"De Elias e o Jejum", de Sto. Ambrósio de Milão.
*Saiba mais acessando o link abaixo.
Deus nos abençoe!
"De Elias e o Jejum", de Sto. Ambrósio de Milão.
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Deus nos abençoe!
“Não andeis
ansiosos por coisa alguma; antes, em tudo sejam vossos pedidos conhecidos
diante de Deus pela oração e súplica com ações de graças; e a paz de Deus, que
excede todo o entendimento, guardará vossos corações e vossos pensamentos em
Cristo Jesus” (Fp 4.6,7).
Com estas palavras,
o apóstolo Paulo exorta os filipenses, como faz Pedro [1Pe 5.7], a “lançar
sobre o Senhor toda ansiedade”. Porquanto nossa estrutura não é de ferro para
que não possa ser abalada por provações. Mas esta é nossa consolação, este é
nosso refrigério - depositar ou (para dizer com mais propriedade) descarregar
no seio de Deus tudo o que nos afadiga. É verdade que a confiança produz tranquilidade
em nossas mentes, mas só quando pomos em prática o exercício de orações.
Portanto, sempre que formos atingidos por qualquer provação ou tentação,
recorramos sem delonga à oração, como nosso santo abrigo.
Paulo aqui
emprega o termo “pedido” para denotar desejos ou aspirações. Ele quer que se façamos
estes conhecidos de Deus por meio da oração e súplica, como se os crentes
derramassem seus corações diante de Deus, ao confiarem-lhe a si próprios e também
tudo o que possuem. Com efeito, todos os que olham em várias direções em busca
dos insignificantes confortos do mundo podem, até certo ponto, parecer
aliviados; mas só existe um refúgio seguro - descansar no Senhor.
Com ações de graças. Quão repetidamente oramos
a Deus erroneamente, saturados de queixas ou de murmurações, como se tivéssemos
apenas motivo para acusá-lo, enquanto que em outras orações não toleramos
demora, caso ele não satisfaça imediatamente nossos desejos. Paulo, por essa
conta, anexa ações de graças às orações. É como se ele quisesse dizer que
devemos desejar aquelas coisas que nos são necessárias da parte do Senhor de
tal maneira que, não obstante, sujeitemos nossas aflições ao seu beneplácito e
demos graças enquanto apresentamos nossas petições. E, inquestionavelmente, a
gratidão terá sobre nós este efeito - que a vontade de Deus será a grande soma
de nossos desejos.
E a paz de Deus. Temos aqui uma promessa em que o apóstolo
realça a vantagem de uma sólida confiança em Deus e invocação a ele. “Se
fizerdes isso”, diz ele, “a paz de Deus guardará vossas mentes e corações”. A
Escritura costuma dividir a alma do homem, quanto às suas fragilidades, em duas
partes: a mente e o coração. A mente significa o entendimento;
enquanto que o coração denota todas as disposições ou inclinações.
Estes dois termos, pois, incluem a totalidade da alma, neste sentido: “A
paz de Deus vos guardará a ponto de impedir que volteis as costas para Deus com
pensamentos ou desejos perversos.”
É com boa razão
que Paulo chame isto de a paz de Deus, visto que ela não depende do
presente aspecto das coisas nem pende conforme as várias oscilações do mundo, porém
se fundamenta na sólida e imutável palavra de Deus. É sobre essas bases também
que ele fala dela como algo que excede todo entendimento ou percepção,
pois nada é mais estranho à mente humana do que, nas profundezas do desespero,
não obstante exercitarmos o senso de esperança; nas profundezas da pobreza,
vermos opulência; e nas profundezas da fraqueza, não nos permitirmos recuar; e,
por fim, prometermos a nós mesmos que nada nos faltará, quando destituídos de
todas as coisas, e tudo isto tão-somente na graça de Deus, a qual não se
manifesta, senão através da palavra e da convicção interna do Espírito.
Deus nos
abençoe!
João Calvino (1509-1564).
"E eu
rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para
sempre convosco, o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque
não o vê, nem o conhece; vós o conheceis, porque ele habita convosco e estará
em vós" (Jo 14.16,17).
Esta é a
primeira vez que o Senhor Jesus menciona o Espírito Santo como uma dádiva
especial ao seu povo. De fato, não precisamos supor que o Espírito Santo não habitava os santos do Antigo Testamento. No entanto, Ele foi dado com singular
influência e poder aos crentes na dispensação do Novo Testamento; esta é a
promessa especial que temos nesses versículos. Descobrimos o proveito desta
verdade ao considerar em detalhes aquilo que o nosso Senhor afirmou sobre o
Espírito Santo.
Ele se referiu
ao Espírito Santo como uma pessoa, “outro Consolador”. Aplicar a uma mera
influência ou sentimento inferior a linguagem utilizada por Jesus é uma maneira
ilógica de entender suas palavras.
Ele o chamou
de “Espírito da verdade”. Este é seu ofício particular: aplicar a verdade aos
corações dos crentes, a fim de guiá-los a toda verdade e santificá-los por
intermédio da verdade.
Ele disse que
o Espírito Santo é alguém que “o mundo não pode receber... nem o conhece”. As
atividades do Espírito Santo, no sentido mais amplo, são loucura para nos homens
incrédulos. O arrependimento, a fé, o temor, a esperança e o amor, os quais Ele
produz, são os aspectos da vida espiritual que o mundo não pode entender.
O nosso Senhor
Jesus afirmou que o Espírito Santo habitaria para sempre nos crentes e seria
conhecido por estes. Os verdadeiros crentes conhecem os sentimentos que o
Espírito Santo motiva em seus corações e os frutos que Ele produz, embora não
sejam capazes de explicar como Ele faz isso ou não percebem quando surgem pela
primeira vez. Mas todos eles, se comparados às pessoas incrédulas, são novas
criaturas, luzes e sal da terra, por serem habitados pelo Espírito Santo.
O nosso Senhor
mostrou que o Espírito Santo é outorgado à “igreja dos eleitos”, a fim de
permanecer nos crente até que Ele venha novamente a este mundo. O Espírito
Santo foi dado à igreja para suprir cada necessidade dos crentes e enchê-los
com tudo que carecem, enquanto Cristo não está visivelmente presente entre
eles.
Estas verdades
são importantíssimas. Cuidemos em assimilá-las com firmeza e não as abandonemos.
Juntamente com toda verdade referente à pessoa de Cristo, para desfrutarmos de
paz segurança é necessário que conheçamos toda verdade referente à pessoa do
Espírito Santo. Devemos rejeitar como erro qualquer doutrina a respeito da
igreja, das ordenanças e do ministério cristão que obscureçam a obra do
Espírito Santo, em nosso íntimo. Jamais descansemos enquanto não estivermos
certos de que o Espírito Santo habita em nós. “E, se alguém não tem o Espírito
de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8.9).
Deus nos
abençoe!
J.C.Ryle (1816-1900).
"Na casa
de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou
preparar-vos lugar" (Jo 13.3).
Enquanto
estamos neste mundo entendemos poucas coisas a respeito do céu; e este pouco
aprendemos da Bíblia mais pela exclusão dos aspectos negativos do que pelo
ensino dos aspectos positivos. Consideremos algumas verdades evidentes sobre o
céu.
Em poucas palavras, o céu é um lar: o lar de Cristo e de seus seguidores. Esta é uma afirmação agradável e emocionante. O lar, como nós sabemos, é um lugar onde geralmente somos amados pelo que somos, independentemente de nossas capacidades e bens; o lugar onde somos amados até o fim, onde jamais somos esquecidos e sempre bem-vindos. Esta é uma ideia sobre o céu.
O céu é um lugar de “moradas”, eternas e permanentes. Estar neste corpo para nós significa viver em tendas, tabernáculos e pousadas; precisamos nos sujeitar a muitas mudanças. No céu estaremos acomodados para sempre em perfeita segurança. “Na verdade, não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a que há de vir” (Hb 13.14). Nossa cidade, não feita por mãos humanas, jamais será destruída.
O céu é um lugar
de “muitas moradas”. Haverá lugar para todos os crentes e espaço para todos os
tipos de pessoas, tanto para os mais nobres quanto para os mais insignificantes
dos crentes, para os fortes bem como para os fracos. O mais débil filho de Deus
não precisa temer que não haja lugar para ele no céu. Ninguém será lançado
fora, exceto os pecadores impenitentes e incrédulos.
O céu é um lugar
onde o próprio Cristo estará presente. “Para que, onde eu estou, estejais vós
também” (Jo 14.3). Não devemos pensar que estaremos sozinhos e negligenciados.
Nosso Redentor, nosso Salvador, que nos amou e a si mesmo se entregou por nós
estará conosco para sempre. Não podemos imaginar completamente o que veremos no
céu, enquanto estivermos no corpo. Porém uma coisa é certa: nós veremos a
Cristo.
Guardemos
essas verdades em nossas mentes. Para a pessoa mundana e descuidada com sua alma
tais verdades podem não ser importantes. Mas, para todos que estão cientes do ministério
do Espírito Santo em seu íntimo, estão repletas de indizível consolação.
Deus nos
abençoe!
J.C.Ryle (1816-1900).
“Então, Maria,
tomando uma libra de bálsamo de nardo puro, mui precioso, ungiu os pés de Jesus
e os enxugou com os seus cabelos; e encheu-se toda a casa com o perfume do
bálsamo. Mas Judas Iscariotes, um dos seus discípulos, o que estava para
traí-lo, disse: Por que não se vendeu este perfume por trezentos denários e não
se deu aos pobres? Isto disse ele, não porque tivesse cuidado dos pobres; mas
porque era ladrão e, tendo a bolsa, tirava o que nela se lançava” (Jo 12.3-6).
Vemos neste
texto que Maria, a irmã de Lázaro, ungiu com precioso bálsamo os pés de Jesus e
os enxugou com os seus cabelos. Ela o fez com liberalidade e abundância, que
“encheu toda a casa com o perfume do bálsamo”. Notamos que havia nessa mulher um
coração repleto de amor e gratidão por tantas bênçãos recebidas. Assentar-se
aos pés do Senhor e ouvir-Lhe os ensinos, encontrar paz de alma e perdão para
os seus pecados era motivo para adoração e gratidão. Maria “ungiu os pés de
Jesus e os enxugou com os seus cabelos”. Ela havia concluído que nada seria
demasiadamente grande para oferecer ao amado Salvador.
Mas havia ali um
homem chamando Judas Iscariotes. Ele achou falta na atitude de Maria, culpando-a
de desperdício e extravagância. Declarou ele: “Por que não se vendeu este
perfume por trezentos denários e não se deu aos pobres?” O apóstolo João nos
conta que Judas disse isso, “não porque tivesse cuidado dos pobres; mas porque
era ladrão e, tendo a bolsa, tirava o que nela se lançava”.
Deveríamos observar tais coisas. Judas desfrutou dos mais elevados privilégios religiosos possíveis. Ele foi escolhido para ser apóstolo e companheiro de Cristo. Foi testemunha ocular dos milagres do nosso Senhor e ouvinte de seus maravilhosos sermões. Ele viu aquilo que Moisés e Abraão jamais viram, e ouviu o que Davi e Isaías nunca ouviram. Porém, a despeito de tudo isso, seu caráter nunca foi mudado. Judas continuou dissimulado até o fim, ocultando a sua verdadeira personalidade e intenções, em geral motivado pela busca de alcançar a realização de vantagens pessoais.
"Como uma
camada de esmalte sobre um vaso de barro, os lábios amistosos podem ocultar um
coração mau. Quem odeia disfarça as suas intenções com os lábios, mas no
coração abriga a falsidade" (Pv 26.23,24).
Deus nos
abençoe!
J.C.Ryle (1816-1900).
“Então conheceremos, se prosseguirmos
em conhecer o SENHOR: sua saída está preparada como a manhã; e ele virá a nós
como a última e a primeira chuva sobre a terra” (Oséias 6.3).
Neste
versículo, os fiéis prosseguem o que eu anteriormente discuti, assegurando-se
da esperança de salvação: nem é coisa para se maravilhar que o Profeta
detenha-se mais completamente sobre este tópico; pois sabemos quão inclinados
somos a acalentar dúvida. Não há nada mais custoso, em especial quando Deus
exibe a nós sinais de sua ira, do que nos recobrarmos para que nos persuadamos
realmente de que ele é nosso médico quando ele parece visitar nossos pecados.
Neste caso, então, devemos lutar seriamente, pois nada pode ser feito sem
labor. Por isso, os fiéis ora dizem: Conheçamos, e prossigamos em conhecer ao
SENHOR. Eles demonstram, pois, por tais palavras, que não tinham receio,
mas que a luz surgiria depois da escuridão; pois este é o sentido das palavras:
Saberemos então, eles dizem; isto é: “Ainda que agora haja trevas
horríveis por todos os lados, contudo, o Senhor manifestará a nós sua bondade,
mesmo que ela não apareça de imediato”. Eles, por conseguinte, adicionam: E
prosseguiremos após o conhecimento do SENHOR. Percebemos agora o teor das
palavras.
Ora, essa
passagem nos ensina que, quando Deus oculta sua face, agiremos tolamente se alimentarmos
nossa incredulidade; ao contrário, devemos, como eu já disse, combater essa destrutiva
moléstia, visto como Satanás nada mais busca senão nos afundar no desespero.
Esse seu ardil, então, deve ser conhecido por nós, como Paulo nos faz lembrar,
(2Co 2.11); e aqui o Espírito Santo nos supre de armas, pelas quais podemos
rechaçar esta tentação satânica: “O quê? Vejas que Deus está irado contigo; nem
é de qualquer valia a ti aventurar-se a ir até ele, pois todo acesso está
cerrado”. Isso é o que Satanás nos sugere, quando estamos cônscios de nossos
pecados. O que deve ser feito? O Profeta aqui propõe um remédio: Conheceremos;
“Embora agora estejamos mergulhados em densas trevas, embora lá nunca
brilhe sobre nós nem mesmo uma centelha de luz, todavia saberemos (como Isaías
diz, “eu esperarei no SENHOR, que esconde sua face de Jacó”) que este é o
verdadeiro exercício da nossa fé quando erguemos nossos olhos à luz que
aparenta estar apagada, e quando, nas trevas da morte, nós, no entanto,
continuamos a prometer a nós mesmos vida, como somos aqui instruídos: Nós conheceremos
então; além disso, prosseguiremos após o conhecimento do SENHOR; embora
Deus desvie sua face, e, por assim dizer, de propósito duplique a escuridão, e
todo conhecimento de sua graça esteja, no modo de dizer, extinto, não obstante,
prosseguiremos após tal conhecimento; ou seja, nenhum obstáculo
impedir-nos-á de pelejar, e nossos esforços por fim darão caminho àquela graça
que dá a impressão de estar inteiramente excluída de nós”.
Alguns dão
esta tradução: Conheceremos, e prosseguiremos para conhecer o SENHOR, e
deste modo explicam a passagem — que os israelitas não auferiram semelhante
benefício da lei de Moisés, mas que ainda esperavam a doutrina mais completa
que Cristo trouxe em sua vinda. Eles, então, acham que essa é uma profecia que
diz respeito a tal doutrina, que está agora exposta a nós, em seu brilho pleno,
pelo Evangelho, porque Deus se manifestou em seu Filho como numa imagem vivente.
Contudo, essa é uma interpretação por demais rebuscada; e nos é suficiente
mantermo-nos próximo do desígnio do Profeta. Ele deveras apresenta os piedosos
falando assim por esta razão — porque havia necessidade de grande e forte
empenho, para que eles pudessem se alçar à esperança de salvação; pois o exílio
não era para ser de um dia, mas de setenta anos. Logo, quando uma tão pesada
provação aguardava os religiosos, o Profeta desejava aqui prepará-los para a
laboriosa batalha: Então conheceremos, e seguiremos para conhecer o SENHOR.
Depois, ele
diz: Como a manhã chegará para nós sua saída — uma símile a mais apropriada;
pois, aqui, os fiéis evocam à mente a sucessão contínua de dias e noites. Não
admira que Deus nos convide a esperar por sua graça, a vista da qual está,
todavia, ocultada de nós; pois, a não ser que tenhamos aprendido por longa
experiência, quem poderia esperar por luz repentina quando prepondera a
escuridão da noite? Não acharíamos que a terra está inteiramente privada de luz?
Mas, ao ver que a aurora subitamente brilha, pondo termo às trevas da noite e
dispersando-a, que maravilha é esta, que o Senhor resplandeça além de nossa
expectativa? Sua saída, pois, será como a manhã.
Ele, aqui,
chama uma nova manifestação de a saída de Deus, isto é, quando esse mostra que atende
seu povo com mercê, quando mostra que está atento ao pacto que fez com Abraão;
pois, conquanto o povo estivesse exilado de seu país, Deus não parecia, como
dissemos, considerá-lo mais; ou melhor, o julgamento da carne apenas sugeria
isto, que Deus estava muitíssimo distante de seu povo. Ele, então, denomina-a a
saída de Deus, quando esse se mostrar propício aos cativos e restaurá-los
totalmente; então virá a saída de Deus, e será como a manhã. Vemos pois
agora que ele os confirma pela ordem da natureza, como Paulo confirma, quando
ralha a descrença daqueles para quem uma ressurreição futura se afigurava
incrível, porque ultrapassava os pensamentos da carne; “Ó néscio!”, ele diz,
“não vês tu que o que semeamos primeiro apodrece e depois germina? Deus ora põe
diante de ti, numa semente que se apodrece, um emblema da ressurreição futura”.
Assim também aqui, visto que a luz diariamente surge a nós, e a manhã brilha
depois das trevas da noite, o que então o Senhor não efetuará por si mesmo, ele
que opera tão poderosamente pelas coisas materiais? Quando tornar manifesto seu
pleno poder, o que, pensamos, ele fará? Não sobreexcederá muito mais a todos
os pensamentos da nossa carne? Vemos agora por que tal comparação foi
adicionada.
Depois, ele
nos descreve o efeito dessa manifestação: Ele virá a nós, ele diz, como
a chuva, como a última chuva, uma chuva para a terra. Essa comparação
demonstra que, tão logo se digna a olhar para o seu povo, o semblante de Deus
será como a chuva que irriga a terra. Quando a terra fica seca depois de
prolongado calor e prolongada seca, ela parece ser incapaz de produzir fruto;
mas a chuva lhe restaura a sua umidade e vigor. Assim, pois, o Profeta, na
pessoa do fiel, reforça mesmo aqui a esperança de uma completa restauração. Ele
virá a nós como a chuva, como a chuva tardia.
Os hebreus
chamam a última chuva, pela qual o trigo ficava sazonado, de serôdia. E parece
que o Profeta queria dizer chuva primaveril. Mas o sentido é claramente este,
que, embora os israelitas houvessem se tornado tão secos que não tivessem mais qualquer
vitalidade, todavia, haveria tanta virtude na graça divina quanto na chuva, que
frutifica a terra quando essa parece ser estéril. Porém, quando, ao fim, ele
acrescenta uma chuva à terra, eu não duvido de que ele tivesse em vista
a chuva da estação, que é agradável e aceitável à terra, ou àquela de que a
terra realmente carece; pois uma pancada violenta não pode ser chamada propriamente
uma chuva para a terra, por destrutiva e prejudicial que é.
Deus nos
abençoe!
João Calvino (1509-1564).
“Semeai para
vós mesmos em justiça, colhei em misericórdia; quebrai em pedaços o vosso solo
de terra devoluta; pois é tempo de procurar o SENHOR, até que ele venha
e faça chover justiça sobre vós” (Os 10.12).
O profeta
Oséias, aqui, exorta os israelitas ao arrependimento; conquanto não pareça uma
simples e mera exortação, antes, um protesto; como se o Senhor houvesse dito
que ele, até ali, em vão lidava com o povo de Israel, pois que esse sempre
continuara obstinado. Pois se segue, imediatamente - “Vós arastes maldade, vós
colhestes iniquidade; vós comestes o fruto das mentiras; porque tu confiaste em
teu caminho, na multidão dos teus homens poderosos” (v.13).
A razão, pela
qual eu cuidei que o Profeta não exortava simplesmente o povo, antes, acusava-o
de inflexibilidade por não melhorar, apesar de várias vezes admoestado, é aqui
encontrada. Ele, então, relata o quanto Deus, anteriormente, fizera para
restaurar o povo a uma mente sã; pois isso tinha sido seu ensino constante: Semeai
para vós mesmos retidão, colhei, em proporção, bondade, ou, consoante à
proporção de brandura; arai uma lavoura para si próprios; é a época de
buscar ao Senhor. Então, conquanto o povo ouvisse tais palavras todo dia, e
tivesse seus ouvidos quase ensurdecidos por elas, todavia, ele não mudava para
melhor, nem se tornava maleável; pelo contrário, com um propósito fixo, por
assim dizer, eles lavravam, diz ele, impiedade, eles colhiam iniquidade; por
conseguinte, eles comiam mesmo o fruto da falsidade, pois curtiam justos
castigos, ou, saciavam-se de falsidade e traição. Compreendemos, agora, o que o
Profeta quis dizer: procederei às particularidades.
Semeai para
vós mesmos retidão. Ele revela que a salvação desse
povo não havia sido negligenciada por Deus; pois experimentara se ele povo era
curável. O remédio era que esse conheceria que Deus apaziguava-se para com ele
ao se devotar, ele povo, à justiça. O Senhor oferecia sua mercê: “Retornai
unicamente para mim; pois, assim que a semente da justiça for semeada por vós,
a ceifa será preparada, um galardão será guardado para vós; vós, então,
segareis frutos em consonância com a vossa bondade”.
Não obstante,
se alguém perguntar se está no poder dos homens semear justiça, a resposta é
pronta, e é esta: que o Profeta não explica aqui quão longe a habilidade dos
homens se estende, mas requer o que eles devem fazer. De onde é que tantas
maldições muitas vezes nos oprimem, senão por o produto ser similar à semente
que espalhamos? Ou seja, Deus retribui a nós o que merecemos.
Isso, pois, é
o que o Profeta mostra, quando diz: “Semeai para vós mesmos retidão”: ele
demonstra que era culpa deles se o Senhor não os acalentava amável, generosa e
paternalmente: era porque a impiedade deles não o permitia.
E o Profeta
somente fala das obrigações da segunda tábua da lei, como também os Profetas
falam, quando exortam os homens à penitência: eles, com frequência, principiam
pela segunda tábua, porque a perversidade do homem, relativamente a essa, é
mais palpável, e podem, por esse meio, ser mais facilmente declarados culpados.
Porém, o que
ele acrescenta a seguir, lavrar a lavoura, não está, reconheço, em seu
lugar adequado; mas não há nada incoerente nisso: pois, depois de havê-los
exortado a arar, ele acrescenta que eles eram como campos incultos e desertos,
de modo que não era direito semear a semente antes que houvessem sido
preparados. O Profeta devia, então, de acordo com a ordem da natureza, ter
começado com lavoura; mas ele simplesmente disse o que desejava transmitir, que
os israelitas não recebiam os frutos desejados porque tinham semeado apenas
injustiça. Caso eles, agora, desejassem ser tratados com mais amabilidade, ele
indica o remédio, que é semear justiça. Se era assim, que eles já estavam
cheios de impiedade, ele revela que eles eram como um campo recoberto de sarças
e espinheiros. Por isso, quando um campo fica sem ser cultivado por muito
tempo, espinhos, cardos e outras ervas daninhas crescem ali; uma dupla aragem
será necessária, e esse duplo trabalho é chamado de Novação; e Jeremias fala da
mesma coisa, quando mostra que o povo se endurecera em sua imoralidade, e que
esse não podia produzir qualquer fruto até que os espinheiros fossem arrancados
pelas raízes e o povo houvesse sido libertado dos vícios em que se tornara
firme; por isso, ele diz: “Lavrai outra vez vosso chão sulcado” (Jr 4.3.)
E é tempo de
buscar o SENHOR, até que ele venha. Aqui, o
Profeta oferece uma esperança de perdão ao povo, para encorajá-lo a
arrepender-se: pois sabemos que, quando os homens são chamados de volta para
Deus, ficam entorpecidos, e mesmo abatidos em suas mentes, até serem
assegurados de que Deus ser-lhes-á propício; e isso é o que tratamos mais
plenamente noutra parte. Agora, o Profeta trata da mesma verdade, que é o tempo
de buscar o Senhor. Ele, de fato, usa a palavra que denota uma época
tempestiva. É, então, o tempo de procurar ao Senhor; como se ele
dissesse: “O caminho de salvação não está ainda fechado para vós; pois o Senhor
convida-vos para ele mesmo, e, de si próprio, está inclinado à misericórdia”.
Isso é uma coisa. Entretanto, somos, ao mesmo tempo, ensinados de que não deve
haver tardança; pois tal morosidade custar-lhes-á caro, se desprezarem um tão
amável convite de Deus e prosseguirem em sua obstinação. Então, é o tempo
para buscar a Deus; como também Isaías diz: “Buscai ao SENHOR enquanto ele
pode ser encontrado, procurai-o enquanto está perto: Eis agora o tempo do bom
prazer; eis, agora o dia da salvação” (Is 55.6). Assim, também aqui, o Profeta
atesta que Israel trataria facilmente com Deus se retornasse ao caminho reto;
mas que, se continuasse obstinadamente em seus pecados, período não seria
perpétuo; pois a porta seria fechada, e o povo debalde clamaria, após haver
negligenciado esse oportuno convite e abusado da paciência divina.
É o tempo, pois,
diz, de procurar o SENHOR, até que ele venha. Essa última oração é uma
confirmação da primeira; pois o Profeta declara aqui, explicitamente, que não
seria labor inútil para Israel começar a buscar a Deus — “Ele virá a vós”. Ao
mesmo tempo, ele alerta-os para não serem por demais precipitados em suas
expectativas; pois, ainda que Deus os recebesse em mercê, ele, todavia, não os
livraria já de todos os castigos ou males. Devemos, então, pacientemente
esperar até que o fruto da reconciliação apareça. Desse modo, vemos que os dois
pontos são aqui sabiamente manejados pelo Profeta; pois ele queria que Israel
se apressasse com profundo interesse, não protelasse muito o tempo de
arrependimento e, também, permanecesse sossegado, caso Deus não se revelasse
incontinente, propício, nem exibisse sinais de seu favor; o Profeta desejava,
nesse caso, que o povo fosse paciente.
E chova
justiça sobre vós. A palavra “chova” quer dizer,
na verdade, “ensinar”, e também “arremessar”; porém, como a palavra é derivada
desses verbos, como é bem sabido, significa a chuva, eu não posso explicá-la
aqui de outra maneira que não “ele choverá justiça sobre vós”. O que,
verdadeiramente, podia significar o ensino da justiça? Pois o Profeta alude à seara;
e o povo podia dizer: “Estamos assegurados de provisão, se buscarmos a Deus?”
“Decerto”, diz ele; “ele virá; ele virá a vós, e choverá justiça, ou o fruto da
justiça, sobre vós”. Em resumo, o Profeta indica aqui que, sempre que Deus é
buscado em sinceridade e de coração pelos pecadores, ele sai para encontrá-los,
revelando-se amável e compassivo. Mas, como ele havia falado de arar e semear,
o fruto ou a colheita devia ser ora citado; para que oferecesse, portanto, uma
promessa de que aqueles que tinham semeado justiça não perderiam seu dispêndio
e fadiga, ele diz que o Senhor choverá sobre vós o fruto da justiça.
Deus nos
abençoe!
João Calvino (1509-1564).
O Senhor te abençoa e protege.
Ele brilha sua luz radiante misericordiosamente sobre você.
O Senhor te vê e te guarda; Ele dá paz.
Amém. Amém. Amém.
Parte 1:
Que sua bondade o envolva, até mil gerações;
também seus filhos e suas filhas e seus filhos e suas filhas.
Parte 2:
O próprio Senhor irá adiante de você.
Ele te cerca, Ele te cerca.
Ao seu redor e dentro de você: Ele está com você.
Parte 3:
De manhã, à noite, quando você sai, quando você chega em casa,
em suas lágrimas, em sua alegria:
Ele está com você.
Parte 4:
Ele está com você.
Que Sua bondade o envolva…
O próprio Senhor irá adiante de você...
De manhã, à noite…
Ele está com você…
Números 6:22-27
“O QUARTO
MANDAMENTO”
“Lembra-te do dia de sábado, para o santificar. Seis dias
trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR, teu
Deus; não farás nenhum trabalho, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem
o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o forasteiro das tuas
portas para dentro; porque, em seis dias, fez o SENHOR os céus e a terra, o mar
e tudo o que neles há e, ao sétimo dia, descansou; por isso, o SENHOR abençoou
o dia de sábado e o santificou” [Êx 20.8-11].
1. TEOR E
APLICAÇÃO DO QUARTO MANDAMENTO
O fim deste
mandamento é que, mortos para nossos próprios interesses e obras,
meditemos no Reino de Deus e a essa meditação nos apliquemos com os meios por
ele estabelecidos. Contudo, uma vez que tem este mandamento uma
consideração peculiar e distinta dos outros, requer ele ordem de
exposição um pouco diferente. Costumam os antigos chamá-lo um mandamento prefigurativo,
porque contém a observância externa de um dia, a qual foi abolida, com as
demais figuras, na vinda de Cristo, o que certamente é por eles dito com
verdade, mas ferem a questão apenas pela metade. Por isso tem-se de buscar uma
exposição mais profunda e levar em consideração três causas pelas quais, a mim me
parece ficar patente, eles têm observado este mandamento. Primeira,
pois o celeste Legislador quis que sob o descanso do dia sétimo prefigurasse ao
povo de Israel um repouso espiritual, pelo qual devem os fiéis descansar de suas
próprias atividades para que deixem Deus neles operar. Segunda, quis ele
que um dia fosse estabelecido no qual se reunissem para ouvir a lei e
realizar os atos de culto, ou, pelo menos, o qual consagrassem particularmente
à meditação de suas obras, de sorte que, por esta rememoração, fossem
exercitados à piedade. Terceira, ordenou um dia de repouso no qual se
concedesse aos servos e aos que vivem sob o domínio de outros para que tivessem
alguma relaxação de seu labor.
2. A
IMPORTÂNCIA DO SÁBADO E SEU SENTIDO ESPIRITUAL
Contudo, somos
ensinados em muitas passagens que essa prefiguração do descanso espiritual teve
o lugar principal no sábado. Com efeito, de quase nenhum mandamento mais
severamente o Senhor exige obediência. Quando, nos profetas, quer dar a
entender que toda a religião está subvertida, queixa-se Deus de que seus
sábados foram profanados, violados, não observados, não santificados,
como se, posta de lado esta deferência, nada mais restasse em que pudesse ser
honrado [Is 56.2; Jr 17.21-23, 27; Êx 20.12, 13; 22.8; 23.38]. A observância
cumula-lhe os mais sublimados encômios, donde também os fiéis, entre os demais
oráculos, estimavam sobremaneira a revelação do sábado. Pois assim falam os
levitas em Neemias [9.14], na assembleia solene: “Deste a conhecer a nossos
pais teu santo sábado; mandamentos, e cerimônias, e a lei lhes deste pela mão
de Moisés.” Vês como o sábado é tido de singular dignidade entre todos
os mandamentos da lei. Estes preceitos todos servem para exaltar a
dignidade do mistério, que é mui esplendidamente expresso por Moisés e
Ezequiel. Assim tens no Êxodo [31.13, 14, 16, 17a]: “Vede que guardeis meu
sábado, porque é um sinal entre mim e vós, em vossas gerações, para que saibais
que Eu sou o Senhor, que vos santifico. Guardai o sábado, pois ele é
santo para vós.” “Guardem o sábado os filhos de Israel, e o celebrem em suas
gerações; é um pacto sempiterno entre mim e os filhos de Israel, e um sinal
perpétuo.” Ora, ainda mais destacadamente o reitera Ezequiel, cuja suma,
entretanto, é esta: que o sábado fosse por sinal pelo qual Israel pudesse
conhecer que Deus lhe era o santificador [Ez 20.12]. Se nossa santificação se
patenteia na mortificação da própria vontade, então mui adequada
correspondência se oferece do sinal externo com a própria realidade interior.
Importa que nos desativemos totalmente, para que Deus opere em nós, abrindo mão
de nossa vontade, resignando o coração, de seus apetites abdicando toda
a carne. Enfim, impõe-se abster-nos de todas as atividades de nosso próprio
entendimento, para que, tendo a Deus operando em nós [Hb 13.21], nele descansemos,
como também o ensina o Apóstolo [Hb 4.9].
3. O SENTIDO
TIPOLÓGICO DO SÉTIMO DIA
A observância
de um dia dentre cada sete representava aos judeus esta cessação perpétua
de atividades, a qual, para que fosse cultivada com religiosidade maior,
o Senhor a recomendou com seu próprio exemplo. Pois é de não somenos
valia para aquecer o zelo do homem que saiba estar trilhando à imitação do
Criador. Se alguém procura algum sentido secreto no número sete, uma vez
que na Escritura este é o número da perfeição, não sem causa foi ele escolhido
para expressar perpetuidade. Ao que também confirma isto: que Moisés põe termo
à descrição da sucessão de dias e noites com o dia em que narra haver o Senhor
descansado de suas obras. Pode-se também apresentar outro significado provável
do número, isto é, que o Senhor assim indicou que o sábado nunca haverá
de ser absoluto até que tenha chegado o último dia. Pois aqui começamos nosso
bem-aventurado descanso nele, descanso em que fazemos diariamente novos
progressos. Mas, porque ainda incessante é a luta com a carne, não se haverá de
consumar antes que se cumpra aquele vaticínio de Isaías [66.23],
enquanto a lua nova for continuada por lua nova, sábado por sábado, até quando,
na verdade, Deus vier a ser tudo em todas as coisas [1Co 15.28]. Portanto, pode
parecer que, mediante o sétimo dia, o Senhor tenha delineado a seu povo a
perfeição futura de seu sábado no Último Dia, a fim de que, pela incessante meditação
do sábado, a esta perfeição aspirasse por toda a vida.
4. CRISTO, O
PLENO CUMPRIMENTO DO SÁBADO
Se a alguém
desagrada esta interpretação do número como sendo por demais sutil, nada impeço
a que a tome em termos mais simples, a saber: que o Senhor estabeleceu
um dia determinado em que o povo se exercitasse, sob a direção da lei, a
meditar na incessabilidade do descanso espiritual; que Deus designou o
sétimo dia, ou porque previa ser o mesmo suficiente para isso, ou
para que, proposta uma imitação de seu exemplo, melhor estimulasse o povo, ou,
na realidade, o exortasse a não atentar para o sábado com outro propósito
senão que o conformasse a seu Criador. Ora, pouco interessa que
interpretação se adote, desde que subsista o mistério que principalmente se
delineia: o referente ao perpétuo descanso de nossos labores. A contemplar
isto, os Profetas reiteradamente revocavam os judeus, para que não pensassem
haver-se desincumbido da obrigação do sábado com a simples cessação
física do trabalho. Além das passagens já referidas, assim tens em
Isaías [58.13, 14]: “Se apartares do sábado teu pé, para que não faças tua
vontade em meu santo dia, e ao sábado chamares deleitoso e o dia santo
do Senhor glorioso, e o glorificares, não seguindo teus caminhos e não fazendo
tua vontade, de sorte que fales tua palavra, então te deleitarás no
Senhor” etc. Mas, não há dúvida de que pela vinda do Senhor Jesus Cristo
o que era aqui cerimonial foi abolido. Pois ele é a verdade, por cuja
presença se desvanecem todas as figuras; o corpo, a cuja visão são deixadas
para trás as sombras. Ele é, digo-o, o verdadeiro cumprimento do sábado.
Com ele, sepultados através do batismo, fomos enxertados na participação de sua
morte, para que, participantes de sua ressurreição, andemos em novidade
de vida [Rm 6.4]. Por isso, escreve o Apóstolo em outro lugar que o sábado tem
sido uma sombra da realidade futura, e que o corpo, isto é, a sólida
substância da verdade, que bem explicou naquela passagem, está em Cristo [Cl
2.17]. Esta não consiste em apenas um dia, mas em todo o curso de nossa vida, até
que, inteiramente mortos para nós mesmos, nos enchamos da vida de Deus. Portanto,
que esteja longe dos cristãos a observância supersticiosa de dias.
5. AINDA QUE
CANCELADO, HÁ NO SÁBADO ASPECTOS VIGENTES
Com efeito,
por isso é que nas velhas sombras não se devem numerar as duas causas
posteriores que se enfeixam neste mandamento; ao contrário, convêm elas,
igualmente, em todos os séculos, ainda que o sábado esteja cancelado, entre
nós, não obstante, ainda tem lugar isto: primeiro, que nos congreguemos
em dias determinados para ouvir a Palavra, para partir o pão místico, para as
orações públicas; segundo, para que se dê aos servos e aos operários relaxação
de seu labor. Paira além de dúvida que, na preceituação do sábado, o Senhor
teve em mira a ambas. Sobejo testemunho tem a primeira, mesmo que seja só
no uso dos judeus. A segunda gravou-a Moisés no Deuteronômio, nestas palavras:
“Para que descanse teu servo, e tua serva, assim como também tu; lembra-te de
que também tu mesmo foste servo no Egito” [Dt 5.14, 15]. De igual modo, no
Êxodo: “Para que descanse teu boi e teu jumento e tome alento o filho de
tua serva” [Êx 23.l2]. Quem há de negar que uma e outra nos convém, exatamente
como convinha aos judeus? Reuniões de Igreja nos são preceituadas pela
Palavra de Deus, e sua necessidade nos é suficientemente assinalada pela
própria experiência da vida. Como se podem elas realizar, a não ser que
tenham sido promulgadas e tenham seus dias estabelecidos? Segundo a postulação
do Apóstolo [1Co 14.40], todas as coisas entre nós devem ser feitas
decentemente e com ordem. Tão longe, porém, está de que se possa conservar a
decência e a ordem, a não ser mediante esta organização e regularidade, as
quais, se se desfazem, sobre a Igreja pairam mui presente perturbação e ruína. Pois
se a mesma necessidade pesa sobre nós, em socorro da qual o Senhor constituíra o
sábado para os judeus, ninguém alegue que ele não nos diz respeito. Ora, nosso providentíssimo
e indulgentíssimo Pai quis prover à nossa necessidade, não menos que à dos
judeus. Por que, dirás, não nos congregamos antes diariamente, de sorte que,
dessa forma, se ponha termo à distinção de dias? Prouvera que, de fato, isto se
nos concedesse! E, por certo, a sabedoria espiritual era digna de que se
lhe reservasse diariamente alguma porçãozinha do tempo. Mas, se pela fraqueza
de muitos não se pode conseguir que se realizem reuniões diárias, e a norma da
caridade não permite deles exigir mais, por que não obedeçamos à norma que nos
foi imposta pela vontade de Deus?
6. O ESPÍRITO
E FUNÇÃO DA OBSERVÂNCIA DO DOMINGO
Sou compelido
a estender-me um pouco mais aqui, porque alguns espíritos inquietos estão hoje
a causar tumulto por causa do Dia do Senhor. Acusam o povo cristão de ser
nutrido no judaísmo, porquanto retém certa observância de dias. Eu, porém,
respondo que estes dias são por nós observados aquém do judaísmo, porque nesta
matéria diferimos dos judeus por larga diferença. Pois, não o celebramos
como uma cerimônia revestida com a mais estrita religiosidade, pela qual
pensamos representar-se um mistério espiritual. Pelo contrário, tomamo-lo como
um remédio necessário para reter-se ordem na Igreja. Ademais, Paulo ensina que
os cristãos não devem ser julgados por sua observância, uma vez ser ela mera
sombra da realidade futura [Cl 2.16, 17]. Por isso, arreceia-se de que haja
trabalhado em vão entre os gálatas, porque ainda observavam dias [G1 4.10, 11].
E aos romanos declara ser supersticioso se alguém julga entre dia e dia [Rm
14.5]. Quem, entretanto, exceto estes desvairados somente, não vê que
observância o Apóstolo tinha em mente? Pois, aqueles a quem se dirigia não
contemplavam neste propósito a ordem política e eclesiástica; antes, como
retivessem os sábados e dias de guarda como sombras das coisas
espirituais, obscureciam em extensão correspondente a glória de Cristo e a luz
do evangelho. Abstinham-se dos labores manuais não por outra razão senão para
que fossem embaraços aos sacros estudos e meditações; e assim, com uma certa
devoção, sonhavam que, ao observá-lo, estavam a rememorar mistérios dantes
recomendados. Contra esta antagônica distinção de dias, digo-o, investe o
Apóstolo, não contra a legítima opção que serve à paz da sociedade cristã. Com
efeito, nas igrejas por ele estabelecidas, o sábado era mantido para este
propósito. Ora, prescreve ele esse dia aos coríntios, para que se
coletem ofertas a fim de serem socorridos os irmãos hierosolimitanos [1Co
16.2]. Se porventura se teme superstição, muito mais perigo havia nos
dias de guarda judaicos, nos dias do Senhor, do que agora observam os cristãos.
Pois, visto que para suprimir-se a superstição se impunha isto, foi abolido o
dia sagrado observado pelos judeus; e como era necessário para se conservarem o
decoro, a ordem e a paz na Igreja, designou-se outro dia, o domingo para
este fim.
7. O GENUÍNO
SENTIDO DO DOMINGO
Contudo, não
foi sem alguma razão que os antigos escolheram o dia do domingo para pô-lo no
lugar do sábado. Ora, como na ressurreição do Senhor está o fim e cumprimento
daquele verdadeiro descanso que o antigo sábado prefigurava, os cristãos são
advertidos pelo próprio dia que pôs termo às sombras a não se apegarem ao cerimonial
envolto em sombras. Nem a tal ponto, contudo, me prendo ao número sete que
obrigue a Igreja à sua servidão, pois nem haverei de condenar as igrejas que tenham
outros dias solenes para suas reuniões, desde que se guardem da superstição. Isto
ocorrerá, se se mantiver a observância da disciplina e da ordem bem regulada. A
síntese do mandamento é: como aos judeus a verdade era comunicada sob prefiguração,
assim ela, em primeiro lugar, nos é outorgada sem sombras, para que por toda a
vida observemos um perpétuo sabatismo de nossos labores, a fim de que o Senhor
em nós opere por seu Espírito; em segundo lugar, para que cada um,
individualmente, sempre que disponha de lazer, se exercite diligentemente na
piedosa reflexão das obras de Deus. Então, ainda, para que todos a um tempo
observemos a legítima ordem da Igreja, constituída para ouvir-se a Palavra,
para a administração dos sacramentos, para as orações públicas. Em terceiro lugar,
para que não oprimamos desumanamente os que nos estão sujeitos. E assim se
desvanecem-se as mentiras dos falsos profetas, os quais, em séculos transatos,
imbuíram o povo de uma opinião judaica, asseverando que nada mais foi cancelado
senão o que era cerimonial neste mandamento, com isto entendem em seu
linguajar a fixação do dia sétimo, mas remanescer o que é moral,
isto é, a observância de um dia na semana. Com efeito, isto outra coisa não
é senão mudar o dia por despeito aos judeus e reter em mente a mesma
santidade do dia, uma vez que ainda nos permanece nos dias sentido de mistério
igual ao que tinha lugar entre os judeus. E de fato vemos que proveito tem
fruído com tal doutrina, pois quantos deles se apegam às estipulações superam
três vezes aos judeus em sua crassa e carnal superstição de sabatismo, de sorte
que as reprimendas que lemos em Isaías [1.13-15; 58.13] nada menos lhes convêm
hoje que àqueles a quem o Profeta increpava em seu tempo. Contudo, importa manter-se,
principalmente, o ensino geral: para que a religião não pereça ou venha
definhar entre nós, devem ser realizadas diligentemente as reuniões sagradas e
deve dar-se atenção aos meios externos que servem para fomentar o culto divino.
Deus nos abençoe!
João Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).
“Mestre, qual
é o grande mandamento na Lei? Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus,
de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é
o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu
próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os
Profetas” [Mt 22.36-40].
Já demonstramos que Cristo, na parábola do samaritano [Lc 10.29-37], sob
o termo próximo inclui cada
indivíduo, até o mais distanciado, não havendo razão para limitarmos o preceito
do amor ao próximo às pessoas mais achegadas
a nós. Não estou negando que quanto mais intimamente ligada nos é uma
pessoa, tanto mais especialmente é nosso dever assisti-la. Pois assim impõe o
princípio de humanidade: quanto mais íntimos são os laços de parentesco ou
amizade que ligam as pessoas, tanto mais
devem os homens ajudar-se entre si. E isto com nenhuma ofensa de Deus,
por cuja providência somos, de certo modo, a isto compelidos.
Afirmo, porém, que se deve abraçar com um só afeto de caridade a todo
gênero humano, sem qualquer exceção, porquanto aqui não há nenhuma distinção de
bárbaro ou grego, de digno ou indigno, de amigo ou inimigo, visto que devem ser
considerados em Deus, não em si mesmos,
consideração esta da qual, quando nos desviamos, não surpreende que nos
emaranhemos em muitos erros. Consequentemente, se apraz manter a verdadeira
linha do amar, devem-se voltar os olhos, em primeiro plano, não para o homem,
cuja visão mais frequentemente engendraria ódio que amor, mas para Deus, que
manda que o amor que lhe deferimos seja difundido em relação a todos os seres
humanos, de sorte que seja este o perpétuo fundamento: seja quem for o homem,
deve ele, no entanto, ser amado, já
que Deus é amado.
Deus nos abençoe!
João Calvino (1509-1564).