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sexta-feira, 26 de junho de 2026

“APÓSTATAS - É IMPOSSÍVEL OUTRA VEZ RENOVÁ-LOS PARA ARREPENDIMENTO” – PARTE 1


“APÓSTATAS - É IMPOSSÍVEL OUTRA VEZ RENOVÁ-LOS PARA ARREPENDIMENTO” - Parte 1

“É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia” (Hb 6:4-6).

Esta passagem deu a muitos a oportunidade de rejeitar esta Epístola, especialmente quando os novacianos [século III] encontraram aqui munição para negar o perdão para aqueles que caem. Os pais do ocidente, portanto preferiram negar a genuinidade da Epístola, uma vez que os defensores da seita de Novato eram seus inimigos, e não eram fortes bastante no domínio da doutrina que pudessem refutar seus argumentos. Mas uma vez que a intenção do apóstolo é posta a descoberto, logo se faz plenamente evidente que não há nada aqui que apoie um equívoco tão estapafúrdio. Há outros para quem a autoridade da Epístola é sagrada, e que tentam refutar tal absurdo, mas que passam o tempo todo buscando refúgio em idiotices. Alguns tornam impossível no sentido de “incomum” ou “difícil”, o que é totalmente estranho ao real sentido do termo. Outros (a maioria) restringem o seu significado ao arrependimento, por meio do qual os catecúmenos, na Igreja primitiva, costumavam ser preparados para o batismo, assim como os apóstolos prescreviam o jejum e outras coisas àqueles que estavam para ser batizados. Que grande coisa, porém, estaria o apóstolo dizendo ao afirmar que o arrependimento, que é o adjunto do batismo, não poderia repetir-se? Ele ameaça com a mais severa vingança divina contra todos os que desprezam a graça que uma vez receberam. Que força esta sentença teria exercido, instilando temor aos descuidados e nos vacilantes, se os houvera advertido que não mais havia lugar para o primeiro arrependimento? Isso deve aplicar-se a todo gênero de ofensa. Então, o que diremos? Visto que Deus oferece esperança de misericórdia a todos, sem exceção, é absurdo que alguém, por qualquer motivo, seja excluído.

O centro do problema está no termo caíram. Qualquer um que entenda sua força se esquivará facilmente de todas e quaisquer dificuldades. É indispensável que notemos que existe uma dupla queda: uma é particular; a outra é geral. Qualquer um que tenha ofendido [a Deus], de uma forma ou de outra caiu de seu status como cristão. Portanto, quantos são os pecados, tantos são as quedas. O apóstolo, porém, não está falando aqui de furto, nem de perjúrio, nem de assassinato, nem de embriaguez, nem de adultério. Sua referência é a uma completa apostasia do evangelho, não apenas em alguma coisa isolada pela qual o pecador haja ofendido a Deus, mas no fato de ter ele renunciado completamente sua graça.

 Para que se entenda isso mais claramente, tracemos um contraste entre tal queda e a graça de Deus, a qual o autor tem descrito. A pessoa que apostata é alguém que renuncia a Palavra de Deus, que extingue sua luz, que se nega a provar o dom celestial e que desiste de participar do Espírito. Ora, isso significa uma total renúncia de Deus. Agora podemos entender quem é excluído da esperança ou do perdão. São os apóstatas que se fizeram estranhos ao evangelho de Cristo, o qual previamente abraçaram, bem como estranhos à graça de Deus. Tal coisa não acontece a qualquer um, exceto àquele que peca contra o Espírito Santo. Aquele que viola a segunda tábua da lei, ou que, por ignorância, transgredir a primeira, não é culpado dessa rebelião; e certamente Deus jamais exclui ou priva alguém de sua graça, exceto aquele que se torna totalmente réprobo. Para tal pessoa nada é deixado.

Se alguém porventura perguntar por que o apóstolo faz menção desse gênero de apostasia, quando está a dirigir-se a crentes que longe estão de perfídia tão pecaminosa, minha resposta é a seguinte: ele lhes está ministrando, em tempo hábil, uma advertência do perigo que os ameaça, a fim de que se pusessem em guarda contra o mesmo. Tal fato é digno de nota. Quando nos extraviamos do reto caminho, não só justificamos nossos vícios diante de outras pessoas, mas também enganamos a nós mesmos. Satanás, furtivamente, se move sobre nós e gradualmente nos alicia por meio de artifícios, de modo tal que quando chegamos a extraviar-nos, não nos apercebemos de como o fizemos. Escorregamo-nos gradualmente, até finalmente nos precipitarmos na ruína. Tal fato pode ser constatado todos os dias num sem fim de casos. Portanto, o apóstolo com muita razão alerta a todos os seguidores de Cristo a tomarem cuidado em seu próprio favor, enquanto é tempo. A constante inatividade leva quase sempre a uma letargia que é seguida de alienação mental.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

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