"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

“QUERO, POIS, LEMBRAR-VOS, EMBORA JÁ ESTEJAIS CIENTES DE TUDO”


“QUERO, POIS, LEMBRAR-VOS, EMBORA JÁ ESTEJAIS CIENTES DE TUDO”

“Quero, pois, lembrar-vos, embora já estejais cientes de tudo uma vez por todas, que o Senhor, tendo libertado um povo, tirando-o da terra do Egito, destruiu, depois, os que não creram” (Jd 1.5).

Judas, ou modestamente se desculpa, para que não parecesse ensinar, como que a ignorantes, coisas desconhecidas a eles; ou, de fato (com o que estou mais de acordo), declara abertamente, de um modo enfático, que não apresentava nada novo ou inaudito antes, a fim de que aquilo que ia dizer pudesse ter mais crédito e autoridade. “Apenas torno a chamar à vossa mente”, diz ele, “aquilo que já aprendestes”. Uma vez que lhes atribui conhecimento, ele diz que precisavam de advertências, para que não pensassem que o trabalho que teve com eles fosse supérfluo. Ele usa a palavra de Deus não apenas para ensinar o que não poderíamos ter conhecido de outro modo, mas também para nos despertar para uma séria meditação das coisas que já entendemos, e para não permitirmos que nos tornemos apáticos num conhecimento frio.

Ora, o sentido é que, após termos sido chamados por Deus, não devemos nos gloriar negligentemente na sua graça, e sim, pelo contrário, andar atentamente no seu temor. Pois, se alguém brinca com Deus assim, o menosprezo pela sua graça não ficará impune. E isto ele prova por três exemplos. Primeiro, ele se refere à vingança que Deus executou sobre aqueles incrédulos que ele havia escolhido como seu povo e libertado pelo seu poder. Praticamente a mesma referência é feita por Paulo em 1Co 10.1-13. O significado do que ele diz é que aqueles que Deus havia honrado com as maiores bênçãos, que ele havia exaltado ao mesmo grau de honra de que desfrutamos hoje, puniu depois severamente. Então futilmente se orgulhavam da graça de Deus todos aqueles que não viviam de uma maneira conveniente com o seu chamado.

A palavra povo é empregada por honra em lugar de nação santa e eleita, como se ele tivesse dito que de nada lhes servira que, por um favor singular, tivessem entrado no concerto. Chamando-os de incrédulos, ele denota a fonte de todos os males. Pois todos os pecados deles, mencionados por Moisés, deviam-se a isto - que eles se recusaram a ser governados pela palavra de Deus. Onde existe a sujeição da fé, aí a obediência para com Deus necessariamente se mostra em todos os deveres da vida.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana Silva Jardim - Curitiba/PR.
Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário. 

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

“CERTOS INDIVÍDUOS SE INTRODUZIRAM COM DISSIMULAÇÃO”


“CERTOS INDIVÍDUOS SE INTRODUZIRAM COM DISSIMULAÇÃO”

Pois certos indivíduos se introduziram com dissimulação, os quais, desde muito, foram antecipadamente pronunciados para esta condenação, homens ímpios, que transformam em libertinagem a graça de nosso Deus e negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo” (Jd 1.4).

“Certos indivíduos se introduziram com dissimulação”. A palavra “dissimulação” significa uma insinuação furtiva e indireta, pela qual os obreiros de Satanás enganam os incautos.

“Os quais, desde muito, foram antecipadamente pronunciados para esta condenação”. Judas invoca aquele julgamento, ou condenação, ou mente réproba, pela qual estes foram levados a perverter a doutrina da piedade; pois ninguém pode fazer tal coisa senão para a sua própria ruina. Mas a metáfora é exibida desta circunstância porque o conselho eterno de Deus, pelo qual os fiéis são ordenados para a salvação, é designado como um livro. E quando os fiéis ouviram que estes estavam entregues à morte eterna, convinha que cuidassem para que não se envolvessem na mesma destruição. Ao mesmo tempo, o objetivo de Judas era elucidar o perigo, para que a novidade da coisa não perturbasse nem angustiasse nenhum deles. Pois se aqueles já estavam desde há muito ordenados, segue-se que a Igreja só é tentada ou testada de acordo com o conselho infalível de Deus.

“Que transformam em libertinagem a graça de nosso Deus”. Judas expressa agora mais claramente qual era o mal, pois diz que eles abusavam da graça de Deus, assim levando a si mesmos e a outros a tomarem uma liberdade impura e profana no pecado. Mas a graça de Deus se manifestou com um propósito muito diferente - ou seja, que, negando a impiedade e os prazeres mundanos, vivamos sóbria, justa e piamente neste mundo (Tt 2.11,12). Saibamos, então, que nada é mais pestilento do que homens desta sorte, que da graça de Cristo tomam uma capa para se indultarem na lascívia.

“E negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo”. Aqui Judas quer dizer que Cristo é negado quando aqueles que foram redimidos por seu sangue tornam-se novamente dominados pelo Diabo, e assim invalidam até onde podem esse preço incomparável. Então, para que Cristo nos retenha como seu tesouro peculiar, devemos nos lembrar de que ele morreu e ressuscitou por nós para que pudesse ter domínio sobre a nossa vida e morte.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

“EXORTANDO-VOS A BATALHARDES, DILIGENTEMENTE, PELA FÉ”


EXORTANDO-VOS A BATALHARDES, DILIGENTEMENTE, PELA FÉ”

“Amados, quando empregava toda a diligência em escrever-vos acerca da nossa comum salvação, foi que me senti obrigado a corresponder-me convosco, exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 1.3),

Muitos intérpretes explicam a sentença inicial, “quando empregava toda a diligência em escrever-vos”, neste sentido - de que um forte desejo constrangeu Judas a escrever, tal como dizemos acerca daqueles que estão sob a influência de um forte sentimento - que não podem governar ou conter a si mesmos. Nesse caso, de acordo com esses expositores, Judas estava sob uma espécie de necessidade, porque um desejo de escrever não o permitia descansar. Mas prefiro pensar que as duas cláusulas são separadas - que, embora estivesse inclinado e solícito a escrever, uma necessidade o compeliu. Ele sugere então que, de fato, estava contente e ansioso por lhes escrever, mas a necessidade o urgiu a fazer isto - a saber, porque eram assaltados (segundo o que se segue) pelos infiéis, e precisavam estar preparados para combatê-los.

Então, em primeiro lugar, Judas testifica que sentiu tanta preocupação com a salvação deles, que ele mesmo quis, e de fato estava ansioso, por escrever-lhes; e, em segundo lugar, para despertar a sua atenção, diz que o estado das coisas exigia que ele fizesse isso. Pois a necessidade acrescenta fortes estímulos. Se não tivessem sido avisados com antecedência de quão necessário era a sua exortação, eles poderiam se tornar preguiçosos e negligentes. Mas quando faz este prefácio, de que escreveu por conta da necessidade da situação deles, era o mesmo que se ele tivesse tocado uma trombeta para despertá-los do seu torpor.

“Acerca da salvação comum”. Algumas cópias acrescentam “vossa”, mas sem razão, penso eu, pois ele torna a salvação comum a eles e a si mesmo. E acrescenta não pouco peso à doutrina que é anunciada, quando alguém fala de acordo com os seus próprios sentimentos e experiência. É vão o que dizemos se falamos da salvação para outros, quando nós mesmos não temos nenhum conhecimento real dela. Nesse caso, Judas confessava ser ele mesmo um mestre experimental (por assim dizer) quando se associava aos fiéis na participação da mesma salvação.

“Exortando-vos a batalhardes”. Judas aponta o objetivo do seu conselho. O que traduzi como: “ajudar a fé, batalhando”, significa o mesmo que lutar para reter a fé, e resistir corajosamente aos assaltos contrários de Satanás. Ele os faz lembrar que, para perseverarem na fé, diversas pelejas devem ser enfrentadas, e mantida uma guerra constante. Ele diz que a fé foi uma vez por todas entregue aos santos, para que soubessem que a obtiveram para este fim, para que nunca fracassem ou caiam.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

“AOS CHAMADOS EM DEUS PAI”


“AOS CHAMADOS EM DEUS PAI”

“Judas, servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago, aos chamados, santificados em Deus Pai e guardados em Jesus Cristo, a misericórdia, a paz e o amor vos sejam multiplicados” (Jd 1.1,2).

Aos chamados em Deus Pai, ou, santificados. Por esta expressão, “chamados”, Judas indica todos os fiéis, porque o Senhor os tem separado para si. Mas, como o chamado não é nada mais do que o efeito da eleição eterna, às vezes é empregado em lugar desta. Nesta passagem faz pouca diferença em que sentido o entendes, pois não há dúvida de que ele recomenda a graça de Deus, pela qual lhe aprouve escolhê-los como seu tesouro peculiar. E ele sugere que os homens não se antecipam a Deus, e que eles nunca vêm até ele enquanto ele não os atrai.

Do mesmo modo, ele diz que eles eram: santificados em Deus Pai, o que pode ser traduzido como: “por Deus Pai”. No entanto, retive a forma exata da expressão, para que os leitores exercitem o seu próprio julgamento. Pois talvez o sentido seja este - de que, sendo em si mesmos profanos, eles tinham a sua santidade em Deus. Mas a maneira em que Deus santifica é regenerando-nos pelo seu Espírito.

Judas ainda acrescenta que eles eram “guardados em Jesus Cristo”. Pois estaríamos sempre em perigo de morte por causa de Satanás, que poderia nos apanhar como presa fácil a qualquer momento se não estivéssemos a salvo sob a proteção de Cristo, a quem o Pai concedeu para ser o nosso guardião, para que não pereça nenhum daqueles que ele recebeu sob o seu cuidado e abrigo.

Judas então menciona aqui uma tripla benção, ou favor de Deus, com respeito a todos os fiéis - que pelo seu chamado ele fez deles participantes do evangelho; que ele os regenerou, pelo seu Espírito, para a novidade de vida; e que ele os tem preservado por meio de Cristo, para que não decaiam da salvação.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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terça-feira, 30 de janeiro de 2024

“GEMIDOS INEXPRIMÍVEIS”


“GEMIDOS INEXPRIMÍVEIS”

“Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis” (Rm 8.26).

O apóstolo Paulo havia falado acerca do testemunho do Espírito, pelo qual ficamos sabendo que Deus é nosso Pai e no qual ousamos confiadamente invocá-lo (Rm 8.15). Ele agora reitera a segunda parte relativa à invocação, e diz que somos ensinados pelo mesmo Espírito como devemos orar a Deus e o que devemos pedir-lhe em nossas orações.

Ainda quando não pareça que nossas orações tenham sido realmente ouvidas por Deus, o apóstolo conclui que a presença da graça celestial já se manifesta no próprio zelo pela oração, visto que ninguém, de seu próprio arbítrio, conceberia que suas orações são sinceras e piedosas. É verdade que os incrédulos engendram irrefletidamente suas orações, mas o que fazem é zombar de Deus, visto que não há sinceridade ou seriedade neles ou um padrão corretamente ordenado. O Espírito, portanto, é quem deve prescrever a forma de nossas orações. O apóstolo chama de inexprimíveis os gemidos que irrompem de dentro de nós ao impulso do Espírito, visto que vão muito além da capacidade de nosso intelecto. Diz-se que o Espírito de Deus intercede, não porque ele porventura se humilhe como um suplicante a orar e a gemer, mas porque inspira em nossos corações as orações que são próprias para nos achegarmos a Deus. Ele afeta de tal forma os nossos corações que estas orações, pelo seu fervor, penetram o próprio céu. Paulo assim se expressou com o propósito de atribuir a totalidade da oração mais significativamente à graça do Espírito. Somos incitados a clamar (Mt 7.7). Mas ninguém, por sua própria iniciativa pronunciaria uma só sílaba, com discernimento, se Deus não ouvisse o clamor de nossas almas que cedem ao impulso secreto de seu Espírito, e não abrisse nossos corações para ele mesmo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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sábado, 27 de janeiro de 2024

“QUE ANDEIS DE MODO DIGNO DA VOCAÇÃO”


“QUE ANDEIS DE MODO DIGNO DA VOCAÇÃO”

“Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados, com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor, esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz” (Ef 4.1-3).

O apóstolo Paulo discutira anteriormente a vocação; agora lhes recomenda que não se tornassem indignos de tão imensurável graça. Ao descer a detalhes, ele coloca a humildade em primeiro plano. A razão está no fato de que ele abordava a unidade; e a humildade é o primeiro passo para alcançá-la. Ela também produz mansidão, a qual nos faz pacientes. E ao sofrermos com nossos irmãos, conservamos a unidade que, de outra forma, seria quebrada mil vezes ao dia. Lembremo-nos, pois, que, ao cultivarmos a bondade fraternal, é essencial que comecemos com a humildade. De onde procede a insolência, a soberba e as injúrias lançadas contra os irmãos? De onde procedem as questiúnculas, os escárnios e as reprovações severas, a não ser do fato de cada um amar excessivamente a si próprio e de querer agradar em demasia a si próprio? Aquele que se desfaz da arrogância e cessa de agradar a si próprio se tornará manso e acessível.

Ao dizer: em amor, o apóstolo tem em mente o que ele diz em outros textos, ou seja: que a verdadeira natureza do amor está na paciência. Onde o amor governa e floresce, edificaremos muitíssimo uns aos outros.

Além do mais, é com boas razões que ele recomenda a paciência, a saber: para que a unidade do Espírito possa seguir em frente. Inumeráveis ofensas surgem diariamente, as quais podem aquecer as discórdias entre nós, particularmente em virtude de o espírito humano digladiar impulsionado por sua natural impertinência. Há quem considere a unidade do Espírito como aquela unidade espiritual que o Espírito de Deus efetua em nós. É sem qualquer sombra de dúvida que tão-somente ele [o Espírito] nos constrói com uma só mente, e dessa forma nos faz um só. Minha interpretação da frase, porém, é mais no sentido de harmonia de mente. Essa unidade, diz Paulo, é composta por o vínculo da paz; porquanto as discórdias com frequência despertam o ódio e ressentimento. Devemos viver em paz, caso desejemos que o espirito de bondade permaneça entre nós.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

“POIS SOMOS FEITURA DELE”


“POIS SOMOS FEITURA DELE”

“Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.10).

O apóstolo Paulo prova o que diz, ou seja, que somos salvos pela graça, dizendo que nenhuma obra nos é de alguma utilidade para merecermos a salvação, porque todas as boas obras que porventura possuímos são os frutos da regeneração. Daí, segue-se que as próprias obras são uma parte da graça. Ao dizer que somos obra de Deus, sua intenção não é considerar a criação em geral, por meio da qual as pessoas nascem, senão que assevera que somos novas criaturas, as quais são formadas para a justiça pelo poder do Espírito de Cristo, e não pelo nosso próprio. Isso se aplica somente no tocante aos crentes, os quais, ainda que nascidos de Adão, ímpios e perversos, são espiritualmente regenerados pela graça de Cristo, e então começam ser um novo homem. Portanto, tudo quanto em nós é porventura bom, provém da obra supernatural de Deus. E segue-se uma explicação; pois ele adiciona que somos obra de Deus em razão de sermos criados, não em Adão, mas em Cristo, e não para qualquer tipo de vida, mas para as boas obras.

E agora, o que fica para o livre-arbítrio, se todas as boas obras que de nós procedem foram comunicadas pelo Espírito de Deus? Que os piedosos avaliem prudentemente as palavras do apóstolo. Ele não diz que somos assistidos por Deus. Ele não diz que a vontade é preparada e que, então, age por sua própria virtude. Ele não diz que o poder de escolher corretamente nos é conferido e que temos, a seguir, de fazer nossa própria escolha. Esse é o procedimento daqueles que tentam enfraquecer a graça de Deus (até onde podem), os quais estão habituados a falsear a verdade. Mas o apóstolo diz que somos obra de Deus, e que tudo quanto de bom exista em nós é criação dele. O que ele pretende dizer é que o homem como um todo, para ser bom, tem de ser moldado pelas mãos divinas. Não a mera virtude de escolher corretamente, nem alguma preparação indefinida, nem assistência, mas é a própria vontade que é feitura divina. De outro modo, o argumento de Paulo seria sem sentido. Ele tenciona provar que o homem de forma alguma busca a salvação por sua própria iniciativa, mas que a adquire gratuitamente da parte de Deus.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“PELA GRAÇA SOIS SALVOS”


“PELA GRAÇA SOIS SALVOS”

“Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2.8,9).

O apóstolo tratara da eleição, da vocação gratuita, visando chegar à conclusão de que haviam obtido a salvação unicamente mediante a fé. Primeiramente, ele assevera que a salvação dos efésios era inteiramente a obra - e obra gratuita - de Deus; eles, porém, alcançaram essa graça por meio da fé. De um lado, devemos olhar para Deus; de outro, para o homem. Deus declara que não nos deve nada; de modo que a salvação não é um galardão ou recompensa, mas simplesmente graça. Ora, pode-se perguntar: como o homem recebe a salvação que lhe é oferecida pelas mãos divinas? Eis a minha reposta: pela instrumentalidade da fé. Daí o apóstolo concluir que aqui nada é propriamente nosso. Da parte de Deus é graça somente, e nada trazemos senão a fé, a qual nos despe de todo louvor, então segue-se que a salvação não procede de nós.

Não seria, pois, aconselhável manter silencio acerca do livre-arbítrio, das boas intenções, das preparações inventadas e dos méritos? Nenhum desses deixa de reivindicar a participação no louvor da salvação do homem; de modo que o louvor devido à graça, no dizer de Paulo, não seria integral. Quando, por parte do homem, é posto exclusivamente na fé como única fonte de se receber a salvação, então o homem rejeita todos os demais meios nos quais o ser humano costuma confiar. A fé, pois, conduz a Deus um homem vazio, para que o mesmo seja plenificado com as bênçãos de Cristo. E assim o apóstolo adiciona: não vem de vós; para que, nada reivindicando para si mesmos, reconheçam unicamente a Deus como o Autor de sua salvação.

Em vez do que havia dito, que a salvação deles é de graça, Paulo agora afirma que ela é o dom de Deus. Em vez do que havia dito, “não vem de vós”, ele agora diz: não [vem] de obras. Daí descobrimos que o apóstolo não deixa ao homem absolutamente nada em sua busca da salvação. Pois nessas frases ele envolve a substância de seu longo argumento nas Epístolas aos Romanos e aos Gálatas, ou seja: que a justiça que recebemos procede exclusivamente da misericórdia de Deus, a qual nos é oferecida em Cristo através do evangelho, e a qual é recebida única e exclusivamente por meio da fé, sem a participação do mérito procedente das obras, “para que ninguém se glorie”.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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