“O PRÓXIMO É TODA E QUALQUER CRIATURA HUMANA”
“Mestre, qual
é o grande mandamento na Lei? Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus,
de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é
o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu
próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os
Profetas” [Mt 22.36-40].
Já demonstramos que Cristo, na parábola do samaritano [Lc 10.29-37], sob
o termo próximo inclui cada
indivíduo, até o mais distanciado, não havendo razão para limitarmos o preceito
do amor ao próximo às pessoas mais achegadas
a nós. Não estou negando que quanto mais intimamente ligada nos é uma
pessoa, tanto mais especialmente é nosso dever assisti-la. Pois assim impõe o
princípio de humanidade: quanto mais íntimos são os laços de parentesco ou
amizade que ligam as pessoas, tanto mais
devem os homens ajudar-se entre si. E isto com nenhuma ofensa de Deus,
por cuja providência somos, de certo modo, a isto compelidos.
Afirmo, porém, que se deve abraçar com um só afeto de caridade a todo
gênero humano, sem qualquer exceção, porquanto aqui não há nenhuma distinção de
bárbaro ou grego, de digno ou indigno, de amigo ou inimigo, visto que devem ser
considerados em Deus, não em si mesmos,
consideração esta da qual, quando nos desviamos, não surpreende que nos
emaranhemos em muitos erros. Consequentemente, se apraz manter a verdadeira
linha do amar, devem-se voltar os olhos, em primeiro plano, não para o homem,
cuja visão mais frequentemente engendraria ódio que amor, mas para Deus, que
manda que o amor que lhe deferimos seja difundido em relação a todos os seres
humanos, de sorte que seja este o perpétuo fundamento: seja quem for o homem,
deve ele, no entanto, ser amado, já
que Deus é amado.
Deus nos abençoe!
João Calvino (1509-1564).
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