"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



sexta-feira, 26 de junho de 2026

“APÓSTATAS - É IMPOSSÍVEL OUTRA VEZ RENOVÁ-LOS PARA ARREPENDIMENTO” - PARTE 2


“APÓSTATAS - É IMPOSSÍVEL OUTRA VEZ RENOVÁ-LOS PARA ARREPENDIMENTO” - PARTE 2

“É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia” (Hb 6:4-6).

Devemos notar de passagem os termos pelos quais o escritor denota conhecimento do evangelho. Ele denomina de iluminação. Disso segue-se que os homens são cegos até que Cristo, que é luz do mundo, brilhe sobre eles. Ele o denomina de a degustação do dom celestial. Por isso ele quer dizer que os dons que nos são conferidos em Cristo estão acima do mundo natural, e são degustados pela fé. Ele o denomina de participação do Espírito Santo, porque é ele que os distribui a cada um, segundo seu beneplácito, a luz e o entendimento que nos são indispensáveis. Pois sem ele nenhuma pessoa tem condição de chamar Jesus de Senhor [1Co 12.3]. Ele nos abre os olhos de nossa mente e nos revela as coisas ocultas de Deus. Ele o denomina de a degustação da boa palavra de Deus, significando que a benevolência divina não nos é revelada de uma forma qualquer, mas de uma forma tal que a mesma nos traz aprazimento. Essa descrição adicional denota a diferença existente entre a lei e o evangelho. Aquela nada contém senão severidade e juízo, enquanto que este é uma agradável evidência do amor divino e da paternal benevolência para conosco. Finalmente, ele o denomina de a experiência dos poderes vindouro. Por essa expressão ele quer dizer que pela fé somos admitidos no reino dos céus, de modo que vemos no Espírito aquela bem-aventurada imortalidade que se acha oculta de nossos sentidos. Devemos reconhecer, pois, que o evangelho não pode ser adequadamente conhecido a não ser através da iluminação do Espírito; e, conhecendo-o dessa forma, somos afastados deste mundo e elevados até ao céu; e ao percebermos a benevolência de Deus, descansamos em sua Palavra.

Ora, desse fato vem a lume um novo questionamento, a saber: como é possível que alguém que uma vez alcançou tal altitude venha depois a apostatar? Na verdade, o Senhor chama eficazmente só os eleitos, e Paulo testifica [Rm 8.14] que os que são guiados pelo Espírito de Deus são verdadeiramente seus filhos, e nos ensina que é um seguro penhor da adoção quando Cristo torna alguém participante de seu Espírito. Por conseguinte, os eleitos se acham fora do perigo de apostasia final, porquanto o Pai que lhes deu Cristo, seu Filho, para que sejam por ele preservados, é maior do que todos, e Cristo promete [Jo 17.12] que cuidará de todos eles, a fim de que nenhum deles venha perecer.

Minha resposta consiste nisto: Deus certamente confere seu Espírito de regeneração somente aos eleitos, e que eles se distinguem dos réprobos no fato de que são transformados na imagem de Deus, e recebem o penhor do Espírito na esperança de uma herança por vir, e pelo mesmo Espírito o evangelho é selado em seus corações. Em tudo isso, porém, não vejo razão por que Deus não toque os réprobos com o sabor de sua graça, ou não ilumine suas mentes com algumas centelhas de sua luz, ou não os afete com algum senso de sua benevolência, ou em alguma medida não grave sua Palavra em seus corações. De outro modo, onde estaria aquela fé temporária que Marcos menciona [Mc 4.17]. Portanto, há no réprobo certo conhecimento, o qual mais tarde se desvanece, seja porque ele estende suas raízes com menos profundidade do que se espera, ou porque, ao crescer, é sufocado e murcha.

Ao fazer uso desse freio, o Senhor nos conserva em temor e humildade. E assim vemos com toda clareza tão inclinada é a natureza humana à displicência e estulta confiança. Ao mesmo tempo, nossa solicitude deve ser tal que não perturbe a paz de nossa consciência. O Senhor prontamente e ao mesmo tempo encoraja nossa fé e subjuga nossa carne. Ele deseja que nossa fé permaneça serena e repouse como se estivesse em segurança num sólido abrigo. Ele exercita nossa carne com várias provas a fim de que ela não se precipite na indolência.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

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