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sexta-feira, 19 de junho de 2026

“SE VIVERMOS DELIBERADAMENTE EM PECADO”


“SE VIVERMOS DELIBERADAMENTE EM PECADO”

“Porque, se vivermos deliberadamente em pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados” (Hb 10:26).

O escritor da Epístola aos Hebreus realça quão severa é aquela vingança de Deus que aguarda todos aqueles que apostatam da graça de Cristo, uma vez que se privam de sua única salvação; é como se entregassem à sua própria destruição. Foi à luz desse testemunho que Novato (século III) e seus asseclas se armaram em sua tentativa de eliminar de todos os que caem após o batismo qualquer esperança de perdão, sem discriminação alguma. Os que não puderam refutar tal falsidade, acharam mais fácil impugnar a fidedignidade desta Epístola do que enfrentar tal absurdo. No entanto, o genuíno significado desta passagem é por si mesmo suficiente para refutar a impertinência de Novato, sem o auxílio de qualquer apoio externo.

Os pecadores, mencionados pelo apóstolo, não são os que de alguma forma caem; são, antes, aqueles que abandonaram a Igreja e se separaram de Cristo. Ele não está tratando, aqui, desse ou daquele gênero de pecado, senão que está expondo pelo nome aqueles que renunciam deliberadamente a comunhão da Igreja. Não há muita diferença entre apostasia individual e uma deserção universal desse tipo, pela qual apostatamos irrevogavelmente da graça de Cristo. Visto que tal coisa não pode suceder se não a alguém que já foi iluminado, ele diz: se vivermos deliberadamente em pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, como se estivesse dizendo: “Se alguém consciente e voluntariamente despreza a graça que uma vez recebeu”. É evidente, agora, quão longe esta doutrina está do erro de Novato.

À luz do contexto se faz evidente que o apóstolo está se referindo, aqui, tão-somente aos apóstatas. Ele age assim para que os que uma vez foram recebidos no seio da Igreja não desertem como alguns que têm o hábito de fazê-lo. Ele declara que para tais não há mais qualquer tipo de oferta pelo pecado, visto que têm pecado deliberadamente depois de haverem recebido o conhecimento da verdade. Ao mesmo tempo, Cristo se oferece diariamente pelos pecadores que têm caído de alguma outra forma, de modo que não carecem de buscar alguma outra oferta para expiar seus pecados. Diz ainda que nenhuma outra oferta é deixada para aqueles que rejeitam a morte de Cristo, visto que tal rejeição não é oriunda de alguma ofensa particular, mas de uma total rejeição da fé.

Tal severidade divina é certamente terrível, mas ela é manifesta com o intuito de inspirar o temor. Ao mesmo tempo, ele não pode ser acusado de selvageria. Visto que a morte de Cristo é o único antídoto para livrar-nos da morte eterna, não é justo que aqueles destroem o quanto podem, tanto sua eficácia quanto seus benefícios, não mereçam outra coisa senão o desespero? Aqueles que confessam a Cristo são diariamente chamados à reconciliação com Deus e encontram diariamente a expiação para os seus pecados através de seu sacrifício eterno. Se não há salvação alguma fora dele, então não devemos sentir-nos surpresos que todos os que deliberadamente o abandonam sejam privados de toda esperança de perdão. O sacrifício de Cristo é eficaz para os crentes, até à morte, ainda que reiteradamente pequem. Além disso, ele mantém sempre sua eficácia, visto que eles não podem viver plenamente livres do pecado enquanto estiverem na carne. O apóstolo está, portanto, dirigindo sua atenção somente para aqueles que se afastam de Cristo em sua incredulidade, e assim deixam de receber o benefício de sua morte.

A frase depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade é inserida para dar força à ingratidão deles, pois qualquer um que, voluntariamente e com deliberada perversidade, extingue a luz de Deus, que uma vez foi acesa em seu coração, não tem justificativa a alegar diante de Deus. Aprendamos daqui não só a aceitar a verdade que nos é comunicada, e isso com reverência e uma viva humildade de espírito, mas também a perseverar continuamente no conhecimento dela, para que não soframos tão medonho castigo por desprezá-la.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

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