“APÓSTATAS - É IMPOSSÍVEL OUTRA VEZ RENOVÁ-LOS PARA ARREPENDIMENTO” - Parte 2
“É impossível,
pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e
se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e
os poderes do mundo vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los
para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o
Filho de Deus e expondo-o à ignomínia” (Hb 6:4-6).
Devemos notar
de passagem os termos pelos quais o escritor denota conhecimento do evangelho.
Ele denomina de iluminação. Disso
segue-se que os homens são cegos até que Cristo, que é luz do mundo, brilhe
sobre eles. Ele o denomina de a
degustação do dom celestial. Por isso ele quer dizer que os dons que nos
são conferidos em Cristo estão acima do mundo natural, e são degustados pela
fé. Ele o denomina de participação do
Espírito Santo, porque é ele que os distribui a cada um, segundo seu
beneplácito, a luz e o entendimento que nos são indispensáveis. Pois sem ele
nenhuma pessoa tem condição de chamar Jesus de Senhor [1Co 12.3]. Ele nos abre os olhos de nossa mente e nos
revela as coisas ocultas de Deus. Ele o denomina de a degustação da boa palavra de Deus, significando que a
benevolência divina não nos é revelada de uma forma qualquer, mas de uma forma
tal que a mesma nos traz aprazimento. Essa descrição adicional denota a
diferença existente entre a lei e o evangelho. Aquela nada contém senão
severidade e juízo, enquanto que este é uma agradável evidência do amor divino
e da paternal benevolência para conosco. Finalmente, ele o denomina de a experiência dos poderes vindouro. Por
essa expressão ele quer dizer que pela fé somos admitidos no reino dos céus, de
modo que vemos no Espírito aquela bem-aventurada imortalidade que se acha
oculta de nossos sentidos. Devemos reconhecer, pois, que o evangelho não pode
ser adequadamente conhecido a não ser através da iluminação do Espírito; e,
conhecendo-o dessa forma, somos afastados deste mundo e elevados até ao céu; e
ao percebermos a benevolência de Deus, descansamos em sua Palavra.
Ora, desse
fato vem a lume um novo questionamento, a saber: como é possível que alguém que
uma vez alcançou tal altitude venha depois a apostatar? Na verdade, o Senhor
chama eficazmente só os eleitos, e Paulo testifica [Rm 8.14] que os que são guiados
pelo Espírito de Deus são verdadeiramente seus filhos, e nos ensina que é um
seguro penhor da adoção quando Cristo torna alguém participante de seu
Espírito. Por conseguinte, os eleitos se acham fora do perigo de apostasia
final, porquanto o Pai que lhes deu Cristo, seu Filho, para que sejam por ele
preservados, é maior do que todos, e Cristo promete [Jo 17.12] que cuidará de
todos eles, a fim de que nenhum deles venha perecer.
Minha resposta
consiste nisto: Deus certamente confere seu Espírito de regeneração somente aos
eleitos, e que eles se distinguem dos réprobos no fato de que são transformados
na imagem de Deus, e recebem o penhor do Espírito na esperança de uma herança
por vir, e pelo mesmo Espírito o evangelho é selado em seus corações. Em tudo
isso, porém, não vejo razão por que Deus não toque os réprobos com o sabor de
sua graça, ou não ilumine suas mentes com algumas centelhas de sua luz, ou não
os afete com algum senso de sua benevolência, ou em alguma medida não grave sua
Palavra em seus corações. De outro modo, onde estaria aquela fé temporária que
Marcos menciona [Mc 4.17]. Portanto, há no réprobo certo conhecimento, o qual
mais tarde se desvanece, seja porque ele estende suas raízes com menos
profundidade do que se espera, ou porque, ao crescer, é sufocado e murcha.
Ao fazer uso
desse freio, o Senhor nos conserva em temor e humildade. E assim vemos com toda
clareza tão inclinada é a natureza humana à displicência e estulta confiança.
Ao mesmo tempo, nossa solicitude deve ser tal que não perturbe a paz de nossa
consciência. O Senhor prontamente e ao mesmo tempo encoraja nossa fé e subjuga
nossa carne. Ele deseja que nossa fé permaneça serena e repouse como se
estivesse em segurança num sólido abrigo. Ele exercita nossa carne com várias
provas a fim de que ela não se precipite na indolência.
Deus nos
abençoe!
João Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).






