"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



sexta-feira, 26 de junho de 2026

“APÓSTATAS - É IMPOSSÍVEL OUTRA VEZ RENOVÁ-LOS PARA ARREPENDIMENTO” - Parte 2


“APÓSTATAS - É IMPOSSÍVEL OUTRA VEZ RENOVÁ-LOS PARA ARREPENDIMENTO” - Parte 2

“É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia” (Hb 6:4-6).

Devemos notar de passagem os termos pelos quais o escritor denota conhecimento do evangelho. Ele denomina de iluminação. Disso segue-se que os homens são cegos até que Cristo, que é luz do mundo, brilhe sobre eles. Ele o denomina de a degustação do dom celestial. Por isso ele quer dizer que os dons que nos são conferidos em Cristo estão acima do mundo natural, e são degustados pela fé. Ele o denomina de participação do Espírito Santo, porque é ele que os distribui a cada um, segundo seu beneplácito, a luz e o entendimento que nos são indispensáveis. Pois sem ele nenhuma pessoa tem condição de chamar Jesus de Senhor [1Co 12.3]. Ele nos abre os olhos de nossa mente e nos revela as coisas ocultas de Deus. Ele o denomina de a degustação da boa palavra de Deus, significando que a benevolência divina não nos é revelada de uma forma qualquer, mas de uma forma tal que a mesma nos traz aprazimento. Essa descrição adicional denota a diferença existente entre a lei e o evangelho. Aquela nada contém senão severidade e juízo, enquanto que este é uma agradável evidência do amor divino e da paternal benevolência para conosco. Finalmente, ele o denomina de a experiência dos poderes vindouro. Por essa expressão ele quer dizer que pela fé somos admitidos no reino dos céus, de modo que vemos no Espírito aquela bem-aventurada imortalidade que se acha oculta de nossos sentidos. Devemos reconhecer, pois, que o evangelho não pode ser adequadamente conhecido a não ser através da iluminação do Espírito; e, conhecendo-o dessa forma, somos afastados deste mundo e elevados até ao céu; e ao percebermos a benevolência de Deus, descansamos em sua Palavra.

Ora, desse fato vem a lume um novo questionamento, a saber: como é possível que alguém que uma vez alcançou tal altitude venha depois a apostatar? Na verdade, o Senhor chama eficazmente só os eleitos, e Paulo testifica [Rm 8.14] que os que são guiados pelo Espírito de Deus são verdadeiramente seus filhos, e nos ensina que é um seguro penhor da adoção quando Cristo torna alguém participante de seu Espírito. Por conseguinte, os eleitos se acham fora do perigo de apostasia final, porquanto o Pai que lhes deu Cristo, seu Filho, para que sejam por ele preservados, é maior do que todos, e Cristo promete [Jo 17.12] que cuidará de todos eles, a fim de que nenhum deles venha perecer.

Minha resposta consiste nisto: Deus certamente confere seu Espírito de regeneração somente aos eleitos, e que eles se distinguem dos réprobos no fato de que são transformados na imagem de Deus, e recebem o penhor do Espírito na esperança de uma herança por vir, e pelo mesmo Espírito o evangelho é selado em seus corações. Em tudo isso, porém, não vejo razão por que Deus não toque os réprobos com o sabor de sua graça, ou não ilumine suas mentes com algumas centelhas de sua luz, ou não os afete com algum senso de sua benevolência, ou em alguma medida não grave sua Palavra em seus corações. De outro modo, onde estaria aquela fé temporária que Marcos menciona [Mc 4.17]. Portanto, há no réprobo certo conhecimento, o qual mais tarde se desvanece, seja porque ele estende suas raízes com menos profundidade do que se espera, ou porque, ao crescer, é sufocado e murcha.

Ao fazer uso desse freio, o Senhor nos conserva em temor e humildade. E assim vemos com toda clareza tão inclinada é a natureza humana à displicência e estulta confiança. Ao mesmo tempo, nossa solicitude deve ser tal que não perturbe a paz de nossa consciência. O Senhor prontamente e ao mesmo tempo encoraja nossa fé e subjuga nossa carne. Ele deseja que nossa fé permaneça serena e repouse como se estivesse em segurança num sólido abrigo. Ele exercita nossa carne com várias provas a fim de que ela não se precipite na indolência.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

“APÓSTATAS - É IMPOSSÍVEL OUTRA VEZ RENOVÁ-LOS PARA ARREPENDIMENTO” – Parte 1


“APÓSTATAS - É IMPOSSÍVEL OUTRA VEZ RENOVÁ-LOS PARA ARREPENDIMENTO” - Parte 1

“É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia” (Hb 6:4-6).

Esta passagem deu a muitos a oportunidade de rejeitar esta Epístola, especialmente quando os novacianos [século III] encontraram aqui munição para negar o perdão para aqueles que caem. Os pais do ocidente, portanto preferiram negar a genuinidade da Epístola, uma vez que os defensores da seita de Novato eram seus inimigos, e não eram fortes bastante no domínio da doutrina que pudessem refutar seus argumentos. Mas uma vez que a intenção do apóstolo é posta a descoberto, logo se faz plenamente evidente que não há nada aqui que apoie um equívoco tão estapafúrdio. Há outros para quem a autoridade da Epístola é sagrada, e que tentam refutar tal absurdo, mas que passam o tempo todo buscando refúgio em idiotices. Alguns tornam impossível no sentido de “incomum” ou “difícil”, o que é totalmente estranho ao real sentido do termo. Outros (a maioria) restringem o seu significado ao arrependimento, por meio do qual os catecúmenos, na Igreja primitiva, costumavam ser preparados para o batismo, assim como os apóstolos prescreviam o jejum e outras coisas àqueles que estavam para ser batizados. Que grande coisa, porém, estaria o apóstolo dizendo ao afirmar que o arrependimento, que é o adjunto do batismo, não poderia repetir-se? Ele ameaça com a mais severa vingança divina contra todos os que desprezam a graça que uma vez receberam. Que força esta sentença teria exercido, instilando temor aos descuidados e nos vacilantes, se os houvera advertido que não mais havia lugar para o primeiro arrependimento? Isso deve aplicar-se a todo gênero de ofensa. Então, o que diremos? Visto que Deus oferece esperança de misericórdia a todos, sem exceção, é absurdo que alguém, por qualquer motivo, seja excluído.

O centro do problema está no termo caíram. Qualquer um que entenda sua força se esquivará facilmente de todas e quaisquer dificuldades. É indispensável que notemos que existe uma dupla queda: uma é particular; a outra é geral. Qualquer um que tenha ofendido [a Deus], de uma forma ou de outra caiu de seu status como cristão. Portanto, quantos são os pecados, tantos são as quedas. O apóstolo, porém, não está falando aqui de furto, nem de perjúrio, nem de assassinato, nem de embriaguez, nem de adultério. Sua referência é a uma completa apostasia do evangelho, não apenas em alguma coisa isolada pela qual o pecador haja ofendido a Deus, mas no fato de ter ele renunciado completamente sua graça.

 Para que se entenda isso mais claramente, tracemos um contraste entre tal queda e a graça de Deus, a qual o autor tem descrito. A pessoa que apostata é alguém que renuncia a Palavra de Deus, que extingue sua luz, que se nega a provar o dom celestial e que desiste de participar do Espírito. Ora, isso significa uma total renúncia de Deus. Agora podemos entender quem é excluído da esperança ou do perdão. São os apóstatas que se fizeram estranhos ao evangelho de Cristo, o qual previamente abraçaram, bem como estranhos à graça de Deus. Tal coisa não acontece a qualquer um, exceto àquele que peca contra o Espírito Santo. Aquele que viola a segunda tábua da lei, ou que, por ignorância, transgredir a primeira, não é culpado dessa rebelião; e certamente Deus jamais exclui ou priva alguém de sua graça, exceto aquele que se torna totalmente réprobo. Para tal pessoa nada é deixado.

Se alguém porventura perguntar por que o apóstolo faz menção desse gênero de apostasia, quando está a dirigir-se a crentes que longe estão de perfídia tão pecaminosa, minha resposta é a seguinte: ele lhes está ministrando, em tempo hábil, uma advertência do perigo que os ameaça, a fim de que se pusessem em guarda contra o mesmo. Tal fato é digno de nota. Quando nos extraviamos do reto caminho, não só justificamos nossos vícios diante de outras pessoas, mas também enganamos a nós mesmos. Satanás, furtivamente, se move sobre nós e gradualmente nos alicia por meio de artifícios, de modo tal que quando chegamos a extraviar-nos, não nos apercebemos de como o fizemos. Escorregamo-nos gradualmente, até finalmente nos precipitarmos na ruína. Tal fato pode ser constatado todos os dias num sem fim de casos. Portanto, o apóstolo com muita razão alerta a todos os seguidores de Cristo a tomarem cuidado em seu próprio favor, enquanto é tempo. A constante inatividade leva quase sempre a uma letargia que é seguida de alienação mental.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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sexta-feira, 19 de junho de 2026

“ULTRAJOU O ESPÍRITO DA GRAÇA”


“ULTRAJOU O ESPÍRITO DA GRAÇA”

“De quanto mais severo castigo julgais vós será considerado digno aquele que calcou aos pés o Filho de Deus, e profanou o sangue da aliança com o qual foi santificado, e ultrajou o Espírito da graça?” (Hb 10:29).

Aquele que calcou aos pés o Filho de Deus. Há uma semelhança entre os apóstatas da lei e os apóstatas do evangelho – ambos perecerão sem misericórdia; o gênero de morte, porém, é diferente. Pois aos que desprezam a Cristo o apóstolo ameaça não só com morte corporal, mas também com destruição eterna. Portanto, ele afirma que para os tais resta ainda uma punição muito pior. Ele expressa essa deserção do cristianismo sob três formas de linguagem. Diz que dessa forma o Filho de Deus e calcado aos pés; que seu sangue é profanado; e que o Espírito da graça é desprezado. Esmagar com os pés é pior do que lançar fora; e a dignidade de Cristo é muito mais distinta que a de Moisés. Acrescente-se a esse fato que ele não traça simplesmente um contraste entre evangelho e lei, mas também entre a pessoa de Cristo e o Espírito Santo, e a pessoa de Moisés.

O sangue da aliança. O apóstolo intensifica a ingratidão, confrontando-a com os benefícios. É algo muitíssimo indigno profanar o sangue de Cristo, o qual é o agente de nossa santificação; e é precisamente o que fazem aqueles que se desviam da fé. Nossa fé não é simplesmente uma questão de doutrina, mas do sangue pelo qual nossa salvação foi ratificada. O autor o chama de sangue da aliança, porque as promessas nos foram confirmadas quando esse penhor foi adicionado. Ele chama a atenção para a forma dessa confirmação, dizendo que fomos santificados por ela, pois o sangue derramado não nos serviria para nada, a menos que fôssemos aspergidos com ele através do Espírito Santo. É daí que provêm nossa expiação e santificação. O apóstolo está, ao mesmo tempo, se referindo ao antigo rito de aspersão, a qual não era eficaz para a genuína santificação, mas era sua sombra ou tipo.

O Espírito da Graça. O apóstolo o chama o Espírito da graça pelos efeitos que ele produz, porque é através dele e pelo seu poder que recebemos a graça que nos é oferecida em Cristo. É ele que ilumina nossas mentes com fé; que sela em nossos corações a adoção divina; que nos regenera para uma nova vida; e que nos enxerta no corpo de Cristo, para que ele viva em nós e nós nele. O Espírito da graça, portanto é assim corretamente chamado, visto que é através dele que Cristo, com seus benefícios, se tornam nossos. Tratar com desprezo, aquele através de quem somos dotados com tão grandes bênçãos, é o mais perverso de todos os crimes. Apreendamos desse fato que todos aqueles que voluntariamente tornam a graça inútil, depois de desfrutarem seu favor, estão expondo o Espírito de Deus ao desprezo. Portanto, não é de estranhar que Deus se vingue de uma blasfêmia desse gênero, de forma tão severa; e não é de estranhar que ele se mostre inexorável para com aqueles que pisam sob a planta de seus pés a Cristo o Mediador, o único que intercede por nós; e não é de estranhar que ele obstrua o caminho da salvação àqueles que rejeitam o Espírito Santo, como seu único e verdadeiro Guia.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“SEM MISERICÓRDIA MORRE”


“SEM MISERICÓRDIA MORRE”

“Sem misericórdia morre pelo depoimento de duas ou três testemunhas quem tiver rejeitado a lei de Moisés” (Hb 10:28).

Quem tiver rejeitado a lei de Moisés. Este é um argumento do menor para o maior. Porque, se violar a lei de Moisés era ofensa capital, como não há de merecer um castigo mais severo aquele que rejeitar o evangelho, sendo que semelhante ato de profanação envolve perversidade tão nefanda? Essa forma de argumentar era muito eficaz para demover os judeus. Porque esse castigo tão severo aplicado aos apóstatas sob o regime da lei não era novo para eles, nem poderia parecer-lhes injusto. É possível que tenham reconhecido como uma punição justa, ainda que severa, por meio da qual Deus, hoje, sanciona a majestade de seu evangelho.

Isso confirma o que me referi anteriormente, ou seja: que o apóstolo não está argumentando sobre pecados específicos, e, sim, sobre uma negação geral de Cristo. A lei não punia com a morte qualquer tipo de transgressão, senão somente a apostasia, quando alguém se afastava irrevogavelmente de sua religião. O apóstolo fez referência à passagem de Deuteronômio 17.2-5, a qual declara que, se alguém transgredir o pacto de seu Deus para servir a outros deuses, então deveria ser levado para fora do portão e apedrejado até à morte.

Ainda que a lei fora promulgada por Deus, e Moisés não fosse seu autor, mas seu ministro, o apóstolo a denomina de lei de Moisés, visto que ela fora entregue por ele. E isso foi dito com o fim de elevar ainda mais a sublimidade do evangelho, o qual nos foi comunicado pelo próprio Filho de Deus.

Pelo depoimento de duas ou três testemunhas. Essa cláusula não é relevante para a presente passagem, mas é parte da constituição civil de Moisés, visto que duas ou três testemunhas eram requeridas para provar a culpabilidade de um acusado. Contudo, daqui podemos deduzir o gênero de crime que o apóstolo queria enfatizar, pois se esse acréscimo não fosse feito, haveria deixado margem para muitas e falsas conjecturas. Agora, porém, fica provado de maneira indubitável que se tratava de apostasia. Ao mesmo tempo, devemos ter em mente o sentido de justiça que quase todos os estadistas têm observado, ou seja: que ninguém seja condenado sem que sua culpabilidade seja provada pelo testemunho de duas ou três testemunhas.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“EXPECTAÇÃO HORRÍVEL DE JUÍZO”


“EXPECTAÇÃO HORRÍVEL DE JUÍZO”

“Porque, se vivermos deliberadamente em pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados; pelo contrário, certa expectação horrível de juízo e fogo vingador prestes a consumir os adversários” (Hb 10:26,27).

O autor da Epístola aos Hebreus quer dizer com isso aquela tortura de uma má consciência que é curtida pelo ímpio, não só aquele que jamais provou a graça, mas sobretudo aquele que tem consciência de haver provado e a perdeu para sempre por culpa unicamente sua. Tais pessoas merecem não só ser aguilhoadas e dilaceradas, mas ainda torturadas e feitas em pedaços de uma forma mais terrível. Isso as leva a digladiarem furiosamente contra Deus, visto que não podem suportar o Juiz tão inclemente. Certamente que tentam de todas as formas esquivar-se de sentirem o aguilhão da ira divina, porém em vão. Tão logo Deus lhes conceda uma breve trégua, imediatamente os faz comparecer ante o tribunal e os acossa com tormentos dos quais por todos os meios tentam escapar.

Ele adicionou fogo vingador, significando por esta última palavra, a meu ver, um veemente impulso ou uma violenta paixão. A palavra fogo denota uma metáfora muito comum. Assim como os incrédulos são agora inflamados pelo temor da ira divina, assim também arderão, então, sentindo esse mesmo fogo. Não ignoro aqueles filósofos que especularam com certa agudeza sobre a natureza desse fogo; não presto, porém, a mínima atenção aos seus comentários, visto que é evidente que a Escritura, aqui, emprega a mesma forma de falar, quando conecta fogo com verme [Is 66.24]. Não há a menor dúvida de que ele usa o termo verme metaforicamente para o terrível tormento da consciência que devora os incrédulos.

Prestes a consumir os adversários. Assim os devorará como para destrui-los, mas não consumi-los, porque ele será inextinguível. E assim o apóstolo nos lembra que todos quantos rejeitam o lugar que lhes é dado entre os fiéis são incluídos entre os inimigos de Cristo. Não há meio termo. Aqueles que abandonam a Igreja se entregam a Satanás.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“SE VIVERMOS DELIBERADAMENTE EM PECADO”


“SE VIVERMOS DELIBERADAMENTE EM PECADO”

“Porque, se vivermos deliberadamente em pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados” (Hb 10:26).

O escritor da Epístola aos Hebreus realça quão severa é aquela vingança de Deus que aguarda todos aqueles que apostatam da graça de Cristo, uma vez que se privam de sua única salvação; é como se entregassem à sua própria destruição. Foi à luz desse testemunho que Novato (século III) e seus asseclas se armaram em sua tentativa de eliminar de todos os que caem após o batismo qualquer esperança de perdão, sem discriminação alguma. Os que não puderam refutar tal falsidade, acharam mais fácil impugnar a fidedignidade desta Epístola do que enfrentar tal absurdo. No entanto, o genuíno significado desta passagem é por si mesmo suficiente para refutar a impertinência de Novato, sem o auxílio de qualquer apoio externo.

Os pecadores, mencionados pelo apóstolo, não são os que de alguma forma caem; são, antes, aqueles que abandonaram a Igreja e se separaram de Cristo. Ele não está tratando, aqui, desse ou daquele gênero de pecado, senão que está expondo pelo nome aqueles que renunciam deliberadamente a comunhão da Igreja. Não há muita diferença entre apostasia individual e uma deserção universal desse tipo, pela qual apostatamos irrevogavelmente da graça de Cristo. Visto que tal coisa não pode suceder senão a alguém que já foi iluminado, ele diz: se vivermos deliberadamente em pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, como se estivesse dizendo: “Se alguém consciente e voluntariamente despreza a graça que uma vez recebeu”. É evidente, agora, quão longe esta doutrina está do erro de Novato.

À luz do contexto se faz evidente que o apóstolo está se referindo, aqui, tão-somente aos apóstatas. Ele age assim para que os que uma vez foram recebidos no seio da Igreja não desertem como alguns que têm o hábito de fazê-lo. Ele declara que para tais não há mais qualquer tipo de oferta pelo pecado, visto que têm pecado deliberadamente depois de haverem recebido o conhecimento da verdade. Ao mesmo tempo, Cristo se oferece diariamente pelos pecadores que têm caído de alguma outra forma, de modo que não carecem de buscar alguma outra oferta para expiar seus pecados. Diz ainda que nenhuma outra oferta é deixada para aqueles que rejeitam a morte de Cristo, visto que tal rejeição não é oriunda de alguma ofensa particular, mas de uma total rejeição da fé.

Tal severidade divina é certamente terrível, mas ela é manifesta com o intuito de inspirar o temor. Ao mesmo tempo, ele não pode ser acusado de selvageria. Visto que a morte de Cristo é o único antídoto para livrar-nos da morte eterna, não é justo que aqueles destroem o quanto podem, tanto sua eficácia quanto seus benefícios, não mereçam outra coisa senão o desespero? Aqueles que confessam a Cristo são diariamente chamados à reconciliação com Deus e encontram diariamente a expiação para os seus pecados através de seu sacrifício eterno. Se não há salvação alguma fora dele, então não devemos sentir-nos surpresos que todos os que deliberadamente o abandonam sejam privados de toda esperança de perdão. O sacrifício de Cristo é eficaz para os crentes, até à morte, ainda que reiteradamente pequem. Além disso, ele mantém sempre sua eficácia, visto que eles não podem viver plenamente livres do pecado enquanto estiverem na carne. O apóstolo está, portanto, dirigindo sua atenção somente para aqueles que se afastam de Cristo em sua incredulidade, e assim deixam de receber o benefício de sua morte.

A frase depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade é inserida para dar força à ingratidão deles, pois qualquer um que, voluntariamente e com deliberada perversidade, extingue a luz de Deus, que uma vez foi acesa em seu coração, não tem justificativa a alegar diante de Deus. Aprendamos daqui não só a aceitar a verdade que nos é comunicada, e isso com reverência e uma viva humildade de espírito, mas também a perseverar continuamente no conhecimento dela, para que não soframos tão medonho castigo por desprezá-la.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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quarta-feira, 10 de junho de 2026

“SACERDÓCIO IMUTÁVEL”


“SACERDÓCIO IMUTÁVEL”

“Ora, aqueles são feitos sacerdotes em maior número, porque são impedidos pela morte de continuar; este, no entanto, porque continua para sempre, tem o seu sacerdócio imutável. Por isso, também pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles” (Hb 7:23-25).

O autor da carta aos Hebreus concluiu previamente que era mister que o antigo sacerdócio sofresse interrupção; visto que aqueles que ministravam nele eram homens mortais; mas agora ele simplesmente realça a razão por que Cristo permanece Sumo Sacerdote para sempre. Ele procede argumentando a partir dos opostos. Os antigos sacerdotes eram em maior número em razão de a morte interromper seu sacerdócio. Quanto a Cristo, não há morte que o impeça de cumprir seu ofício.

Por isso, também pode salvar. Nossa salvação é o fruto do sacerdócio eterno, se porventura colhermos tal fruto pela fé, como devemos fazê-lo. Pois onde a morte ou mudança se faz presente, aí buscaremos a salvação sem qualquer resultado. Por isso, aqueles que aderem ao antigo sacerdócio jamais alcançarão a salvação.

Quando diz, os que por ele se chegam a Deus, o autor usa essa circunlocução com o fim de descrever os crentes que são os únicos que desfrutam a salvação comunicada por Cristo. Ao mesmo tempo, indica que gênero de fé deve repousar num mediador. O mais excelente bem humano deve estar radicado no Deus que é a fonte de vida e de todas as bênçãos excelentes. É nossa própria indignidade que impede de nos aproximarmos de Deus. Portanto, é próprio do ofício do Mediador socorrer-nos aqui e estender sua mão para guiar-nos ao céu.

O autor insiste em fazer alusão às antigas sombras da lei. Embora o sumo sacerdote levasse os nomes das doze tribos em seus ombros, e seus símbolos em seu peito, todavia ele entrava sozinho no santuário enquanto o povo permanecia no átrio. Mas agora que descansamos em Cristo como Mediador, entramos pela fé no céu, visto que não há mais véu algum para nos obstruir a passagem. Deus nos aparece abertamente, e amorosamente nos convida a um encontro com ele face a face.

Vivendo sempre para interceder por eles. Qual é a natureza e a extensão da garantia do Amor de Deus para conosco? O fato de Cristo viver para nós e não para si mesmo, bem como o fato de que ele foi recebido na bem-aventurança eterna com o fim de reinar no céu – tal coisa se deu, diz o apóstolo, por nossa causa. Por conseguinte, a vida, o reino e a glória de Cristo visam à nossa salvação como seu alvo, e Cristo nada possui que não seja destinado para o nosso bem, visto que ele nos foi dado pelo Pai nessa condição, ou seja, para que tudo o que é dele sejam também nosso. Ao mesmo tempo o autor nos mostra, por meio do exemplo de Cristo, em sua função de Sacerdote, que fazer intercessão pertence a um sacerdote, a fim de que o povo encontre graça da parte de Deus. Cristo faz isso continuamente, ressuscitou dentre os mortos com esse propósito. Ele justifica seu direito ao título de Sacerdote em sua ininterrupta tarefa de fazer intercessão.

Deus nos abençoe

João Calvino (1509-1564).

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segunda-feira, 8 de junho de 2026

“SE DEUS É POR NÓS, QUEM SERÁ CONTRA NÓS?”


“SE DEUS É POR NÓS, QUEM SERÁ CONTRA NÓS?”

“Que diremos, pois, à vista destas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8.31).

Este é o principal e, portanto, o único suporte a sustentar-nos em cada provação. Se porventura Deus não nos fosse propício, nenhuma confiança sólida poderia ser concebida, ainda quando tudo pareça sorrir-nos. Entretanto, em contrapartida, o amor divino não só é suficientemente grande consolação em toda e qualquer dor, mas também suficientemente forte proteção contra todas as tormentas e infortúnio. Há sobejos testemunhos na Escritura com referência a esta verdade, onde os santos, confiando tão-somente no poder divino, ousam menosprezar todo gênero de adversidade com que se deparam no mundo. “Ainda que eu ande pelo vale da sombra e da morte, não temerei mal algum” [Sl 23.4]. “Em Deus ponho minha confiança, e nada temerei; que me poderá fazer o homem?” [Sl 56.11]. “Não tenho medo de milhares do povo que tomam posição contra mim de todos os lados” [Sl 3.6].

Não há poder abaixo do céu ou acima dele que possa resistir o braço de Deus. Se porventura o temos como nosso Defensor, então não precisamos recear mal algum. Ninguém, pois, demonstrará possuir verdadeira confiança em Deus, senão aquele que se satisfaz com sua proteção, que nada teme nem perde sua coragem. Certamente que os crentes às vezes tremem, porém nunca ficam irremediavelmente destruídos. Em suma, o objetivo do apóstolo Paulo era mostrar que a alma piedosa deve manter firme o testemunho interior do Espírito, e não depender de nada que seja externo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“QUE DIREMOS, POIS, À VISTA DESTAS COISAS?”


“QUE DIREMOS, POIS, À VISTA DESTAS COISAS?”

“Que diremos, pois, à vista destas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8.31).

Havendo provado suficientemente seu tema, o apóstolo Paulo agora se prorrompe numa série de exclamações por meio das quais expressa a grandeza de alma que os crentes devem possuir quando as adversidades insistem em fazê-los desesperar-se. Ele nos ensina, através dessas palavras, que a coragem inquebrantável que suplanta a todas as provações reside no paternal e divino favor. A única maneira pela qual nosso julgamento do amor ou da ira de Deus é comumente formado é, como sabemos, pela avaliação de nosso estado atual. É por isso que as coisas às vezes vão mal, a tristeza toma posse de nossas mentes e afasta-se de nós a confiança e consolação. Paulo, contudo, exclama que um princípio mais profundo deve ser buscado, e que, portanto, os que se limitam a fitar o triste espetáculo de nossa batalha laboram em erro. Admito que os açoites divinos devem ser corretamente considerados, em si mesmos, como sendo sinais da ira divina; mas visto que eles se acham sacralizados em Cristo, o apóstolo ordena aos santos que ponham o amor paternal de Deus acima de tudo mais, de modo que, ao buscar nele seu refúgio, venham confiantemente a triunfar sobre todo o mal. Constitui-se-nos numa muralha de bronze o fato de Deus nos ser favorável e nos fazer seguros contra todo perigo. Paulo, contudo, não pretende ensinar-nos que jamais enfrentaremos qualquer oposição, senão que nos promete vitória sobre toda classe de inimigo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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sexta-feira, 5 de junho de 2026

“O INFERIOR É ABENÇOADO PELO SUPERIOR”


“O INFERIOR É ABENÇOADO PELO SUPERIOR”

“Evidentemente, é fora de qualquer dúvida que o inferior é abençoado pelo superior” (Hb 7:7).

Antes de tudo, é preciso perguntar, aqui, o que o termo abençoar significa. Abençoar é um ato solene de invocação, mediante o qual aquele que se acha investido de alguma honra, eminente e pública, apresenta a Deus indivíduos específicos que se encontram sob seu cuidado. Há outra maneira de abençoar, a qual sucede quando oramos sucessivamente uns pelos outros. Essa é uma prática comum entre todas as pessoas piedosas. O abençoar de que o apóstolo fala é símbolo de um poder maior. Dessa forma Isaque abençoa a seu filho Jacó [Gn 27.27], e o próprio Jacó abençoou a seus netos, Efraim e Manassés [Gn 48.15]. Esse abençoar não podia ser feito mutuamente, fazendo o filho igual ao pai, porquanto fazia-se necessário uma autoridade mais elevada para validar a bênção. Além do mais, uma evidência para tal fato pode-se encontrar no capítulo 6.23 de Números, onde, após os sacerdotes receberem a ordem de abençoar o povo, uma promessa é imediatamente adicionada, a saber: aqueles sobre quem ministrassem sua bênção seriam abençoados. A bênção sacerdotal, repito, dependia do seguinte princípio: ela provinha não propriamente do homem, e sim, de Deus. Assim como o sacerdote, ao oferecer sacrifícios, assumia o lugar de Cristo, assim também, ao abençoar o povo, outra coisa não era ele senão servo representante do Deus Altíssimo. Devemos tomar nesse mesmo sentido quando Lucas registra [Lc 24.50] que Cristo estendeu as mãos e abençoou os apóstolos. Indubitavelmente, o rito de estender as mãos ele tomou por empréstimo dos sacerdotes, com o fim de mostrar que ele é aquele por meio de quem Deus o Pai nos abençoa. Encontramos nos Salmos 116.17 e 118.1 uma menção dessa bênção.

Apliquemos agora essa ideia à discussão do apóstolo. Visto que a bênção sacerdotal é uma obra divina, ao mesmo tempo ela é evidência de uma honra mais elevada. Portanto ao abençoar a Abraão, Melquisedeque arrogou para si mesmo um status mais eminente. Ele não fez isso presunçosamente, senão que o fez em consonância com os direitos sacerdotais. Ele, portanto, e mais eminente que Abraão. Não obstante, Abraão é aquele com quem aprove Deus consolidar um pacto de salvação. No entanto, apesar de haver excedido a todos os demais, em eminência, ele só foi suplantado por Melquisedeque.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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