“APÓSTATAS - É IMPOSSÍVEL OUTRA VEZ RENOVÁ-LOS PARA ARREPENDIMENTO” - Parte 1
“É impossível,
pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e
se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e
os poderes do mundo vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los
para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o
Filho de Deus e expondo-o à ignomínia” (Hb 6:4-6).
Esta passagem
deu a muitos a oportunidade de rejeitar esta Epístola, especialmente quando os
novacianos [século III] encontraram aqui munição para negar o perdão para aqueles
que caem. Os pais do ocidente, portanto preferiram negar a genuinidade da
Epístola, uma vez que os defensores da seita de Novato eram seus inimigos, e
não eram fortes bastante no domínio da doutrina que pudessem refutar seus
argumentos. Mas uma vez que a intenção do apóstolo é posta a descoberto, logo
se faz plenamente evidente que não há nada aqui que apoie um equívoco tão
estapafúrdio. Há outros para quem a autoridade da Epístola é sagrada, e que
tentam refutar tal absurdo, mas que passam o tempo todo buscando refúgio em idiotices.
Alguns tornam impossível no sentido
de “incomum” ou “difícil”, o que é totalmente estranho ao real sentido do termo.
Outros (a maioria) restringem o seu significado ao arrependimento, por meio do
qual os catecúmenos, na Igreja primitiva, costumavam ser preparados para o
batismo, assim como os apóstolos prescreviam o jejum e outras coisas àqueles
que estavam para ser batizados. Que grande coisa, porém, estaria o apóstolo
dizendo ao afirmar que o arrependimento, que é o adjunto do batismo, não
poderia repetir-se? Ele ameaça com a mais severa vingança divina contra todos
os que desprezam a graça que uma vez receberam. Que força esta sentença teria
exercido, instilando temor aos descuidados e nos vacilantes, se os houvera
advertido que não mais havia lugar para o primeiro arrependimento? Isso deve
aplicar-se a todo gênero de ofensa. Então, o que diremos? Visto que Deus
oferece esperança de misericórdia a todos, sem exceção, é absurdo que alguém,
por qualquer motivo, seja excluído.
O centro do problema
está no termo caíram. Qualquer um que
entenda sua força se esquivará facilmente de todas e quaisquer dificuldades. É
indispensável que notemos que existe uma dupla queda: uma é particular; a outra
é geral. Qualquer um que tenha ofendido [a Deus], de uma forma ou de outra caiu
de seu status como cristão. Portanto, quantos são os pecados, tantos são as
quedas. O apóstolo, porém, não está falando aqui de furto, nem de perjúrio, nem
de assassinato, nem de embriaguez, nem de adultério. Sua referência é a uma
completa apostasia do evangelho, não apenas em alguma coisa isolada pela qual o
pecador haja ofendido a Deus, mas no fato de ter ele renunciado completamente
sua graça.
Para que se entenda isso mais claramente,
tracemos um contraste entre tal queda e a graça de Deus, a qual o autor tem
descrito. A pessoa que apostata é alguém que renuncia a Palavra de Deus, que
extingue sua luz, que se nega a provar o dom celestial e que desiste de
participar do Espírito. Ora, isso significa uma total renúncia de Deus. Agora
podemos entender quem é excluído da esperança ou do perdão. São os apóstatas
que se fizeram estranhos ao evangelho de Cristo, o qual previamente abraçaram,
bem como estranhos à graça de Deus. Tal coisa não acontece a qualquer um,
exceto àquele que peca contra o Espírito Santo. Aquele que viola a segunda
tábua da lei, ou que, por ignorância, transgredir a primeira, não é culpado
dessa rebelião; e certamente Deus jamais exclui ou priva alguém de sua graça,
exceto aquele que se torna totalmente réprobo. Para tal pessoa nada é deixado.
Se alguém
porventura perguntar por que o apóstolo faz menção desse gênero de apostasia,
quando está a dirigir-se a crentes que longe estão de perfídia tão pecaminosa,
minha resposta é a seguinte: ele lhes está ministrando, em tempo hábil, uma
advertência do perigo que os ameaça, a fim de que se pusessem em guarda contra
o mesmo. Tal fato é digno de nota. Quando nos extraviamos do reto caminho, não
só justificamos nossos vícios diante de outras pessoas, mas também enganamos a
nós mesmos. Satanás, furtivamente, se move sobre nós e gradualmente nos alicia
por meio de artifícios, de modo tal que quando chegamos a extraviar-nos, não
nos apercebemos de como o fizemos. Escorregamo-nos gradualmente, até finalmente
nos precipitarmos na ruína. Tal fato pode ser constatado todos os dias num sem
fim de casos. Portanto, o apóstolo com muita razão alerta a todos os seguidores
de Cristo a tomarem cuidado em seu próprio favor, enquanto é tempo. A constante
inatividade leva quase sempre a uma letargia que é seguida de alienação mental.
Deus nos
abençoe!
João Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

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