"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

“EXORTANDO-VOS A BATALHARDES, DILIGENTEMENTE, PELA FÉ”


EXORTANDO-VOS A BATALHARDES, DILIGENTEMENTE, PELA FÉ”

“Amados, quando empregava toda a diligência em escrever-vos acerca da nossa comum salvação, foi que me senti obrigado a corresponder-me convosco, exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 1.3),

Muitos intérpretes explicam a sentença inicial, “quando empregava toda a diligência em escrever-vos”, neste sentido - de que um forte desejo constrangeu Judas a escrever, tal como dizemos acerca daqueles que estão sob a influência de um forte sentimento - que não podem governar ou conter a si mesmos. Nesse caso, de acordo com esses expositores, Judas estava sob uma espécie de necessidade, porque um desejo de escrever não o permitia descansar. Mas prefiro pensar que as duas cláusulas são separadas - que, embora estivesse inclinado e solícito a escrever, uma necessidade o compeliu. Ele sugere então que, de fato, estava contente e ansioso por lhes escrever, mas a necessidade o urgiu a fazer isto - a saber, porque eram assaltados (segundo o que se segue) pelos infiéis, e precisavam estar preparados para combatê-los.

Então, em primeiro lugar, Judas testifica que sentiu tanta preocupação com a salvação deles, que ele mesmo quis, e de fato estava ansioso, por escrever-lhes; e, em segundo lugar, para despertar a sua atenção, diz que o estado das coisas exigia que ele fizesse isso. Pois a necessidade acrescenta fortes estímulos. Se não tivessem sido avisados com antecedência de quão necessário era a sua exortação, eles poderiam se tornar preguiçosos e negligentes. Mas quando faz este prefácio, de que escreveu por conta da necessidade da situação deles, era o mesmo que se ele tivesse tocado uma trombeta para despertá-los do seu torpor.

“Acerca da salvação comum”. Algumas cópias acrescentam “vossa”, mas sem razão, penso eu, pois ele torna a salvação comum a eles e a si mesmo. E acrescenta não pouco peso à doutrina que é anunciada, quando alguém fala de acordo com os seus próprios sentimentos e experiência. É vão o que dizemos se falamos da salvação para outros, quando nós mesmos não temos nenhum conhecimento real dela. Nesse caso, Judas confessava ser ele mesmo um mestre experimental (por assim dizer) quando se associava aos fiéis na participação da mesma salvação.

“Exortando-vos a batalhardes”. Judas aponta o objetivo do seu conselho. O que traduzi como: “ajudar a fé, batalhando”, significa o mesmo que lutar para reter a fé, e resistir corajosamente aos assaltos contrários de Satanás. Ele os faz lembrar que, para perseverarem na fé, diversas pelejas devem ser enfrentadas, e mantida uma guerra constante. Ele diz que a fé foi uma vez por todas entregue aos santos, para que soubessem que a obtiveram para este fim, para que nunca fracassem ou caiam.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana Silva Jardim - Curitiba/PR.
Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário. 

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

“AOS CHAMADOS EM DEUS PAI”


“AOS CHAMADOS EM DEUS PAI”

“Judas, servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago, aos chamados, santificados em Deus Pai e guardados em Jesus Cristo, a misericórdia, a paz e o amor vos sejam multiplicados” (Jd 1.1,2).

Aos chamados em Deus Pai, ou, santificados. Por esta expressão, “chamados”, Judas indica todos os fiéis, porque o Senhor os tem separado para si. Mas, como o chamado não é nada mais do que o efeito da eleição eterna, às vezes é empregado em lugar desta. Nesta passagem faz pouca diferença em que sentido o entendes, pois não há dúvida de que ele recomenda a graça de Deus, pela qual lhe aprouve escolhê-los como seu tesouro peculiar. E ele sugere que os homens não se antecipam a Deus, e que eles nunca vêm até ele enquanto ele não os atrai.

Do mesmo modo, ele diz que eles eram: santificados em Deus Pai, o que pode ser traduzido como: “por Deus Pai”. No entanto, retive a forma exata da expressão, para que os leitores exercitem o seu próprio julgamento. Pois talvez o sentido seja este - de que, sendo em si mesmos profanos, eles tinham a sua santidade em Deus. Mas a maneira em que Deus santifica é regenerando-nos pelo seu Espírito.

Judas ainda acrescenta que eles eram “guardados em Jesus Cristo”. Pois estaríamos sempre em perigo de morte por causa de Satanás, que poderia nos apanhar como presa fácil a qualquer momento se não estivéssemos a salvo sob a proteção de Cristo, a quem o Pai concedeu para ser o nosso guardião, para que não pereça nenhum daqueles que ele recebeu sob o seu cuidado e abrigo.

Judas então menciona aqui uma tripla benção, ou favor de Deus, com respeito a todos os fiéis - que pelo seu chamado ele fez deles participantes do evangelho; que ele os regenerou, pelo seu Espírito, para a novidade de vida; e que ele os tem preservado por meio de Cristo, para que não decaiam da salvação.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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terça-feira, 30 de janeiro de 2024

“GEMIDOS INEXPRIMÍVEIS”


“GEMIDOS INEXPRIMÍVEIS”

“Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis” (Rm 8.26).

O apóstolo Paulo havia falado acerca do testemunho do Espírito, pelo qual ficamos sabendo que Deus é nosso Pai e no qual ousamos confiadamente invocá-lo (Rm 8.15). Ele agora reitera a segunda parte relativa à invocação, e diz que somos ensinados pelo mesmo Espírito como devemos orar a Deus e o que devemos pedir-lhe em nossas orações.

Ainda quando não pareça que nossas orações tenham sido realmente ouvidas por Deus, o apóstolo conclui que a presença da graça celestial já se manifesta no próprio zelo pela oração, visto que ninguém, de seu próprio arbítrio, conceberia que suas orações são sinceras e piedosas. É verdade que os incrédulos engendram irrefletidamente suas orações, mas o que fazem é zombar de Deus, visto que não há sinceridade ou seriedade neles ou um padrão corretamente ordenado. O Espírito, portanto, é quem deve prescrever a forma de nossas orações. O apóstolo chama de inexprimíveis os gemidos que irrompem de dentro de nós ao impulso do Espírito, visto que vão muito além da capacidade de nosso intelecto. Diz-se que o Espírito de Deus intercede, não porque ele porventura se humilhe como um suplicante a orar e a gemer, mas porque inspira em nossos corações as orações que são próprias para nos achegarmos a Deus. Ele afeta de tal forma os nossos corações que estas orações, pelo seu fervor, penetram o próprio céu. Paulo assim se expressou com o propósito de atribuir a totalidade da oração mais significativamente à graça do Espírito. Somos incitados a clamar (Mt 7.7). Mas ninguém, por sua própria iniciativa pronunciaria uma só sílaba, com discernimento, se Deus não ouvisse o clamor de nossas almas que cedem ao impulso secreto de seu Espírito, e não abrisse nossos corações para ele mesmo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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sábado, 27 de janeiro de 2024

“QUE ANDEIS DE MODO DIGNO DA VOCAÇÃO”


“QUE ANDEIS DE MODO DIGNO DA VOCAÇÃO”

“Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados, com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor, esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz” (Ef 4.1-3).

O apóstolo Paulo discutira anteriormente a vocação; agora lhes recomenda que não se tornassem indignos de tão imensurável graça. Ao descer a detalhes, ele coloca a humildade em primeiro plano. A razão está no fato de que ele abordava a unidade; e a humildade é o primeiro passo para alcançá-la. Ela também produz mansidão, a qual nos faz pacientes. E ao sofrermos com nossos irmãos, conservamos a unidade que, de outra forma, seria quebrada mil vezes ao dia. Lembremo-nos, pois, que, ao cultivarmos a bondade fraternal, é essencial que comecemos com a humildade. De onde procede a insolência, a soberba e as injúrias lançadas contra os irmãos? De onde procedem as questiúnculas, os escárnios e as reprovações severas, a não ser do fato de cada um amar excessivamente a si próprio e de querer agradar em demasia a si próprio? Aquele que se desfaz da arrogância e cessa de agradar a si próprio se tornará manso e acessível.

Ao dizer: em amor, o apóstolo tem em mente o que ele diz em outros textos, ou seja: que a verdadeira natureza do amor está na paciência. Onde o amor governa e floresce, edificaremos muitíssimo uns aos outros.

Além do mais, é com boas razões que ele recomenda a paciência, a saber: para que a unidade do Espírito possa seguir em frente. Inumeráveis ofensas surgem diariamente, as quais podem aquecer as discórdias entre nós, particularmente em virtude de o espírito humano digladiar impulsionado por sua natural impertinência. Há quem considere a unidade do Espírito como aquela unidade espiritual que o Espírito de Deus efetua em nós. É sem qualquer sombra de dúvida que tão-somente ele [o Espírito] nos constrói com uma só mente, e dessa forma nos faz um só. Minha interpretação da frase, porém, é mais no sentido de harmonia de mente. Essa unidade, diz Paulo, é composta por o vínculo da paz; porquanto as discórdias com frequência despertam o ódio e ressentimento. Devemos viver em paz, caso desejemos que o espirito de bondade permaneça entre nós.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

“POIS SOMOS FEITURA DELE”


“POIS SOMOS FEITURA DELE”

“Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.10).

O apóstolo Paulo prova o que diz, ou seja, que somos salvos pela graça, dizendo que nenhuma obra nos é de alguma utilidade para merecermos a salvação, porque todas as boas obras que porventura possuímos são os frutos da regeneração. Daí, segue-se que as próprias obras são uma parte da graça. Ao dizer que somos obra de Deus, sua intenção não é considerar a criação em geral, por meio da qual as pessoas nascem, senão que assevera que somos novas criaturas, as quais são formadas para a justiça pelo poder do Espírito de Cristo, e não pelo nosso próprio. Isso se aplica somente no tocante aos crentes, os quais, ainda que nascidos de Adão, ímpios e perversos, são espiritualmente regenerados pela graça de Cristo, e então começam ser um novo homem. Portanto, tudo quanto em nós é porventura bom, provém da obra supernatural de Deus. E segue-se uma explicação; pois ele adiciona que somos obra de Deus em razão de sermos criados, não em Adão, mas em Cristo, e não para qualquer tipo de vida, mas para as boas obras.

E agora, o que fica para o livre-arbítrio, se todas as boas obras que de nós procedem foram comunicadas pelo Espírito de Deus? Que os piedosos avaliem prudentemente as palavras do apóstolo. Ele não diz que somos assistidos por Deus. Ele não diz que a vontade é preparada e que, então, age por sua própria virtude. Ele não diz que o poder de escolher corretamente nos é conferido e que temos, a seguir, de fazer nossa própria escolha. Esse é o procedimento daqueles que tentam enfraquecer a graça de Deus (até onde podem), os quais estão habituados a falsear a verdade. Mas o apóstolo diz que somos obra de Deus, e que tudo quanto de bom exista em nós é criação dele. O que ele pretende dizer é que o homem como um todo, para ser bom, tem de ser moldado pelas mãos divinas. Não a mera virtude de escolher corretamente, nem alguma preparação indefinida, nem assistência, mas é a própria vontade que é feitura divina. De outro modo, o argumento de Paulo seria sem sentido. Ele tenciona provar que o homem de forma alguma busca a salvação por sua própria iniciativa, mas que a adquire gratuitamente da parte de Deus.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“PELA GRAÇA SOIS SALVOS”


“PELA GRAÇA SOIS SALVOS”

“Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2.8,9).

O apóstolo tratara da eleição, da vocação gratuita, visando chegar à conclusão de que haviam obtido a salvação unicamente mediante a fé. Primeiramente, ele assevera que a salvação dos efésios era inteiramente a obra - e obra gratuita - de Deus; eles, porém, alcançaram essa graça por meio da fé. De um lado, devemos olhar para Deus; de outro, para o homem. Deus declara que não nos deve nada; de modo que a salvação não é um galardão ou recompensa, mas simplesmente graça. Ora, pode-se perguntar: como o homem recebe a salvação que lhe é oferecida pelas mãos divinas? Eis a minha reposta: pela instrumentalidade da fé. Daí o apóstolo concluir que aqui nada é propriamente nosso. Da parte de Deus é graça somente, e nada trazemos senão a fé, a qual nos despe de todo louvor, então segue-se que a salvação não procede de nós.

Não seria, pois, aconselhável manter silencio acerca do livre-arbítrio, das boas intenções, das preparações inventadas e dos méritos? Nenhum desses deixa de reivindicar a participação no louvor da salvação do homem; de modo que o louvor devido à graça, no dizer de Paulo, não seria integral. Quando, por parte do homem, é posto exclusivamente na fé como única fonte de se receber a salvação, então o homem rejeita todos os demais meios nos quais o ser humano costuma confiar. A fé, pois, conduz a Deus um homem vazio, para que o mesmo seja plenificado com as bênçãos de Cristo. E assim o apóstolo adiciona: não vem de vós; para que, nada reivindicando para si mesmos, reconheçam unicamente a Deus como o Autor de sua salvação.

Em vez do que havia dito, que a salvação deles é de graça, Paulo agora afirma que ela é o dom de Deus. Em vez do que havia dito, “não vem de vós”, ele agora diz: não [vem] de obras. Daí descobrimos que o apóstolo não deixa ao homem absolutamente nada em sua busca da salvação. Pois nessas frases ele envolve a substância de seu longo argumento nas Epístolas aos Romanos e aos Gálatas, ou seja: que a justiça que recebemos procede exclusivamente da misericórdia de Deus, a qual nos é oferecida em Cristo através do evangelho, e a qual é recebida única e exclusivamente por meio da fé, sem a participação do mérito procedente das obras, “para que ninguém se glorie”.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

“MAS DEUS, SENDO RICO EM MISERICÓRDIA”


“MAS DEUS, SENDO RICO EM MISERICÓRDIA”

“Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, — pela graça sois salvos, e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus” (Ef 2-4-6).

Não há outra vida na alma senão aquela que nos é comunicada por Cristo; de modo que só começamos a viver quando somos enxertados nele e passamos a desfrutar vida comum com ele. “Mas Deus, sendo rico em misericórdia, nos deu vida juntamente com Cristo”.

Sobre esta base o apóstolo Paulo louva a misericórdia divina compreendida por suas riquezas, as quais haviam sido derramadas liberal e excelentemente. Embora aqui ele atribua toda a nossa salvação a misericórdia divina, um pouco depois a situa mais precisamente no beneplácito divino, ao adicionar que tal coisa foi feita em virtude do imensurável amor de Deus. Paulo jamais se satisfaz em proclamar as riquezas da graça [pela graça sois salvos], e consequentemente enfatiza a mesma coisa com variados termos, visando a que tudo em nossa salvação seja atribuído a Deus.

O que Paulo declara da ressurreição e do assentar-se no céu não é ainda contemplado com os olhos. Contudo, como se aquelas bênçãos já se encontrassem em nossa posse, ele conclama que elas nos foram conferidas para que pudéssemos declarar a mudança em nossa condição, aos sermos conduzidos de Adão a Cristo. É como se ele quisesse dizer que fomos transferidos do mais profundo inferno ao próprio céu. Certamente que, embora, com respeito a nós mesmos, nossa salvação esteja ainda oculta na esperança, todavia em Cristo já possuímos a bem-aventurada imortalidade e glória. “Juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus”.

Deus nos abençoe!

João Calvino ( (1509-1564).

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quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

“POR NATUREZA, FILHOS DA IRA”


“POR NATUREZA, FILHOS DA IRA”

“Entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais” (Ef 2.3).

O apóstolo Paulo declara a todos os homens, sem exceção, tanto judeus quanto gentios [ver Gl 2], como sendo - por natureza, ou seja: desde sua própria origem e desde o ventre materno - culpados até que se veem livres em Cristo. De modo que fora de Cristo não há justiça alguma, nem salvação e, em suma, nem mérito. Pela expressão “filhos da ira” compreende-se simplesmente os que são perdidos e merecem a morte eterna. “Ira” significa o juízo divino; de modo que “filhos da ira” significa os que estão condenados diante de Deus. 

Eis aqui uma passagem notável contra todos os que negam o pecado original. O que reside inerentemente em todos é certamente original; mas Paulo ensina que somos todos inerentemente passíveis de condenação. Portanto, o pecado habita em nós, visto que Deus não condena o inocente. Os que encobrem a verdade, com interpretação falsa, dizem que o pecado se propagou, a partir de Adão, a toda a raça humana, não por derivação, mas por imitação. Mas Paulo afirma que nascemos com o pecado. É contra o pecado que a ira de Deus se dirige, e não contra pessoas inocentes. Nem é de admirar que a depravação que nos é congênita, herdada de nossos pais, seja considerada como pecado diante de Deus, pois enquanto a semente está ainda oculta, ele a percebe e a condena.

Uma pergunta, porém, surge aqui: visto que Deus é o Autor da natureza, como é possível que não seja ele responsável, se somos inerentemente perdidos? Respondo que a natureza é dupla: a primeira foi criada por Deus; a segunda é a corrupção da primeira. A condenação, pois, de que Paulo fala não procede de Deus, e, sim, de uma natureza depravada. Pois agora não nascemos tais como Adão fora inicialmente criado, senão que somos a semente adulterada do homem degenerado e pecaminoso.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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