“MALDITO SEJA O QUE TE AMALDIÇOAR”
“Deus te dê do
orvalho do céu, e da exuberância da terra, e fartura de trigo e de mosto. Sirvam-te
povos, e nações te reverenciem; sê senhor de teus irmãos, e os filhos de tua
mãe se encurvem a ti; maldito seja o que te amaldiçoar, e abençoado o que te abençoar” (Gn 27:28-29).
Aqui, Isaque não
parece desejar e implorar outra coisa para seu filho senão o que é terreno;
pois este é o cerne de suas palavras: que tudo vá bem com o seu filho aqui
neste mundo, que ele ajunte o abundante produto da terra, que ele desfrute de
grande paz e resplandeça em honra acima dos demais. Não há menção do reino
celestial; e disso tem-se suscitado o que os homens sem erudição e pouco
afeitos à verdadeira piedade têm imaginado: que esses santos Patriarcas eram abençoados
pelo Senhor somente no que diz respeito a esta frágil e transitória vida.
Muitas passagens, porém, evidenciam algo muito diferente. E, quanto ao fato de
Isaque limitar-se aqui aos favores terrenos de Deus, a explicação é simples;
pois o Senhor, outrora, não punha a esperança da herança futura claramente
diante dos olhos dos Patriarcas (como agora nos chama e nos eleva diretamente
para o céu), mas os guiava por um caminho sinuoso. Assim ele lhes designou a
terra de Canaã como um espelho e penhor da herança celestial.
Em todos esses
atos de bondade, o Senhor lhes deu sinais de seu favor paterno, não com o
propósito de contentá-los com as riquezas desta terra, de modo que
negligenciassem o céu, ou seguissem uma sombra meramente vazia, como alguns
tolamente presumem, mas para que, sendo auxiliados, pudessem, pouco a pouco,
subir ao céu. Porque, visto que Cristo, as primícias dos que ressuscitarão é o
autor da eterna e incorruptível vida, ainda não havia sido manifestado, seu
reino espiritual era, dessa maneira, prefigurado por meio de sombras, até que
chegasse a plenitude do tempo; e, como todas as promessas de Deus estavam
envolvidas e, em certo sentido, revestidas de símbolos, assim a fé dos santos
Patriarcas absorvia a mesma medida, e fazia seus avanços rumo ao céu por meio
desses rudimentos terrenos. Portanto, embora Isaque tornasse proeminente os
favores temporais de Deus, nada está mais distante de sua mente do que limitar
a esperança de seu filho a esse mundo; ele o elevaria à mesma altura a que ele
mesmo ansiava. Alguma prova disso pode ser extraída de suas próprias palavras,
pois este é o ponto primordial que ele designa ao domínio das nações. Mas qual
é a origem da esperança de tal honra, senão da certeza de que sua descendência
fora eleita pelo Senhor e, de fato, com essa convicção, de que o direito ao
reino permaneceria apenas com um de seus filhos? Enquanto isso, seja suficiente
nos apegarmos a este princípio: que o santo homem, quando implora para seu
filho um próspero curso de vida, deseja que Deus, em cujo paternal favor reside
nossa firme e eterna felicidade, possa ser-lhe propício.
Maldito seja o que te amaldiçoar. É preciso ter em
mente o que eu já disse antes, a saber, que esses não são meros desejos, tais como os pais costumam pronunciar em
favor de seus filhos, mas que as promessas de Deus estão inclusas neles; pois
Isaque é o intérprete autorizado de Deus e o instrumento empregado pelo
Espírito Santo; e, portanto, como instrumento de Deus eficazmente pronuncia
maldição sobre aqueles que se opuserem ao bem-estar de seu filho. Essa, pois, é
a confirmação da promessa, pela qual Deus, quando recebe os fiéis sob sua
proteção, declara que será inimigo de seus inimigos. Todo o poder da bênção é
direcionado a este ponto: que Deus provará ser para seu servo Jacó um bondoso
pai em todas as coisas, de modo que o preservará e o defenderá com seu poder, e
assegurará sua salvação diante de toda sorte de inimigos.
Deus nos
abençoe!
João
Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.

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