“Estando elas possuídas de temor, baixando os olhos para o chão, eles lhes falaram: Por que buscais entre os mortos ao que vive? Ele não está aqui, mas ressuscitou. Lembrai-vos de como vos preveniu, estando ainda na Galileia” (Lc 24.5,6).
segunda-feira, 13 de março de 2023
domingo, 12 de março de 2023
"STILLE ZATERDAG"
sexta-feira, 10 de março de 2023
“SEM FÉ É IMPOSSÍVEL AGRADAR A DEUS” – Parte III
“De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que
aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador
dos que o buscam” (Hb 11.6).
De ambas essas cláusulas podemos agora concluir como e por que é
impossível a alguém agradar a Deus sem o exercício da fé. Já que por natureza
vivemos debaixo de sua maldição. Deus, com justa razão, nos trata com ira, e o
antídoto não se encontra em nosso poder. Portanto, necessário se faz que Deus
nos antecipe com sua graça, o que acontece quando descobrimos que Deus existe,
de tal forma que nenhuma superstição corrupta nos desvie para outra direção; e,
além disso quando somos assegurados da salvação que nos provém dele.
Se porventura alguém desejar um desenvolvimento mais completo desse
argumento, então que leve em conta o seguinte ponto de partida: Que inútil será
toda a nossa tentativa e experiência, a menos que olhemos para Deus. O único
propósito de uma vida genuína é servir à glória divina, e tal coisa jamais sucederá
a menos que o conhecimento dele nos abra o caminho. Tal coisa, porém, seria só
uma parte da fé, o que nos seria de pouco proveito, a menos que a confiança lhe
seja adicionada. A fé só será completa em todas as suas partes, para
assegurar-nos o favor divino, quando sentimos inabalável confiança de que não o
buscamos em vão, e assim nos assegurarmos de que dele nos vem a salvação.
Nenhuma pessoa alimentará qualquer confiança de que Deus será o Galardoador de
seus méritos, a menos que o orgulho a tenha embrutecido e se sinta cativada
pelo seu pervertido amor-próprio. Portanto, essa confiança de que falamos não se
apoia nas obras, nem na dignidade do próprio ser humano, mas tão-somente no
favor divino. Visto que a graça de Deus se encontra fundamentada somente em
Cristo, ele é o único a quem nossa fé deve contemplar.
Deus nos abençoe!
João Calvino (1509-1564).
“SEM FÉ É IMPOSSÍVEL AGRADAR A DEUS” – Parte II
“De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que
aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador
dos que o buscam” (Hb 11.6).
A segunda cláusula consiste nisto: que devemos estar plenamente
persuadidos de que não se pode buscar a Deus em vão, convicção esta que inclui
a esperança da salvação e a vida eterna. Ninguém terá seu coração preparado
para buscar a Deus, a menos que perceba profundamente uma manifestação da divina
munificência compelindo-o a esperar dele a salvação. Onde nenhuma salvação se
evidencia, ou fugiremos de Deus, ou não o levaremos em consideração. Devemos
ter sempre em mente que tal coisa tem de ser crida e não meramente imaginada,
porquanto até mesmo os incrédulos podem às vezes alimentar tal noção; todavia,
não se aproximam de Deus, visto que não podem contar com aquela fé genuína e
sólida. Eis a segunda parte da fé, pela qual obtemos graça diante de Deus:
quando nos sentimos seguros de que nossa salvação repousa nele.
Muitos são aqueles que pervertem insidiosamente esta cláusula, deduzindo
dela os méritos das obras e a doutrina da salvação que delas provém. Eis o seu raciocínio:
“Se agradamos a Deus pela fé, porque cremos que ele é o Galardoador, então
segue-se que a fé leva em conta o mérito das obras”. Tal erro não poderia ser melhor
refutado do que encarando a maneira de o buscar; pois todo aquele que se desvia
desse caminho não pode ser considerado como que a buscar a Deus. A Escritura
estipula que o caminho certo de se buscar a Deus consiste em que a pessoa que
se vê prostrada, ferida, com a acusação de morte eterna e totalmente
desesperada, deve fugir para Cristo como o único refúgio de salvação. Em parte
alguma encontraremos que os méritos das obras devam nos conduzir a Deus com o
fim de granjearmos seu favor. Aqueles que honestamente defendem esse princípio
de se buscar a Deus não encontrarão nenhuma dificuldade, visto que o galardão
refere-se não à dignidade ou ao prêmio das obras, mas à fé.
Isso liquida os frios arrazoados dos sofistas que dizem que agradamos a
Deus através da fé por que merecemos quando nossa intenção é agradá-lo. A
intenção do apóstolo é conduzir-nos muito mais alto, para que a própria consciência
humana se convença de forma inabalável de que buscar a Deus não é um propósito
fútil. Isso certamente sobrepuja muitíssimo a tudo quando podemos apreender
para nós mesmos, especialmente quando alguém o aplica em termos pessoais. Que
Deus é o Galardoador dos que o buscam é algo que não deve ser considerado em
termos abstratos, mas cada um de nós, individualmente, deve aplicar a si mesmo
as vantagens e os benefícios desta doutrina, para que saibamos que Deus tem
cuidado de nós; que ele se preocupa tanto com nossa salvação que jamais se
afastará de nós; que nossas orações são ouvidas por ele e que ele será sempre o
nosso infalível Libertador. Visto que nenhuma dessas coisas nos vem senão por
meio de Cristo, necessário se faz que nossa fé o tenha sempre em consideração e
que repouse unicamente nele.
Deus nos abençoe!
João Calvino (1509-1564).
“SEM FÉ É IMPOSSÍVEL AGRADAR A DEUS” – Parte I
“De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que
aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador
dos que o buscam” (Hb 11.6).
A razão por que ninguém pode agradar a Deus sem o exercício
da fé consiste nisto: ninguém jamais se aproxima de Deus se não crer que ele
existe e estiver convencido de que é o
Galardoador dos que o buscam. Se o caminho para Deus só é aberto para a fé,
segue-se que todos quantos se encontram fora da fé não podem agradar a Deus. A
partir desse fato, o apóstolo mostra, em primeiro lugar, como a fé obtém o
favor [divino] para nós, visto que ela é nossa mestra que nos orienta na
adoração ao verdadeiro Deus; e, em segundo lugar, porque ela nos faz mais
seguros da munificência divina, para que não nos pareça que o buscamos em vão.
A primeira vista, a exigência do apóstolo para crermos na existência de
Deus não se nos afigura como uma questão de primeira grandeza. Se você, porém,
fizer uma observação mais minuciosa, descobrirá que ela contém uma rica,
profunda e sublime doutrina. Ainda que a existência de Deus seja uma doutrina
que desfruta do consenso quase que universal e sem disputa, não obstante, a
menos que o Senhor nos dê um sólido conhecimento de si mesmo, toda sorte de
dúvidas nos assaltará para extinguir toda a nossa percepção do Ser divino. O
intelecto humano é particularmente inclinado a esse gênero de vacuidade, de tal
modo que se torna fácil esquecer-se de Deus. O apóstolo não está dizendo simplesmente
que os homens devam ser persuadidos de que é possível a existência de algum
gênero de deus, senão que ele está fazendo referência direta ao verdadeiro
Deus. Repito, não será bastante que formulemos uma vaga ideia de Deus, senão
que temos que discernir quem é o Deus verdadeiro.
Agora percebemos o que o apóstolo tencionava nesta cláusula. Ele afirma
que não teremos acesso à presença de Deus, a menos que estejamos convencidos,
nos mais profundos recessos de nossa alma, que Deus de fato existe, para que
não sejamos levados de um lado para outro por toda sorte de opiniões. É
evidente, à luz desse fato, que os homens cultuarão a Deus inutilmente, se
porventura não observarem o modo correto; e que todas as religiões que não
contêm o genuíno conhecimento de Deus são não só fúteis, mas também
perniciosas, visto que todas aquelas que não sabem distinguir Deus dos ídolos
estão sendo impedidas de se aproximarem dele. Não pode haver religião alguma
onde não reine a verdade. Se um genuíno conhecimento de Deus habita os nossos
corações, seguir-se-á inevitavelmente que seremos conduzidos a reverenciá-lo e
a temê-lo. Não é possível ter um genuíno conhecimento de Deus exceto pelo prisma
de sua majestade. É desse fator que nasce o desejo de servi-lo.
Deus nos abençoe!
João Calvino (1509-1564).
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023
“SEGUI A PAZ COM TODOS E A SANTIFICAÇÃO”
“SEGUI A PAZ COM TODOS E A SANTIFICAÇÃO”
“Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o
Senhor” (Hb 12.14).
Os homens já nascem com uma tendência tão acentuada que parecem fugir da
paz, pois que todos correm atrás de seus próprios interesses, pretendendo
seguir seus próprios caminhos e não se preocupam em adequar-se à linha de
conduta dos outros. A menos que energicamente sigamos a paz, jamais a
reteremos, pois a cada dia tantas coisas sucedem, que infindáveis discórdias se
suscitam. Eis a razão por que o apóstolo nos convoca a seguirmos a paz, como se
quisesse dizer que não só devemos cultivá-la porque isso nos convenha, mas
também que devemos esforçar-nos com todo empenho por conservá-la em nosso meio.
Tal coisa não poderá suceder, a menos que esqueçamos as muitas injúrias e
mostremos uns aos outros o mútuo perdão, em muitas coisas.
Visto que a paz não pode ser mantida com os ímpios, a não ser sob a
condição de aprovarmos suas transgressões, o apóstolo
imediatamente adiciona que a santificação deve ser juntamente seguida com a
paz, como se nos recomendasse a paz com essa exceção, ou seja: que não
permitamos que a amizade dos perversos também nos contamine ou corrompa. A
santificação é o vínculo especial que nos une a Deus. Mesmo que o mundo todos
se abrase com guerra, não devemos permitir que a santificação se extinga,
porquanto ela é o vínculo que nos mantém em união com Deus. Em suma, fomentemos
tranquilamente a paz com os homens, mas somente até onde a consciência o
permita. O apóstolo afirma que ninguém pode ver a Deus fora do âmbito da
santificação, uma vez que só veremos a Deus com aqueles olhos que já passaram
pela renovação em consonância com a imagem divina.
Deus nos abençoe!
João Calvino (1509-1564).
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023
“DEPOIS DA MORTE, O JUÍZO”
“DEPOIS DA MORTE, O JUÍZO”
“E, assim como aos homens está ordenado
morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo, assim
também Cristo, tendo-se oferecido uma vez para sempre para tirar os pecados de
muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o aguardam para a
salvação” (Hb 9.27,28).
Visto que após a morte de alguém aguardamos pacientemente o dia do juízo, já que essa é a lei comum da natureza contra a qual não há que lutar, por que deveria haver menos paciência em aguardar a segunda vinda de Cristo? Se um longo intervalo de tempo não subtrai nada, em relação aos homens, da esperança de uma ditosa ressurreição, quão desditoso seria conceder a Cristo uma honra menor! E essa honra seria ainda menor, se lhe solicitássemos que suportasse a morte segunda vez, depois de tê-la suportado uma vez para sempre.
Aqui, portanto, o apóstolo recomenda que não nos perturbemos por desejos irracionais equivocados, esperando novas modalidades de expiação, uma vez que a morte única de Cristo nos é plenamente suficiente. Diz ainda que Cristo apareceu uma vez por todas e ofereceu sacrifício para tirar os pecados de muitos, e aparecerá segunda vez, ou seja: que Cristo, em sua segunda vinda, dará a conhecer plenamente quão realmente destruiu os pecados, não havendo necessidade de outro sacrifício para satisfazer a Deus. É como se ele estivesse dizendo que quando nos aproximarmos do tribunal de Cristo, descobriremos que em sua morte nada foi deficitário. No dia do juízo, Cristo Jesus manifestará de forma gloriosa a eficácia de sua morte, a fim de que o pecado não mais tenha o poder de ferir aqueles que o aguardam para a salvação. A Escritura tem atribuído aos crentes uma expectativa comum em relação à volta do Senhor, com o fim de distingui-los dos incrédulos, para quem a simples menção desse Dia é algo terrível (1Ts 1.10).
Deus nos abençoe!
João Calvino (1509-1564).
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023
“TODOS ESTES MORRERAM NA FÉ”
“TODOS ESTES MORRERAM NA FÉ”
“Todos estes morreram na fé, sem ter obtido as promessas; vendo-as,
porém, de longe, e saudando-as, e confessando que eram estrangeiros e
peregrinos sobre a terra” (Hb 11.13).
Vemos neste versículo o apóstolo magnificando a fé dos patriarcas ao modo de comparação; porque, embora tivessem apenas saboreado as promessas de
Deus, sentiram-se felizes com sua doçura e rejeitaram com desdém tudo que havia
no mundo; nem ainda esqueceram do sabor delas, por muito escasso que fosse,
seja na vida seja morte.
A frase, “morreram na fé”, se explica
de duas formas. Há quem simplesmente a entenda como significando que morreram
na fé em razão de que nesta vida jamais obtiveram as bênçãos prometidas, assim
como hoje, nossa salvação se encontra oculta de nós na esperança. Em
contrapartida, concordo com aqueles que creem que se deve observar aqui uma
certa diferença entre os pais e nós, o que exponho assim: Ainda que Deus haja
dado aos pais apenas um antegozo de seu favor, o qual é derramado generosamente sobre nós; e ainda que ele lhes haja mostrado apenas uma vaga
imagem de Cristo, como que à distância, o qual é agora posto diante de nossos
olhos para que o vejamos, todavia ficaram satisfeitos e nunca decaíram de sua
fé. Quão maior e mais justificável razão temos nós, hoje, para perseverarmos!
Se porventura fracassarmos, nos veremos duplamente sem escusa. Isso é ainda
mais enfatizado pelas circunstâncias, ou seja: que os pais viram o reino
espiritual de Cristo de longe, enquanto que essa visão se encontra tão próxima
de nós hoje. Eles saudaram de longe as promessas que hoje nos são tão familiares.
Se eles, apesar de tudo, perseveraram até à morte, quão imperdoável será nossa
indolência, caso nos cansemos de crer quando o Senhor nos socorre com tantos
recursos! Se alguém objetar, dizendo que não podiam ter crido sem ter obtido as
promessas, sobre as quais a fé se acha necessariamente fundamentada, respondo
que a expressão tem de ser tomada em termos de comparativos. Eles se
encontraram longe desse elevado estado no qual Deus nos estabeleceu. Ainda que
a mesma salvação lhes fora prometida, todavia as promessas não lhes foram
reveladas com a mesma clareza que desfrutamos no reino de Cristo, senão que se
contentaram em contemplá-las de longe.
Deus nos abençoe!
João Calvino (1509-1564).
terça-feira, 14 de fevereiro de 2023
“RAABE, A MERETRIZ, JUSTIFICADA MEDIANTE A FÉ”
“RAABE, A MERETRIZ, JUSTIFICADA MEDIANTE A FÉ”
“Pela fé, Raabe, a meretriz, não foi destruída com os
desobedientes, porque acolheu com paz aos espias” (Hb 11.31).
Pela fé, Raabe não pereceu. Ainda que
à primeira vista esse exemplo pareça inadequado em razão do vil caráter da
pessoa, e quase até indigno de ser incluso neste catálogo [de heróis da fé],
não obstante foi citado pelo apóstolo como mui adequado e relevante. Até aqui,
ele demonstrou que os patriarcas a quem os judeus atribuíam a maior honra e
respeito nada fizeram digno de enaltecimento que não fosse pela fé, e que todos
os benefícios divinos para conosco, os quais são dignos de memória, são os frutos
da mesma fé. Agora nos diz que uma mulher estrangeira, a qual era não só dentre
a classe mais humilde de seu povo, mas também uma meretriz, foi, pela fé
introduzida no corpo da Igreja. Segue-se desse fato que aqueles a quem pertence
a mais elevada excelência são de nenhum valor aos olhos de Deus, a não ser
quando avaliados pelo prisma da fé; e que, em contrapartida, aqueles que
dificilmente teriam um lugar entre os incrédulos e os pagãos são adotados na
companhia dos anjos.
Tiago também testifica da fé de Raabe
(Tg 2.25), e é fácil de se perceber à luz da sacra história, que essa mulher
fora dotada com uma fé genuína. Ela professou que se sentira plenamente
persuadida pelo que Deus prometera aos israelitas; e daqueles a quem o medo
impedira de entrar na terra, e que agora eram os conquistadores, ela pediu
perdão para si mesma e para seu povo. E ao proceder assim, ela não olhava para
o homem, mas para Deus mesmo. A evidência dessa fé consiste em que ela recebeu
os espias com aquela hospitalidade que punha em risco sua própria vida.
Portanto, foi graças à fé que Raabe escapou incólume da ruína geral de sua
cidade. O designativo meretriz é
adicionado visando a engrandecer a graça de Deus. Naturalmente que isso também
se refere à sua vida pregressa, porquanto sua fé é a evidência de seu
arrependimento.
Deus nos abençoe!
João Calvino (1509-1564).
“MOISÉS, JUSTIFICADO MEDIANTE A FÉ”
“MOISÉS, JUSTIFICADO MEDIANTE A FÉ”
“Pela fé, Moisés abandonou o Egito, não ficando amedrontado
com a cólera do rei; antes, permaneceu firme como quem vê aquele que é
invisível” (Hb 11.27).
Pela fé, Moises abandonou o Egito, bravamente
desconsiderou a violenta ira do rei, e de tal maneira armou-se com o poder do
Espírito de Deus, que persistentemente afrontou a esse furor bestial.
Moisés havia visto Deus no meio da sarça ardente, “como quem vê aquele que é invisível”. Indubitavelmente, admito que Moisés se encontrava fortalecido com essa visão de Deus antes de iniciar sua extraordinária tarefa de libertar o povo, todavia não creio que foi tal visão que o deixara fora de si e transportado para além dos perigos deste mundo. Naquela ocasião, Deus lhe mostrara apenas um tênue sinal de sua presença, e esteve longe de vê-lo como ele é.
Em síntese, Deus apareceu a Moisés de uma forma tal,
como para deixar ainda lugar para a fé, e Moisés, sendo assediado de todos os
lados por numerosos terrores, volveu a Deus toda a sua atenção. Certamente que
foi auxiliado a agir assim pela visão que teve, mas ele viu em Deus mais do que
o sinal visível continha. Ele compreendera o poder divino, fato esse que
dissipou todos os seus temores e todos os riscos. E ao descansar na promessa divina,
ele se assegurou de que o povo, embora ainda oprimido pela tirania dos
egípcios, era já senhor da terra prometida. Desse fato concluímos que,
primeiro, a verdadeira natureza da fé consiste em ter Deus sempre diante dos
olhos; segundo, que a fé vê coisas mais elevadas e ocultas em Deus do que os
nossos sentidos podem perceber; e terceiro, que nos é suficiente apenas uma
visão de Deus para que nossas debilidades sejam corrigidas, e assim nos
tornemos mais fortes que as rochas contra todas as investidas de Satanás.
Deus nos abençoe!
João Calvino (1509-1564).






