"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

“DISSE DEUS: FAÇAMOS O HOMEM À NOSSA IMAGEM”


“DISSE DEUS: FAÇAMOS O HOMEM À NOSSA IMAGEM”

“Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra” (Gn 1.26).

Os intérpretes não unânimes no que se refere ao significado dessas palavras. A grande maioria acredita que a palavra imagem deva ser distinguida de semelhança. E a distinção comum é que imagem existe na substância; semelhança, nos acidentes de alguma coisa. Os que preferem definir o tema de modo breve, dizem que na imagem estão contidos aqueles dotes que Deus conferiu à natureza humana em geral, enquanto explicam semelhança no sentido dos dons gratuitos. Agostinho, porém, além de todos os outros, especula com excessivo refinamento, com o propósito de projetar uma trindade no homem. Pois, ao valer-se das três faculdades da alma enumeradas por Aristóteles: o intelecto, a memória e a vontade, ele deriva delas muitas outras. De fato, reconheço que há algo no homem que se reporta ao Pai, ao Filho e ao Espírito; e não tenho dificuldade em admitir a distinção das faculdades da alma feita acima; embora a divisão mais simples em duas partes, que é usada na Escritura, seja mais adaptada à sã doutrina da piedade; mas uma definição de imagem de Deus deve repousar sobre uma base mais sólida do que em tais sutilezas.

No que diz respeito, antes de definir a imagem de Deus, negaria que ela difira de sua semelhança. Pois quando Moisés, mais adiante, repete a mesma coisa, ele ignora a semelhança e se contenta em mencionar apenas a imagem. Alguém poderia replicar dizendo que ele estava meramente buscando brevidade; a isso eu respondo que, onde ele usa duas vezes a palavra imagem, não faz menção da semelhança. Sabemos ainda que era comum entre os hebreus repetirem a mesma coisa em diferentes palavras. Além disso, a frase em si mostra que o segundo termo foi acrescido como explicação. “Façamos”, diz ele, “o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança”, isto é, para que ele seja semelhante a Deus, ou possa representar a imagem de Deus.

Finalmente, no quinto capítulo, sem fazer qualquer menção de imagem, ele põe semelhança em seu lugar [Gn 5.1]. Mesmo que tenhamos descartado toda e qualquer diferença entre as duas palavras, ainda não averiguamos o que é essa imagem e semelhança. Os antropomorfistas foram demasiadamente grosseiros em buscar essa semelhança no corpo humano; que tal desvario, portanto, permaneça sepultado. Outros procedem um pouco mais sutilmente, a saber, ainda que não imaginem Deus como sendo corpóreo, contudo sustentam que a imagem de Deus está no corpo do homem, porque sua admirável estrutura brilha aí fulgurantemente. Essa opinião, porém, como veremos, não está de forma alguma em concordância com a Escritura. A exposição de Crisóstomo é mais correta, o qual se reporta ao domínio que ao homem foi dado a fim de poder, em certo sentido, agir como vice-regente de Deus no governo do mundo. Essa, realmente, é alguma parte, ainda que muito pequena, da imagem de Deus.

Posto que a imagem de Deus foi em nós destruída pela queda, podemos julgar, a partir de sua restauração, o que ela fora originalmente. Paulo diz que, pelo evangelho, somos transformados na imagem de Deus. E, segundo ele, a regeneração espiritual nada mais é do que a restauração da mesma imagem [Cl 3.10; Ef 4.23]. É mediante a figura de sinédoque que ele fez essa imagem consistir em “justiça e verdadeira santidade”; pois ainda que essa seja a parte principal, não é o todo da imagem de Deus. Portanto, por essa palavra se designa a perfeição de toda nossa natureza, como apareceu quando Adão foi dotado com um reto juízo, quando tinha os afetos em harmonia com a razão, tinha todos os seus sentidos íntegros e bem regulados, e realmente se sobressaia em tudo o que é bom. Assim, a principal sede da imagem divina esta em sua mente e coração, onde ela era eminente; contudo, não havia parte dele em que não refulgissem algumas cintilações dela. Pois havia um equilíbrio nas diversas partes da alma que correspondia aos seus vários ofícios. Na mente florescia e reinava perfeita inteligência, a retidão estava presente como sua companheira, e todos os sentidos estavam preparados e moldados para devida obediência à razão; e no corpo havia uma correspondência própria a essa ordem interior. Agora, porém, embora alguns obscuros delineamentos dessa imagem se encontram permanentes em nós, contudo, se encontram tão viciados e mutilados, que se pode dizer com razão que estão destruídos. Pois além da deformidade que por toda parte parece repugnante, acrescenta-se também este mal: que nenhuma parte está isenta da infecção do pecado.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana Silva Jardim - Curitiba(PR).
Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário.

sábado, 14 de dezembro de 2024

“PERMANECE NAQUILO QUE APRENDESTE”


“PERMANECE NAQUILO QUE APRENDESTE”

“Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste e que te foi confiado, sabendo de quem o aprendeste” (2Tm 3.14).

Ainda que a impiedade estivesse crescendo e prevalecendo, não obstante o apóstolo Paulo diz a Timóteo que se mantivesse firme. Certamente que este é um teste real para nossa fé, quando com zelo infatigável resistimos a todos os inventos do diabo recusando-nos a alterar o curso frente a todos os ventos que sopram, e assim permanecermos inamovíveis na verdade de Deus como âncora segura.

“Sabendo de quem aprendeste”. A intenção de Paulo, aqui, é enaltecer a certeza de sua doutrina, porquanto não devemos perseverar em coisas nas quais temos sido erroneamente instruídos. Se desejamos ser discípulos de Cristo, então devemos desaprender tudo quanto aprendemos à parte dele. Por exemplo, nossa instrução pessoal na fé pura começou quando rejeitamos e esquecemos tudo o que aprendemos sob o jugo do papado. O apóstolo não está dizendo a Timóteo que retivesse, indiscriminadamente, todo e qualquer ensino a ele transmitido, mas somente o que soubesse ser a verdade; o que ele quer dizer é que devemos fazer seleção. Sua alegação de que o que ele ensina deve ser recebido como revelação divina não é feita por sua própria causa como um indivíduo em particular. Ao contrário, ousadamente assevera a Timóteo sua autoridade apostólica, sabendo que sua fidelidade era notória e sua vocação aprovada, até onde lhe era possível saber. Estando seguramente persuadido de que havia sido instruído pelo apóstolo de Cristo, Timóteo poderia deduzir disto que a doutrina tinha por fonte não o homem, mas Cristo mesmo.

Esta passagem nos ensina que devemos exercer a mesma preocupação, tanto para evitar-se a falsa segurança em questões que são indefinidas, ou seja, todas as coisas que os homens ensinam, quanto sustentar a verdade de Deus com inabalável firmeza. Também aprendemos que devemos acrescentar à nossa fé o discernimento que nos possibilita distinguir a Palavra de Deus da palavra do homem, de modo que não aceitemos sem mais nem menos tudo o que nos é oferecido. Nada é mais estranho à fé do que uma credibilidade simplória que nos convida a aceitar tudo indiscriminadamente, não importando qual seja sua natureza ou fonte, pois o principal fundamento da fé é sabermos que ela tem origem na autoridade de Deus.

E ao acrescentar que a Timóteo foi confiado seu ensino, Paulo adiciona força à sua exortação. Confiar uma coisa a alguém é mais do que simplesmente entregá-la. Timóteo não havia sido instruído como se faz a uma pessoa comum, mas como alguém que pudesse fielmente passar às mãos de outros o que havia recebido.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“HOMENS PERVERSOS E IMPOSTORES”

 


“HOMENS PERVERSOS E IMPOSTORES”

“Mas os homens perversos e impostores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados (2Tm 3.13).

É a mais amarga das perseguições vermos pessoas más com sua sacrílega ousadia, suas blasfêmias e seus erros acumulando força. O apóstolo Paulo diz em outro lugar que Ismael perseguiu Isaque, não empunhando uma espada, mas vomitando motejos [Gl 4.29]. Portanto, podemos inferir que no versículo anterior Paulo estava descrevendo não só um tipo de perseguição, mas estava falando em termos gerais de todas as angústias que os filhos de Deus têm que suportar quando contendem pela glória de seu Pai. Já falei como as pessoas perversas vão se tornando cada vez mais piores; o apóstolo está predizendo que serão obstinadas em sua resistência e bem sucedidas em causar dano e outras corrupções. Uma só pessoa indigna será sempre mais eficiente em destruir do que dez mestres fiéis em edificar, ainda quando labutem com todas as suas forças. Jamais faltará discórdia para Satanás semear junto à boa semente, e ainda quando pensarmos que os falsos profetas já se foram, outros tantos imediatamente surgirão de todos os lados. Têm este poder de fazer o mal, não porque a falsidade seja por sua própria natureza mais forte que a verdade, ou porque os ardis do diabo sejam mais resistentes que o Espírito de Deus, mas porque os homens são naturalmente inclinados à vaidade e aos vícios, e abraçam mais prontamente as coisas que concordam com sua natural disposição, e também porque são cegados pelos atos da justa vingança divina, e assim são levados, como escravos em cativeiro, ao bel-prazer de Satanás. A principal razão por que a praga das doutrinas ímpias é tão bem sucedida, é que a ingratidão dos homens merece ser remunerada. É de grande importância que os mestres piedosos sejam lembrados desse fato, para que estejam preparados a manter uma guerra constante e não se deixem desencorajar ante a delonga nem se compactuem com o orgulho e insolência de seus adversários.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

“O ANTICRISTO”


O ANTICRISTO”

“Filhinhos, esta já é a última hora; e, conforme ouvistes que vem o anticristo, já muitos anticristos se têm levantado; por onde conhecemos que é a última hora” (1João 2.18)

Ao chegarmos à análise da questão do anticristo, permitam-me começar indicando-lhes determinadas afirmações específicas das Escrituras. Em primeiro lugar, temos a passagem de 1 João capítulo 2, especialmente o versículo 18: “Filhinhos, esta já é a última hora; e, conforme ouvistes que vem o anticristo, já muitos anticristos se têm levantado; por onde conhecemos que é a última hora”. Na verdade, o “anticristo” é um termo usando somente pelo apóstolo João. Então temos também a grande passagem em 2 Tessalonicenses 2.1-12, a qual, também, é claramente uma descrição da mesma pessoa. Além do mais, é igualmente claro que em Daniel 7.8 e 7.15-28, bem como na clássica passagem de Apocalipse 13.1-18, com seu relato da besta que emerge do mar e a besta que emerge da terra, há referências do mesmo poder. E, finalmente, há também referências incidentais em 1 Timóteo, capítulo 4, e em 2 Timóteo, capítulos 2 e 3.

Agora deixem-me apresentar-lhes meu argumento de que Daniel, capítulo 7, 2 Tessalonicenses, capítulo 2, e Apocalipse, capítulo 13, todos eles, se referem ao anticristo. Antes de tudo, em cada passagem, a fonte, a origem, é a mesma. Em Daniel 7.8, o pequeno chifre procede da quarta besta; no Apocalipse, o governo do anticristo é a última fase da besta que emerge do mar; enquanto que o homem do pecado, em 2 Tessalonicenses, capítulo 2, é visível depois da remoção do Império Romano.

Em segundo lugar, o tempo da origem é o mesmo. O pequeno chifre está entre os sucessores divididos do Império Romano; a besta recebe do dragão (que é Satanás) seu poder e sua grande autoridade marchando pela Roma pagã; e o homem do pecado é revelado depois que o poder restringente for removido.

Em terceiro lugar, seu fim é o mesmo. Todos os três são destruídos na segunda vinda de Cristo no juízo final.

Em quarto lugar, em cada relato, a figura exerce poder político-religioso. O pequeno chifre de Daniel, capítulo 7, é semelhante aos outros, embora “divirja” deles, no sentido em que ele é um poder religioso, distinto dos outros “reis” (Dn 8.24). No Apocalipse, capítulo 13, a besta usa uma coroa, todavia exige e recebe culto, e o “homem do pecado”, em Tessalonicenses, capítulo 2, exibe ambos os aspectos.

Em quinto lugar, as figuras nos três relatos revelam pretensão blasfema. O pequeno chifre possui uma “boca que fala grandes coisas” (Dn 7.20), e “Proferirá palavras contra o Altíssimo” (Dn 7.25). Somos informados que a besta do Apocalipse tem “uma boca que proferirá arrogâncias e blasfêmias” (Ap 13.5), enquanto o homem do pecado se exalta contra Deus (2Ts 2.4).

Em sexto lugar, tanto em Daniel como no Apocalipse, o tempo de seu domínio é o mesmo: três anos e meio. Em Daniel ele é descrito como “um tempo, dois tempos e metade de um tempo” (Dn 7.25), e no que diz respeito à besta do Apocalipse, “deu-se-lhe autoridade para atuar por quarente e dois meses” (Ap 13.5). Paulo, porém, em 2 Tessalonicenses, não apresenta tempo exato.

Em sétimo lugar, todos os três declaram guerra contra o povo de Deus.

Em oitavo lugar, possuem grande poder. Somos informados acerca do pequeno chifre em Daniel: “e parecia ser mais robusto do que os seus companheiros” (Dn 7.20), enquanto se pergunta acerca da besta: “quem poderá batalhar contra ela” (Ap 13.4). E somos informados que o homem do pecado em 2 Tessalonicenses opera “segundo a eficácia de Satanás com todo o poder, sinais e prodígios da mentira (2Ts 2.9).

Finalmente, em cada passagem é exigida homenagem como se fosse Deus: o pequeno chifre se estabelece sobre os santos e tempos e leis do Altíssimo (Dn 7.21,25); a besta obriga as multidões a adorá-la (Ap 13.12), e o homem do pecado se exalta como Deus (2Ts 2.4).

Portanto, havendo focalizado a relação entre as três passagens, pergunto: o que todas significariam e o que Paulo estaria ensinando em 2 Tessalonicenses, capítulo 2? Bem, ele começa dizendo que o “dia de Cristo” não está próximo como algumas pessoas têm dito, e então prossegue explicando que certas coisas devem acontecer antes.

Primeiro, haverá apostasia - “um abandono”. Isso deverá acontecer na Igreja, e será a apostasia. Então “esse homem do pecado”, “o filho da perdição”, o ímpio e iníquo será revelado. Notem bem que não nos diz que ele virá, pois ele já está presente e operando, senão que nesse ponto ele se revelará.

Paulo então prossegue dizendo certas coisas acerca dele. Somos informados que ele é iníquo. Isso não é pecado passivo, mas resistência positiva contra Deus. É desobediência deliberada na qual a obstinação se exalta ao nível mais elevado.

Segundo, ele se opõe a Deus e a Cristo e ao Seu reino e obra. Ele é o anticristo, que se põe no lugar de Cristo e se intitula cristão, todavia é contra o reino da verdade que o nome de cristão implica. Terceiro, ele se assenta no santuário de Deus, e sua quarta característica é a autodeificação - “apresentando-se como Deus” (2Ts 2.4).

Quinto, Paulo diz que este é um mistério que, como sempre no Novo Testamento, só é revelado aos que têm discernimento espiritual.

Sexto, sua presença é marcada por mentirosas pretensões e falsos milagres, como Paulo enumera nos versículos 9 a 11 - “com todo o poder e sinais e prodígios da mentira”, levando o povo a crer numa mentira, a qual é a operação de Satanás, e arrogando para si todo o domínio da fé.

Paulo também diz que a revelação do homem do pecado é detido por um poder restringente (v.7), e que ele está condenado à destruição na vinda de Cristo: “a quem o Senhor Jesus matará com o sopro de sua boca” (v.8). Mas Paulo também deixa claro que “O mistério da iniquidade” já começou - “já opera” (v.7). Entretanto, como já vimos, diferente de Daniel, Paulo não fixa tempos exatos.

Então, a que essas descrições do anticristo se referem? Três explicações principais se têm apresentado. Uma é que isso já ocorreu: refere-se à apostasia e rejeição judaicas de Cristo. Outros dizem que se dará inteiramente no futuro, e se refere a uma pessoa judaica ou gentia que se exaltará no templo restaurado em Jerusalém e fará guerra contra os santos.

A terceira explicação é que as passagens referentes ao anticristo indicam o papado. Esse foi o ponto de vista dos reformadores protestantes. Em defesa de seus argumentos, apontavam para as palavras: ”se assenta no santuário de Deus, apresentando-se como Deus” (2Ts 2.4), as quais, diziam eles, se referem ao trono do papa na igreja entre o povo de Deus. Realçavam que o poder papal começou depois da queda do Império Romano, o qual corresponde ao relato bíblico da origem do anticristo. O elemento político-religioso, dizem, está igualmente presente no papado, como também a exigência de culto; e além disso, mantinham que existe certa oposição ao evangelho que é vista mais sutilmente na negação da doutrina da justificação unicamente pela fé em Cristo e na exaltação da igreja católica. Esse ponto de vista também compara os “prodígios da mentira” com o grande número de supostos milagres mantidos pela igreja católica romana, e no que diz respeito a “crer na mentira”, apontavam para a fé em milagres, por exemplo, e para o fato de que o Concílio de Trento anatematizou a fé genuína.

Os reformadores sugeriram também que o “restringente” se refere aos imperadores romanos, cujo poder foi então removido; o “espírito (sopro) de sua (do Senhor) ”boca”, em 2 Tessalonicenses 2.8 era a Reforma Protestante; e assim a “décima parte da cidade” que caiu, conforme Apocalipse 11.12, é uma referência à Revolução Francesa.

Eis aí, portanto, as interpretações possíveis deste tremendo tema do anticristo. Tanta coisa permanece incerta, e objeções podem surgir contra todos os três pontos de vista. De algumas coisas, contudo, podemos estar certos. Como já demostramos, o anticristo já estava em ação nos dias dos apóstolos Paulo e João, mas é muito claro que, ainda que haja muitas imitações dele, ele atingirá seu mais pleno poder imediatamente antes do fim desta época. Além do mais, enquanto Daniel mostra o aspecto político, Paulo enfatiza o aspecto religioso de seu governo, e encontramos ambos no Apocalipse, capítulo 13, como a besta que emerge do mar simbolizando o poder político, e a besta que emerge da terra, o poder religioso. Possivelmente, a esses dois aspectos pode seguir-se outro, com um terrível poder religioso vindo após um poder político igualmente terrível.

Finalmente, podemos, creio eu, estar certos de que o anticristo por fim se concentrará numa pessoa, a qual deterá um terrível poder, e será capaz de operar milagres e realizar prodígios de tal forma que quase enganará os próprios eleitos.

Ora, a meu ver esse é o sentido de sua doutrina, e devemos compreender que nós mesmos somos confrontados por tal poder. Não devemos ser culpados de demasiada simplificação, mas podemos estar certos de que, desde o início da Igreja até o fim, um poder maligno está em ação dentro da Igreja. Como Paulo escreveu aos Efésios: “Porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes” (Ef 6.12).

Deus nos abençoe!

Dr. Martyn Lloyd-Jones (1899-1981).

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segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

“O CONHECIMENTO DA VERDADE”


“O CONHECIMENTO DA VERDADE

“Paulo, servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo, segundo a fé que é dos eleitos de Deus e o conhecimento da verdade que é segundo a piedade” (Tt 1.1).

Vemos aqui, o apóstolo Paulo explicando a natureza da fé que ele já mencionara, embora essa seja, não uma definição completa dela, mas a descrição adequada do presente contexto. A fim de apoiar sua alegação de que seu apostolado está livre de toda e qualquer impostura e equívoco, ele declara que sua mensagem nada contém senão aquela notória e averiguada verdade, a qual pode instruir os homens no perfeito culto divino. Visto, porém, que cada palavra tem sua própria importância, nos será de muito proveito examiná-las uma a uma.

Em primeiro lugar, ao chamar a fé de “conhecimento”, ele não está meramente distinguindo-a de opinião, mas daquela fé forjada e implícita inventada pelos hereges. Pois por fé implícita eles querem dizer algo destituído de toda luz da razão. Ao dizer que conhecer a verdade pertence à essência da fé, ele claramente demonstra que sem o conhecimento não há certeza na fé.

Com o termo, “verdade”, ele explica ainda mais claramente a certeza que a natureza da fé requer; pois a fé não se satisfaz com probabilidades, mas com a plena verdade. Além do mais, ele não está falando, aqui, de qualquer gênero de verdade, mas daquela que é contrastada com a vaidade do entendimento humano. Pois como Deus se nos tem revelado através dessa verdade, ela é a única que merece o título de “a verdade” - título este a ela dado em muitos passos bíblicos. “O Espírito da verdade vos guiará a toda a verdade” [Jo 16.13]. “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” [Jo 17.17]. “Quem vos fascinou para não obedecerdes à verdade?” [Gl 3.1]. “Por causa da esperança que vos está preservada nos céus, da qual antes ouvistes pela palavra da verdade do evangelho” [Cl 1.5]. “O qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade” [1Tm 2.4]. “A igreja do Deus vivo, a coluna e firmeza da verdade” [1Tm 3.15]. Em suma, a verdade é aquele puro e perfeito conhecimento de Deus, o qual nos livra de todo e qualquer erro e falsidade. Devemos considerar que não há nada mais miserável do que vagar ao longo de toda a nossa vida como ovelhas perdidas.

A próxima frase, que é segundo a piedade, qualifica a verdade de uma forma específica, da qual ele esteve falando, e ao mesmo tempo recomenda sua doutrina a partir de seu fruto e propósito, visto que seu alvo único é promover o culto divino correto, e manter a religião genuína entre os homens. E assim ele livra sua doutrina de toda e qualquer suspeita de vã curiosidade, como ele fez diante de Félix [At 24.10] e igualmente diante de Agripa [At 26.1]. Visto que todos os questionamentos supérfluos que não se inclinam para a edificação devem ser com toda razão suspeitos e mesmo detestados pelos cristãos piedosos, a única recomendação legítima da doutrina é que ela nos instrui na reverência e temor de Deus. E assim aprendemos que o homem que mais progride na piedade é também o melhor discípulo de Cristo, e o único homem que deve ser tido na conta de genuíno teólogo é aquele que pode edificar a consciência humana no temor de Deus.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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sábado, 16 de novembro de 2024

“SEDE, POIS, IMITADORES DE DEUS”


“SEDE, POIS, IMITADORES DE DEUS”

“Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados; e andai em amor, como também Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus, em aroma suave” (Ef 5.1,2).

O apóstolo Paulo insiste e confirma a mesma declaração, dizendo que os filhos devem ser como seus pais. Ele nos lembra que somos os filhos de Deus, e que, portanto, devemos, até onde pudermos, representá-lo no campo da beneficência. Procuremos compreender este argumento: se de fato somos filhos de Deus, então devemos ser seus imitadores. Cristo também declara que não podemos ser filhos de Deus, a menos que demostremos benevolência para com os indignos [Mt 5.44,45].

O fato de Cristo não poupar sua própria vida, esquecendo de si próprio, para que pudéssemos ser redimidos da morte, é a mais notável prova da mais elevada categoria de amor. Se porventura desejamos ser partícipes desse benefício, então devemos ser igualmente movidos de amor pelo nosso próximo. Não que algum de nós tenha atingido tal perfeição, mas porque devemos almejar e nos esforçar em nosso testemunho, organizando nossas ações em sociedade, por meio dos discursos e práticas.

O apóstolo adiciona: sacrifício a Deus, em aroma suave. Primeiramente, é um enaltecimento da graça de Cristo. Em segundo lugar também nos introduz diretamente ao presente tema. Na verdade não existe qualquer linguagem que seja capaz de expressar plenamente o fruto e eficácia da morte de Cristo. Confessamos que ela é o único preço pelo qual somos reconciliados com Deus. Esta doutrina da fé [cristã] pertence à mais elevada categoria. Mas, quanto mais ouvimos que Cristo agiu em nosso favor, mais devedores a ele nos sentimos. Além disso, é possível deduzirmos das palavras de Paulo que, a menos que amenos uns aos outros, nenhuma de nossas realizações será aceita por Deus. Se a reconciliação dos homens, efetuada por Cristo, foi um sacrifício de aroma suave, então nós, de nossa parte, devemos converter-nos para com Deus num agradável perfume, à medida que seu santo perfume for sendo derramado sobre nós. A Isto aplica-se o dito de Cristo: “Deixa perante o altar a tua oferta, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão” (Mt 5.24).

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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segunda-feira, 11 de novembro de 2024

“BASEADOS NO QUAL CLAMAMOS: ABA, PAI”


“BASEADOS NO QUAL CLAMAMOS: ABA, PAI”

“Porque não recebestes o espírito de escravidão, para viverdes, outra vez, atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai” (Rm 8.15).

O apóstolo Paulo alterou a pessoa [singular para o plural] com o fim de expressar a sorte comum de todos os santos. Eis o que ele quer dizer: “Recebestes o Espírito, através de quem vós e todo o restante de nós, crentes, clamamos...”. A imitação da linguagem usada por um filho a seu pai é muito enfática, visto que o apóstolo usa a palavra Pai em relação a todos os crentes. A repetição do título, empregando termos diferentes, tem um caráter ampliativo. O que o apóstolo pretende é que a misericórdia divina tornou-se disseminada pelo mundo todo, numa extensão tal que, como observa Agostinho, Deus chegou a ser louvado em todas as línguas, sem qualquer distinção. O objetivo de Paulo, pois, era expressar o consenso existente entre todas as nações. Segue-se disto que não há agora nenhuma diferença entre judeus e gregos, visto que ambos se têm desenvolvido lado a lado. O profeta Isaías diz algo distinto quando declara que a língua de Canaã seria comum a todos os povos [Is19.18]. O significado, contudo, é o mesmo. Ele não refere formas externas de linguagem, e, sim, harmonia em professar seu culto genuíno e puro. O verbo clamar é usado para expressar confiança; como a dizer: “Nossa oração não expressa dúvida, senão que ergue ao céu um brando confiante”.

Os crentes também chamam Deus de Pai sob o regime da lei, porém não com esta confiança tão espontânea, visto que o véu os mantinha fora do santuário. Mas agora, quando a entrada já nos foi amplamente aberta pelo sangue de Cristo, podemos dar glória de maneira familiar e em voz altissonante, anunciando que somos filhos de Deus. Daí a razão desse grito. E a profecia de Oséias é assim também cumprida: “Semearei Israel para mim na terra, e compadecer-me-ei da Desfavorecida; e a Não-meu-povo, direi: Tu és o meu povo; e ele dirá: Tu és o meu Deus!” [Os 2.23]. A promessa mais evidente contudo consiste em que maior será nossa liberdade na oração.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“MAS RECEBESTES O ESPÍRITO DE ADOÇÃO”

“MAS RECEBESTES O ESPÍRITO DE ADOÇÃO”

“Porque não recebestes o espírito de escravidão, para viverdes, outra vez, atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai” (Rm 8.15).

Ainda que o pacto da graça se acha contido na lei, não obstante Paulo o remove de lá; porque, ao contrastar o evangelho com a lei, ele leva em consideração somente o que fora peculiar à lei em si mesma, ou seja: a ordenança e a proibição, refreando assim os transgressores com ameaça de morte. Ele atribui à lei suas próprias qualificações, mediante as quais ela difere do evangelho. Contudo, pode-se preferir a seguinte afirmação: “Ele só apresenta a lei no sentido em que Deus, nela, se pactua conosco em relação às obras”. Portanto, nossa opinião no tocante a pessoas seria: “Quando a lei foi promulgada no seio do povo judeu, e mesmo depois de ser promulgada, os crentes foram iluminados pelo mesmo Espírito de fé. Assim a esperança da herança eterna, da qual o Espírito é penhor e selo, foi selada em seus corações. A única diferença é que o Espírito é mais profusa e liberalmente derramado no reino de Cristo”. Entretanto, se considerarmos a própria administração da doutrina, perceberemos que a salvação foi primeiro revelada de forma plena quando Cristo manifestou-se em carne, tão profunda era a obscuridade em que todas as coisas se achavam envolvidas no período do Velho Testamento, quando comparado com a clara luz do evangelho.

Finalmente, a lei, considerada em si mesma, outra coisa não pode fazer senão cegar aos que se acham sujeitos à sua desgraçada servidão, dominados pelo horror da morte, visto que ela não promete nada senão sob condições, e só pronuncia morte a todos os transgressores. Portanto, enquanto que sob a lei se achava o espírito de servidão, o qual  oprimia a consciência com o medo, também sob o evangelho se acha o Espírito de Adoção, o qual alegra nossas almas com o testemunho de nossa salvação. Note-se que o apóstolo conecta medo com servidão, visto que a lei não pode fazer nada senão molestar e atormentar nossas almas com um miserável descontentamento, enquanto exercer seu domínio. Portanto, não há nenhum outro remédio para pacificar nossas almas além do antídoto divino que cura nossos pecados e nos trata com aquela benevolência com que um pai trata seus filhos.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“NÃO RECEBESTES O ESPÍRITO DE ESCRAVIDÃO”

“NÃO RECEBESTES O ESPÍRITO DE ESCRAVIDÃO”

“Porque não recebestes o espírito de escravidão, para viverdes, outra vez, atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai” (Rm 8.15).

O apóstolo Paulo agora confirma a certeza daquela confiança na qual ele recentemente ordena aos crentes que descansassem em segurança. Ele procede assim ao mencionar o efeito especial produzido pelo Espírito. Esse não foi dado para molestar-nos com o medo ou atormentar-nos com a ansiedade, mas ao contrário, para acalmar nossa intranquilidade, para trazer nossas mentes a um estado de paz e incitar-nos a clamar a Deus com confiança e liberdade. O apóstolo, pois, não só prossegue o argumento no qual tocara de leve, mas também insiste mais sobre a outra causa que, ao mesmo tempo, conectara com esta, ou seja: aquela que trata da complacência paternal de Deus, pela qual ele perdoa em seu povo as enfermidades da carne e os pecados sob os quais eles ainda labutam. Nossa confiança nessa clemência divina, ensina-nos Paulo, se converte naquela certeza de que o Espírito de adoção opera em nós, o qual não nos obrigaria a viver em oração sem antes selar-nos com o perdão gracioso. Para que este ponto fosse ainda mais evidente, o apóstolo afirma que há dois espíritos. A um ele chama de espírito de escravidão, o qual podemos receber da lei; e o outro, o espírito de adoção, o qual procede do evangelho. O primeiro, afirma ele, foi outrora concedido pra produzir temor; o segundo é agora concedido para proporcionar segurança. A certeza de nossa salvação, a qual ele deseja confirmar, desponta, como podemos ver, com grande nitidez daquela comparação de opostos. A mesma comparação é usada pelo autor da Epístola aos Hebreus, ao dizer que não temos que aproximar-nos do Monte Sinal, onde tudo é por demais terrível, e onde o povo, assombrado como que diante de uma declaração de morte, implorou que a palavra não lhes fosse proferida, e quando o próprio Moisés confessou que se sentia dominado pelo terror, “senão que nos acheguemos ao monte Sião, e à cidade do Deus vivente, e à Jerusalém celestial... e a Jesus, o Mediador de uma nova aliança” [Hb 12.18-24].

À luz do advérbio novamente, ou outra vez, aprendemos que o apóstolo Paulo, aqui, está comparando a lei com o evangelho. Este é aquele inestimável benefício que o Filho de Deus nos trouxe através de seu advento, a saber: que não mais precisamos nos prender à condição servil da lei. Não devemos, contudo, inferir daqui, ou que ninguém foi dotado com o Espírito de adoção antes da vinda de Cristo, ou que todos quantos receberam a lei eram escravos, e não filhos. Paulo compara o ministério da lei com a dispensação do evangelho, e não pessoas com pessoas. Admito que os crentes são aqui advertidos sobre quão mais liberalmente Deus os trata agora do que antigamente tratou os pais sobe o Velho Testamento. Levo em conta, contudo, a dispensação externa, e só neste aspecto é que os sobrepujamos, pois a fé de Abraão, de Moisés e de Davi era mais excelente que a nossa. Não obstante, até ao ponto em que Deus os conservou sujeitos a “tutores”, não alcançaram aquela liberdade que a nos foi concretizada.

Entretanto, devemos ao mesmo tempo observar que o apóstolo faz aqui, por causa dos falsos apóstolos, um deliberado contraste entre discípulos liberais da lei e crenes, a quem Cristo, seu Mestre celestial, não só se lhes dirige com as palavras de seus próprios lábios, mas também os instrui interior e eficazmente pela instrumentalidade de seu Espírito.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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