“O INFERIOR É ABENÇOADO PELO SUPERIOR”
“Evidentemente,
é fora de qualquer dúvida que o inferior é abençoado pelo superior” (Hb 7:7).
Antes de tudo, é
preciso perguntar, aqui, o que o termo abençoar
significa. Abençoar é um ato solene de invocação, mediante o qual aquele que se
acha investido de alguma honra, eminente e pública, apresenta a Deus indivíduos
específicos que se encontram sob seu cuidado. Há outra maneira de abençoar, a
qual sucede quando oramos sucessivamente uns pelos outros. Essa é uma prática
comum entre todas as pessoas piedosas. O abençoar de que o apóstolo fala é
símbolo de um poder maior. Dessa forma Isaque abençoa a seu filho Jacó [Gn
27.27], e o próprio Jacó abençoou a seus netos, Efraim e Manassés [Gn 48.15].
Esse abençoar não podia ser feito mutuamente, fazendo o filho igual ao pai,
porquanto fazia-se necessário uma autoridade mais elevada para validar a
bênção. Além do mais, uma evidência para tal fato pode-se encontrar no capítulo
6.23 de Números, onde, após os sacerdotes receberem a ordem de abençoar o povo,
uma promessa é imediatamente adicionada, a saber: aqueles sobre quem
ministrassem sua bênção seriam abençoados. A bênção sacerdotal, repito,
dependia do seguinte princípio: ela provinha não propriamente do homem, e sim,
de Deus. Assim como o sacerdote, ao oferecer sacrifícios, assumia o lugar de
Cristo, assim também, ao abençoar o povo, outra coisa não era ele senão servo
representante do Deus Altíssimo. Devemos tomar nesse mesmo sentido quando Lucas
registra [Lc 24.50] que Cristo estendeu as mãos e abençoou os apóstolos.
Indubitavelmente, o rito de estender as mãos ele tomou por empréstimo dos
sacerdotes, com o fim de mostrar que ele é aquele por meio de quem Deus o Pai
nos abençoa. Encontramos nos Salmos 116.17 e 118.1 uma menção dessa bênção.
Apliquemos agora
essa ideia à discussão do apóstolo. Visto que a bênção sacerdotal é uma obra
divina, ao mesmo tempo ela é evidência de uma honra mais elevada. Portanto ao
abençoar a Abraão, Melquisedeque arrogou para si mesmo um status mais eminente.
Ele não fez isso presunçosamente, senão que o fez em consonância com os
direitos sacerdotais. Ele, portanto, e mais eminente que Abraão. Não obstante,
Abraão é aquele com quem aprove Deus consolidar um pacto de salvação. No
entanto, apesar de haver excedido a todos os demais, em eminência, ele só foi
suplantado por Melquisedeque.
Deus nos abençoe!
João Calvino
(1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

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