”
“Jura que não nos
farás mal, como também não te havemos tocado, e como te fizemos somente o bem,
e te deixamos ir em paz. Tu és agora o abençoado do SENHOR” (Gn 26:29).
Uma consciência
acusadora os leva a desejarem manter Isaque obrigado diante deles e, por isso,
exigem dele um juramento de que não os ferirá. Pois sabiam que Isaque poderia
vingar-se com justiça pelos sofrimentos que suportara; mas eles dissimulam
e inclusive se vangloriam de seus próprios atos de bondade. De fato, a
princípio, a benevolência do rei foi algo notável, pois não só entreteve Isaque
com hospitalidade, mas o tratou com peculiar honra; entretanto, não manteve
essa atitude até o fim. Mas de acordo com o costume dos homens, eles dissimulam
seus erros utilizando-se de todos os artifícios e meios que possam inventar.
Mas, caso tenhamos cometido alguma ofensa, devemos antes confessar sinceramente
nosso erro, em vez de negá-lo, para que não fira mais profundamente a mente
daqueles a quem temos ofendido. Entretanto, Isaque, visto que já havia ferido
suficientemente a consciência deles, não os pressiona mais. Pois os estranhos
não devem ser tratados por nós como familiares, porém, se não tirarem proveito,
que sejam deixados ao juízo de Deus. Portanto, embora Isaque não arrancasse
deles uma confissão justa, para que não pensassem que Isaque nutria alguma
hostilidade contra eles, não se recusa a fazer uma aliança com eles. Assim
aprendemos de seu exemplo que, se porventura alguém se afastar de nós, que não
seja rejeitado caso nos ofereça outra vez sua amizade. Pois se somos ordenados
a seguir a paz, mesmo quando ela parece fugir de nós, então não devemos nos
esquivar quando nossos inimigos voluntariamente buscarem reconciliação;
especialmente se houver alguma esperança de uma reconciliação futura, embora o verdadeiro
arrependimento ainda não seja visível. E Isaque lhes oferece uma festa, não
apenas para promover a paz, mas também com o intuito de mostrar que ele,
esquecendo-se de toda ofensa, se torna amigo deles.
Tu és agora o abençoado do SENHOR. Normalmente essa expressão é explicada no sentido de que eles
buscavam o favor de Isaque com bajulações, exatamente como algumas pessoas
costumam bajular quando querem um favor; no entanto, eu, ao contrário, creio
que essa expressão foi acrescentada em um sentido diferente. Isaque havia se
queixado das injúrias deles por haverem-no expulsado por inveja; eles respondem
que não havia razão para que restasse a menor sombra de pesar na mente de Isaque,
visto que o Senhor o tratara de modo tão bondoso e precisamente conforme seu
próprio desejo, como se quisessem dizer: “o que ainda queres? Não te contentas
com o teu atual êxito? Admitimos que não temos cumprido com o dever de
hospitalidade para contigo; contudo a bênção de Deus é abundantemente suficiente
para apagar a lembrança daquele tempo”. Mas, talvez, por essas palavras, eles novamente
estejam dizendo que estão agindo de boa-fé para com ele, porque ele está sob a
proteção de Deus.
Deus nos abençoe!
João
Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.
