“MELQUISEDEQUE, REI DE SALÉM”
“Porque este
Melquisedeque, rei de Salém, sacerdote do Deus Altíssimo, que saiu ao encontro
de Abraão, quando voltava da matança dos reis, e o abençoou, para o qual também
Abraão separou o dízimo de tudo (primeiramente se interpreta rei de justiça,
depois também é rei de Salém, ou seja, rei de paz” (Hb 7:1,2).
Não era ocorrência
comum que num país dominado por tanta superstição pagã fosse encontrado um
homem como Melquisedeque, que mantivesse em sua pureza o culto estabelecido por
Deus. Pois de um lado ele tinha por vizinhos Sodoma e Gomorra, e, por outro, os
cananeus, de modo que de todos lados se via rodeado por pessoas ímpias. Além do
mais, o mundo todo se via naufragado de tal forma na impiedade que dificilmente
se podia crer que Deus fosse cultuado genuinamente em algum lugar ou por alguém,
além da família de Abraão. Seu pai e seu avô, que deveriam ter sido homens da
mais insofismável integridade, haviam caído na idolatria. Era, pois, algo por
demais notável que ainda houvesse um rei que não só preservava a genuína religião,
mas ele próprio exercesse o ofício sacerdotal. Certamente seria indispensável
que tudo quanto existisse de excelente fosse encontrado naquele que se fizera
tipo do Filho de Deus. Faz-se evidente dos salmos que Cristo fora prefigurado
nesse tipo. Não foi sem razão que Davi Disse: “Tu és sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquesedeque” [Sl
110.4]. Aliás, neste versículo põe-se diante da Igreja um sublime mistério.
Olhemos, agora, para as diferentes formas nas quais o apóstolo delineia uma
comparação entre Cristo e o próprio Melquisedeque.
A primeira similaridade
está no título. Não há ausência de
mistério em ser chamado de rei de justiça, porque, ainda que tal congratulação
seja atribuída aos reis que governam com moderação e equidade, todavia tal
título pertence, propriamente, só a Cristo, visto que ele não só exerce um
governo justo como os demais, mas, em aditamento a isso, ele nos comunica a
justiça de Deus. Isso ele faz, em parte ao tornar possível que fôssemos
considerados justos por meio de um gracioso ato de reconciliação; e, em parte,
ao renovar-nos por meio de seu Espírito, de modo a vivermos vidas santas e
piedosas. Dele, pois, declara-se ser rei de justiça, em razão do que ele faz,
comunicando justiça a todo seu povo. Daqui se conclui que fora de seu reino não
existe nada senão reinante pecado entre os homens. Assim, quando Zacarias o
compele a tomar posse de seu reino, como por um solene decreto divino, ele
assim o louva: “Alegra-te muito, ó filha
de Sião; eis aí te vem o teu Rei, justo e salvador [Zc 9.9]. O que ele
pretende nos dizer é que essa justiça, que de outra forma nos faltaria, nos foi
outorgada com o advento de Cristo.
A segunda
semelhança que o apóstolo faz notar consiste no reino da paz. E essa paz é o fruto da justiça sobre o qual esteve falando.
Daqui se infere que, aonde que o reino de Cristo se estenda, ali deve haver paz,
tal como vemos em Isaías capítulos 2 e 9, bem como em outros lugares. Visto,
porém, que para os hebreus paz é sinônimo de uma condição de prosperidade e
felicidade, esta passagem pode ser assim considerada. Prefiro, entretanto, entendê-la
como a paz interior que nos proporciona uma consciência tranquila e feliz aos olhos
de Deus. Não se pode apreciar com propriedade o real valor de tal bênção, a
menos que se descubra, por outro lado, quão terrível é ser torturado por uma
contínua inquietude, sorte que a todos nós se faz inevitável, até que nossas consciências
sejam pacificadas mediante a reconciliação com Deus através de Cristo.
Deus nos
abençoe!
João Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).






