“LUGARES ESCORREGADIOS”
“Certamente tu
os puseste em lugares escorregadios; tu os precipitarás na destruição” (Sl
73:18).
O salmista Davi,
passando em revista seus conflitos, começa, se pudermos usar tal expressão,
sentindo-se um novo homem; e fala com mente tranquila, sendo, por
assim dizer, elevado a uma torre de vigia, donde obtém uma clara e distinta
visão das coisas que antes lhe eram ocultas. A resolução do profeta Habacuque
era de assumir tal posição, e, por seu exemplo, ele nos prescreve isso como um
antídoto em meio às tribulações - “Pôr-me-ei em minha guarda”, diz ele, “e
pôr-me-ei sobre a torre” (Hc 2.1). Davi, pois, mostra quanta vantagem se pode
derivar do acesso a Deus. Agora vejo, diz ele, como procedes em tua
providência; pois, embora os ímpios continuem estáveis por um breve tempo,
contudo estão, por assim dizer, empoleirados em lugares escorregadios, a fim de
caírem antes que sejam precipitados na destruição. Ambos os verbos deste
versículo estão no pretérito; mas o primeiro, os puseste em lugares escorregadios, deve ser entendido no tempo
presente, como se houvesse dito: Deus, por um breve período, os põe em lugares
altos, e, quando caem, sua queda pode ser extremamente pesada. É verdade que
essa parece ser a porção tanto dos justos quanto dos ímpios; pois tudo neste
mundo é escorregadio, incerto e mutável. Visto, porém, que os crentes dependem
do céu, ou, melhor, visto que o poder de Deus é o fundamento sobre o qual
descansam, não se afirma deles que são postos em lugares escorregadios, não
obstante a fragilidade e incerteza que caracterizam sua condição neste mundo.
Que embora tremam ou mesmo caiam, o Senhor tem sua mão sob eles para sustê-los
e fortalecê-los quando tremerem, e erguê-los quando estiverem prostrados. A
incerteza da condição dos ímpios, ou, como ele aqui o expressa, sua condição
escorregadia, procede disto: que eles sentem prazer em contemplar seu próprio
poder e grandeza, e se admiram por essa conta, tal como uma pessoa que teria de
caminhar ociosamente sobre o gelo; e assim, por sua enfatuada presunção, se
preparam para cair de ponta cabeça. Não devemos delinear em nossa imaginação a
roda da "sorte", a qual, quando gira, enreda todas as coisas em total confusão;
devemos, porém, admitir a verdade em relação à qual o profeta aqui chama a atenção,
e a qual ele nos diz se faz conhecida de todos os santos no santuário, ou,
seja, que há uma secreta e divina providência que administra todas as
atividades do mundo.
Deus nos
abençoe!
João Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

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