“ACUSADOS PELA PRÓPRIA CONSCIÊNCIA”
“Mas, ouvindo
eles esta resposta e acusados pela própria consciência, foram-se retirando um
por um, a começar pelos mais velhos até aos últimos, ficando só Jesus e a
mulher no meio onde estava” (Jo 8:9).
Aqui
percebemos quão grande é o poder de uma consciência em conflito. Ainda que aqueles
hipócritas perversos tencionassem induzir a Cristo a cair em seus sofismas,
todavia sem embaraço ele fere suas consciências com uma única palavra, e
envergonhados se põem em fuga. Este é o martelo com o qual devemos despedaçar a
soberba dos hipócritas. Devem ser citados a comparecer diante do tribunal
divino. Embora seja possível que vexame, com que se viram atingidos diante dos
homens, tivesse maior influência sobre eles do que o temor de Deus, ainda é uma
questão de muita importância que, de sua própria iniciativa, se tenham
reconhecido culpados, quando assim desaparecem como se fossem dominados pela confusão
mental. Acrescenta-se imediatamente:
A começar pelos mais velhos até aos últimos. Nossa atenção é atraída para esta circunstância, a saber, à
proporção que cada um deles excedia os demais em honrosa posição, mais
rapidamente o mesmo se conscientizava de sua condenação. Tomara que nossos escribas, que na atualidade vendem seus
serviços para fazer guerra a Cristo, tivesse pelo menos tanta modéstia quanto
esses homens. Mas são tão destituídos de vergonha que, enquanto se tornam
infames por crimes tão detestáveis, gloriam-se no fato de que lhes é permitido
ser tão abomináveis como bem lhes apraz sem qualquer punição. Devemos também observar
quão amplamente essa convicção de pecado, pela qual os escribas se viram
afetados, difere do arrependimento genuíno. Pois devemos deixar-nos afetar pelo
juízo divino de uma maneira tal que não busquemos um refúgio para evitar a
presença do Juiz, mas, ao contrário, nos dirijamos diretamente a ele a fim de
implorar seu perdão.
Ficando só Jesus e a mulher. Isso
foi ocasionado pelo Espírito de sabedoria, ou seja, que aqueles homens
perversos, não tendo lucrado nada em tentarem a Cristo, se foram [sem nada
conseguir]. Tampouco há alguma razão para dúvida de que continuaremos a
desmantelar todos os artifícios de nossos inimigos, contanto que nos deixemos
governar pelo mesmo Espírito. Mas frequentemente sucede que levam a melhor
sobre nós, só porque, não atentando para suas armadilhas, não cuidamos em tomar
conselho, ou melhor, confiando em nossa sabedoria, não levamos em conta o
quanto carecemos do governo do Espírito Santo. Ele diz que Cristo ficou sozinho, não que o povo a quem
anteriormente ensinava o tivesse abandonado, mas porque todos aqueles escribas que tinham trazido a adúltera
não lhe deram mais aborrecimento. Ao lermos que a mulher permaneceu com Cristo,
que aprendamos desse exemplo que não há nada melhor para nós do que conduzidos,
como culpados, perante seu tribunal, desde que nos rendamos meiga e submissamente
ao seu governo.
Deus nos abençoe!
João Calvino
(1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.
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