“POR ISSO, DEIXA O HOMEM PAI E MÃE E SE UNE À SUA MULHER”
“E a costela que
o Senhor Deus tomara ao homem, transformou-a numa mulher e lha trouxe. E disse
o homem: Esta, afinal, é osso dos meus ossos e carne da minha carne;
chamar-se-á varoa, porquanto do varão foi tomada. Por isso, deixa o homem pai e
mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne” (Gn 2:22-24).
Por isso, deixa o homem... É duvidoso se
Moisés, aqui, apresenta Deus a falar, ou dá seguimento ao discurso de Adão, ou,
de fato, acrescentou isso em virtude de seu ofício de mestre, em sua própria
pessoa. A última dessas opiniões é que eu aprovo. Portanto, depois de haver
relatado historicamente o que Deus fizera, Moises também demostra o propósito.
A suma de tudo é que, entre os ofícios pertinentes à sociedade humana, este é o
principal e, por assim dizer, o mais santo: que um homem se mantenha fiel à sua
esposa. E Moisés amplia isso acrescentando uma elevada comparação, a saber, que
o esposo deve preferir a esposa aos pais. Mas lemos que se deixa pai e mãe não porque o casamento separe os filhos de seus pais,
ou dispense outros laços da natureza, pois, dessa forma, Deus estaria agindo
contrário a si próprio. Enquanto a piedade do filho para com seus pais deva ser
diligente e assiduamente cultivada, e em si mesma deve ser tida como inviolável
e sacra, contudo, Moisés fala assim do matrimônio com o intuito de mostrar que
é menos lícito abandonar sua esposa do que os pais. Portanto, aquele que, por
causas superficiais, imprudentemente permite divórcios, viola, de uma maneira
muito particular, todas as leis da natureza e as reduz a nada. Se tomarmos como
uma questão de consciência não separar um pai de seu filho, é uma perversidade ainda
maior dissolver o laço que Deus preferiu a todos os demais.
Tornando-se os dois uma só carne. Embola, na Vulgata, Jerônimo tenha traduzido a passagem por “numa
só carne”, os intérpretes gregos expressaram de uma maneira mais enérgica: “Os dois estarão em uma só carne”, e é nesse
sentido que Cristo cita o ponto em questão em Mateus 19.5. Portanto,
assegura-se que o vínculo conjugal só subsiste entre duas pessoas, e disso facilmente
se mostra que nada tão contrário à divina instituição do que a poligamia. Ora, quando
Cristo, ao censurar os divórcios voluntários dos judeus, alega como sua razão
para fazê-lo que “não foi assim desde o princípio”, certamente ordena que essa
instituição fosse observada como uma perpétua norma de conduta. Com o mesmo
propósito, Malaquias também recorda aos judeus de seu próprio tempo: “Portanto
cuidai de vós mesmos, e ninguém seja infiel para com a mulher da sua mocidade
[Ml 2.15]. Portanto, não há dúvida de que a poligamia é uma corrupção do
legítimo matrimônio.
Deus nos abençoe!
João Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

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