“SEM MISERICÓRDIA MORRE”
“Sem
misericórdia morre pelo depoimento de duas ou três testemunhas quem tiver
rejeitado a lei de Moisés” (Hb 10:28).
Quem tiver rejeitado a lei de Moisés. Este é um argumento do menor para o maior. Porque, se violar a
lei de Moisés era ofensa capital, como não há de merecer um castigo mais severo
aquele que rejeitar o evangelho, sendo que semelhante ato de profanação envolve
perversidade tão nefanda? Essa forma de argumentar era muito eficaz para
demover os judeus. Porque esse castigo tão severo aplicado aos apóstatas sob o
regime da lei não era novo para eles, nem poderia parecer-lhes injusto. É
possível que tenham reconhecido como uma punição justa, ainda que severa, por
meio da qual Deus, hoje, sanciona a majestade de seu evangelho.
Isso confirma
o que me referi anteriormente, ou seja: que o apóstolo não está argumentando
sobre pecados específicos, e, sim, sobre uma negação geral de Cristo. A lei não
punia com a morte qualquer tipo de transgressão, senão somente a apostasia,
quando alguém se afastava irrevogavelmente de sua religião. O apóstolo fez
referência à passagem de Deuteronômio 17.2-5, a qual declara que, se alguém
transgredir o pacto de seu Deus para servir a outros deuses, então deveria ser
levado para fora do portão e apedrejado até à morte.
Ainda que a
lei fora promulgada por Deus, e Moisés não fosse seu autor, mas seu ministro, o
apóstolo a denomina de lei de Moisés,
visto que ela fora entregue por ele. E isso foi dito com o fim de elevar ainda
mais a sublimidade do evangelho, o qual nos foi comunicado pelo próprio Filho
de Deus.
Pelo depoimento de duas ou três testemunhas. Essa cláusula não é relevante para a presente passagem, mas é
parte da constituição civil de Moisés, visto que duas ou três testemunhas eram
requeridas para provar a culpabilidade de um acusado. Contudo, daqui podemos
deduzir o gênero de crime que o apóstolo queria enfatizar, pois se esse acréscimo
não fosse feito, haveria deixado margem para muitas e falsas conjecturas.
Agora, porém, fica provado de maneira indubitável que se tratava de apostasia.
Ao mesmo tempo, devemos ter em mente o sentido de justiça que quase todos os
estadistas têm observado, ou seja: que ninguém seja condenado sem que sua
culpabilidade seja provada pelo testemunho de duas ou três testemunhas.
Deus nos
abençoe!
João Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

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