"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



terça-feira, 7 de abril de 2026

“MALDITO SEJA O QUE TE AMALDIÇOAR”


“MALDITO SEJA O QUE TE AMALDIÇOAR”

“Deus te dê do orvalho do céu, e da exuberância da terra, e fartura de trigo e de mosto. Sirvam-te povos, e nações te reverenciem; sê senhor de teus irmãos, e os filhos de tua mãe se encurvem a ti; maldito seja o que te amaldiçoar, e abençoado o que te abençoar” (Gn 27:28-29).

Aqui, Isaque não parece desejar e implorar outra coisa para seu filho senão o que é terreno; pois este é o cerne de suas palavras: que tudo vá bem com o seu filho aqui neste mundo, que ele ajunte o abundante produto da terra, que ele desfrute de grande paz e resplandeça em honra acima dos demais. Não há menção do reino celestial; e disso tem-se suscitado o que os homens sem erudição e pouco afeitos à verdadeira piedade têm imaginado: que esses santos Patriarcas eram abençoados pelo Senhor somente no que diz respeito a esta frágil e transitória vida. Muitas passagens, porém, evidenciam algo muito diferente. E, quanto ao fato de Isaque limitar-se aqui aos favores terrenos de Deus, a explicação é simples; pois o Senhor, outrora, não punha a esperança da herança futura claramente diante dos olhos dos Patriarcas (como agora nos chama e nos eleva diretamente para o céu), mas os guiava por um caminho sinuoso. Assim ele lhes designou a terra de Canaã como um espelho e penhor da herança celestial.

Em todos esses atos de bondade, o Senhor lhes deu sinais de seu favor paterno, não com o propósito de contentá-los com as riquezas desta terra, de modo que negligenciassem o céu, ou seguissem uma sombra meramente vazia, como alguns tolamente presumem, mas para que, sendo auxiliados, pudessem, pouco a pouco, subir ao céu. Porque, visto que Cristo, as primícias dos que ressuscitarão é o autor da eterna e incorruptível vida, ainda não havia sido manifestado, seu reino espiritual era, dessa maneira, prefigurado por meio de sombras, até que chegasse a plenitude do tempo; e, como todas as promessas de Deus estavam envolvidas e, em certo sentido, revestidas de símbolos, assim a fé dos santos Patriarcas absorvia a mesma medida, e fazia seus avanços rumo ao céu por meio desses rudimentos terrenos. Portanto, embora Isaque tornasse proeminente os favores temporais de Deus, nada está mais distante de sua mente do que limitar a esperança de seu filho a esse mundo; ele o elevaria à mesma altura a que ele mesmo ansiava. Alguma prova disso pode ser extraída de suas próprias palavras, pois este é o ponto primordial que ele designa ao domínio das nações. Mas qual é a origem da esperança de tal honra, senão da certeza de que sua descendência fora eleita pelo Senhor e, de fato, com essa convicção, de que o direito ao reino permaneceria apenas com um de seus filhos? Enquanto isso, seja suficiente nos apegarmos a este princípio: que o santo homem, quando implora para seu filho um próspero curso de vida, deseja que Deus, em cujo paternal favor reside nossa firme e eterna felicidade, possa ser-lhe propício.

Maldito seja o que te amaldiçoar. É preciso ter em mente o que eu já disse antes, a saber, que esses não são meros desejos, tais como os pais costumam pronunciar em favor de seus filhos, mas que as promessas de Deus estão inclusas neles; pois Isaque é o intérprete autorizado de Deus e o instrumento empregado pelo Espírito Santo; e, portanto, como instrumento de Deus eficazmente pronuncia maldição sobre aqueles que se opuserem ao bem-estar de seu filho. Essa, pois, é a confirmação da promessa, pela qual Deus, quando recebe os fiéis sob sua proteção, declara que será inimigo de seus inimigos. Todo o poder da bênção é direcionado a este ponto: que Deus provará ser para seu servo Jacó um bondoso pai em todas as coisas, de modo que o preservará e o defenderá com seu poder, e assegurará sua salvação diante de toda sorte de inimigos.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.

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