"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



segunda-feira, 1 de julho de 2024

“PLENO CONHECIMENTO DA VERDADE SEGUNDO A PIEDADE”


PLENO CONHECIMENTO DA VERDADE SEGUNDO A PIEDADE

“Paulo, servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo, para promover a fé que é dos eleitos de Deus e o pleno conhecimento da verdade segundo a piedade” (Tt 1.1).

A fim de apoiar sua alegação de que seu apostolado está livre de toda e qualquer impostura e equívoco, Paulo declara que sua mensagem nada contém senão aquela notória e averiguada verdade, a qual pode instruir os homens no perfeito culto divino. Visto, porém, que cada palavra tem sua própria importância, nos será de muito proveito examiná-las uma a uma.

Em primeiro lugar, ao chamar a fé de “conhecimento”, Paulo não está meramente distinguindo-a de opinião, mas daquela fé forjada e implícita inventada pelos falsos mestres. Pois por fé implícita eles querem dizer algo destituído de toda luz da razão. Ao dizer que conhecer a verdade pertence à essência da fé, ele claramente demonstra que sem o conhecimento não há certeza na fé.

Com o termo, “verdade”, Paulo explica ainda mais claramente a certeza que a natureza da fé requer; pois a fé não se satisfaz com probabilidades, mas com a plena verdade. Além do mais, ele não está falando, aqui, de qualquer gênero de verdade, mas daquela que é contrastada com a vaidade do entendimento humano. Pois como Deus se nos tem revelado através dessa verdade, ela é a única que merece o título de “a verdade” - título este a ela dado em muitos passos bíblicos. “O Espírito da verdade vos guiará a toda a verdade” [Jo 16.13]. “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” [Jo 17.17]. “Por causa da esperança que vos está preservada nos céus, da qual antes ouvistes pela palavra da verdade do evangelho” [Cl 1.5]. Em suma, a verdade é aquele puro e perfeito conhecimento de Deus, o qual nos livra de todo e qualquer erro e falsidade. Devemos considerar que não há nada mais miserável do que vagar ao longo de toda a nossa vida como ovelhas perdidas.

A próxima frase, que é segundo a piedade, qualifica a verdade de uma forma específica, da qual ele esteve falando, e ao mesmo tempo recomenda sua doutrina a partir de seu fruto e propósito, visto que seu alvo único é promover o culto divino correto, e manter a religião genuína entre os homens. E assim ele livra sua doutrina de toda e qualquer suspeita de vã curiosidade, como ele fez diante de Félix [At 24.10] e igualmente diante de Agripa [At 26.1]. Visto que todos os questionamentos supérfluos que não se inclinam para a edificação devem ser com toda razão suspeitos e mesmo detestados pelos cristãos piedosos, a única recomendação legítima da doutrina é que ela nos instrui na reverência e temor de Deus. E assim aprendemos que o homem que mais progride na piedade é também o melhor discípulo de Cristo, e o único homem que deve ser tido na conta de genuíno teólogo é aquele que pode edificar a consciência humana no temor de Deus.

Deus nos abençoe

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana Silva Jardim - Curitiba(PR).
Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário.

“PARA PROMOVER A FÉ QUE É DOS ELEITOS DE DEUS”


“PARA PROMOVER A FÉ QUE É DOS ELEITOS DE DEUS”

“Paulo, servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo, para promover a fé que é dos eleitos de Deus e o pleno conhecimento da verdade segundo a piedade”. (Tt 1.1).

No caso de alguém ainda nutrir dúvida acerca de seu apostolado, Paulo apresenta fortes razões para se crer nele, conectando-o à salvação dos eleitos de Deus, como se quisesse dizer: “há uma relação mútua entre meu apostolado e a fé dos eleitos de Deus, de modo que ninguém poderá rejeitá-lo sem que se torne um réprobo e estranho à fé genuína”. Com o termo, “eleitos”, ele indica não só aqueles que ainda estavam vivos naquele tempo, mas a todos quantos foram eleitos desde o princípio do mundo. Sua intenção é que ele não ensina nenhuma doutrina que não esteja em harmonia com a fé de Abraão e de todos os pais. E assim, se alguém hoje deseja ser considerado sucessor de Paulo, o mesmo terá que provar que é ministro da mesma doutrina. Essas palavras, porém, contêm um contraste implícito, para tornar evidente que a incredulidade e a obstinação de muitos de forma alguma trazem prejuízo ao evangelho. Pois naquele tempo, assim como hoje, os fracos na fé eram terrivelmente escandalizados porque grande parte daqueles que alegavam pertencer à Igreja rejeitavam a doutrina integral de Cristo. Por essa razão Paulo mostra que, mesmo que todos, indiscriminadamente, se gloriassem no nome de Deus, há um grande número no seio dessa multidão que, não obstante, são réprobos. Como ele diz em outro lugar: “Nem por serem descendência de Abraão todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência” (Rm 9.7).

Deus nos abençoe

João Calvino (1509-1564).

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“SERVO DE DEUS E APÓSTOLO DE JESUS CRISTO”


“SERVO DE DEUS E APÓSTOLO DE JESUS CRISTO”

“Paulo, servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo, para promover a fé que é dos eleitos de Deus e o pleno conhecimento da verdade segundo a piedade, na esperança da vida eterna que o Deus que não pode mentir prometeu antes dos tempos eternos e, em tempos devidos, manifestou a sua palavra mediante a pregação que me foi confiada por mandato de Deus, nosso Salvador, a Tito, verdadeiro filho, segundo a fé comum, graça e paz, da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Salvador” (Tt 1.1-4).

Esta longa e detalhada recomendação de seu apostolado revela que Paulo tinha em mente toda a Igreja, e não simplesmente a pessoa de Tito. Pois o seu apostolado não estava sendo impugnado por Tito; e ele tinha por costume proclamar os louvores de sua vocação quando desejava asseverar e manter sua autoridade. Portanto, à medida do conhecimento que ele tem da disposição daqueles a quem está escrevendo, ocupa-se extensamente desses ornamentos. Já que seu propósito aqui é submeter os que estavam comprometidos em rebeliões insolentes, ele enaltece seu apostolado em termos imponentíssimos. Ele escreve esta carta, não para que Tito a lesse sozinho, mas para que fosse publicada abertamente.

Em primeiro lugar, Paulo se denomina servo de Deus, e então adiciona a designação específica de seu ministério: apóstolo de Cristo. E assim ele desce do gênero para a espécie. Devemos lembrar que, como já disse em outro lugar, o termo “servo” não significa apenas sujeição ordinária, no sentido em que todos os crentes podem ser chamados servos de Deus, mas significa um ministro a quem se destina certo ofício definido. Nesse sentido, os antigos profetas foram caracterizados por esse título, e Cristo mesmo é o principal dos profetas. “Eis aqui o meu servo, a quem sustenho; o meu escolhido, em quem a minha alma se compraz” (Is 42.1). E assim Davi, diante de sua dignidade real, a si mesmo se denomina - “servo de Deus”. É provável que Paulo tivesse também seus olhos postos nos judeus que se denominavam de “servos de Deus”, pois formaram o hábito de amesquinhar sua autoridade, lançando-lhe em rosto a lei [de Moisés]. Ele deseja ser tido na conta de apóstolo de Cristo com o intuito de poder também gloriar-se de ser, dessa forma específica, um “servo de Deus”. E assim ele mostra que esses dois títulos são não só consistentes entre si, mas também se acham atados um ao outro por vínculo indissolúvel.

Deus nos abençoe

João Calvino (1509-1564).

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sexta-feira, 28 de junho de 2024

“QUEM COMER A MINHA CARNE E BEBER O MEU SANGUE”


“QUEM COMER A MINHA CARNE E BEBER O MEU SANGUE”

“Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeira comida, e o meu sangue é verdadeira bebida. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue permanece em mim, e eu, nele” (Jo 6.53-56).

Poucas passagens das Escrituras têm sido tão severamente adulteradas e distorcidas quanto essa que acabamos de ler. Os judeus não foram os únicos que encontraram dificuldades para entender o seu significado.

O “comer” e o “beber” referidos por Jesus não possuem qualquer significado literal. Além disso, essas palavras não foram pronunciadas em referência à Ceia do Senhor. É possível tomarmos a Ceia e, apesar disso, não comermos o corpo e bebermos o sangue de Cristo. Também é possível comermos e bebermos do seu corpo e do seu sangue, sem participarmos da Ceia do Senhor.

Consideremos atentamente o verdadeiro significado dessas palavras. A “carne e o sangue do Filho do Homem” referem-se ao sacrifício do próprio corpo de Cristo, oferecido por Ele ao morrer na cruz em favor dos pecadores. A expiação feita através de sua morte; a satisfação realizada por meio de seus sofrimentos como nosso substituto; a redenção que Ele consumou, por levar em seu próprio corpo, no madeiro, a penalidade dos nossos pecados - tudo isso é a verdadeira ideia que devemos ter em nossas mentes.

Comer e beber, sem os quais não haveria vida em nós, significa receber o sacrifício de Cristo; isto acontece quando o homem crê em “Cristo crucificado”, para sua salvação. Este é um ato íntimo e espiritual, procedente do coração; em nada se relaciona com o corpo físico. Em qualquer momento que o homem, ao sentir sua culpa e pecaminosidade, busca a Cristo e confia na expiação realizada por Ele na cruz, nesse mesmo instante tal homem come e bebe o corpo e o sangue do Filho do Homem. Pela fé, sua alma se alimenta do sacrifício de Cristo.

Lições práticas: Após ficar claro que a carne e o sangue mencionados referem-se ao sacrifício de Cristo e que comer e beber significa crer em Jesus Cristo, podemos perceber grandes verdades fundamentais do cristianismo.

1. Que a fé na expiação realizada por Cristo é essencial à salvação.

2. Que a fé na expiação nos une ao Salvador, nos mais íntimos vínculos possíveis, outorgando-nos o direito aos privilégios mais elevados. Nossas almas encontrarão a plena satisfação de suas necessidades, pois a carne de Cristo é “verdadeira comida” e o seu sangue “verdadeira bebida”. Ele nos garante tudo que precisamos, no presente e na eternidade. “Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia”.

3. Que o ato de crer na expiação consumada por Cristo é um ato pessoal, a ser praticado e desfrutado a cada dia. Ninguém pode comer e beber por nós, assim como nenhuma outra pessoa pode crer por nós.

Deus nos abençoe!

J.C.Ryle (1816-1900).

*Visite a Igreja Presbiteriana Silva Jardim - Curitiba(PR).
Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário. 


“JERUSALEM OF GOLD”

“JERUSALEM OF GOLD”

ירושלים של זהב - הילה בן דוד



“Elevo os olhos para os montes: de onde me virá o socorro? O meu socorro vem do SENHOR, que fez o céu e a terra. Ele não permitirá que os teus pés vacilem; não dormitará aquele que te guarda. É certo que não dormita, nem dorme o guarda de Israel. O SENHOR é quem te guarda; o SENHOR é a tua sombra à tua direita. De dia não te molestará o sol, nem de noite, a lua. O SENHOR te guardará de todo mal; guardará a tua alma. O SENHOR guardará a tua saída e a tua entrada, desde agora e para sempre” (Sl 121.1-8).

Deus nos abençoe!

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segunda-feira, 24 de junho de 2024

“CADA ÁRVORE É CONHECIDA PELO SEU PRÓPRIO FRUTO”


“CADA ÁRVORE É CONHECIDA PELO SEU PRÓPRIO FRUTO”

“Porquanto cada árvore é conhecida pelo seu próprio fruto. Porque não se colhem figos de espinheiros, nem dos abrolhos se vindimam uvas. O homem bom do bom tesouro do coração tira o bem, e o mau do mau tesouro tira o mal; porque a boca fala do que está cheio o coração” (Lc 6.44,45).

Destes versículos podemos aprender que existe apenas um teste satisfatório para julgarmos o caráter da vida espiritual de uma pessoa. Este teste é seu comportamento e conversa.

As palavras de nosso Senhor Jesus sobre este assunto são claras e inconfundíveis. Ele utilizou a ilustração de uma árvore e estabeleceu um princípio universal: “Cada árvore é conhecida pelo seu próprio fruto”. Mas Ele não parou por aí. Prosseguiu mostrando que a conversa de um homem revela o estado de seu coração: “A boca fala do que está cheio o coração”. Estas duas afirmativas são profundamente importantes. Ambas precisam ser guardadas entre as principais máximas de nosso cristianismo prático.

Este deve ser um firme princípio de nosso cristianismo: quando uma pessoa não apresenta o fruto do Espírito, ela não possui o Espírito Santo em seu coração. Resistamos, considerando-a um erro fatal, à ideia de que todas as pessoas batizadas são nascidas de novo, e que todos os membros da igreja têm o Espírito Santo. Uma simples pergunta deve ser nosso critério: que fruto esta pessoa está demonstrando? Ela abomina as obras da carne? Ela se arrependeu de seus pecados? De todo o coração, ela crê em Jesus Cristo? Ela vive em santidade, vencendo o mundo? Quando estes frutos estão ausentes, não podemos afirmar que alguém possui o Espírito de Deus em seu coração.

Também este deve ser um firme princípio de nosso cristianismo: quando a conversa geral de uma pessoa é ímpia, o seu coração está destituído da graça divina e ainda não se converteu ao Senhor Jesus. Não devemos aceitar a ideia habitual de que não podemos conhecer o coração dos outros e de que, embora os homens estejam vivendo de maneira pecaminosa, em seu íntimo possuem bons corações. Tal ideia é contrária ao ensino de nosso Senhor. A maior parte da conversa de uma pessoa é mundana, carnal, contrária às coisas espirituais, ímpia e profana? Então reconheçamos que esse é o estado de seu coração.

Terminemos esta palavra com uma auto-inquirição, utilizando-a para julgar nosso próprio estado diante de Deus. Que frutos estamos apresentando em nossas vidas? São do Espírito de Deus, ou não? Que tipo de evidência nossas conversas fornecem quanto ao estado de nosso coração? Falamos como pessoas cujos corações são retos diante de Deus? Não podemos esquivar-nos do ensino apresentando por nosso Mestre e Senhor: a conduta é o grande teste do caráter e as palavras são uma grande evidência do estado de nosso coração.

Deus nos abençoe!

J.C.Ryle (1816-1900).

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“POR QUE VÊS TU O ARGUEIRO NO OLHO DE TEU IRMÃO?”


POR QUE VÊS TU O ARGUEIRO NO OLHO DE TEU IRMÃO?

Por que vês tu o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que está no teu próprio? Como poderás dizer a teu irmão: Deixa, irmão, que eu tire o argueiro do teu olho, não vendo tu mesmo a trave que está no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e, então, verás claramente para tirar o argueiro que está no olho de teu irmão” (Lc 6.41-42).

Destes versículos aprendemos que devem se esforçar para manter uma vida pura aqueles que repreendem os pecados dos outros. Nosso Senhor Jesus nos ensina esta lição por meio de uma afirmação prática. Ele nos mostra a falta de coerência da parte de uma pessoa culpar a outra por ter “um argueiro”, ou seja, algo insignificante em seu olho, enquanto ela própria tem uma “trave”, algo enorme em seu próprio olho.

Esta é uma lição que tem de ser recebida com qualificações bíblicas e adequadas. Se alguém tivesse de pregar e ensinar aos outros somente quando estivesse completamente sem falhas, não haveria ensino ou pregação no mundo. Aquele que errou jamais seria corrigido, e os ímpios nunca seriam repreendidos. Atribuir este significado às palavras de nosso Senhor faria colidir com o evidente ensino das Escrituras.

O principal objetivo de nosso Senhor era gravar na mente de seus pregadores e ensinadores a importância de uma vida coerente. Esta passagem é um solene aviso para não contradizermos com nossas vidas aquilo que dizemos com nossos lábios. O ministério de um pregador não conquistará a atenção dos ouvintes, a menos que ele pratique aquilo que ensina. Ordenação no pastorado, graus universitários, títulos e aceitação pública de possuir sã doutrina, estas coisas não asseguram ao sermão do pastor o respeito de seus ouvintes, se a igreja percebe que ele possui hábitos pecaminosos.

No entanto, existem muitas coisas nesta pastoral que todos faremos bem se recordarmos. É uma lição que muitas pessoas, e não somente os pastores, devem considerar com seriedade. Todos os esposos, chefes do lar, pais, professores, responsáveis por jovens, deveriam pensar com frequência sobre o “argueiro” e a “trave”. Todas estas pessoas deveriam ver nas palavras de nosso Senhor a poderosa lição de que nada influencia tanto aos outros quando a coerência.

Deus nos abençoe!

J.C.Ryle (1816-1900).

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terça-feira, 11 de junho de 2024

“VEDE QUE NÃO SEJAIS MUTUAMENTE DESTRUÍDOS”

 

“VEDE QUE NÃO SEJAIS MUTUAMENTE DESTRUÍDOS”

“Se vós, porém, vos mordeis e devorais uns aos outros, vede que não sejais mutuamente destruídos. Digo, porém: andai no Espírito e jamais satisfareis à concupiscência da carne” (Gl 5.15,16).

À luz da natureza do tema, tanto quanto das palavras, é possível conjecturarmos que os gálatas tinham desavenças entre si; pois diferiam em matéria de doutrina. O apóstolo Paulo agora demonstra, à luz do resultado, quão destrutivo é um mal desse gênero no seio da Igreja. Portanto, é possível que o Senhor haja punido sua ambição, orgulho e outros pecados com o ingresso de falsas doutrinas. Tal coisa se pode inferir à luz do que é costumeiro e à luz da declaração de Moisés em Deuteronômio 13.3.

Pelos termos morder e devorar, o apóstolo, a meu ver, tem em mente as calúnias, as acusações, brigas e outros tipos de discórdias verbais, bem como atos de injustiça oriundos ou da fraude ou da violência. E qual é o fim deles? Ser destruídos, diz Paulo. A propriedade do amor, porém, é a mútua proteção e bondade. Recordemos sempre, quando o diabo nos empurrar para as controvérsias, que as desavenças dos membros no seio da Igreja, não nos levam a parte alguma, senão para a ruina e destruição de todo o corpo. Quão desditoso, quão louco é que nós, membros do mesmo corpo, conspiremos voluntariamente e de comum acordo para a mútua destruição?

A ruína da Igreja não é um mal de somenos importância. Portanto, seja o que for que a ameace, deve ser resistido com determinação. Mas, com que método? Quando a carne não exerce domínio sobre nós, e quando nos sujeitamos ser governados pelo Espírito de Deus. O apóstolo insinua que os gálatas eram carnais, destituídos do Espírito de Deus e que viviam uma vida indigna de cristãos. Pois, donde sucede que atacavam uns aos outros, senão do fato de que eram guiados pelas concupiscências da carne? Tal coisa, diz ele, é sólida evidência de que não andavam segundo o Espírito.

Devemos atentar para a expressão, jamais satisfareis. Paulo a usa no seguinte sentido: ainda que os filhos de Deus estejam sujeitos a pecar enquanto gemem sob o fardo da carne, todavia não são seus vassalos ou escravos, senão que se esforçam por resistir o pecado. O homem espiritual não está isento das concupiscências da carne e seus constantes apelos, porém não se curva para permitir que reinem sobre ele.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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segunda-feira, 10 de junho de 2024

“AMARÁS O TEU PRÓXIMO COMO A TI MESMO”

“AMARÁS O TEU PRÓXIMO COMO A TI MESMO”

“Porque toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Gl 5.14).

Aquele que ama concederá a cada pessoa o que lhe é de direito, não injuriará nem fará dano a quem quer que seja, e, quanto lhe for possível, fará bem a todos. Haverá algo mais para se cumprir na segunda tábua? Esse é também o argumento que o apóstolo Paulo usa em Romanos. A palavra próximo inclui todas as pessoas vivas. Pois estamos todos unidos por uma natureza comum, segundo nos lembra o profeta Isaías: “que não desprezes o fulgor da tua carne” [Is 58.7]. A imagem de Deus deve ser um vínculo de união especialmente sagrado. Por isso, aqui não se faz qualquer distinção entre amigo e inimigo, pois os perversos não podem anular o direito natural.

A frase, como a ti mesmo, significa que, como cada pessoa é movida a amar a si própria em obediência ao impulso da carne, assim o amor por nosso próximo nos é imposto por Deus. Pois há os que subvertem e não interpretam as palavras do Senhor, os quais inferem delas que o amor devido a nós mesmos é sempre o primeiro quanto à ordem, porque quem é governado é inferior ao que governa. Pois se o amor por nós mesmos fosse o governante, logicamente seria justo e santo e aprovado por Deus. Mas jamais amaremos o nosso próximo sinceramente e em consonância com o critério do Senhor enquanto não tivermos corrigido o amor por nós mesmos. Os dois afetos são opostos e contraditórios; pois o amor [amor] por nós mesmos gera negligência e menosprezo pelos outros, gera crueldade, é a fonte de avareza, de violência, de falsidade e de todos os vícios afins, nos compele à impaciência e nos arma com o desejo de vingança. O Senhor, portanto, requer que ele seja mudado para caridade.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“TODA A LEI SE CUMPRE EM UM SÓ PRECEITO”

“TODA A LEI SE CUMPRE EM UM SÓ PRECEITO”

“Porque toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Gl 5.14).

Neste versículo, uma antítese deve ser completada entre a exortação do apóstolo Paulo e a doutrina dos falsos apóstolos. Enquanto insistiam só sobre cerimônias, Paulo relanceia de passagem sobre os verdadeiros deveres e exercícios dos cristãos. A presente recomendação do amor visava a ensinar aos gálatas que ele forma a principal parte da perfeição cristã. Mas devemos ver por que todos os preceitos da lei se encontram compreendidos no amor. A lei consiste de duas tábuas: a primeira das quais ensina sobre o culto divino e os deveres da piedade; e a segunda, os deveres do amor. Pois é absurdo tomar uma parte como se fosse o todo. Alguns evitam isso, dizendo que a primeira tábua nada contém senão amar a Deus com o nosso coração íntegro. Paulo, porém, expressamente menciona o amor devido ao próximo, e por isso se deve buscar uma solução firme. Piedade para com Deus, confesso, é mais proeminente do que o amor devido aos irmãos; e assim a observância da primeira tábua é mais valiosa à vista de Deus do que a da segunda. Mas como Deus pessoalmente é invisível, assim a piedade é algo oculto aos sentidos humanos. E embora as cerimônias sejam destinadas a testificar dela, todavia não são provas infalíveis. Às vezes sucede de ninguém ser mais zeloso e sistemático em observar as cerimônias do que os hipócritas. Deus, portanto, quer fazer prova de nosso amor para ele através do amor devido ao nosso irmão, o qual ele nos recomenda. Eis a razão porque não só aqui, mas também em Romanos 13.8,10, o amor é chamado de cumprimento da lei, não porque seja ele superior ao culto divino, mas porque ele é a prova deste. Deus, como já disse, é invisível; mas ele se nos representa nas pessoas dos irmãos, e nessas pessoas requer o que é devido a ele mesmo. O amor para com os homens flui tão-somente do temor e do amor de Deus. Portanto, não causaria surpresa se por meio de sinédoque o efeito incluir em si a causa da qual ele é o sinal. Seria, porém, errôneo separar o amor a Deus do amor aos homens.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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