“COMO PODE UM
HOMEM NASCER, SENDO VELHO?”
“Perguntou-lhe
Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, voltar ao
ventre materno e nascer segunda vez? Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te
digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus” (Jo
3:4,5).
Ainda que a
forma de expressão de Cristo não ocorra expressamente na lei e nos profetas,
todavia, como renovação, é mencionada por toda parte na Escritura e constitui
um dos princípios primordiais da fé, e se torna óbvio quão imperfeitamente
instruídos eram os escribas de então na leitura das Escrituras. Certamente, este
homem não era o único negligente em desconhecer a graça da regeneração. O elemento
primordial da doutrina da piedade era negligenciado em razão de quase todos
eles se acharem preocupados com vãs sutilezas.
Não precisamos
sentir-nos perplexos ante o fato de Nicodemos tropeçar numa palha, por assim
dizer, pois é uma justa vingança divina que aqueles que pensam de si como sendo
os mais excelentes e eminentes mestres, e para quem a simplicidade ordinária da
doutrina é algo vil e vulgar assustem-se diante de coisas as mais ínfimas.
“Quem não nascer da água. Esta passagem
tem sido explicada de várias formas. Alguns acreditam que aqui se expressam
duas partes da regeneração, e que pelo termo água subtende-se a negação do velho homem, enquanto tomam o termo Espírito como sendo a nova vida. Outros
pensam que aqui há uma antítese implícita, como se Cristo estivesse
contrastando água e Espírito – ou seja, elementos puros e líquidos – com a
natureza terrena e animal do homem. Por isso tomam esse dito como sendo de caráter
alegórico, a saber, que Cristo estava recomendando a nos despirmos de nossa
pesada e insuportável massa de carne e a nos tornarmos como água e ar, a fim de
nos movermos para cima ou, pelo menos, não cairmos por terra sob um fardo tão
pesado. Mas ambas as opiniões me parecem alheias à intenção de Cristo.
Crisóstomo,
com quem a maioria concorda, relaciona o termo água com o batismo. O significado, então, seria que, por meio do
batismo, entramos no reino de Deus, porque então o Espírito de Deus nos
regenera. Daí surgir a crença na absoluta necessidade do batismo para a
esperança da vida eterna. Mas ainda que concordássemos que nesse ponto Cristo está
falando do batismo, não devemos forçar suas palavras a ponto de fazê-lo restringir
a salvação ao sinal externo. Ao contrário, ele conecta água com o Espírito,
porque sob esse sinal visível, ele testifica e sela a novidade de vida, a qual
tão somente através de seu Espírito, Deus efetua em nós. É verdade que somos
excluídos da salvação se desprezarmos
o batismo; e, nesse caso, confesso ser ele necessário. É absurdo, porém,
confinar ao sinal a certeza da nossa salvação. No que diz respeito a esta
passagem, não posso de forma alguma convencer-me de que Cristo esteja falando
do batismo, porquanto isso teria sido inoportuno. E devemos ter sempre em mente
o propósito de Cristo, o qual já explicamos como sendo o desejo de impelir
Nicodemos à novidade vida, porquanto não seria capaz de receber o evangelho
enquanto não começasse a ser um outro homem.
Para sermos
filhos de Deus temos que nascer de novo, e que o Espírito Santo é o autor desse
segundo nascimento, é, pois uma afirmação única e simples. Pois enquanto
Nicodemos sonhava com a regeneração ou transformação ensinada por Pitágoras,
que imaginava que as almas, após a morte de seus corpos, entrava em outros
corpos, Cristo, para libertá-lo desse erro, acrescenta, à maneira de
explicação, que nascer segunda vez não é um evento que sucede naturalmente, e
nesse ato ninguém se reveste de um novo corpo, mas nasce enquanto é renovado na
mente e coração, mediante a graça do Espírito.
Consequentemente,
nosso Senhor emprega as palavras Espírito
e água no mesmo sentido, e isso não
deve ser tomado como uma interpretação abrupta e forçada. Quando se menciona o
Espírito na Escritura, uma forma frequente e comum de expressão é acrescentar a
palavra água ou fogo, para expressar seu poder. De vez em quando, ouvimos de Cristo
batizando com o Espírito Santo e com fogo, quando fogo não significa algo distinto do Espírito, mas simplesmente
mostra a natureza de seu poder em nós.
É uma questão
de pouca importância anteceder ele a palavra água. Quer dizer simplesmente que essa frase flui mais facilmente
que outra, já que uma afirmação clara e direta segue a metáfora. É como se
Cristo dissesse que ninguém será filho de Deus enquanto não for renovado pela
água, e que essa água é o Espírito que nos purifica de uma nova forma, e que,
mediante seu poder derramado sobre nós, nos comunica a energia de vida celestial,
quando, por natureza, somos completamente estéreis. E, com o fim de reprovar a
Nicodemos em razão de sua ignorância, Cristo, mui apropriadamente, usa uma
forma de linguagem comum na Escritura, pois Nicodemos deve por fim ter
reconhecido que o que Cristo dizia fora tomado do ensino ordinário dos
profetas.
Pelo termo
água, pois, subtende-se simplesmente a purificação e vivificação interior
efetuadas pelo Espírito Santo. Tampouco é incomum empregar-se a conjunção e explicitamente, quando a última
sentença é uma explicação da primeira. E também o contexto me apoia, pois
quando Cristo adiciona imediatamente a razão por que temos que nascer de novo,
ele mostra, sem mencionar água, como a novidade de vida que ele requer provém
unicamente do Espírito. Por isso se deduz que não se deve separar a água
de o Espírito.
Deus nos
abençoe!
João Calvino (1509-1564).






