“ENTÃO CONHECEREMOS, SE PROSSEGUIRMOS EM CONHECER O SENHOR"
“Então conheceremos, se prosseguirmos
em conhecer o SENHOR: sua saída está preparada como a manhã; e ele virá a nós
como a última e a primeira chuva sobre a terra” (Oséias 6.3).
Neste
versículo, os fiéis prosseguem o que eu anteriormente discuti, assegurando-se
da esperança de salvação: nem é coisa para se maravilhar que o Profeta
detenha-se mais completamente sobre este tópico; pois sabemos quão inclinados
somos a acalentar dúvida. Não há nada mais custoso, em especial quando Deus
exibe a nós sinais de sua ira, do que nos recobrarmos para que nos persuadamos
realmente de que ele é nosso médico quando ele parece visitar nossos pecados.
Neste caso, então, devemos lutar seriamente, pois nada pode ser feito sem
labor. Por isso, os fiéis ora dizem: Conheçamos, e prossigamos em conhecer ao
SENHOR. Eles demonstram, pois, por tais palavras, que não tinham receio,
mas que a luz surgiria depois da escuridão; pois este é o sentido das palavras:
Saberemos então, eles dizem; isto é: “Ainda que agora haja trevas
horríveis por todos os lados, contudo, o Senhor manifestará a nós sua bondade,
mesmo que ela não apareça de imediato”. Eles, por conseguinte, adicionam: E
prosseguiremos após o conhecimento do SENHOR. Percebemos agora o teor das
palavras.
Ora, essa
passagem nos ensina que, quando Deus oculta sua face, agiremos tolamente se alimentarmos
nossa incredulidade; ao contrário, devemos, como eu já disse, combater essa destrutiva
moléstia, visto como Satanás nada mais busca senão nos afundar no desespero.
Esse seu ardil, então, deve ser conhecido por nós, como Paulo nos faz lembrar,
(2Co 2.11); e aqui o Espírito Santo nos supre de armas, pelas quais podemos
rechaçar esta tentação satânica: “O quê? Vejas que Deus está irado contigo; nem
é de qualquer valia a ti aventurar-se a ir até ele, pois todo acesso está
cerrado”. Isso é o que Satanás nos sugere, quando estamos cônscios de nossos
pecados. O que deve ser feito? O Profeta aqui propõe um remédio: Conheceremos;
“Embora agora estejamos mergulhados em densas trevas, embora lá nunca
brilhe sobre nós nem mesmo uma centelha de luz, todavia saberemos (como Isaías
diz, “eu esperarei no SENHOR, que esconde sua face de Jacó”) que este é o
verdadeiro exercício da nossa fé quando erguemos nossos olhos à luz que
aparenta estar apagada, e quando, nas trevas da morte, nós, no entanto,
continuamos a prometer a nós mesmos vida, como somos aqui instruídos: Nós conheceremos
então; além disso, prosseguiremos após o conhecimento do SENHOR; embora
Deus desvie sua face, e, por assim dizer, de propósito duplique a escuridão, e
todo conhecimento de sua graça esteja, no modo de dizer, extinto, não obstante,
prosseguiremos após tal conhecimento; ou seja, nenhum obstáculo
impedir-nos-á de pelejar, e nossos esforços por fim darão caminho àquela graça
que dá a impressão de estar inteiramente excluída de nós”.
Alguns dão
esta tradução: Conheceremos, e prosseguiremos para conhecer o SENHOR, e
deste modo explicam a passagem — que os israelitas não auferiram semelhante
benefício da lei de Moisés, mas que ainda esperavam a doutrina mais completa
que Cristo trouxe em sua vinda. Eles, então, acham que essa é uma profecia que
diz respeito a tal doutrina, que está agora exposta a nós, em seu brilho pleno,
pelo Evangelho, porque Deus se manifestou em seu Filho como numa imagem vivente.
Contudo, essa é uma interpretação por demais rebuscada; e nos é suficiente
mantermo-nos próximo do desígnio do Profeta. Ele deveras apresenta os piedosos
falando assim por esta razão — porque havia necessidade de grande e forte
empenho, para que eles pudessem se alçar à esperança de salvação; pois o exílio
não era para ser de um dia, mas de setenta anos. Logo, quando uma tão pesada
provação aguardava os religiosos, o Profeta desejava aqui prepará-los para a
laboriosa batalha: Então conheceremos, e seguiremos para conhecer o SENHOR.
Depois, ele
diz: Como a manhã chegará para nós sua saída — uma símile a mais apropriada;
pois, aqui, os fiéis evocam à mente a sucessão contínua de dias e noites. Não
admira que Deus nos convide a esperar por sua graça, a vista da qual está,
todavia, ocultada de nós; pois, a não ser que tenhamos aprendido por longa
experiência, quem poderia esperar por luz repentina quando prepondera a
escuridão da noite? Não acharíamos que a terra está inteiramente privada de luz?
Mas, ao ver que a aurora subitamente brilha, pondo termo às trevas da noite e
dispersando-a, que maravilha é esta, que o Senhor resplandeça além de nossa
expectativa? Sua saída, pois, será como a manhã.
Ele, aqui,
chama uma nova manifestação de a saída de Deus, isto é, quando esse mostra que atende
seu povo com mercê, quando mostra que está atento ao pacto que fez com Abraão;
pois, conquanto o povo estivesse exilado de seu país, Deus não parecia, como
dissemos, considerá-lo mais; ou melhor, o julgamento da carne apenas sugeria
isto, que Deus estava muitíssimo distante de seu povo. Ele, então, denomina-a a
saída de Deus, quando esse se mostrar propício aos cativos e restaurá-los
totalmente; então virá a saída de Deus, e será como a manhã. Vemos pois
agora que ele os confirma pela ordem da natureza, como Paulo confirma, quando
ralha a descrença daqueles para quem uma ressurreição futura se afigurava
incrível, porque ultrapassava os pensamentos da carne; “Ó néscio!”, ele diz,
“não vês tu que o que semeamos primeiro apodrece e depois germina? Deus ora põe
diante de ti, numa semente que se apodrece, um emblema da ressurreição futura”.
Assim também aqui, visto que a luz diariamente surge a nós, e a manhã brilha
depois das trevas da noite, o que então o Senhor não efetuará por si mesmo, ele
que opera tão poderosamente pelas coisas materiais? Quando tornar manifesto seu
pleno poder, o que, pensamos, ele fará? Não sobreexcederá muito mais a todos
os pensamentos da nossa carne? Vemos agora por que tal comparação foi
adicionada.
Depois, ele
nos descreve o efeito dessa manifestação: Ele virá a nós, ele diz, como
a chuva, como a última chuva, uma chuva para a terra. Essa comparação
demonstra que, tão logo se digna a olhar para o seu povo, o semblante de Deus
será como a chuva que irriga a terra. Quando a terra fica seca depois de
prolongado calor e prolongada seca, ela parece ser incapaz de produzir fruto;
mas a chuva lhe restaura a sua umidade e vigor. Assim, pois, o Profeta, na
pessoa do fiel, reforça mesmo aqui a esperança de uma completa restauração. Ele
virá a nós como a chuva, como a chuva tardia.
Os hebreus
chamam a última chuva, pela qual o trigo ficava sazonado, de serôdia. E parece
que o Profeta queria dizer chuva primaveril. Mas o sentido é claramente este,
que, embora os israelitas houvessem se tornado tão secos que não tivessem mais qualquer
vitalidade, todavia, haveria tanta virtude na graça divina quanto na chuva, que
frutifica a terra quando essa parece ser estéril. Porém, quando, ao fim, ele
acrescenta uma chuva à terra, eu não duvido de que ele tivesse em vista
a chuva da estação, que é agradável e aceitável à terra, ou àquela de que a
terra realmente carece; pois uma pancada violenta não pode ser chamada propriamente
uma chuva para a terra, por destrutiva e prejudicial que é.
Deus nos
abençoe!
João Calvino (1509-1564).
*Agradecemos a sua oferta (Pix 08362076291).
Nenhum comentário:
Postar um comentário