“AQUELE QUE ME AMA SERÁ AMADO POR MEU PAI”
“Aquele que tem
os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será
amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele” (Joo 14:21).
Cristo uma vez
mais reitera a afirmação anterior [v.15], a saber: que a prova indubitável de
nosso amor para com ele está em guardarmos seus mandamentos; e a razão por que
ele lembra os discípulos tantas vezes deste fato é para que não se desviem desse objetivo;
pois nada existe a que mais nos inclinamos do que resvalar-nos para a afeição
carnal, ao ponto de amarmos algo mais do que a Cristo sob o nome de Cristo. Tal
é também a importância daquele dito de Paulo: “Ainda que tenhamos conhecido a
Cristo segundo a carne, contudo doravante não mais o conhecemos dessa forma.
Portanto, sejamos nova criatura” [2Co 5.16,17]. Ter seus mandamentos
significa ser propriamente instruído neles; e guardar seus mandamentos
significa conformarmos, a nós e nossa vida, a sua norma.
E aquele que me ama será amado por meu Pai. Cristo fala como se os homens amassem a Deus antes de serem
amados por ele, o que seria um absurdo, porque, quando éramos inimigos, ele [Cristo] nos reconciliou com ele [o Pai] [Rm 5.10]. E as palavras de João são bem conhecidas. Não que o tenhamos amado primeiro, mas que ele antes nos amou [1Jo
4.10]. Aqui, porém, não há debate sobre causa e efeito; e por isso não há base
para que a inferência de que o amor com que amamos a Cristo em ordem venha
antes do amor que Deus tem por nós; pois Cristo apenas quer dizer que todos
quantos o amarem serão felizes,
porque também serão amados por ele e pelo
Pai; não que Deus então começa a amá-los,
mas porque tem um testemunho de seu amor para com eles, como Pai, esculpido em
seus corações. Com o mesmo propósito é a sentença que segue imediatamente.
E me manifestarei a ele. Indubitavelmente,
o conhecimento vem antes do amor, mas a intenção de Cristo era esta: “Outorgarei
aos que observarem minha doutrina com pureza que façam progresso na fé dia a
dia”, isto é, “Farei com que se aproximem mais e mais familiarmente de mim”.
Daí se infere que o fruto da piedade é o progresso no conhecimento de Cristo,
pois aquele que promete que se dará ao que a tem rejeita os hipócritas e leva
todos a fazerem progresso na fé, aos que, cordialmente abraçando a doutrina do
evangelho, se conduzem inteiramente em obediência a ela. E esta é a razão por
que muitos retrocedem e por que raramente vemos um em dez prosseguindo avante
em seu curso reto, pois a maioria não merece que ele se lhes manifeste. Devemos observar ainda que mui abundante
conhecimento de Cristo é aqui representado como uma extraordinária recompensa
de nosso amor a Cristo; e daí se segue que este é um inestimável tesouro.
Deus nos
abençoe!
João
Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.

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