“AQUELE QUE DENTRE VÓS ESTIVER SEM PECADO”
“Como
insistissem na pergunta, Jesus se levantou e lhes disse: Aquele que dentre vós
estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire pedra” (Jo 8:7).
Cristo Jesus declarou isso em
conformidade com o costume da lei, pois Deus ordenara que a testemunha, com
suas próprias mãos, tomasse a iniciativa na morte dos malfeitores, em
conformidade com a sentença por eles pronunciada, a fim de haver mais prudência
em dar-se testemunho [Dt 17.7]. Há muitas pessoas que procedem temerariamente
ao esmagarem seu irmão com perjúrio, porquanto não imaginam que estão abrindo
uma ferida mortal com suas línguas. E este mesmo argumento foi de muito peso
para esses caluniadores, desesperados como estavam, pois nem bem tiveram uma
visão dele, se descartaram das incandescentes paixões com que se deixaram
encher de vaidades quando chegaram. Todavia existe essa diferença entre a
injunção da lei e as palavras de Cristo, a saber, que na lei Deus meramente
ordenara que não se condenasse uma pessoa com a língua, a menos que lhes fosse
permitido matá-la com as próprias mãos. Aqui, porém, Cristo demanda das testemunhas
inocência plenária, de modo que ninguém pudesse acusar outrem de crime, a menos
que fosse puro e isento de toda falha. Ora, o que ele disse naquele tempo a
umas poucas pessoas, temos de considerar como havendo falado a todos, para que
todo aquele que acusar outrem, imponha a si uma lei de inocência, do contrário,
não estamos indo ao encalço de atos ímpios, e, sim, estamos sendo hostis às
pessoas.
Entretanto, dessa forma Cristo parece
anular no mundo todas as decisões judiciais, de modo que ninguém ousará a dizer
que tem o direito de punir os crimes. Porque, é impossível encontrar um único
juiz que não tenha consciência de haver cometido algum erro? É possível
encontrar uma única testemunha que não seja culpada de alguma falha? Portanto, é
como se ele proibisse a todas as testemunhas de apresentar seu testemunho
público, e a todos os juízes de ocupar seu tribunal. Eis minha resposta: esta
não é uma proibição absoluta e ilimitada, por meio da qual Cristo proíba os
pecadores de seu dever de corrigir os pecados de outrem. Senão que, por meio
dessa palavra, ele apenas reprova os hipócritas que suavemente se lisonjeiam e
abrandam seus vícios, contudo são excessivamente severos, e inclusive chegam a
ser cruéis, ao censurarem outros. Ninguém, pois, será impedido por seus
próprios pecados de corrigir os pecados de outrem, e inclusive de puni-los sempre
que achar necessário, contanto que em si e nos outros ele odeie o que deve ser
condenado. E além de tudo isso, cada pessoa deve começar interrogando sua própria
consciência e agindo como testemunha e como juiz contra si mesmo, antes de
chegar a outros. E assim, sem odiar os homens, faremos guerra contra os pecados.
Deus nos abençoe!
João Calvino
(1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.

