"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



segunda-feira, 11 de novembro de 2024

“MAS RECEBESTES O ESPÍRITO DE ADOÇÃO”

“MAS RECEBESTES O ESPÍRITO DE ADOÇÃO”

“Porque não recebestes o espírito de escravidão, para viverdes, outra vez, atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai” (Rm 8.15).

Ainda que o pacto da graça se acha contido na lei, não obstante Paulo o remove de lá; porque, ao contrastar o evangelho com a lei, ele leva em consideração somente o que fora peculiar à lei em si mesma, ou seja: a ordenança e a proibição, refreando assim os transgressores com ameaça de morte. Ele atribui à lei suas próprias qualificações, mediante as quais ela difere do evangelho. Contudo, pode-se preferir a seguinte afirmação: “Ele só apresenta a lei no sentido em que Deus, nela, se pactua conosco em relação às obras”. Portanto, nossa opinião no tocante a pessoas seria: “Quando a lei foi promulgada no seio do povo judeu, e mesmo depois de ser promulgada, os crentes foram iluminados pelo mesmo Espírito de fé. Assim a esperança da herança eterna, da qual o Espírito é penhor e selo, foi selada em seus corações. A única diferença é que o Espírito é mais profusa e liberalmente derramado no reino de Cristo”. Entretanto, se considerarmos a própria administração da doutrina, perceberemos que a salvação foi primeiro revelada de forma plena quando Cristo manifestou-se em carne, tão profunda era a obscuridade em que todas as coisas se achavam envolvidas no período do Velho Testamento, quando comparado com a clara luz do evangelho.

Finalmente, a lei, considerada em si mesma, outra coisa não pode fazer senão cegar aos que se acham sujeitos à sua desgraçada servidão, dominados pelo horror da morte, visto que ela não promete nada senão sob condições, e só pronuncia morte a todos os transgressores. Portanto, enquanto que sob a lei se achava o espírito de servidão, o qual  oprimia a consciência com o medo, também sob o evangelho se acha o Espírito de Adoção, o qual alegra nossas almas com o testemunho de nossa salvação. Note-se que o apóstolo conecta medo com servidão, visto que a lei não pode fazer nada senão molestar e atormentar nossas almas com um miserável descontentamento, enquanto exercer seu domínio. Portanto, não há nenhum outro remédio para pacificar nossas almas além do antídoto divino que cura nossos pecados e nos trata com aquela benevolência com que um pai trata seus filhos.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana Silva Jardim - Curitiba(PR).
Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário.  

“NÃO RECEBESTES O ESPÍRITO DE ESCRAVIDÃO”

“NÃO RECEBESTES O ESPÍRITO DE ESCRAVIDÃO”

“Porque não recebestes o espírito de escravidão, para viverdes, outra vez, atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai” (Rm 8.15).

O apóstolo Paulo agora confirma a certeza daquela confiança na qual ele recentemente ordena aos crentes que descansassem em segurança. Ele procede assim ao mencionar o efeito especial produzido pelo Espírito. Esse não foi dado para molestar-nos com o medo ou atormentar-nos com a ansiedade, mas ao contrário, para acalmar nossa intranquilidade, para trazer nossas mentes a um estado de paz e incitar-nos a clamar a Deus com confiança e liberdade. O apóstolo, pois, não só prossegue o argumento no qual tocara de leve, mas também insiste mais sobre a outra causa que, ao mesmo tempo, conectara com esta, ou seja: aquela que trata da complacência paternal de Deus, pela qual ele perdoa em seu povo as enfermidades da carne e os pecados sob os quais eles ainda labutam. Nossa confiança nessa clemência divina, ensina-nos Paulo, se converte naquela certeza de que o Espírito de adoção opera em nós, o qual não nos obrigaria a viver em oração sem antes selar-nos com o perdão gracioso. Para que este ponto fosse ainda mais evidente, o apóstolo afirma que há dois espíritos. A um ele chama de espírito de escravidão, o qual podemos receber da lei; e o outro, o espírito de adoção, o qual procede do evangelho. O primeiro, afirma ele, foi outrora concedido pra produzir temor; o segundo é agora concedido para proporcionar segurança. A certeza de nossa salvação, a qual ele deseja confirmar, desponta, como podemos ver, com grande nitidez daquela comparação de opostos. A mesma comparação é usada pelo autor da Epístola aos Hebreus, ao dizer que não temos que aproximar-nos do Monte Sinal, onde tudo é por demais terrível, e onde o povo, assombrado como que diante de uma declaração de morte, implorou que a palavra não lhes fosse proferida, e quando o próprio Moisés confessou que se sentia dominado pelo terror, “senão que nos acheguemos ao monte Sião, e à cidade do Deus vivente, e à Jerusalém celestial... e a Jesus, o Mediador de uma nova aliança” [Hb 12.18-24].

À luz do advérbio novamente, ou outra vez, aprendemos que o apóstolo Paulo, aqui, está comparando a lei com o evangelho. Este é aquele inestimável benefício que o Filho de Deus nos trouxe através de seu advento, a saber: que não mais precisamos nos prender à condição servil da lei. Não devemos, contudo, inferir daqui, ou que ninguém foi dotado com o Espírito de adoção antes da vinda de Cristo, ou que todos quantos receberam a lei eram escravos, e não filhos. Paulo compara o ministério da lei com a dispensação do evangelho, e não pessoas com pessoas. Admito que os crentes são aqui advertidos sobre quão mais liberalmente Deus os trata agora do que antigamente tratou os pais sobe o Velho Testamento. Levo em conta, contudo, a dispensação externa, e só neste aspecto é que os sobrepujamos, pois a fé de Abraão, de Moisés e de Davi era mais excelente que a nossa. Não obstante, até ao ponto em que Deus os conservou sujeitos a “tutores”, não alcançaram aquela liberdade que a nos foi concretizada.

Entretanto, devemos ao mesmo tempo observar que o apóstolo faz aqui, por causa dos falsos apóstolos, um deliberado contraste entre discípulos liberais da lei e crenes, a quem Cristo, seu Mestre celestial, não só se lhes dirige com as palavras de seus próprios lábios, mas também os instrui interior e eficazmente pela instrumentalidade de seu Espírito.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“OS QUE SÃO GUIADOS PELO ESPÍRITO DE DEUS SÃO FILHOS DE DEUS”


“OS QUE SÃO GUIADOS PELO ESPÍRITO DE DEUS SÃO FILHOS DE DEUS”

“Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8.14).

Esta é a prova do que acaba de ser expresso. O apóstolo Paulo nos ensina que somente aqueles que são fielmente considerados filhos de Deus é que são governados por seu Espírito, visto que por este sinal Deus reconhece os que são seus. Isto destrói a fútil ostentação dos hipócritas que usurpam o título sem a realidade, de modo que os crentes são incitados a alimentar dúvida de sua própria salvação. A substância dessas afirmações equivale ao seguinte: todos aqueles que são guiados pelo Espírito de Deus é que são os filhos de Deus; todos os filhos de Deus são igualmente herdeiros da vida eterna; e, portanto, todos os que são guiados pelo Espírito de Deus devem ter a certeza da vida eterna.

Entretanto, é oportuno observar que a ação do Espírito é variada. Existe sua ação universal, pela qual todas as criaturas são sustentadas e se movem. Há também as ações do Espírito que dizem respeito particularmente aos homens, e elas são igualmente variadas em seu caráter. Mas, pelo termo Espírito, Paulo, aqui, significa a santificação, com a qual o Senhor a ninguém mais favorece senão somente a seus eleitos, ao separá-los para si mesmo como seus filhos.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“DOUTRINA DA ADOÇÃO”


DOUTRINA DA  ADOÇÃO”

“Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade” (Ef 1.3-5).

“Todos quantos são justificados, Deus se digna fazer participantes da graça da adoção, em e por seu único Filho Jesus Cristo; por meio de quem são eles recebidos no número e desfrutam da liberdade e privilégios dos filhos de Deus; têm sobre si o nome dele, recebem o Espírito de adoção; têm acesso, com ousadia, ao trono da graça; são capacitados a clamar: Aba, Pai; são tratados com piedade, protegidos, sustentados e corrigidos por ele como por um pai; contudo, jamais abandonados, mas selados para o dia da redenção, e herdam as promessas, como herdeiros da eterna salvação” (Da Adoção - CFW XII).

Ef 1.5; Gl 4.4,5; Rm 8.17; Jo 1.12; Jr 14.9; 2Co 5.18; Ap 3.12; Rm 8.15, Ef 3.12; Rm 5.2; Gl 4.6; Sl 103.13; Pv 14.26; Mt 6.30,32; 1Pe 5.7; Hb 12.6; Lm 3.31; Ef 4.30; Hb 6.12; 1Pe 1.3,4; Hb 1.14.

No mesmo instante em que um crente é unido a Cristo no exercício da fé, ter-se-ão consumado nele simultânea e inseparavelmente duas coisas:

1. Uma mudança total de relação com Deus e com a lei como um pacto de vida; e

2. Uma mudança de sua natureza interior e espiritual. A mudança de relação é representada pela justificação; a mudança de natureza, pela regeneração. Regeneração é um ato de Deus, originando, por meio de uma nova criação, uma nova vida espiritual no coração do sujeito. O primeiro e instantâneo ato dessa nova criatura, resultante de sua regeneração, é ou crer, confiante recepção da pessoa e obra de Cristo. No exercício da fé pela alma regenerada, justificação é o ato instantâneo de Deus, sobre a base daquela perfeita justiça que a fé do pecador apreendeu, declarando-o livre de toda condenação e com o direito legal às relações e benefícios assegurados pelo pacto que Cristo cumpriu em seu favor. Santificação é o desenvolvimento progressivo para a perfeita maturidade dessa nova vida que foi implantada na regeneração. A adoção representa a nova criatura em suas novas relações - suas novas relações introduzidas num coração apropriado, e sua nova vida desenvolvendo-se num ambiente apropriado e cercado daquelas relações que nutrem seu crescimento e a coroa com bem-aventurança. A justificação só efetua uma mudança de relações. A regeneração e a santificação só efetuam um estado inerente moral e espiritual da alma. A adoção inclui ambas. Como apresentada na Escritura, ela segue, num cenário complexo, a criatura recém-regenerada nas relações em que ela é introduzida pela justificação.

Esta divina filiação, na qual o crente é introduzido pela adoção, inclui os seguintes elementos e vantagens primordiais:

2.1. Deriva a natureza espiritual de Deus: “Para que sejais participantes da natureza divina”. 2Pe 1.4; Jo 1.13; Tg 1.18; 1Jo 5.18.

2.2. Nasce à imagem de Deus, portanto sua semelhança: “E revestindo-se do novo homem, que é renovado no conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou”. Cl 3.10; Rm 8.29; 2Co 3.18.

2.3. Leva seu nome. 1Jo 3.1; Ap 2.17; 3.12.

2.4. Torna-se objeto de seu amor especial: “Para que o mundo conheça que tu me enviaste, e eles me têm amado, como tu me amaste”. Jo 17.23; Rm 5.5-8.

2.5. Torna-se habitação do Espírito de seu Filho (G 4.6), que forma em nós um espírito filial ou um espírito que nos faz filhos de Deus - obedientes (1Pe 1.13; 2Jo 6), livres do senso de culpa, da escravidão legal e do medo da morte (Rm 8.15-21; Gl 5.1; Hb 2.15) e elevados com santa ousadia e com dignidade real (Hb 10.19,22; 1Pe 2.9;4.14).

2.6. Representa proteção, consolação e suprimentos abundantes. Sl 125.2; Is 66.13; Lc 12.27-32; Jo 14.18; 1Co 3.21-23; 2Co 1.4.

2.7. Representa disciplina paternal para nosso bem, inclusive aflições espirituais e temporais. Sl 51.11,12; Hb 12.5-11.

2.8. Garante a herança das riquezas da glória de nosso Pai, como “herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo” (Rm 8.17; Tg 2.5; 1Pe 1.14; 3.7), inclusive a exaltação de nossos corpos em comunhão com o Senhor. Rm 8,23; Fp 3.21.

“Pela fé, Abel ofereceu a Deus mais excelente sacrifício do que Caim; pelo qual obteve testemunho de ser justo, tendo a aprovação de Deus quanto às suas ofertas. Por meio dela, também mesmo depois de morto, ainda fala” (Hb 11.4; Gn 4.4).

“Porque não recebestes o espírito de escravidão, para viverdes, outra vez, atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai” (Rm 8.15).

Deus nos abençoe!

A.A.Hodge (1823-1886).

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sexta-feira, 8 de novembro de 2024

“A BOA, AGRADÁVEL E PERFEITA VONTADE DE DEUS”


“A BOA, AGRADÁVEL E PERFEITA VONTADE DE DEUS” 

“E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2).

Eis aqui o propósito pelo qual devemos revestir-nos de uma nova mente, a saber: para que renunciemos aos nossos próprios conselhos e desejos, bem como aos de todos os homens, e para que nos voltemos exclusiva e totalmente para a vontade de Deus. O conhecimento da vontade de Deus equivale à verdadeira e genuína sabedoria. Ora, se a renovação de nossa mente é indispensável para o propósito de se provar qual é a vontade de Deus, então faz-se evidente quão hostil é a mente humana em relação a Deus.

Os qualificativos acima adicionados pelo apóstolo Paulo são usados para enaltecer a vontade de Deus, a fim de podermos buscar o conhecimento de Deus com muito mais avidez. Naturalmente que, se é verdade que devemos reprimir toda e qualquer obstinação de nossa parte, devemos, em contrapartida, celebrar o genuíno louvor à justiça e à perfeição da vontade de Deus. O mundo se sente persuadido de que as obras que ele tem engendrado são boas. O apóstolo exclama que boas e justas são só as obras determinadas por Deus e ordenadas em seus mandamentos. O mundo se deleita com suas próprias invenções e as proclama. O apóstolo afirma que a única coisa que de fato agrada a Deus é aquilo que ele ordenou. O mundo, com o fim de encontrar a perfeição, foge da Palavra de Deus e se refugia em suas invenções. O apóstolo declara que a perfeição se encontra na vontade de Deus, e mostra que se alguém transgride este limite, o mesmo está sendo iludido por falsas imaginações.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“E NÃO VOS CONFORMEIS COM ESTE SÉCULO”


“E NÃO VOS CONFORMEIS COM ESTE SÉCULO”
 

“E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2).

Ainda que o termo século [mundo] traga em si muitos significados, aqui significa o caráter e a conduta do ser humano. E é em relação a este sentido que o apóstolo Paulo, com sobejas razões, nos proíbe a nos conformarmos. Visto que o mundo todo jaz no maligno [1Jo 5.19], então devemos despir-nos de tudo quanto pertence à natureza humana, se verdadeiramente anelamos por revestir-nos de Cristo. Para remover qualquer dúvida, ele explica o seu significado a partir do aposto, ou seja: nos convoca a deixarmo-nos transformar pela renovação de nossa mente.

“Mas transformai-vos pela renovação da vossa mente”. Temos de observar ainda, aqui, qual a renovação que se nos exige. Não é aquela que se restringe somente à carne, ou seja: a renovação da daquela parte inferior da alma; ao contrário, e a renovação da mente, que é a nossa parte mais excelente, e à qual os filósofos atribuem a preeminência. Eles a chamam de, o princípio regulador, e afirmam que a razão é a rainha de suprema sabedoria. Entretanto, o apóstolo a arranca de seu trono e a reduz a nada, ensinando-nos que a nossa mente tem de ser renovada. Ainda quando muitos de nós nos exaltemos, as palavras de Cristo continuam sendo verdadeiras, ou seja: que o homem como um todo tem de nascer de novo se porventura deseja entrar no reino de Deus; porquanto, tanto na mente quanto no coração, todos nós estamos inteiramente alienados da justiça divina.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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quinta-feira, 31 de outubro de 2024

“ROGO-VOS, POIS, IRMÃOS” - PARTE III


“ROGO-VOS, POIS, IRMÃOS” - PARTE III

“Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional” (Rm 12.1).

“O vosso culto racional”. Em minha opinião, esta cláusula foi adicionada para imprimir à exortação precedente uma melhor explicação e confirmação. É como se Paulo dissesse: “Apresentai-vos como sacrifício [oferecido] a Deus, se realmente tencionais cultuá-lo; porquanto este é o modo correto de servir a Deus. E se porventura vos apartardes dele, então vos revelareis como falsos adoradores”. E se Deus só é corretamente adorado à medida que regulamos nossas ações pelo prisma de seus mandamentos, então de nada nos valerão todas as demais formas de culto que porventura engendrarmos, as quais ele com toda razão abomina, visto que põe a obediência acima de qualquer sacrifício. O ser humano deleita-se com suas próprias invenções e (como diz o apóstolo em outro lugar) com suas vãs exibições de sabedoria; mas aprendemos o que o Juiz celestial declara em oposição a tudo isso, quando nos fala por boca do apóstolo. Ao denominar o culto que Deus ordena de racional, ele repudia tudo quanto contrarie as normas de sua Palavra, como sendo mero esforço insensato, insípido e inconsequente.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“ROGO-VOS, POIS, IRMÃOS” - PARTE II


“ROGO-VOS, POIS, IRMÃOS” - PARTE II

“Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional” (Rm 12.1).

“Que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”. O conhecimento de que somos agora consagrados ao Senhor é, portanto, o ponto de partida do genuíno percurso em direção à vida de boas obras. Segue-se daqui que nos é mister cessar de viver para nós mesmos, a fim de podermos devotar todas as ações de nossa vida ao culto divino.

Há, pois, duas questões a serem ponderadas aqui. A primeira é que pertencemos ao Senhor; e a segunda é que devemos, por esta mesma razão, ser santos, porquanto seria uma afronta à santidade do Senhor oferecer-lhe algo que não haja sido antes consagrado. Desta pressuposição segue-se, ao mesmo tempo, que devemos meditar sobre a santidade que deve permear todas as áreas e toda a extensão de nossa vida. Segue-se também, deste mesmo fato, que seria uma espécie de sacrilégio reincidirmos na impureza, pois tal coisa seria pura e simplesmente profanar o que já havia sido santificado.

A linguagem do apóstolo Paulo sofre uma grande mudança. Primeiramente, ele afirma que o nosso corpo deve ser oferecido a Deus em forma de sacrifício. Com isto ele pretende ensinar que não mais nos pertencemos, senão que passamos a pertencer inteiramente a Deus. Contudo, isto não pode acontecer sem primeiro não renunciarmos ou negarmos a nós mesmos. Ele, pois, declara, através dos adjetivos que adiciona, que gênero de sacrifício é este. Ao qualificá-lo de vivo, sua intenção é que somos sacrificados ao Senhor a fim de que nossa vida anterior seja destruída em nós, e que sejamos ressuscitados para uma nova vida. Pelo termo santo ele aponta, como já mencionamos, para a genuína natureza de um ato sacrificial. Porque a vítima do sacrifício só é agradável e aceitável a Deus quando é previamente santificada. O terceiro adjetivo [aceitável] nos lembra que nossa vida só é corretamente ordenada quando regulamos este auto-sacrifício de acordo com a vontade de Deus. Este elemento não nos traz algum consolo supérfluo, pois ele nos instrui que nossos labores são agradáveis e aceitáveis a Deus quando nos devotamos à retidão e à santidade.

Pelo termo corpo ele não quer dizer simplesmente nosso corpo físico, composto de pele, músculos e ossos, mas aquela plenitude existencial da qual nos compomos. Paulo usou este termo, por sinédoque, para denotar toda a nossa personalidade, pois os membros do corpo são os instrumentos pelos quais praticamos nossas ações. Ele também requer de nós integridade, não só do corpo, mas também da alma e do espírito, como lemos em 1 Tessalonicenses 5.23. Ao convidar-nos a apresentarmos os nossos corpos, ele está fazendo alusão aos sacrifícios mosaicos, os quais eram apresentados no altar como na própria presença de Deus. Outrossim, ele está também fazendo uma extraordinária referência à prontidão que devemos demonstrar ao recebermos os mandamentos de Deus, para que os cumpramos sem detença.

Deduzimos deste fato, que todos aqueles que não se propõem a cultuar a Deus, simplesmente fracassam e se extraviam por caminhos que levam a uma miserável condição. Agora também entendemos que tipo de sacrifício o apóstolo recomenda a Igreja Cristã. Visto que nos reconciliamos com Deus, em Cristo, através de seu verdadeiro sacrifício, somos, todos nós, por sua graça, feitos sacerdotes com o fim de podermos consagrar-nos a ele como sacrifício vivo e tributar-lhe toda glória por tudo que temos e somos. Não resta mais nenhum sacrifício expiatório para se oferecer, e não se pode fazer tal coisa sem trazer grande desonra para a cruz de Cristo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“ROGO-VOS, POIS, IRMÃOS” - PARTE I


“ROGO-VOS, POIS, IRMÃOS” - PARTE I

“Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional” (Rm 12.1).

Sabemos muito bem como os devassos alegremente se apegam a tudo quanto a Escritura proclama concernente à bondade infinita de Deus, e isso com o propósito de desfrutarem ao máximo da carne. Os hipócritas, em contrapartida, maliciosamente obscurecem seu conhecimento da bondade divina, tanto quanto podem, como se a graça de Deus extinguisse sua busca por uma vida de piedade e lhes abrisse uma ampla porta a fim de viverem ousadamente em pecado. A súplica do apóstolo Paulo nos ensina que os homens jamais adorarão a Deus com sinceridade de coração, nem se despertarão para o temor e obediência a Deus com suficiente zelo, enquanto não entenderem consistentemente, quanto são devedores para com a misericórdia de divina. As seitas e os hereges consideram como sendo suficiente se conseguem infundir algum gênero de obediência forçada através do medo. Paulo, contudo, com o fim de subjugar-nos a Deus, não por meio de um temor servil, mas através de um amor voluntário e anelante por justiça, nos atrai com suavidade para aquela graça na qual consiste nossa salvação. Ao mesmo tempo, ele reprova nossa ingratidão se porventura, depois de experimentarmos a ação bondosa e liberal de nosso Pai celestial, não pusermos todo o nosso empenho em total dedicação a ele.

A ênfase de Paulo, ao exortar-nos como faz, é de todas a mais poderosa, e ele mesmo excede a todos na glorificação da graça de Deus. O coração que não se deixa incendiar pela doutrina da graça, e não arde de amor por Deus, cuja bondade para com ele é infinitamente profusa, deve ser de aço [e não de carne]. Onde, pois, estão aqueles para quem todas as exortações que visem a uma vida honrada não têm razão de ser, já que a salvação do homem depende tão-somente da graça divina? Para estes, uma mente piedosa não é formada para obedecer a Deus por meio de preceitos ou sanções, e nem ainda por meio de meditações sérias sobre a benevolência divina em seu favor.

Podemos observar, ao mesmo tempo, a candidez do coração do apóstolo, visto ter ele preferido tratar com os crentes em termos de admoestações e súplicas fraternais do que em termos de ordenanças estritas. Ele sabia muito bem que desta forma iria alcançar mais resultado entre aqueles que se dispuseram a ser instruídos.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“ROGO-VOS, POIS, IRMÃOS” - INTRODUÇÃO


“ROGO-VOS, POIS, IRMÃOS” - INTRODUÇÃO

“Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional” (Rm 12.1).

O apóstolo Paulo considerou até aqui aquelas questões que lhe eram indispensáveis como ponto de partida para o soerguimento do reino de Deus. Nossa busca pela justiça deve deter-se somente em Deus; a contemplação de nossa salvação deve estar voltada para sua misericórdia; e a soma de todas as nossas bênçãos é posta diante de nós e nos é diariamente oferecida em Cristo - e em nenhum outro! Ele agora avança em direção da regulamentação de nossas ações morais, seguindo um arcabouço bem ordenado. Visto que a alma é regenerada para uma vida [de natureza] celestial, por meio daquele conhecimento salvífico de Deus e de Cristo; e nossa própria vida é formada e regulada por preceitos e exortações santos, revelar entusiasmo pela ordenação de nossa vida seria em vão se primeiro não demonstrarmos que a origem de toda a justiça do homem deve ser encontrada só em Deus e em Cristo. Isto é o que significa levantar os homens dentre os mortos.

Esta é a principal diferença entre o evangelho e a filosofia. Ainda que os filósofos abordem temas esplendidamente de cunho moral, com inusitada habilidade, no entanto todo o ornamento que sobressai de seus preceitos nada é senão uma bela superestrutura sem um sólido fundamento; porque ao omitir princípios, eles não fazem outra coisa senão propor uma doutrina mutilada, como um corpo sem cabeça. Este é exatamente o mesmo método de doutrinamento entre os católicos romanos. Embora falem incidentalmente sobre a fé em Cristo e da graça do Espírito Santo, é plenamente evidente que se avizinham mais dos filósofos pagãos do que de Cristo e seus discípulos.

Como os filósofos, antes de legislarem sobre moralidade, discutem o propósito da bondade e inquirem acerca das fontes das virtudes, das quais, por fim, extraem e derivam todos os deveres, assim Paulo estabelece, aqui, o princípio do qual fluem todas as partes que compõem a santidade, ou seja: que somos redimidos pelo Senhor com o propósito de consagrar-lhe a nós mesmos e a todos os nossos membros.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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