"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



terça-feira, 14 de abril de 2020

Conceito Cristão de Liberdade

Conceito Cristão de Liberdade
“Para a liberdade foi que Cristo nos libertou” (Gl 5.1).

O homem em seu estado natural é livre? O cristão é livre? A noção que muitos apresentam ter de liberdade é, na verdade, o conceito de autonomia e independência absolutas. É estar solto para a realização de todos os desejos.

Após a queda, o homem tornou-se um escravo arrastado pelo curso deste mundo, buscando satisfazer a vontade da carne e dos pensamentos, desconsiderando Deus e sua Lei. Morto em seus delitos e pecados, o homem não consegue cumprir o propósito último de sua existência – que é viver para glória de Deus.

Em sua palavra Deus nos diz: “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou”. Ser livre significa não ser dominado pelo mundo, pela carne e pelo diabo. Significa libertação do reino das trevas, dos grilhões de Satanás, e da maldição da Lei. Para o cristão, ser livre não está relacionado ao direito de fazer tudo o que se deseja; mas à capacidade de obedecer a Lei de Deus. Para o cristão, ser livre é poder amar a Deus e ao próximo como a si mesmo.

Quão diferente é o conceito cristão do conceito “mundano” de liberdade. No conceito "mundano”, liberdade é isenção de controle, de restrição e de responsabilidade; é viver sem qualquer interferência ou limite. No conceito cristão, liberdade é viver para a glória de Deus.

“Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22.37-39).

Deus nos abençoe!

Pr. José Rodrigues Filho

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Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário.
(41)3242-8375

sábado, 11 de abril de 2020

“A Palavra de Salvação”

“A Palavra de Salvação”
“E acrescentou: Jesus, lembra-te de mim quando vieres no teu reino. Jesus lhe respondeu: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso” (Lucas 23.42,43).

A segunda Palavra de Cristo na cruz aconteceu em resposta ao pedido de um dos malfeitores que estava ao seu lado agonizando e à beira da morte.

1. Sabemos que não foi coincidência Jesus ser crucificado entre esses malfeitores.

700 anos antes Deus tinha declarado mediante o profeta Isaías que seu Filho deveria ser “contado com os transgressores” (Is 53.12). Nada aconteceu por acaso, e nada ocorre por acidente em um mundo que é governado por Deus. Desde a eternidade Deus havia decretado quando, e onde, e como, e com quem seu único Filho deveria morrer. Tudo sucedeu exatamente como O SOBERANO DEUS havia predeterminado (At 4.28).

O nosso bendito Salvador foi crucificado entre dois ladrões para, dentre diversas razões, demonstrar plenamente as insondáveis riquezas de seu amor e manifestar a sua imensa compaixão ao perdido pecador.

Devemos notar que os dois malfeitores crucificados com Cristo viram e ouviram tudo o que se tornou conhecido durante aquelas fatídicas horas. Ambos eram notoriamente perversos; ambos estavam sofrendo e morrendo, e ambos necessitavam urgentemente de assistência divina. Todavia, um morreu agonizando em seus pecados, morreu como tinha vivido - endurecido e impenitente; ao passo que o outro experimentou um profundo arrependimento do seu pecado, creu em Cristo, recorreu a ele para obter paz, alívio, misericórdia e entrar no Paraíso.

Vemos aqui a soberania de Deus em ação sem destruir a responsabilidade humana. O Evangelho é graciosamente anunciado e o pecador é intimado pelo Espírito Santo ao arrependimento e fé!

Por um lado, vemos a graça Deus triunfando. Deus em sua infinita graça planejou a salvação, proveu a salvação, e assim opera sobre e em seus eleitos sobrepujando a dureza de seus corações, a obstinação de suas vontades, e a inimizade de suas mentes, tornando-os desejosos por receber a salvação em Cristo Jesus. Graça soberana, livre, irresistível!

Por outro lado, vemos que a salvação de um dos malfeitores ocorreu numa hora quando, exteriormente, parecia que Cristo havia perdido o poder para salvar, seja a si mesmo ou a outros. É bem provável que esse foi o primeiro contato desse homem com Jesus e, agora que o via, era um momento de dor e desgraça. Até mesmo aqueles que tinham crido nele foram levados às dúvidas por causa de sua crucificação. E, não obstante a tais obstáculos e dificuldades o ladrão apreendeu a condição de Salvador e o Senhorio de Cristo. Como explicar isso? Sem dúvida houve intervenção divina: o novo nascimento, a conversão, o arrependimento e fé experimentados por este ladrão na cruz foi um tremendo milagre!

2. Vemos aqui a necessidade do arrependimento e da fé.

Não temos nas Escrituras ensino que Deus tenha eleito pessoas para o paraíso sem que estas respondam positivamente ao seu chamado em arrependimento e fé. Arrependimento de pecados e fé em Cristo são elementos que identificam o nascido de Deus, e isso é indispensável à salvação.

“Tu, ó homem, pensas que te livrarás do juízo de Deus? Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento” (Rm 2.3,4).  “Pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus” (Ef 2.8). “Fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 1.3).

3. Iluminação espiritual e crescimento na graça e no conhecimento Senhor e Salvador.

Percebam o maravilhoso progresso espiritual desse homem naquelas poucas horas, mesmo em circunstâncias tão adversas e terríveis.

Primeiro - a consciência de que há um Deus justo e que vinga o pecado. “Tu nem ao menos temes a Deus?”

Segundo - esse homem viu sua própria pecaminosidade. Ele reconheceu que era um transgressor da lei de Deus. Ele viu que o seu pecado merecia justa punição. (Rm 6.23).

Terceiro, ele testemunhou da impecabilidade Jesus — “este nenhum mal fez”. Deus abriu os olhos desse homem para ver a perfeição de seu Filho, e este homem abriu os seus lábios para dar testemunho da Excelência diante dele. Ele não apenas testemunhou da humanidade impecável de Cristo, mas também confessou a sua Divindade - “lembra-te de mim”. Ele creu em Cristo, como seu Senhor e Salvador. Ele ouviu a oração de Jesus por seus inimigos, “Pai, perdoa-lhes...”. Esta curta palavra tornou-se um sermão de salvação pra ele. E o seu clamor foi: “Senhor, lembra-te de mim”! “Senhor, salva-me”!

Conclusão

“Jesus lhe respondeu: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso”.

O que torna o céu atraente ao coração daquele que é eficazmente chamado pelo Espírito Santo não é meramente o fato de ser um lugar de libertação de todo pecado, tristeza e dor, ou o lugar do eterno encontro com os santos do Senhor - não, benditas são essas coisas, mas a maior de todas as bênçãos do céu é o próprio Cristo, é estar com Ele, é estar em eterna comunhão com Deus.

“Quem mais tenho eu no céu? Não há outro em quem eu me compraza na terra” (Sl 73.25).

Se Cristo dissesse aquele homem apenas “Em verdade te digo que hoje estarás no Paraíso”, isso teria cessado os temores daquele ladrão, mas isso não satisfez ao Salvador. Aquilo sobre o qual seu coração estava firmado era o fato de que naquele mesmo dia uma alma salva por seu precioso sangue deveria estar com Ele no Paraíso! Esse é o clímax da graça e a essência da bênção cristã. Esta deve ser a nossa esperança, a nossa ardente e alegre expectativa: “Estar com Cristo no Paraíso”.

Deus nos abençoe!

Pr. José Rodrigues Filho

*The Seven Sayings of the Saviour on the Cross, A.W.Pink.

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quinta-feira, 9 de abril de 2020

Cristo, o nosso Substituto

Cristo, o nosso Substituto
“Pois também Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus” (1Pe 3.18).

Temos nos evangelhos as narrativas em que Cristo Jesus foi preso, levado como malfeitor, conduzido à presença de juízes injustos; sendo insultado e tratado com desprezo. Este foi um momento em que o nosso Salvador experimentou intenso sofrimento (Jo 18.12-14).

Sofrer por quem amamos e, em algum aspecto, são dignos de nossas afeições é um tipo de sofrimento que podemos entender. Submeter-nos passivamente aos maus tratos, quando não temos poder para resistir-lhes, é uma atitude compreensiva. No entanto, ser preso e sofrer voluntariamente, quando temos o poder para impedi-lo, em favor de incrédulos, ímpios, ingratos, que não pediram tal coisa – esta é uma atitude que ultrapassa o entendimento humano. “Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8).

Ao meditarmos sobre a paixão e morte de Cristo, jamais nos esqueçamos que isto constitui a glória de seus sofrimentos: Ele foi levado preso e apresentado diante do tribunal de julgamento do sumo sacerdote, não porque era incapaz de impedi-lo, mas porque o Seu coração estava determinado a salvar pecadores, sendo punido no lugar deles. Ele foi voluntariamente preso e condenado, para que fôssemos conduzidos a Deus absolvidos, declarados justos. “Pois também Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus” (1Pe 3.18). “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus” (2Co 5.21).

Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido. Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados” (Is 53.4,5).

Aleluia!

Pr. José Rodrigues Filho

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quarta-feira, 25 de março de 2020

“Paz e Segurança”

“Paz e Segurança”
Em paz me deito e logo pego no sono, porque, SENHOR, só tu me fazes repousar seguro” (Sl 4.8).

Amados irmãos, temos neste salmo um precioso exemplo deixado pelo rei Davi, quando premido pela adversidade, envolvido em profunda aflição, considerou firmemente as promessas de Deus, nas quais a esperança de salvação é demonstrada, de modo que, usando este escudo em sua defesa, eliminou a angústia que o assolava.

Confiando e descansando na proteção divina, Davi desfrutou de paz e segurança. Viver livre de todo temor, e do tormento e inquietação que a preocupação nos traz é uma bênção que deveria ser desejada acima de todas as demais coisas. Com razão o salmista prefere a harmonia produzida pelo Espírito de Deus do que toda sorte de bênção material; pois a paz interior do espírito certamente excede a todas as bênçãos das quais possamos formular alguma concepção.

Portanto, aprendamos com este admirável testemunho a render a Deus esta honra, a saber: crer que, embora pareça não haver da parte dos homens recursos ou qualquer socorro, todavia, sob a mão do nosso poderoso Deus somente, é que somos guardados em paz e em segurança, como se estivéssemos defendidos por todos os exércitos da terra.

Lembremo-nos do que disse Cristo Jesus, o “Príncipe da Paz”: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize” (Jo 14.27). 

Deus nos abençoe!

Pr. José Rodrigues Filho

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domingo, 22 de março de 2020

“E sereis filhos do Altíssimo”.

“E sereis filhos do Altíssimo”.
“Ó SENHOR, meu Deus, se sou culpado de fazer esta coisa, se há iniquidade em minhas mãos, se paguei com o mal a quem estava em paz comigo, e não libertei aquele que me perseguia sem causa: então que o inimigo persiga minha alma e a alcance; espezinhe no chão minha vida e arraste no pó minha glória” (Sl 7.3-5).

Notamos nesta oração que o salmista Davi menciona duas particularidades em sua defesa. A primeira é que ele não havia cometido erro algum contra alguém; e a segunda é que havia se esforçado em fazer o bem em favor de seus inimigos, por quem, não obstante, havia sido injuriado sem nenhuma justa causa. Ele declara que havia sido amigo, não só em relação aos bons, mas também em relação aos maus; e não só se refreara de toda e qualquer vingança, mas que até mesmo socorrera seus inimigos, por quem fora cruelmente perseguido.

Certamente não seria uma virtude muito louvável amar os bons e pacíficos, a não ser que haja uma associação entre essa autonomia e a docilidade em suportar pacientemente os maus. Mas quando uma pessoa se guarda não só de vingar as injúrias que haja recebido, mas também se esforça por vencer o mal pela prática do bem, ela está a manifestar uma das graças da natureza renovada e santificada, e com isso prova a si mesma pertencer ao rol dos filhos de Deus; pois tal mansidão só pode proceder do Espírito de adoção.

Palavra do Senhor Jesus: “Digo-vos, porém, a vós outros que me ouvis: amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam; bendizei aos que vos maldizem, orai pelos que vos caluniam. Se amais os que vos amam, qual é a vossa recompensa? Porque até os pecadores amam aos que os amam. Se fizerdes o bem aos que vos fazem o bem, qual é a vossa recompensa? Até os pecadores fazem isso. Amai, porém, os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai, sem esperar nenhuma paga; será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo. Pois ele é benigno até para com os ingratos e maus. Sede misericordiosos, como também é misericordioso vosso Pai” (Lc 6.27-36).

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Comentário do Livro dos Salmos, Edições Paracletos.

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sexta-feira, 20 de março de 2020

“O SENHOR julgará as nações

“O SENHOR julgará as nações”
O SENHOR julgará os povos [ou nações]; julga-me, ó SENHOR, segundo minha justiça e segundo a integridade que há em mim” (Sl 7.8).

O SENHOR julgará as nações. Esta cláusula está estreitamente conectada ao versículo precedente. Davi orou a Deus para que ele se revelasse como juiz das nações; e agora ele assume como uma verdade insofismável e admitida que julgar as nações é o ofício peculiar de Deus; pois o verbo conjugado no tempo futuro, e traduzido, julgará, denota, aqui, uma ação contínua; e tal é o significado do tempo futuro nas cláusulas gerais. Além disso, ele aqui não fala de apenas uma nação, senão que compreende todas as nações. Ao reconhecer a Deus como o Juiz do mundo inteiro, ele conclui logo depois disto que Deus manterá sua causa e seu direito. Mui frequentemente parece que somos esquecidos e oprimidos, e quando isso acontece, devemos evocar esta verdade à nossa lembrança, ou seja: já que Deus é o governante do mundo, é tão absolutamente impossível que ele se abdique de seu ofício quanto é impossível que ele negue a si próprio. De tal fonte fluirá um manancial contínuo de conforto, ainda que uma longa sucessão de calamidades nos comprima; pois à luz dessa verdade podemos seguramente concluir que ele cuidará de defender nossa inocência. Seria contrário a todos os princípios de são raciocínio supor que aquele que governa muitas nações negligencie ainda que seja uma única pessoa. O que sucede com respeito aos juízes deste mundo jamais sucederá com respeito a Deus; ele não pode, como sucede com os juízes da terra, estar tão ocupado com os negócios grandes e públicos que venha a negligenciar os problemas individuais, por uma questão de incapacidade em atendê-los.

Davi uma vez mais introduz a visão de sua integridade, ou seja, que ele não podia, segundo o exemplo dos hipócritas, fazer do nome de Deus um mero pretexto para melhor promover seus próprios propósitos. Visto que Deus não se deixa influenciar pelo respeito humano, não podemos esperar que ele esteja do nosso lado, e a nosso favor, se porventura nossa causa não for boa. Pergunta-se, porém, como é possível que Davi, aqui, se gabe de sua própria integridade diante de Deus, quando em outros passos ele suplica a Deus que entre em juízo com ele. A resposta é fácil, e é esta: O tema aqui desenvolvido não é como Davi podia responder se Deus demandaria dele que desse conta de toda sua vida, mas que, ao comparar-se com seus inimigos, ele mantém, e não sem razão, que em relação a eles ele era justo. Mas quando cada santo é passado em revista pelo juízo divino, e seu próprio caráter é testado por seus próprios méritos, a questão é muito diferente, porque, em tal conjuntura, o único santuário ao qual pode ele recorrer em busca de segurança é a misericórdia de Deus.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Comentário do Livro dos Salmos, Edições Paracletos.

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terça-feira, 17 de março de 2020

“Salva-me por tua Graça”

“Salva-me por tua Graça”
“Meus gemidos me têm levado à exaustão; todas as noites faço nadar meu leito; com minhas lágrimas o alago” (Sl 6.6).

Essas formas de expressão são hiperbólicas, porém não se deve imaginar Davi, à moda dos poetas, exagerando seu sofrimento; ele, porém, declara real e simplesmente quão severo e amargo o sentia. Deve ter-se sempre em mente que sua aflição não procedia tanto de ter ele sido severamente ferido com fadiga física; considerando, porém, o quanto Deus estava desgostoso com ele, viu, por assim dizer, o inferno escancarado para recebê-lo; e a fadiga mental que isso produz excede a todos os demais sofrimentos. Aliás, quanto mais sinceramente é um homem devotado a Deus, muitíssimo mais severamente perturbado é ele pelo senso da ira divina; e é por isso que as pessoas santas, que de outra forma são dotadas de inusitada fortaleza, têm revelado neste aspecto muito mais debilidade e necessidade de determinação. E nada nos impede, nestes dias atuais, de experimentar em nós pessoalmente o que Davi descreve concernente a si, senão a estupidez de nossa carne. Os que têm experimentado, mesmo em grau moderado, o que significa lutar contra o temor da morte eterna, se sentirão satisfeitos com o fato de que nada há de extravagante nestas palavras. Portanto, saibamos que aqui Davi nos é apresentado como alguém que é afligido com os terrores de sua consciência e sentindo em seu íntimo tormentos, não de uma espécie ordinária, mas de uma espécie tal que quase o levou ao total desfalecimento; e, não obstante, em todo tempo nunca cessou de orar a Deus.

SENHOR, não me repreendas na tua ira, nem me castigues no teu furor. Tem compaixão de mim, SENHOR, porque eu me sinto debilitado; sara-me, SENHOR, porque os meus ossos estão abalados. Também a minha alma está profundamente perturbada; mas tu, SENHOR, até quando? Volta-te, SENHOR, e livra a minha alma; salva-me por tua graça” (Sl 6.1-4).

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Comentário do Livro dos Salmos, Edições Paracletos.

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sexta-feira, 13 de março de 2020

SENHOR, até quando?

SENHOR, até quando?
Tem compaixão de mim, SENHOR, porque eu me sinto debilitado; sara-me, SENHOR, porque os meus ossos estão abalados. Também a minha alma está profundamente perturbada; mas tu, SENHOR, até quando? Volta-te, SENHOR, e livra minha alma; salva-me em consideração por tua misericórdia (Sl 6.2-4).

Mas tu, SENHOR, até quando? Há quem, para completar esta sentença, a complemente com as palavras: me afligirás? ou: continuarás a castigar-me? Outros leem: Até quando adiarás tua misericórdia? Mas o que está declarado no versículo seguinte mostra que este segundo sentido é o mais provável, pois ali Davi ora para que o Senhor o considerasse com olhos de graça e compaixão. Ele, pois, se queixa de Deus se haver esquecido dele, ou que não tinha por ele nenhuma consideração, assim como aparentemente Deus se mantém afastado de nós sempre que sua assistência ou graça realmente não se manifesta em nosso favor. Deus, em sua compaixão para conosco, permite que oremos para que se apresse em socorrer-nos; mas quando nos queixamos abertamente de sua muita delonga, visando a que nossas orações ou nosso sofrimento, por essa conta, não vão além dos limites, devemos submeter nosso caso inteiramente à sua vontade, e não querer que ele se apresse mais do que lhe apraz.

Volta-te, SENHOR. O salmista deplorou a ausência de Deus; e agora ele ansiosamente solicita as indicações de sua presença; pois nossa felicidade consiste nisto: que somos alvos da consideração divina, porém cremos que ele se encontra alienado de nós caso não nos apresente alguma evidência substancial de seu cuidado por nós. Que Davi, naquele tempo, enfrentava risco máximo, deduzimos dessas palavras, nas quais ele ora tanto pelo livramento de sua alma, por assim dizer, das guelras da morte, quanto por sua restauração a um estado de segurança. Todavia, não se faz qualquer menção de alguma enfermidade física; e, portanto, não faço ideia alguma sobre a natureza de sua aflição. Davi, uma vez mais, confirma o que só tocara no segundo versículo concernente à misericórdia de Deus, isto é, que este é o único refúgio donde espera vir seu livramento, a saber: salva-me em consideração por tua misericórdia. Os homens jamais encontrarão um antídoto para suas misérias, enquanto, esquecendo-se de seus próprios méritos, diante do fato de que são os únicos a enganar a si próprios, não aprenderem a recorrer à misericórdia gratuita de Deus.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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quinta-feira, 12 de março de 2020

“No sepulcro, quem te dará louvor?”

“No sepulcro, quem te dará louvor?”
Pois, na morte, não há recordação de ti; no sepulcro, quem te dará louvor?” (Sl 6.5).

Quando Davi diz: “Pois, na morte, não há recordação de Deus, nem no sepulcro qualquer celebração de seu louvor". Eis sua intenção: se, pela graça de Deus, ele fosse libertado da morte, lhe seria agradecido e guardaria isso na memória. E lamenta que, se fosse retirado do mundo, ficaria privado do poder e da oportunidade de manifestar sua gratidão, visto que, nesse caso, ele não mais estaria presente na sociedade dos homens para ali enaltecer ou celebrar o Nome de Deus. À luz desta passagem, alguns concluem que os mortos não têm emoção alguma e que esta é completamente extinta neles. Essa, porém, é uma inferência precipitada e injustificada, pois de nada se trata aqui senão da celebração mútua da graça de Deus, na qual os homens se engajam enquanto caminham na terra dos viventes. Sabemos que somos postos sobre a terra para louvar a Deus com uma só mente e uma só boca, e que esse é propósito de nossa vida. A morte, é verdade, põe um fim a esses louvores; mas não se deduz desse fato que as almas dos fiéis, quando despida de seus corpos, são privadas de entendimento ou não são sensibilizadas por qualquer afeição para com Deus. Deve considerar-se também que, na presente ocasião, Davi temia o juízo de Deus se a morte lhe sobreviesse, e isso o fez mudo para não cantar os louvores de Deus. E unicamente a benevolência de Deus, sensivelmente experimentada por nós, que abre nossos lábios para a celebração de seu louvor; e, portanto, sempre que a alegria e o bem-estar se esvaem, os louvores, naturalmente, também se esvaem. Não é de admirar, pois, se a ira de Deus, que nos subjuga com aquele medo de destruição eterna, extingue em nós os louvores de Deus.

Volta-te, SENHOR, e livra a minha alma; salva-me por tua graça. Pois, na morte, não há recordação de ti; no sepulcro, quem te dará louvor? Estou cansado de tanto gemer; todas as noites faço nadar o meu leito, de minhas lágrimas o alago” (Sl 6.4-6).

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Comentário do Livro dos Salmos, Edições Paracletos.

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