“EU ESTAVA EMBRUTECIDO E IGNORANTE”
“Quando o coração se me amargou e as entranhas se me comoveram, eu
estava embrutecido e ignorante; era como um irracional à tua presença” (Sl
73:21,22).
O salmista Davi volta novamente à confissão que previamente fizera,
reconhecendo que, enquanto sentia seu coração amargurado e suas entranhas
espicaçadas por perversa inveja, ele se queixava de Deus de uma maneira
impertinente. Esses pensamentos angustiantes eram, por assim dizer, espinhos
que o feriam. Já falamos como Davi foi afetado por essa ferina humilhação do
espírito. Encontraremos muitos homens profanos que, embora neguem que o mundo
seja governado pela Providência de Deus, todavia isso não os perturba muito,
mas simplesmente sorriem para os caprichos da “sorte”. Em contrapartida, os
verdadeiros crentes, quanto mais firmemente estejam convencidos de que Deus é o
juiz do mundo, mais aflitos se sentem quando o procedimento dele não
corresponde aos desejos deles.
EU ESTAVA EMBRUTECIDO E IGNORANTE. Aqui Davi censura a si próprio de
forma cortante, como lhe cabia fazer, em primeiro lugar declarando que se
tornara insensato; em segundo lugar, ele se culpa de ignorância; e, em
terceiro, ele afirma que se assemelhara aos irracionais. Houvera simplesmente
reconhecido sua ignorância, poder-se-ia perguntar: Donde procedia tal vício ou
mácula de ignorância? Ele, pois, a atribui a sua própria estultícia; e ao
expressar mais enfaticamente sua tolice, ele se compara aos animais inferiores.
Equivalendo a isto: a inveja perversa de que falara era oriunda da ignorância e
erro, e a culpa de haver assim errado devia ser imputada unicamente a si
próprio, visto que perdera o bom senso e discernimento, e não de uma forma corriqueira,
mas numa extensão tal que se reduzira ao estado de brutal estupidez. O que já
afirmamos previamente é a pura verdade, ou, seja, que os homens nunca formulam
um reto juízo das obras de Deus; pois quando aplicam suas mentes a avaliá-las,
todas suas faculdades falham, tornando-se impróprias para a tarefa; no entanto
Davi, com razão, põe a culpa de tal fracasso em si próprio, porque, havendo
perdido o juízo de ser humano, caíra, por assim dizer, na categoria das
criaturas irracionais. Sempre que nos sentirmos insatisfeitos com o método da
providência divina em governar o mundo, lembremo-nos que tal coisa se deve
atribuir à perversidade de nosso entendimento.
ERA COMO UM IRRACIONAL À TUA PRESENÇA. Aqui deve ser tomado, ao modo de
comparação; como se Davi dissesse: Senhor, embora neste mundo tenha eu a
aparência de alguém dotado de juízo e razão superiores, contudo, diante de tua
sabedoria celestial, tenho me portado como um dos animais inferiores. Devido a
esse fato, os homens se deixam ludibriar não tanto por sua própria estultícia,
mas por isto: enquanto se entreolham, todos interiormente se mimam. Entre os
cegos, cada um acredita possuir um olho; em outros termos, que ele sobressai
aos demais; ou, pelo menos, deleita-se com a reflexão de que seus amigos em
sentido algum lhe são superiores em sabedoria. Quando, porém, as pessoas vão a
Deus, e se comparam a ele, esse erro tão prevalecente, no qual todos bem
depressa adormecem, não pode encontrar qualquer guarida.
Deus nos abençoe!
João Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

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